quarta-feira, 19 de março de 2014

O Sector Financeiro. VI: Jogos com derivados (7)



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O Caso dos Swaps
   
I - Introdução
II - Os reguladores que não regulam
III - Bancos envolvidos
IV - Cumplicidades
V – A Comissão Parlamentar de Inquérito


I - Introdução
   
    Em Abril de 2013 os meios de comunicação social noticiavam enormes perdas de empresas públicas em swaps. O país ouvia pela primeira vez essa estranha palavra. A forma como o caso era noticiado deixava na ignorância a esmagadora maioria dos cidadãos. Nada de novo quanto a isso: o papel reservado aos media nos países capitalistas é, em larga medida, deixar o comum dos cidadãos na ignorância. Por exemplo: nada de programas específicos na TV que esclareçam os cidadãos de forma simples, sem recorrer a jargão técnico e sem a participação exclusiva dos opiniosos de sempre ao serviço da defesa do grande capital financeiro.
    Concretamente, soube-se que praticamente todo o sector empresarial do Estado, com destaque para as empresas públicas de transportes, enfrentava enormes «buracos» com contratos swaps assinados desde cerca de 2008 e incidindo na taxa do Euribor; quando esta estava próxima da queda (depois do ascenso da «bolha») e os grandes bancos, «nervosos», procuravam impingir swaps a tudo que era «pato» com a cumplicidade de mercenários bem colocados, como veremos. O total de perdas potenciais -- isto é, se os contratos fossem executados pelos bancos nos termos exactos em que foram celebrados -- divulgado pela Direcção-Geral do Tesouro e Finanças ascenderia a cerca de 2,65 biliões (mil milhões, como temos vindo a usar neste blog) de euros! Isto é, muito superior ao valor da oitava tranche de resgate da troika, aprovada em Junho de 2013 (2,1 B€, B€=biliões de euros). Com swaps assim não há tranches que cheguem! É claro que tanto as tranches quanto os swaps são dois de vários meios de «extrair» rendimento dos trabalhadores para dar aos capitalistas.
    De início o governo remeteu-se ao silêncio. Só quando foi muito instado, nomeadamente pelo PCP (que aliás, foi o único partido que veio na AR e em Comissões Parlamentares a levantar a questão desde Setembro de 2012, sem nunca obter resposta ou obtendo a resposta da Secretária de Estado do Tesouro de que a questão levantada era «extemporânea»! [73]), começou a divulgar alguns números e algumas iniciativas de renegociação dos swaps com os bancos.
    Assistiu-se então a um folhetim de troca de acusações entre elementos do governo Sócrates e elementos do governo Passos. Um folhetim sem interesse, destinado unicamente a escamotear o essencial:
    a) Que ambos os governos (PS, PSD-CDS) foram culpados;
    b) Que, quer seja PS quer seja PSD-CDS, uns e outros lídimos representantes dos interesses do grande capital, estão-se marimbando para o sector público.
    Quanto a este último aspecto é preciso ter em conta que os respectivos gestores, estão mais interessados -- como sempre estiveram desde o 25 de Novembro de 1975 -- em demonstrar que «as empresas públicas funcionam mal e dão prejuízo» e que o remédio para o mal é a privatização. Para esses gestores as empresas do sector público são simples coutadas usadas para encher bolsos próprios, bem como os dos familiares e amigos do partido; e quando se passa à privatização, lá estão eles de novo, entrando novamente como gestores ou noutras sinecuras; agora sem máscaras de defensores do bem público, mas revelando abertamente aquilo que sempre foram para além de etiquetas de «democrata», «cristão» ou «socialista»: serventuários chorudamente pagos ao serviço de 0,1% da população. Entretanto, todos os «buracos» e malfeitorias que cometeram ficam impunes (aparte algumas demissões sem grandes consequências). Enfim, mais uma demonstração da «liberdade» no sistema capitalista.
    Impunes? Por vezes, melhor do que isso. São recompensados! Haja em vista o caso do ex-Presidente da Carris: no mandato do anterior Governo negociou e assinou ruinosos contratos swap. Com o actual governo, foi reconduzido no cargo, acumulando com a gestão do Metro de Lisboa, da Transtejo e da Soflusa, e vendo o seu salário passar de 82.871,46 euros/ano para 107.587,7 euros/ano, ou seja um aumento de 29,8 por cento! Boas provas dadas ao serviço dos capitalistas pagam-se.
   
*    *    *
   
    Em Abril de 2013 as perdas potenciais de cerca de 2,65 B€ referiam-se a 140 contratos, como se segue ([74]): 
   
Empresa
Perdas potenciais (milhões de €)
Metro de Lisboa
1.131,4
Metro do Porto
832,6
EGREP
174,5
CP
140,8
Carris
116,5
STCP
107,2
Águas de Portugal
55,0
Refer
40,2
Parpública
35,1
Transtejo
5,2
ANA
4,0
Administração do Porto de Lisboa
3,5
Simab
1,7
Total
2.647,7

    De facto, as perdas potenciais converteram-se em perdas efectivas, apesar de negociações com os bancos. Em Junho, por exemplo, o governo informou ter cancelado 69 contratos considerados problemáticos tendo pago aos bancos 1.008 M€ (perdas efectivas) para anular 1.500 M€ de perdas potenciais; sobravam ainda 1.500 M€ em perdas potenciais. Ainda em Junho uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) iniciava a análise do caso. Em Outubro, na sequência de um requerimento do BE, foi decidido que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental avaliasse o impacto da negociação dos contratos. Em Novembro, vários juristas eram de opinião que o nível de especulação de vários contratos era tão claro que podiam ser avançados processos contra os respectivos bancos envolvidos ([75]).
    Passamos a analisar alguns aspectos que nos parecem ser de salientar.

