sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O sector financeiro. III: fraudes, escândalos, jogos, vilões oficiais e os vilões do costume (continuação).

Nos dois artigos anteriores (http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2013/10/o-sector-financeiro-i-o-ultimo-e.html, http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2013/10/o-sector-financeiro-ii-fraudes.html ) vimos o que representa o sector financeiro nas economias capitalistas desenvolvidas, ligadas ao imperialismo. Vimos, em particular no último artigo, as causas do ambiente de gangsterismo que sempre rodeia aquilo que é hoje em dia a actividade dominante no sector financeiro: a especulação financeira.
  
No presente artigo vamos começar a caracterizar e exemplificar as burlas do sector financeiro.

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Uma grande parte das burlas financeiras corresponde a variantes dos seguintes esquemas/tipos básicos (classificação nossa):

- Bolha especulativa
Burla que consiste em fazer aumentar artificialmente o preço de valores mobiliários.
  
Provavelmente o primeiro exemplo histórico deste tipo de burla é o de John Blunt, presidente da Companhia dos Mares do Sul, constituída durante o reinado de Jorge I de Inglaterra em 1711 ([1]). John Blunt angariava subscritores de nomeada para as acções da Companhia, incluindo o próprio rei Jorge I, espalhando rumores de lucros substanciais da Companhia, lucros que de facto não existiam. Usava também alguns esquemas complicados de transacções de capitais para dar mais suporte aos rumores. Conseguiu, assim, que o valor das acções crescesse rapidamente de £130 para um pico de £1050 num período de 8 meses! A dada altura as ruas de Londres, perto da sede da Companhia, estavam apinhadas de gente que se acotovelavam para comprar acções. Quando a bolha ruiu -- e chega sempre o dia do «ajuste de contas» para qualquer bolha, quando o capital fictício tem de mostrar o que vale -- John Blunt e comparsas foram presos.
  
Actualmente, com as técnicas informáticas e a globalização das comunicações, as «bolhas» e outras burlas podem tornar-se bem mais perigosas ([2]) e alastrar aos sectores financeiros de praticamente todo o globo.
A bolha «dot.com», das empresas de vendas pela Internet, foi uma bolha especulativa que levou o índice NASDAQ das acções de empresas dos EUA a subir de 2000 para 5000 no período de um ano (de 1999 até ao início de 2000). Não houve neste caso um «vilão oficial», como John Blunt que foi detido quando a bolha rebentou, julgado (no julgamento mostrou-se amnésico, uma doença que já é hábito atacar os vilões oficiais e que veremos também aparecer em Dias Loureiro arguido nas fraudes do BPN) e teve de pagar uma indemnização que o deixou na pobreza (na altura, a burguesia mercantil não estava para brincadeiras). Em muitas bolhas modernas («dot.com», bolhas imobiliárias, etc.) não existem vilões oficiais; apenas os do costume: banqueiros, gestores, corretores, directores financeiros, etc. Tudo «boa gente» que continua incólume nos «negócios como de costume».
  
No caso da bolha imobiliária causadora da Grande Recessão iniciada em 2008, o engenho dos gestores de grandes bancos (J.P. Morgan, Goldman Sachs, etc.) e de firmas de investimento (Merryl Lynch, etc.) no invento e promoção dos tóxicos CDOs («Collaterized Debt Obligations», pacotes de títulos de hipoteca que combinavam títulos de baixo risco com títulos de alto risco, praticamente incobráveis) foi de tal ordem que o economista Steve Keen (um dos poucos que previu esta bolha imobiliária) diz no seu livro ([3]; ver nossos anteriores artigos sobre Economia) que nunca pensou que tal inventividade pudesse ser possível.
  

É claro que bolhas como a «dot.com», a «imobiliária», e outras, não são consideradas oficialmente como burlas. De facto, nos actuais Estados burgueses dominados pelo capital financeiro, a criação de tais «bolhas» faz parte da conduta normal da burguesia financeira, da forma como opera e sempre operou. Imaginar que Estados burgueses possam existir sem «bolhas» de especulação financeira (já estudadas por Marx em meados do séc. XIX, embora ainda sem as proporções actuais), simplesmente por aplicação de legislação adequada (a legislação ao serviço da burguesia), são simples devaneios de sonhadores. Trata-se, aqui das burlas normais contra o «povo», contra os trabalhadores, praticadas em nome dos interesses normais da burguesia. No fundo, trata-se de um dispositivo extra para sugar ainda mais-valia do trabalho, dado que estas burlas afectam em última instância os trabalhadores, que irão ter de aguentar os prejuízos causados pelas bolhas (através de resgates, etc.). E, num Estado burguês, o papel reservado pela grande burguesia para o «povo» é precisamente esse: o de aguentar a grande burguesia.
   

