terça-feira, 5 de agosto de 2014

Correcção a «A solução do buraco»

Impõe-se uma correcção ao que dissemos no nosso artigo «A solução do buraco», por informação pouco clara do JN.
O antigo BES divide-se em dois: o Novo Banco (o BES «bom») e um BES com os podres (o BES «mau») que irá manter o mesmo nome. É a parte considerada boa da «fruta» que irá ser vendida -- o Novo Banco --, enquanto o saneamento do BES «mau» ficará a cargo dos accionistas.
Na realidade, parece-nos que mesmo com esta correcção, que confirmámos noutros meios de comunicação, o que dissemos no último artigo continua relevante e pertinente. Em particular, estamos crentes que iremos assistir à venda ao desbarato do Novo Banco, que se fosse mesmo «bom» não necessitaria de injecção de capitais pelo Estado. E que as novas tropelias do BES «mau», supostamente apenas confinadas aos accionistas (vão jogar apenas bilhar entre eles?), irão extravasar e também ter consequências. Para o «Estado».

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A solução do buraco

    Aí está. O governador do BdP e a ministra das Finanças já decidiram como o povo irá tapar o buraco do BES. Duas sumidades ao serviço do grande capital financeiro, que representa muito menos de 1% da população, já decidiram por todo o povo. E decidiram, como é óbvio, ao serviço dos seus patrões e amigos. Contra o povo, claro! É assim que funciona a «democracia ocidental». E toda a caterva do grande capital financeiro sabe disso. Eles são os patrões da «democracia». Logo, muito naturalmente, gozam de impunidade.
    Ocorre-nos aqui reproduzir as palavras do especulador financeiro G. Gekko (baseado no americano Ivan Boesky, ver http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2013/11/o-sector-financeiro-iv-fraudes.html ) no filme «Wall Street» de Oliver Stone, «abrindo os olhos» a um caloiro ([1]):
   
«Os 1% mais ricos deste país possuem metade da riqueza do nosso país, cinco triliões de dólares. Um terço dela, é proveniente de trabalho duro, dois terços provêm de heranças, juros sobre juros acumulando-se sobre viúvas e filhos idiotas, e do que eu faço, especulação na Bolsa e no imobiliário. Puro embuste. Temos p’ra aí noventa por cento do público americano com pouco ou sem quaisquer valores. Eu não crio nada. Eu possuo. Somos nós que ditamos as regras, pá. As notícias, a guerra, a paz, a fome, os distúrbios, o preço dos clips de papel. Nós tiramos o coelho da cartola enquanto todos estão p’ra aí sentados perguntando-se como diabo fizemos isso. Ora bem, tu não és assim tão ingénuo que vás pensar que vivemos numa democracia, não és, pois não meu caro? Isto é o mercado livre. E tu és parte dele. E possuis o instinto predador. Junta-te aos bons, pá. Ainda tenho uma série de coisas a ensinar-te.»
     
    Voltemos ao presente episódio do BES:
   
-- O buraco foi estimado em 4,9 biliões de euros (B€; usamos bilião=mil milhões); como já é habitual iremos mais tarde saber que a estimativa foi por defeito.
   
-- O «Estado entra com um empréstimo de 4,4 B€». Donde vêm os 4,4 B€? Da troika. Quem paga os juros do empréstimo? Essencialmente os trabalhadores, os reformados e pensionistas. Ppreparem-se para mais cortes, aumentos do CES (que se devia chamar Contribuição Extraordinária de Salvação dos grandes capitalistas), etc.!
   
- Os restantes 0,5 B€ virão de um «fundo de resolução» que o governo inventou para ir em socorro dos fraudulentos bancários. Directa e indirectamente estes 0,5 B€ também virão dos trabalhadores, dos reformados e pensionistas. Será que é preciso aqui esclarecer que o governo não dispõe de uma árvore das patacas? E que a contribuição do IRS e dos impostos indirectos é de 89%, enquanto do IRC é apenas de 11%?
   