II - Os reguladores que não regulam
   
    O regulador BdP, como era de prever, não sabia de nada. O governador disse na CPI (Comissão Parçlamentar de Inquérito) que o BdP não tinha recebido reclamações sobre swaps relativos a empresas públicas; apenas algumas reclamações de investidores «não qualificados» (as empresas públicas inserem-se nos «qualificados»), que encaminhou para a CMVM (Comissão de Mercado de Valores Mobiliários). Explicou também que aos investidores qualificados aplica-se a legislação prevista no contrato celebrado, que é o direito britânico (!) na maioria dos contratos celebrados entre bancos estrangeiros e empresas públicas portuguesas, pelo que a CMVM não teria capacidade para actuar. Em suma: um nó cego ([76]).
    Outro regulador que não regulou nada foi o IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública - IGCP, E.P.E.), entidade pública a quem compete «gerir, de forma integrada, a tesouraria, o financiamento e a dívida pública directa do Estado, a dívida das entidades do sector público empresarial cujo financiamento seja assegurado através do Orçamento de Estado e ainda coordenar o financiamento dos fundos [...]» (ênfases nossos). Não só não regulou nada como pelo contrário: autorizou os swaps numa postura de cumplicidade com os bancos que assinalamos a seguir.
    Só o Tribunal de Contas mencionou nos seus relatórios a necessidade de se acautelarem as perdas financeiras com swaps das empresas públicas. A menção caiu em orelhas moucas.

III - Bancos envolvidos
   
    a) Um grande número de bancos bancos estrangeiros -- Goldman Sachs, Santander Totta, Morgan Stanley, Citigroup, Barclays, Deustche Bank, Société Générale, BNP Paribas, HSBC -- estiveram (estão) envolvidos no caso dos swaps. Também estiveram implicados bancos portugueses. Segundo informação enviada à CPI, a CGD tinha quatro contratos com o Metro de Lisboa, o BCP um com o Metro do Porto, o BPI um com a Transtejo, e o BES quatro com o Metro de Lisboa, Carris, CP e TAP ([77]).
    b) O Citigroup a maior empresa do ramo de serviços financeiros do mundo de acordo com a Forbes) quis imitar o Goldman Sachs no caso da Grécia (ver http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/02/o-sector-financeiro-vi-jogos-com.html): Joaquim Pais Jorge, secretário de Estado do Tesouro do governo Sócrates, tentou vender em 2005, em nome do Citigroup, três contratos para «melhorar o aspecto» das contas públicas [78]; a «melhoria» da dívida pública passaria por swaps de cerca de 370 M€ em 2005 e 450 M€ em 2006. A proposta foi entregue pelo banco ao IGCP, ao ministério das Finanças, e ao gabinete do primeiro-ministro ([79]).
    Pais Jorge transitou para o governo PSD-CDS. Em Junho a documentação sobre o assunto parecia ter convenientemente desaparecido; dizia-se também ter sido forjada ([80]). O folhetim acabou com o Ministério Público a confirmar em Novembro o envovimento de Pais Jorge na «operação» e este a pedir a demissão.
   c) Como já assinalámos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/02/o-sector-financeiro-vi-jogos-com_22.html, também em Portugal houve «pressão» da banca para fazer contratos swap [81]. Juvenal Peneda, ex-secretário de Estado, ex-gestor dos STCP e Metro do Porto, e um dos demitidos, esclareceu: «a pressão era muito simples. Havia uma renovação de um empréstimo vultuoso, creio que de 50 milhões de euros, e davam excelentes condições para a renovação desde que fizéssemos os contratos swap» (ênfase nosso). Bom, o mínimo que se pode dizer quanto a isto é que a «pressão» funciona bem com quem se deixa pressionar.
    E que funciona bem fica ilustrado com o caso do Metro de Lisboa que tinha em Abril de 2013 uma dívida de 4,1 B€, mas aasinou contratos swap no valor de 5,6 B€. Muito mais do que a totalidade da dívida e com uma perda potencial de 1,1 B€! Assinale-se também que muitas empresas contrataram swaps «exóticos», isto é, de alto risco (com condições complexas), como por exemplo a Refer [82]. Num relatório de auditoria dizia-se que «a empresa tinha em carteira em 2011 um conjunto de 13 produtos, três dos quais venceram em 2011 e 2012 com perdas de 42 M€. Os dez restantes têm maturidades que vão de 2015 a 2026. E nesse conjunto encontram-se [...] pelo menos três contratos que são classificados na gíria financeira como ‘exóticos’». «Pressão», ignorância, desleixo, ou cumplicidade?
    d) A fim de diminuir as perdas efectivas o governo negociou com vários bancos. Muitos levantaram grandes dificuldades. Segundo foi noticiado, o JP Morgan foi um dos mais relutantes em negociar o fecho de contratos com o Estado, o que levou o governo em Abril a ameaçar recorrer aos tribunais ([83]). As empresas públicas (Metro de Lisboa, Metro do Porto, Refer) com contratos com o JP Morgan pagaram 303,5 M€ para os cancelar quando as perdas potenciais atingiam o 487,1 M€. A JP Morgan foi recompensada!: passou a assessorar a privatização dos CTT.
    Um outro banco de negociação difícil foi o Santander Totta, detentor de muitos contratos de alto risco concentrando 40% de todas as perdas potenciais. Em Junho passado ainda havia 13 contratos com o Santander, com o qual não tinha havido qualquer acordo ([84]). Note-se que em Novembro o Santander Totta foi condenado a pagar 1,5 M€ num processo relativo a um swap com uma empresa privada. O tribunal cível de Lisboa considerou-o «um contrato especulativo, um contrato de jogo, um contrato ilícito e, portanto, nulo» ([85]). Parace haver aqui a ideia de que esse «um» foi especulativo, mas haverá outros que o não são. De facto, e independentemente do que esse tribunal e juristas possam pensar, já vimos abundantemente que todos os contratos de swap e de outros derivados são jogos de alto risco; logo, especulativos (já discutimos este aspecto em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/02/o-sector-financeiro-vi-jogos-com_22.html).
   