Uma versão soft deste tipo de burla (não chega a ocasionar uma «bolha») é o crime de «manipulação de mercado» de que foi acusado Jardim Gonçalves e comparsas do BCP por manipulação do preço das acções e angariação de accionistas para os aumentos de capital do banco, manobrando diversos funcionários e usando offshores.

- Pirâmide
Burla que consiste em pagar dividendos elevados a depositantes ou a compradores de bens mobiliários, à custa da angariação de novos depositantes ou compradores. 
  
Parece que o inventor da pirâmide foi o italo-americano Charles Ponzi que, em 1920, inventou um esquema simples pelo qual vendia títulos de investimento com juro de 50% a 45 dias! Ou seja, um aumento de capital anual de 2.463%! (não é «gralha»: é dois mil quatrocentos e sessenta e três por cento; ver [4]). Como justificava Ponzi tal maná aos investidores? Dizia que comprava «cupões-resposta internacional» (CRI) em Itália por um baixo preço vendendo-os nos EUA a um preço muito mais alto. Na realidade, quem se desse ao trabalho de analisar convenientemente o esquema de tráfico de CRIs veria que tais ganhos eram impossíveis por múltiplas razões ([5]). Na realidade ninguém se deu a esse trabalho, até um analista financeiro denunciar o esquema e levar ao ruir da pirâmide. O tráfico de CRIs era apenas a cortina de fumo usada por Ponzi, que parece nunca ter sequer tentado traficar em CRIs. Isto é, nenhuns lucros legítimos de quaisquer actividades económicas entravam no fundo de investimento de Ponzi, uma característica que se repete em muitas burlas financeiras. O fundo Ponzi baseava-se pura e simplesmente no esquema da pirâmide: o dinheiro de novos investidores (depositantes) servia para reembolsar os anteriores que (felizmente para eles) solicitavam o reembolso antes do colapso da pirâmide, em vez de reinvestir todo o dinheiro empatado, como muitos levados pela ganância fizeram. Enquanto a pirâmide durou Ponzi teria de atrair cada vez mais investidores (daí o nome de «pirâmide») para poder pagar aos anteriores investidores que reclamassem reembolsos; e convencer muitos desses a não reclamar reembolsos.
  
O conhecido caso da «Dona Branca, banqueira do povo» foi também um caso de burla tipo pirâmide.
  
Por vezes o esquema da pirâmide não é tão simplista como o de Ponzi (e de Dona Branca). Kari Nars descreve no seu livro ([1]) o elaborado esquema de pirâmide inventado por um finlandês residente nos EUA, onde lançou o «clube» de investimento WinCapita (2008), com contas em bancos prestigiados (como o Crédit Suisse), fundos de companhias investidoras e angariação de novos investidores à custa dos já existentes: cada sócio do clube que angariasse novos investidores recebia bónus do clube; bónus que podiam ser substanciais. O clube era algo de muito selecto, onde não entrava qualquer «bicho-careta», sendo exigida uma jóia de entrada de 3.000 euros. A fraude ascendeu a 130 milhões de dólares até ser desmantelada pelo FBI. A cortina de fumo para atrair investidores era a de supostos ganhos com um sistema sofisticado e confidencial de especulação no mercado cambial ([6]).
  
A pirâmide mais espectacular até hoje foi a usada por Bernie Maddof para burlar os seus riquíssimos clientes, juntamente com gestores de fundos de vários países, na sua muito selecta empresa Investment Securities. A burla ascendeu a 22 biliões de dólares (!) e até o maior amigo de Maddof sofreu um «rombo» que o deixou quase na pobreza (os vilões completos não têm amigos). A pirâmide durou mais de 20 anos (!), caso único, que se explica entre outros motivos pelas relações íntimas de Maddof com a entidade reguladora dos EUA (Oliveira e Costa, principal implicado no caso BPN, também tinha sido um alto quadro do Banco de Portugal, a entidade reguladora de Portugal), com o facto de que geria paralelamente um negócio legítimo de investimentos que servia de biombo à pirâmide e ainda por ter inúmeras ligações a bancos «prestigiados» dos EUA e da Europa.

- Transacções de activos fictícios ou com preços fictícios
Numa versão deste tipo de burla são vendidos activos inexistentes ou falsificados, ou, ainda, de valor muito abaixo do valor nominal. Um dos casos relatados por Kari Nars ([1]) é o do general Gregor MacGregor, que tendo participado nas campanhas de Simão Bolívar, se apresentava com grande pompa em Londres, em 1821, como Gregor I de Poyais, um Estado pretensamente paradisíaco perto das Honduras com imensas riquezas naturais incluindo ouro aos montes. A capital de Poyais teria uma Ópera, catedral, bancos e um grande porto. Gregor conseguiu atrair investimentos vultuosos para o seu Estado e inclusive armar navios (contra pagamento dos interessados, bem entendido) que se dirigiram à costa desolada da América Central onde alegadamente se situaria Poyais para verificar (dramaticamente) que o paraíso não existia. 
  