-- Supostamente o «Estado» vai reaver o empréstimo dos 4,4 B€. Como? Com o seguinte coelho tirado da cartola, como diria G. Gekko: o BES acaba (já estava a cheirar mal); mas, de facto não acaba, e passa a chamar-se Novo Banco herdando todos os activos tóxicos (de facto, os inúmeros «buraquinhos» e «buracões» do buraco total: dívidas, crédito mal parado, perdas em jogos especulativos, etc.). O Estado vende o Novo Banco e eis o milagre consumado!
   
-- Esta técnica de passar os podres para um «banco mau» ou «banco zombie» foi inventada nos EUA e UK. Digam lá se o governador do BdP e a ministra das Finanças não estão actualizados em passes de mágica e estrangeirices?
    
-- Subsiste um «pequeno» problema. É que quem comprar o Novo Banco sabe que está a comprar um banco mau. Repetir-se-á a mesma cena da venda do BPN ao BCP: venda ao desbarato com o «Estado» a arcar com pagamentos de limpeza de lixo. Advinhem lá quem vai no final suportar os custos da venda ao desbarato e da limpeza de lixo?
    
-- O governador do BdP veio logo muito pomposo dizer que, desta vez, não se tratava de «nacionalização» como no caso BPN, com os efeitos danosos que conhecemos. Trata-se aqui de um simples jogo de palavras, para confundir e serenar os ânimos. No caso do BPN o Estado nacionalizou o banco e depois vendeu-o. Neste caso, o Estado transfere o BES para, supostamente, outro banco – de facto, só muda o nome -- e com gestão tão privada, para todos os efeitos práticos, quanto no caso BPN, dado que a intenção é vendê-lo para ressarcir o empréstimo da troika. Nenhuma diferença, portanto.
A propósito e para evitar confusões: as «nacionalizações» ao serviço do grande capital de que falam governadores do BdP, quejandos e comungantes,nacionais e estrangeiros, é total e definitivamente diferente das nacionalizações dos bancos que temos vindo a defender, e que os transformariam num serviço público ao serviço do povo (ver nossos artigos anteriores).

Em suma: a solução do buraco determinada por governador do BdP e ministra das Finanças foi a do «empréstimo em regime de capital contingente» que comentámos no artigo anterior.
Os que fizeram o buraco ficam-se a rir.
O povo continuará a alombar, como bestas de carga.
É que na luta entre explorados e exploradores são muitas vezes os primeiros que são idealistas, e os segundos que são materialistas, à maneira de G. Gekko. À maneira cínica.

P.S.: O comentador, Paulo Ferreira, disse no JN de hoje: «O Governo e o Banco de Portugal (BdP) tomaram a única opção possível e imaginária [...]». Este é dos comungantes. Eles são às mãos-cheias nos meios de comunicação e as vozes deles abafam tudo. A «única opção possível»! E, ainda por cima, a única opção «imaginária»! Uns artistões este Governo e BdP, que á custa de tremendos esforços e tremendos conhecimentos conseguem extrair «a única opção possível e imaginária». Como os G. Gekkos de Portugal devem gostar destes comungantes!


[1] «The richest one percent of this country owns half our country's wealth, five trillion dollars. One third of that comes from hard work, two thirds comes from inheritance, interest on interest accumulating to widows and idiot sons and what I do, stock and real estate speculation. It's bullshit. You got ninety percent of the American public out there with little or no net worth. I create nothing. I own. We make the rules, pal. The news, war, peace, famine, upheaval, the price per paper clip. We pick that rabbit out of the hat while everybody sits out there wondering how the hell we did it. Now you're not naive enough to think we're living in a democracy, are you buddy? It's the free market. And you're a part of it. You've got that killer instinct. Stick around pal, I've still got a lot to teach you.» http://www.imdb.com/title/tt0094291/quotes

sábado, 2 de agosto de 2014

Mais um buraco para o povo tapar? SIM

O JN de hoje (e certamente muitos outros jornais) trouxe as notícias:

1) O «Estado vai entrar no capital do BES»;
2) «a solução de recapitalização deverá ser anunciada amanhã [Domingo?!] pelo BdP;
3) A «ajuda estatal estará a ser negociada pela nova administração do BES e pelo BdP com o ministério das Finanças»;
4) A solução: «ou entrada directa de capital no BES através da subscrição de acções pelo Estado, ou empréstimo em regime de capital contingente».