IV - Cumplicidades
    
    A cumplicidade dos governos PS e PSD-CDS com os interesses do capital financeiro ficou mais uma vez demonstrada no caso dos swaps:
    a) Os governos PS, PSD-CDS contrataram 1777 swaps em pouco mais de uma década ([86]) num valor nominal de 335 B€; auperior a duas vezes o valor do PIB em 2012 (165,1 B€)!
    b) O governo Sócrates contratou cerca de 900 swaps envolvendo empresas públicas durante os dois mandatos (7 anos e 3 meses); uma média aproximada de 10 por mês. Os contratos totalizaram 201 B€, cerca de 1,2 vezes o PIB de 2012. O governo Passos Coelho, com Maria Luís Albuquerque na pasta do Tesouro -- isto é, já depois de denunciado o escândalo dos swaps -- mesmo assim permitiu 130 contratos swap em menos de dois meses (média de 65 por mês!) totalizando 23,9 B€ ([87]).
    c) Um outro aspecto espantoso é este: muitos dos bancos que venderam swaps às empresas públicas são assessores financeiros do Estado!
    Goldman Sachs, Deutsche Bank e BNP Paribas, são Operadores Especializados de Valores do Tesouro (OEVT), escolhidos pelo IGCP, um estatuto que lhes dá acesso a prestarem aconselhamento financeiro ao Estado. Também o Santander, entidade que vendeu os contratos de swap que têm os prejuízos potenciais mais altos para as empresas públicas, é assessor financeiro do Estado. Entre as funções destes bancos estão as de «fornecer informação e desempenhar a função de "adviser" do IGCP, no acompanhamento dos mercados financeiros» e de «colocarem e negociarem, de uma forma consistente, os valores representativos de dívida pública portuguesa em mercados de dimensão internacional, europeia ou nacional, assegurando o acesso a uma base regular de investidores e contribuindo para a liquidez dos respectivos instrumentos em mercado secundário» ([88]).
    Em suma: a entrega total da nossa soberania económica a bancos privados estrangeiros; a entrega total do país a especuladores internacionais, com provas dadas, provas concludentes e documentadas, do seu elevado desempenho em sugar povos para encher os bolsos de uma elite de ricos. Um claríssimo exemplo do que vimos dizendo e repetindo há muito tempo: o nosso Estado actual (e dos países capitalistas) é o Estado da grande burguesia, momeadamente a do sector financeiro.
    d) Registe-se também que, já depois de rebentar o caso dos swaps, o governo PSD-CDS pagou 434 milhões aos amigalhaços Barclays, Deustche Bank, Goldman Sachs, Société Générale e Morgan Stanley, para integrar as equipas que montaram e colocaram a dívida de longo prazo nas duas emissões de Obrigações do Tesouro, realizadas em 2013 e que permitiram ao governo proclamar «o regresso de Portugal aos mercados financeiros» ([89]). Quem é amigo, quem é?
    e) A actual ministra das Finanças teve também um papel que, no mínimo, podemos dizer de envolvimento e grande complacência para com os swaps no exercício de várias funções governamentais. Vejamos porquê:
        1) Uma responsável do IGCP alertou a ministra (então secretária de Estado do Tesouro), em Fevereiro de 2012, para os swaps contratados ao Santander Totta, considerando-os como «as piores transacções» que tinha visto ([90]);
           2) A ministra tinha sido técnica do IGCP entre 2007 e 2011, onde aprovou um swap da Estradas de Portugal, mesmo sem ter detalhes da sua natureza e carácter, facto que mais tarde procurou negar, embora exista o parecer assinado pela ministra enquanto funcionária do ICGP que a desmentia ([91]). Mais tarde, uma auditoria da Direção Geral do Tesouro e Finanças pedida pela ministra, confirmou o parecer ([92]). A ministra foi depois apanhada em novas «contradições» ([93]).
   
V – A Comissão Parlamentar de Inquérito
    
    O caso dos swaps levou à demissão de dois secretários de Estado (Juvenal Peneda e Braga Lino) e de três gestores públicos (Silva Rodrigues, Paulo Magina e João Vale Teixeira) e ainda à criação da CPI ([94]). Os demitidos, quando questionados na CPI, revelaram a conhecida doença da amnésia ou tentaram mostrar que não fizeram nada que outros não tivessem feito ([95]). Continuam todos bem instalados em bancos e empresas.
    Assinale-se alguma tibieza da parte da oposição, em particular do PS e do BE, e a fraca qualidade da informação que parece ter chegado à CPI (ver o que dissemos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/03/o-sector-financeiro-vi-jogos-com.html). Pelas informações que lemos na imprensa parece também ter-se feito sentir negativamente a falta de familiaridade de deputados da CPI com o tema. O PCP ainda requereu algumas audições, nomeadamente a de um ex-quadro da Goldman Sachs (Jaber G. Jabbour) que tinha um conhecimento profundo do caso e com evidência de cumplicidades governamentais. Foi coarctado por Mariana Mortágua do BE: «considerou-se prudente aceder a alguma informação que possa ser relevante para a comissão e, depois da análise a essa informação, será ponderada a vinda [de Jaber G. Jabbour] à comissão". Enfim, uma deputada «prudente» na recolha de informação.
     O resultado foi o esperado: esvaziamento de culpabilidades no relatório final. Tal como no «caso» PBN. Muitas reuniões para nada. Mais uma autêntica fantochada, cuja única raison d'être é emprestar respeitabilidade ao parlamentarismo burguês e camuflagem às poucas-vergonhas das jogatinas financeiras contra o povo, contra os trabalhadores. A nós só nos espanta que quem se reclama do marxismo e até do leninismo se preste a estas fantochadas. O que se esperaria de deputados de Esquerda era, logo que apropriado (de facto, pelo que transpirou na imprensa, quase logo no início), denunciar o sentido de encaminhamento dos trabalhos, a miserável informação proporcionada pela CMVM que já assinalámos no artigo anterior, as cumplicidades PS-PSD-CDS com o capital financeiro e depois bater com a porta na cara denunciando publicamente, alto e bom som, sem poupar as palavras duras, as palavras exactas e adequadas, estas constantes fantochadas do parlamentarismo burguês que só contribuem para manter o povo no engano. E esclarecer o povo sobre estas fantochadas.
     Existe um epíteto que nos salta à mente, que o povo revolucionário de Paris usava para qualificar os deputados que se prestavam ao «jogo» da Direita, embora usando belas palavras, muito radicais: «Les endormeurs», os adormecedores. Os que emprestavam um ar de aceitabilidade e respeitabilidade às práticas institucionalizadas pela direita, mantendo as ilusões do povo quanto à importância e consequências de comissões, inquéritos e audições, contribuindo, assim, para manter o torpor do povo «adormecido».
     Do radicalismo pequeno-burguês do BE não é, por definição e prática recente, de esperar muito. Têm sempre a preocupação da «prudência» para não inviabilizar um futuro casamento com o PS.
    Mas que dizer do PCP? Quando é que os deputados do PCP fazem da AR e suas comissões uma verdadeira frente de luta, recusando atitudes «adormecedoras»? Não é preciso esperar por uma situação revolucionária para rejeitar atitudes adormecedoras, dentro do quadro legal. O que é preciso e urgente é esclarecimento e mais esclarecimento numa atitude aberta de acordar o povo. No momento actual, qualquer «abanão» dado no torpor da AR com impacto na informação pública vale mais que muitos comícios.
   