Outro caso deste tipo de burla foi a venda de falsos bilhetes do Tesouro italiano pelo rei dos fósforos sueco Ivar Kreuger, em 1929.
  
Note-se que no mercado de valores mobiliários é muito comum a chamada «venda a descoberto» (short selling): contrato de entrega futura de activos que, no momento do contrato, não se possuem mas são vendidos como se se possuíssem; quem vende tenciona obter mais tarde esses activos. Espera-se ganhar vendendo hoje caro para mais tarde comprar barato. É uma prática arriscada (quem garante que os activos se podem obter mais tarde e, inclusive, a mais baixo preço?) que pode resultar em burla efectiva.
  
Noutra versão deste tipo de burla são oferecidos, por burlões, créditos a outros burlões, muito acima do valor do activo. Um exemplo desta versão de burla foi a venda pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN) da empresa Biometrics de Porto Rico, a Dias Loureiro (no âmbito do «caso BPN» de que falaremos num próximo artigo), por 35 milhões de euros; contudo, o documento da SLN regista a venda por apenas «um dólar»!

- Fundos para o bando: burla que assenta num conluio mais ou menos vasto de indivíduos que concorrem no desvio fundos de bancos e de instituições financeiras que controlam ou onde têm forte influência, para servir os seus bolsos e negócios escuros
  
O conluio também pode existir em menor grau noutros tipos de burlas financeiras; na presente categoria de «fundos para o bando», o conluio atinge grandes proporções, envolvendo muitas instituições financeiras numa enorme multiplicidade de negócios. Um dos primeiros casos de «bando» no pós-guerra foi o da prestigiada firma de investimentos International Overseas Services (IOS) «comandada» pelo americano Bernard Cornfeld que veio a sediar a IOS em Paris em 1955. A IOS tinha negócios em todo o mundo. Foi a primeira a usar uma enorme quantidade de firmas offshore em paraísos fiscais para encobrir negócios e contabilidade forjados. As offshores incluíam fundos de investimento, bancos, companhias de seguros e agências de imobiliário. A breve trecho os fundos de clientes passaram a ser investidos na própria IOS e eram feitos «empréstimos-dádivas» a directores e agentes de vendas da IOS para financiar negócios (reais ou forjados). Os «empréstimos» cresceram de tal forma que a IOS se tornou praticamente insolvente vindo a recorrer à burla da pirâmide até que por fim, em 1970, a IOS ruiu.
  
Um outro caso semelhante foi o da gigantesca Enron, que começou como empresa dos EUA na área da energia, até que em 1986 Kenneth Lay e cúmplices usaram uma rede de firmas de investimento e um Banco (Continental Illinois National Bank) para encherem os bolsos (Lay, p. ex., sacou 42,4 milhões de dólares da Enron apenas no ano de 1999) e para subsidiar o partido republicano. A Enron tinha ligações com Bush pai e filho e Lay chegou a ser encarado como sério candidato a Secretário do Tesouro (o equivalente ao nosso ministro das finanças) do governo George Bush. A burla foi alimentada à custa de contabilidade falsificada, com publicação de lucros inexistentes destinados a aumentar os preços das acções.
  
O famoso escândalo do banco Ambrosiano de Itália, em 1982, veio também a revelar-se um exemplo sinistro de «fundos para o bando» ([7]). O Banco Ambrosiano, com fortes ligações ao Banco do Vaticano, era um «banco católico» presidido por Roberto Calvi, conhecido por «banqueiro de Deus». 
  
O Banco do Vaticano, cujo nome oficial é «Instituto para as Obras Religiosas» (IOR), era um dos principais accionistas do Ambrosiano; era presidido pelo arcebispo Paul Marcinkus e estava estreitamente ligado a bancos suíços e italianos propriedade de Michele Sindona, um homem da máfia encarregado da lavagem de dinheiro.
  
O Ambrosiano e o IOR tinham relações com offshores, com bancos de vários países da América Latina (e também das Bahamas, Liechtenstein e Luxemburgo), com a CIA e com a loja maçónica P2 de Itália dirigida pelo sinistro Licio Gelli, traficante de armas, relacionado com proeminentes chefes fascistas da Europa e América Latina, com nazis como Klaus Barbie o «carniceiro de Lyon». Marcinkus assinou cartas de recomendação para a instalação de sucursais do Ambrosiano na Argentina, Peru e Bolívia. 
  