CONCLUSÃO N.º 1:
MAIS UM BURACO PARA O POVO TAPAR? SIM.

    Quando já prevíamos que o povo trabalhador português, os reformados e pensionistas iriam ter que arcar com as consequências do buraco BES-GES gerado pelas fraudes e crimes dos grandes capitalistas financeiros ligados ao Grupo ES (no fundo, roubo dos fundos do banco e do grupo, para os dar aos amigos), o sereníssimo governador do BdP com a não menos sereníssima ministra das Finanças garantiam-nos a pés juntos que estava tudo bem. (Bom, para eles em particular está sempre tudo bem, pudera!). Afinal, como argumentámos, não estava. E dispomos de muito menos informação do que eles dispõem! Mas, claro, esses fulanos estão lá para isso mesmo: para servir os grandes capitalistas escondendo do povo as realidades.
    Reparem, agora, na fraseologia jornalística dos pontos de 1 a 4. Está sabiamente construída à custa de eufemismos com o objectivo de distorcer e esconder a realidade concreta. Por exemplo, o «Estado vai entrar no capital do BES» até parece coisa boa. Dantes o «Estado» não estava dentro do capital do BES e agora vai passar a estar. Que bom! Que maravilha! De facto, não é uma qualquer entidade abstracta «Estado»; somos nós. E também não é «vai entrar no capital». É algo bem diferente; é «vai entregar capital para tapar o buraco». Traduzamos, portanto, as afirmações de forma a elas estarem construídas em termos claros, pefeitamente entendíveis por todos, e reflectindo com rigor a realidade:

1) O «Governo vai entregar capitais, que pertencem ao povo trabalhador, para tapar o buraco que os fraudulentos e criminosos do BES construíram»;
2) «a solução de entrega de mão-beijada deverá ser anunciada amanhã pelo BdP;
3) A «entrega estará a ser negociada pela nova administração do BES e pelo BdP com o ministério das Finanças, isto é com os que sempre esconderam o buraco e sempre defenderam os que construíram o buraco»;
4) A solução: «ou dádiva de mão-beijada de milhares de milhões de euros ao BES através da subscrição por todos nós de acções sem qualquer valor porque o BES está falido, subscrição só para dizer que houve contrapartida – sai dinheiro mas em contrapartida entra papel que só serve para a retrete --, ou empréstimo passível de não ser ressarcido, que é o mais provável neste caso».

CONCLUSÃO N.º 2:

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO CONTINUAM A MANTER BURACOS NAS MENTES DOS PORTUGUESES PARA QUE ESTES SE MANTENHAM IGNORANTES E PASSIVOS.

O ponto 3, de negociar uma solução com a administração do BES, o BdP e o ministério das Finanças (no fundo, «cozinhar» um arranjo entre amigalhaços), num problema tão grave, envolvendo milhares de milhões de euros, sem qualquer intervenção democrática, nm mesmo da AR (e bem sabemos como ela é pobre), leva-nos de imediato à

CONCLUSÃO N.º 3:

UMA DEMOCRACIA BURGUESA COMO A NOSSA É APENAS UMA DEMOCRACIA AO SERVIÇO DOS DOS GRANDES CAPITALISTAS.
QUANDO OS PROBLEMAS SÃO DE FACTO IMPORTANTES SÃO OS CAPITALISTAS «QUEM MAIS ORDENA».

    Por fim, estamos infelizmente convictos que futuramente (e num futuro não muito afastado) se confirmará a seguinte e última

CONCLUSÃO N.º 4:

OS FRAUDULENTOS E CRIMINOSOS QUE CRIARAM O BURACO DO BES-GES NÃO SOFRERAM NADA DE ESPECIAL. CONTINUAM PODRES DE RICOS.
O POVO TRABALHADOR, E DE REFORMADOS E PENSIONISTAS, ESTÁ CADA VEZ MAIS POBRE.


É da praxe. Enquanto a passividade continuar.