* FIM da série de artigos sobre o «sector financeiro» *
   
NOTAS

[73] «Há anos que o PCP denuncia escândalo financeiro dos contratos “SWAP”», Intervenção de Bruno Dias na Assembleia de República, 17 de Abril de 2013.
[75] Público, 14/11/2013.
[76] Carlos Costa não recebeu reclamações sobre 'swap' DN por Lusa, texto publicado por Isaltina Padrão, 25 Julho 2013.
[77] "Bancos portugueses também estão a negociar com o Estado", JN 25/6/2013.
[78] "O governante que quis vender 'swaps' tóxicos ao Estado", Visão, 31 de Julho de 2013.
[79] "Bancos propuseram ao IGCP 'swaps' que maquilhavam contas públicas", DN por Lusa, texto publicado por Isaltina Padrão, 25 Julho 2013.
[80] "Governo diz que documento sobre 'swaps' foi forjado", DN por Miguel Marujo, 7 Agosto 2013.
[81] “Houve pressão da banca para fazer contratos ‘swap’” Dinheirovivo http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO183597.html
[82] RTP 29 Abr, 2013, 10:19 / actualizado em 29 Abr, 2013, 11:10.
[83] JP Morgan explica venda de 'swaps' de mais de 300 milhões, DN 14/11/2013.
[84] JN 24/6/2013
[85] "Santander vai recorrer de condenação por 'swap'", JN por Texto da Lusa, publicado por Lina Santos 9 Novembro 2013.
[86] CM 23/8/2013 Por:José Rodrigues/Pedro H. Gonçalves/Mariana Flor, com C.R. http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/empresas-contrataram-1777-swaps015519153
[87] CM 23/8/2013.
[88] Rui Barroso "Bancos envolvidos nos ‘swaps’ são assessores financeiros do Estado"
[89] Segundo o jornal I citado por DN por L.M.C. 5 Agosto 2013.
[90] "Ministra avisada que 'swaps' do Santander eram os piores", DN por Lusa, texto publicado por Isaltina Padrão, 31 Julho 2013.
[91] "PCP insiste que ministra deu parecer favorável a contratação de 'swap'", SOL, 17 de Setembro, 2013.
[92] "Relatório do Tesouro indica que ministra aceitou 'swap'", por Carlos Rodrigues Lima 19 Setembro 2013.
[93] "Ministra das Finanças apanhada em novas contradições", por Carlos Rodrigues Lima 16 Setembro 2013.
[94] JN 24/6/2013.
[95] "Ex-presidente da Carris diz "Refer só tomou boas decisões", DN por Lusa 4 Setembro 2013. Acrescentou que a actual ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, ter sido directora financeira da Refer entre 2001 e 2007, período em que também foram contratados swap, ironizando: «Só a senhora ministra é que terá a dizer quais foram os critérios» para que se considere que uns decisores tomaram más decisões e outros boas decisões.
[96] "PCP requer audição com sírio que alertou para swaps" Público, por Raquel Almeida Correia 01/10/2013.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Venezuela: a face do imperialismo ianque

    O jornal inglês The Guardian, publicou no passado 4 de Março um artigo do jornalista Mark Weisbrot intitulado “A Venezuela não é a Ucrânia” (http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/04/venezuela-protests-not-ukraine-class-sturggle)
    Trata-se de uma peça de jornalismo responsável que não é habitual encontrar nos jornais «ocidentais».
    O título, A Venezuela não é a Ucrânia”, refere-se apenas a uma breve mensagem do artigo: a de que na Venezuela, ao contrário da Ucrânia, a oposição de direita e extrema-direita, aliada ao imperialismo ianque, não tem conseguido enganar o «povo», isto é, os trabalhadores e os mais desfavorecidos. Mas o artigo concentra-se exclusivamente na Venezuela, não discorrendo em comparações entre os «casos» da Venezuela e da Ucrânia, como o título levaria a esperar. Aliás, há um aspecto básico de que não se encontra menção no artigo e que, precisamente, desmente o título: no que respeita à ingerência do imperialismo no derrube de um governo que, apesar de democraticamente eleito, prejudica os interesses do grande capital, a Venezuela é a Ucrânia.
    Seja como for, o artigo transmite informação de interesse, essencialmente verdadeira e documentada, pelo que aqui deixamos a nossa tradução com comentários (inseridos entre parênteses rectos):
   