O bando -- Marcinkus, Calvi, Gelli e mais de duas dezenas de comparsas que incluíam prelados da alta hierarquia do Vaticano, inclusive um cardeal --, além de locupletar-se, usou os fundos, por meio de offshores e contabilidade falsificada, para financiar: o partido democrata cristão italiano; Bettino Craxi, primeiro-ministro socialista e Giulio Andreotti primeiro-ministro democrata cristão, ambos com ligações à máfia; o sindicato Solidariedade da Polónia; vários movimentos e agrupamentos anti-comunistas que tiveram acção de relevo no colapso da Europa de Leste; os «contra» da Nicarágua; a Opus Dei; Juan Péron e, mais tarde, a junta militar fascista da Argentina, designadamente o sinistro Emílio Massera acusado de 30.000 mortes e desaparecimentos; vários movimentos fascistas europeus; lavagem de dinheiro de tráfico de drogas para a máfia. Marcinkus e comparsas do Vaticano (e não só) tiveram todo o apoio consciente de Paulo VI e de João Paulo II. Um buraco de 1,3 biliões de dólares levou à instauração de processos por parte da justiça italiana. Calvi foi condenado a quatro anos na prisão mas conseguiu fugir para Londres onde apareceu enforcado debaixo da ponte Blackfriars com pedras e tijolos nos bolsos, aparentemente assassinado pela máfia antes que se «descosesse»; Marcinkus (que quase chegou a cardeal e ficou famoso pela sua frase «Não se pode governar o Vaticano com Ave-Marias»), tal como outros prelados, conseguiu escapar à justiça graças à protecção oficial do Vaticano; acabou por fugir para os EUA. Marcinkus foi também atacado pela doença da amnésia: durante um interrogatório em 1973 nos EUA, disse «Michele [Sindona] e eu somos grandes amigos. Conhecemo-nos há vários anos. […] [Sindona] está muito à frente do seu tempo no que se refere às actividades bancárias»; menos de dois anos depois dizia numa entrevista «A verdade é que nem sequer conheço Sindona.».
  
Portugal também teve o seu «fundos para o bando»: o «caso BPN» que apresentaremos proximamente.

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Próximo artigo:
O sector financeiro. IV: fraudes, escândalos, jogos, vilões oficiais e os vilões do costume (conclusão).
Falaremos do uso de informação privilegiada e outras trapaças do mercado de acções, conluios e cartéis de bancos e o que (não) acontece aos vilões financeiros.

Referências:

[1] Kari Nars «Swindling Billions: An Extraordinary History of the Great Money Fraudsters», Marshall Cavendish Business, 2011.

[2] O livro de Kari Nars inclui um gráfico do índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque, com anotações das datas de várias burlas financeiras. O reflexo dessas burlas na evolução do índice é evidente.

[3] Steve Keen (2011) "Debunking Economics. The Naked Emperor Dethroned?", Zed Books.

[4] Dado que 45 dias é um oitavo do ano (aproximadamente), 1$ ao fim de um ano valeria (1 + 0,5)8 = 25,63$.

[5] http://en.wikipedia.org/wiki/International_reply_coupon.  Um cupão-resposta internacional (CRI) é um título de valor postal permutável em todos os países membros da União Postal Universal por um ou mais selos postais, destinados a permitir ao expeditor pagar a franquia de uma carta de resposta do seu correspondente no estrangeiro. Deixaram de ser comercializados pelos CTT em 2010.

[6] As transacções especulativas no mercado cambial ("Foreign Exchange trading" ou "forex trading") procuram comprar uma divisa a um baixo preço vendendo-a mais tarde a um preço mais alto, por análise das flutuações de câmbio. Voltaremos a este assunto a propósito dos derivados.

[7] Vários livros se escreveram tendo como pano de fundo o escândalo do Banco Ambrosiano e Banco do Vaticano. Provavelmente o mais famoso e fruto de uma investigação cuidada é o aclamado livro do jornalista de investigação David Yallop, «Em Nome de Deus», publicado em português pela D. Quixote em 2006. Vale a pena também ler: Euler de França Belém, «O livro negro do Vaticano», Jornal Opção, Estado de Goiás, http://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/o-livro-negro-do-vaticano; Peter Stoler, Barry Kalb and Jonathan Beaty, «Italy - The Great Vatican Bank Mystery», Time Magazine, http://www.offnews.info/verArticulo.php?contenidoID=34757.  O Banco do Vaticano parece condenado a escândalos permanentes, estando um em curso de investigação por uma comissão do actual Papa.