    «O conflito na Venezuela é apresentado pelos media ocidentais de forma muito enganadora. Trata-se de um conflito clássico entre direita e esquerda, entre ricos e pobres [de facto, entre burguesia e proletariado].
    [O artigo insere aqui uma foto mostrando um manifestante da oposição a atirar um dispositivo incendiário contra a Guarda Nacional Bolivariana num protesto em Caracas, no dia 28/2/2014: uma de muitas actuações violentas de manifestantes que os media ocidentais apresentam como pacíficos. Como na Ucrânia.]
    Os actuais protestos na Venezuela são reminiscentes de um outro momento histórico, quando os protestos de rua eram usados pelos políticos da direita como componente dos seus intentos de derrube de um governo eleito. De Dezembro de 2002 a Fevereiro de 2003 teve lugar uma greve dos trabalhadores de colarinhos brancos da indústria nacional de petróleo, a que se juntaram alguns negociantes. Os media dos EUA aproveitaram-na para transmitir a ideia que a maior parte do país estava em greve contra o governo, quando, de facto, a greve envolvia menos de 1% da força laboral. [Esta táctica da reacção é velha como o mundo. Tem sido usada por Washington em inúmeras ingerências noutros países.]
    A difusão na última década de telemóveis com vídeo e dos media sociais tornou mais difícil transmitir uma falsa imagem de eventos facilmente capturados por câmara vídeo [o jornalista Mark Weisbrot está a ser optimista; aquilo que se escolhe captar e a forma como a captação é relatada tem grande influência]. Mas a Venezuela é ainda grosseiramente distorcida nos principais media. O New York Times teve de inserir uma correcção na semana passada num artigo que começava pela afirmação “A única estação de televisão que regularmente emite vozes críticas do governo...” Ora, na realidade, todas as estações privadas de TV “emitem regularmente vozes críticas do governo”. E os media privados detêm mais de 90% da audiência da televisão da Venezuela. Um estudo do Centro Carter, sobre a campanha das eleições presidenciais no passado Abril, revelou uma vantagem de 34% a 57% na cobertura de TV do presidente Maduro sobre o seu adversário Henrique Capriles nas eleições de Abril, mas tal vantagem é fortemente diminuída ou mesmo eliminada quando são tomadas em conta as quotas de audiência.
    Embora existam abusos de poder e problemas com o estado de direito na Venezuela – como existem em todo o hemisfério – o país está muito longe do Estado autoritário que a maioria dos consumidores dos media ocidentais é induzida a acreditar. O objectivo em curso dos líderes da oposição é o derrube de um governo democraticamente eleito – objectivo que proclamam; com esse fim retratam o governo como uma ditadura repressiva que está a reprimir com violência protestos pacíficos. Trata-se de uma estratégia standard de “mudança de regime”, que muitas vezes inclui manifestações violentas com vista a provocar a violência estatal.
    Os últimos números oficiais confirmam oito mortos entre os manifestantes da oposição, mas nenhuma evidência de que foram a consequência de esforços do governo para esmagar a [expressão de] dissensão. Pelo menos duas pessoas pró-governamentais foram também mortas, e duas pessoas em motos foram mortas (uma decapitada) por arames alegadamente colocados pelos oposicionistas. Onze de 55 pessoas actualmente detidas por alegados crimes durante os protestos são agentes de segurança.
Claro que a violência de ambos os lados é deplorável, e os manifestantes detidos – incluindo o seu líder, Leopoldo López – deveriam ser soltos sob fiança, a não ser que haja causa legal e justificável de prisão preventiva. É, porém, difícil argumentar com base na evidência que o governo está a tentar suprimir protestos pacíficos.
    De 1999 a 2003 a oposição na Venezuela tinha uma estratégia de “tomada militar”, de acordo com Teodoro Petkoff (pdf) um jornalista proeminente da oposição que edita o diário Tal Cual. Tal estratégia incluiu o golpe militar de Abril de 2002 e a greve do petróleo e dos negociantes de Dezembro de 2002 a Fevereiro de 2003 que muito prejudicou a economia. Embora a oposição tenha eventualmente optado pela via eleitoral para chegar ao poder, não se trata aqui do tipo de processo que se vê na maioria das democracias, em que os partidos da oposição aceitam a legitimidade do governo eleito e procuram cooperar em pelo menos alguns objectivos comuns. [Manifesta-se aqui uma ingenuidade básica. Nas democracias «ocidentais» a que se refere Mark Weisbrot os “partidos da oposição aceitam a legitimidade do governo eleito” porque servem no essencial os mesmos interesses de classe. Uns e outros servem o capitalismo. Como dissemos num artigo anterior, uns partidos correspondem ao Plano A dos capitalistas e outros ao Plano B. Sempre que surge, mesmo que democraticamente, uma ameaça real a este «entendimento de cavalheiros» as boas maneiras «democráticas» são de imediato abandonadas. Tal como a cooperação «em pelo menos alguns objectivos comuns». Os objectivos de um povo que enceta uma caminhada para um sistema socialista – ou, como na Venezuela, está a construir um sistema misto, de transição, com um forte sector da economia de controlo estatal – são opostos dos objectivos do grande capital. Não há cooperação possível. A «democracia» no capitalismo é sempre a democracia que os capitalistas consentem. A palavra «democracia» designa um conceito abstracto, idealizado; a «democracia» na prática e pela prática, é sempre o reflexo de uma realidade concreta. Tal como o ponto geométrico sem dimensões e os muitos «pontos» que podemos desenhar no papel com lápis e canetas.]
    Uma das forças mais importantes que tem encorajado esta polarização extrema [e inevitável] tem sido o governo dos EUA. É certo que outros governos de esquerda que têm implementado mudanças económicas progressivas também têm sido politicamente polarizados: por exemplo, Bolívia, Equador e Argentina. E têm-se verificado esforços violentos de desestabilização por parte da direita na Bolívia e no Equador [e não na Argentina porque os seus dirigentes não colocam em causa os interesses do grande capital]. Mas Washington tem-se comprometido mais com uma “mudança de regime” na Venezuela do que noutros lugares da América do Sul – o que não surpreende dado que está sobre as maiores reservas de petróleo do mundo. [Mas não é só o petróleo que conta! É um erro infantil de alguma esquerda reduzir tudo ao petróleo ou a outros recursos naturais. A Guatemala não tinha petróleo (tinha bananas) e o seu governo progressista de 1953 foi derrubado por ingerência dos EUA. O Chile também não tinha petróleo (tinha cobre) e o seu governo progressista foi derrubado por ingerência dos EUA em 1973. E a ilha de Grenada não tinha nem petróleo, nem bananas, nem cobre, nem nada, e aconteceu-lhe o mesmo em 1983. Para além de recursos, há muitas outras preocupações dos imperialistas. Uma das quais é o «mau exemplo» e efeito de contágio – os imperialistas chamam-lhe efeito dominó -- que dão certos povos que não se deixam pacificamente explorar pelos imperialistas e têm, inclusive, o topete de se revoltarem contra isso.] Tal tem dado aos políticos da oposição um forte incentivo de não operar dentro do sistema democrático.
    A Venezuela não é a Ucrânia, onde os líderes da oposição puderam ser vistos a colaborar publicamente com agentes oficiais dos EUA nos seus esforços de derrube do governo, sem pagar qualquer preço por isso. Claro que o apoio dos EUA ajudou a oposição da Venezuela com financiamento: pode-se encontrar cerca de 90 milhões de dólares em financiamento dos EUA à Venezuela desde 2000, simplesmente consultando os documentos do governo americano disponíveis na web, incluindo 5 milhões de dólares no actual orçamento federal. Pressões para unir a oposição e aconselhamento táctico e estratégico também ajudam: Washington tem décadas de experiência no derrube de governos, e este é um conhecimento especializado que não se aprende em Universidades. [Mas muitos conhecem essas práticas de Washington. Elas foram todas denunciadas, expostas e documentadas, em especial por investigadores marxistas.] De maior importância ainda é a sua enorme influência nos media internacionais e, portanto, na opinião pública.
    Quando John Kerry inverteu a sua posição em Abril e reconheceu os resultados eleitorais na Venezuela, tal significou o fim da campanha da oposição pelo não reconhecimento [do governo eleito]. Além disso, a proximidade entre os líderes da oposição e o governo dos EUA é um factor negativo num país que foi o primeiro a liderar a ”segunda independência” da América Latina, iniciada com a eleição de Hugo Chávez em 1998. Num país como a Ucrânia os líderes políticos podiam sempre apontar para a Rússia (e mais ainda agora) [não entendemos este “mais ainda agora”; se se refere à Crimeia, está deslocado.] como uma ameaça à independência nacional; tentativas dos líderes da oposição venezuelana de retratar Cuba como ameaça à soberania da Venezuela são ridículas. São os EUA, unicamente, quem ameaça a independência da Venezuela, já que Washington luta por recuperar o controlo que perdeu sobre uma região.
    Onze anos depois da greve do petróleo as linhas divisivas de 2002 não mudaram muito. Existe a óbvia divisão de classes e uma diferença ainda perceptível de cor da pele entre a oposição (mais branca) e as multidões pró-governamentais – o que não surpreende num país e região cujo rendimento e raça estão muitas vezes correlacionados. [O racismo e conflitos entre raças estão – e estiveram -- sempre subordinados a interesses da classe dominante. A luta na Venezuela (e noutras regiões) não é entre raças; é entre classes.]
    Nas lideranças, uma parte está na aliança regional anti-imperialista; a outra, tem Washington como aliado. E sem dúvida existe uma grande diferença entra as duas lideranças no seu respeito por democracia duramente conquistada em eleições, como mostra o conflito em curso. Trata-se da divisão clássica entre esquerda e direita na América Latina [e não só!; não se entende porque Mark Weisbrot restringe a «divisão» à América Latina e porque a classifica de «clássica»; qual é a não clássica?].
    O líder da oposição Henrique Capriles tentou criar uma ponte sobre a divisão com uma metamorfose; deixando a sua incarnação de direita e transformando-se no Lula da Venezuela nas suas campanhas eleitorais, louvando os programas sociais de Chávez e prometendo expandi-los. Mas andou para trás e para a frente no seu respeito por eleições e democracia e – ultrapassado pela extrema-direita (Leopoldo López e María Corina Machado) – recusou ofertas de diálogo com o presidente na semana passada [mostrando assim a sua verdadeira face apesar da «metamorfose»]. Ao fim e ao cabo eles são todos demasiado ricos, elitistas e direitistas (pensem em Mitt Romney e no seu desprezo pelos 47%) para um país que votou repetidamente em candidatos que defendem uma plataforma de socialismo.
    Em 2003, dado que não controlava a indústria petrolífera, o governo não satisfez muitas das suas promessas. Uma década depois a pobreza e o desemprego foram reduzidos para menos de metade, a pobreza extrema baixou em mais de 70%, e milhões têm pensões que não tinham dantes. A maioria dos venezuelanos não está para deitar isto fora só porque tiveram ano e meio de inflação elevada e falhas crescentes de abastecimento. [Estas falhas de abastecimentos e o decorrente mercado negro e subida de preços que contribui para a inflação, inserem-se na sabotagem económica teleguiada pelos americanos e implementada por agentes locais. Um dos métodos que os ianques têm usado na Venezuela é a construção de sites que propagandeiam descidas artificiais da cotação da moeda local face ao dólar. A sabotagem económica tem sido uma arma de agressão usada em muitas ingerências dos EUA. Um autêntico atlas de medidas de sabotagem económica foi posto em prática pela CIA no Chile de Allende. Esperemos que os líderes da Venezuela estejam atentos e tenham aprendido os ensinamentos da História.] Em 2012, de acordo com o Banco Mundial, a pobreza [na Venezuela] caiu 20% -- a maior queda nas Américas. Os problemas recentes não permaneceram tempo suficiente para a maioria da população abandonar um governo que elevou os níveis de vida mais do que fez qualquer outro em décadas.»

sábado, 8 de março de 2014

Ucrânia: a face do imperialismo ianque-alemão

A ingerência do imperialismo ianque-alemão
   
    Na Ucrânia, um governo legítimo, eleito democraticamente, reconhecido internacionalmente como tal, inclusive pelos EUA e UE, foi derrubado violentamente por ingerência flagrante, às claras, do imperialismo ianque e alemão. Nos artigos anteriores sobre esta ingerência analisámos brevemente as suas causas e a sua expressão logística: incitamento de forças de direita e fascistas com apoio em armamento e equipamento militar (espingardas, pistolas, matracas, tacos de basebol americanos, capacetes, escudos, etc.); apoio operacional (formação de equipas treinadas por profissionais -- muitos americanos, conforme revelou um fascista hospitalizado na Lituânia -- para o combate de rua e montagem de provocações); apoio propagandístico (rádios ao serviço da CIA, rádios e agências de informação «ocidentais»); apoio diplomático (pressões e ameaças de representantes da UE e dos EUA, apoio pessoal aos manifestantes de políticos americanos de destaque, que passearam nas ruas de Kiev de braço dado com os fascistas, etc.).

O caso da Rússia
   
     Perguntar-se-á: e a Rússia? Não se ingeriu? Não tem a Rússia interesses na Ucrânia?
   De facto, alguns media «ocidentais», de pendor social-democrata, têm procurado desculpabilizar a ingerência do imperialismo ianque-alemão transmitindo a ideia de que se trata simplesmente de uma disputa entre duas potências de interesses opostos: EUA e Rússia. Transmitem, como é de norma em tais media, uma ideia superficial e futebolística da política, passando por cima de factos incómodos e da análise de motivações profundas.
    Analisemos o caso da Rússia. A Rússia é um país capitalista. Tem uma democracia de estilo «ocidental»; aliás, montada desde os tempos de Yeltsin com o apoio e aconselhamento activo dos EUA; com a participação do capital americano no assalto aos bens do Estado, ao lado e em aliança com os actuais oligarcas russos. Muitos dos quais apoiam o partido de Putin-Medvedev Rússia Unida. Um partido que representa os interesses de uma larga aliança de classes e, por isso mesmo, proclama uma ideologia centrista de combinação de «economia de mercado» com alguma regulação estatal, suficientemente flexível para não incomodar os oligarcas. Uma espécie de PS russo. Putin foi, aliás, um bom aluno de Anatoly Sobchak, economista russo defensor da «teoria» do «socialismo de mercado» que tanto influenciou Gorbatchev; teoria que ajudou a desmantelar o socialismo soviético. Anatoly Sobchak ajudou a guindar Putin ao poder e defende agora a «economia de mercado»; de facto, sempre defendeu; a palavra «socialismo» serviu no passado como táctica de embuste. Em suma, não se poderia desejar melhores crentes na «economia de mercado» do que Putin-Medvedev.
    Alguns oligarcas russos, contudo, abraçam o neoliberalismo puro e duro, ao estilo ocidental, e gostariam por isso mesmo de ver confrades seus movendo livremente as alavancas do poder na Rússia, em santa aliança com o «Ocidente»; é o caso do presidente da Yukos, Mikhail Khodorkovsky, que foi julgado e preso por fraude e evasão fiscal. Posto em liberdade, foi logo prestar o seu apoio à direita e aos fascistas da Ucrânia.

São os regimes capitalistas todos iguais?
     
    Portanto: dois regimes, ambos capitalistas, ambos interessados na Ucrânia.
    Quer isso dizer que os que não distinguem entre EUA e Rússia têm razão?
    De forma nenhuma. Qualquer sistema sócio-económico baseado na divisão em classes pode vestir as mais diversas roupagens políticas, de acordo com as necessidades de momento da classe ou camada social dominante. A formação sócio-económica capitalista -- baseada na propriedade privada dos meios de produção -- tem conhecido na História as mais diversas formas políticas, num largo espectro que podemos dizer que vai desde o nazi-fascismo às sociais-democracias escandinavas. Por conseguinte, nem todos os «capitalismos» são iguais. Em cada momento é dever das forças progressistas, quando forçadas a uma escolha, a escolher a aliança com os sistemas políticos capitalistas que melhor servem os interesses dos trabalhadores na luta contra os sistemas políticos mais reaccionários, mais danosos para os interesses da luta pela emancipação do trabalho. Assim, por exemplo, durante a II.ª Guerra Mundial as forças mais progressistas escolheram aliar-se aos «aliados» contra os nazi-fascistas alemães, italianos e japoneses. Sem quaisquer ilusões sobre o conteúdo de classe dos «aliados» EUA e Reino Unido. Aliás, estes, também não tinham quaisquer ilusões e, logo que a guerra terminou, passaram de imediato a atacar com todo o ardor as forças progressistas e a oferecer benesses aos fascistas que tinham derrotado.
    Ora, no caso da Ucrânia, temos:
    Por um lado, os capitalistas dos EUA-Alemanha desejosos de explorar a mão-de-obra e recursos naturais da Ucrânia, estendendo o seu «espaço vital» até às fronteiras com a Rússia. Daí à entrada da Ucrânia para a NATO e instalação de mísseis balísticos na fronteira da Ucrânia com a Rússia, vai um pequeno passo. Temos o mais importante e agressivo imperialismo que a História conheceu. Que não recua perante nada. Que se estriba numa espantosa e dominadora rede de propaganda a nível mundial. Que tem sistematicamente violado as leis internacionais, invadido e ocupado militarmente vários países, sempre colocando os seus «fantoches» no poder (Guatemala, Chile, Congo, Iraque, Afeganistão, etc., etc.; a lista é longuíssima). Que, no caso da Ucrânia, não recuou perante a aliança com nazi-fascistas e se ingeriu abertamente, ajudando de todas as maneiras possíveis a derrubar um regime democraticamente eleito. Que tacitamente apoiou forças que se pronunciaram claramente pela discriminação contra os seus próprios cidadãos russófonos -- maioria no Sul e Leste do país --, chegando ao ponto de querer impedir o ensino da língua russa. Que recebe e acolhe terroristas (alguns procurados internacionalmente) em conclaves europeus, que proclamam querer instalar um regime fascista na Ucrânia (embora disfarcem a designação por figuras de retórica); mais ainda: que anunciam alto e bom som que a sua «revolução» fascista irá servir como modelo para toda a Europa. Imperialismo que se prepara para impor medidas de «austeridade» à Ucrânia mais gravosas dos que as aplicadas na Grécia, conforme já anunciou o FMI; incluindo retirar o subsídio estatal do gás natural. (O gás natural é a componente energética dominante dos lares ucranianos.)
    Por outro lado, temos os capitalistas da Rússia cujos apetites imperialistas são incipientes e locais. Rússia, cujo governo não se ingeriu na Ucrânia. Não houve um único exemplo concreto revelado pelos media «ocidentais» de ingerência da Rússia na Ucrânia; se houvesse um único exemplo os media «ocidentais» não deixariam de badalá-lo até à exaustão. Que procurou sempre, até ao fim, vias de diálogo diplomático com o «Ocidente»; mas que, e muito bem, se recusou sempre a dialogar com os nazi-fascistas. Rússia que tem laços históricos centenares com a população russófona da Ucrânia; em particular, com a Crimeia, que pertenceu à Rússia até 1954 (doada nesse ano à Ucrânia para fins comemorativos da amizade russo-ucraniana) e que constitui uma república autónoma da Ucrânia. Rússia que não impôs condições de «austeridade» na oferta que fez de concessão de ajuda financeira; impôs condições razoáveis de juro dos mercados capitalistas.
    É evidente, portanto, qual o prato da balança que favorece os trabalhadores ucranianos: a aliança com a Rússia contra o regime caceteiro imposto pelos nazi-fascistas ucranianos com o apoio do mais sinistro imperialismo que a História regista: o imperialismo ianque de braço dado com o comparsa alemão. É também o prato da balança que mais favorece as perspectivas de luta dos trabalhadores a nível mundial. É dever das forças progressistas protestar veementemente contra o que os imperialistas ianques e alemães estão a fazer na Ucrânia.

Factos que os media e outras fontes vão revelando
   
1 - A provocação
   
Foi descoberta uma conversa telefónica entre o ministro dos negócios estrangeiros da Estónia, Urmas Paet, e a representante dos negócios estrangeiros da UE, Catherine Ashton. O primeiro, que esteve em Kiev, inclusive na praça Maidan, transmite as suas impressões à Catherine dizendo que pelo que viu o povo não confia nos dirigentes de Maidan (os dirigentes nazi-fascistas da «revolução»). Diz também que os franco-atiradores que atiraram sobre a população não eram da polícia do deposto presidente Yanukovitch, mas estavam sim ao serviço dos dirigentes de Maidan, e que atiraram indiscriminadamente contra manifestantes pró e contra Yanukovitch. A declaração textual é a seguinte (tradução, comentários e itálicos nossos) [1]:
   
«Toda a evidência mostra que as pessoas que foram mortas pelos franco-atiradores, pessoas de ambos os lados, quer polícias quer pessoas nas ruas… que foram os mesmos franco-atiradores, que mataram pessoas de ambos os lados. A mesma escrita [documentos apanhados aos franco-atiradores?], o mesmo tipo de balas [que os da «revolução»]; e é realmente inquietante que a nova coligação não queira investigar o que exactamente aconteceu. Existe, portanto, um entendimento que se tem vindo a reforçar que, por trás dos franco-atiradores não estava Yanukovitch, mas sim alguém da nova coligação
   
    A notícia com o telefonema foi primeiro passada no canal Russia Today (https://www.youtube.com/watch?v=Xh_YkdGbWqk&feature=youtube_gdata_player) e confirmada depois por outras fontes. Sobre o crédito que merece o Russia Today ver [2]. Catherine Ashton e outras figuras de proa ao serviço do imperialismo não se mostraram minimamente incomodadas com as revelações. Pelo contrário. Continuam a divulgar que Yanukovitch é o «mau» da fita.
    Note-se que uso de provocação não é novidade. É uma linha de actuação característica das forças reaccionárias ao longo da História. Esta versão moderna de provocação com franco-atiradores e grande desprezo por vidas humanas é modus operandi característico da CIA e dos bandidos da Escola das Américas. Foi usada em 1972 no Chile para guindar Pinochet ao poder. Mais recentemente, foi usado exactamente o mesmo tipo de provocação na preparação em Abril de 2002 de um golpe de estado contra Hugo Chávez na Venezuela. Nessa altura franco-atiradores também dispararam contra oposicionistas de Chávez. Inicialmente conotados em altos berros pelos EUA como chavistas, uma análise posterior atenta das gravações vídeo, completada por investigação, mostrou que os franco-atiradores estavam a soldo dos oposicionistas e da CIA.
   
2 - Os oligarcas
   
Os oligarcas que dominam o novo poder na Ucrânia são mostrados aqui:
   
3 - Os nazi-fascistas
   
Os chefes nazi-fascistas são retratados aqui:
A wikipedia disponibiliza informação bastante esclarecedora sobre os chefes e seus partidos:
Acerca de Oleh Tyahnykov e seu partido Svoboda («Liberdade»!):
Acerca de Andriy Parubiy, comandante militar dos manifestantes-atacantes nazi-fascistas e seu partido «Sector Direito»:
Acerca do candidato presidencial Dmytro Yarosh, do «Sector Direito»:
Procurado pela Interpol por terrorismo:
Não perdeu tempo a pedir ao novo governo armamento para o seu partido:
Este artigo do jornal Público é também esclarecedor sobre o «Sector Direito»:
Acerca do actual primeiro-ministro da coligação direita-nazi-fascista e seu partido pró-alemão «Pátria»:
A imprensa «ocidental» falou muito da mansão luxuosa de Yanukovitch. «Esqueceu-se» de falar nas mansões ainda mais luxuosas dos dirigentes da direita e nazi-fascistas, em particular dessa chorosa e sinistra «vítima» Yulia Timoshenko, líder do partido pró-alemão «Pátria», justamente condenada por fraudes e peculato. A Yulia tem não uma mas várias mansões luxuosas, uma delas com uma piscina nas margens do Dnieper.
   
4 - A desinformação imperialista
   
O papel dos EUA no apoio aos nazi-fascistas num site norte-americano (pró-capitalista):
O que a imprensa «ocidental» esquece dizer sobre os sentimentos do povo ucraniano e das suas lutas contra as forças militarizadas dos partidos nazi-fascistas:

NOTAS
[1] "All evidence shows that people who were killed by snipers from both sides, both policemen and people from the streets, that it was the same snipers killing people from both sides. Same handwriting, same type of bullets, and it's really disturbing that the new coalition don't want to investigate what exactly happened. So there is now a stronger and stronger understanding that behind the snipers it was not Yanukovich, it was somebody from the new coalition.". Ver https://www.youtube.com/watch?v=d-Y_v7wRWGo&feature=youtube_gdata_player
[2] O Russia Today (RT), apesar do controlo do Kremlin, é, actualmente, entre os canais de maior divulgação internacional e acessíveis ao público português, o mais pluralista e progressista. (Nem sempre foi assim.) Tem comentadores de todo o espectro político, desde pró-capitalistas a comunistas. Os entrevistadores também são de várias persuasões. Tem, inclusive, programas da autoria de jornalistas que foram figuras de proa da TV americana, como Larry King da CNN. O realizador de cinema Oliver Stone também aparece frequentemente no RT. Se o RT fosse liminarmente anti-americano, Larry King, Oliver Stone e outros não colaborariam com o RT. Recentemente a correspondente americana do RT demitiu-se em público, num programa de notícias, em protesto contra a Rússia e sua «intervenção» na Ucrânia, dizendo que não poderia fazer parte de uma TV «que encobre acções» de Putin. Não revelou, infelizmente, de que «acções» se tratava. Mas uma coisa é certa: se um correspondente russo da CNN fizesse tal coisa num programa em público da CNN arriscava-se a ser enfiado em Guantanamo por atentar contra a segurança dos EUA.
É evidente, entretanto, que as notícias que emanam do RT não prescindem da comparação com outras, de outras fontes, e da sua incorporação reflectida num quadro de análise internamente consistente que tem em conta as componentes económicas e classistas.