sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A UE Não Pode Ser Democratizada

A pretensa democraticidade da UE foi já por nós comentada e analisada desde o início do blog em 2012.
   
A UE é uma estrutura essencialmente controlada pelo grande capital alemão, com associados menores: grande capital francês, do Benelux e parte do grande capital inglês. O objectivo do grande capital é o domínio de um vasto mercado monopolisticamente gerido, e a extracção de mais-valia através de mecanismos supranacionais, aparentemente «democráticos», de coerção sobre os trabalhadores e de gestão neo-colonial das economias periféricas.
   
O conceito de democracia tem de ser sempre analisado pelo critério de classe. No capitalismo neoliberal quem possui o saco de moedas é quem dirige a orquestra. O Parlamento Europeu e outras estruturas da UE não alteram em nada a direcção da orquestra. O primeiro, empresta um perfume de democracia, escondendo dos 99,9% a realidade de que apenas os 0,1% do grande capital dirigem a orquestra. Isto não quer dizer, naturalmente, que os representantes progressistas dos 99,9% não usem o Parlamento Europeu na denúncia e na tentativa de reversão das manigâncias dos 0,1%. Quanto a outras estruturas (comissões de ministros, CE, etc.) a sua submissão aos 0,1% é total, funcionando em estilo mercenarista ou de corrupção pura e simples, do tipo «coça-me as costas que eu depois coço-te as tuas». Fica assim justificada a afirmação «A UE não pode ser democratizada».
   
Com vista a adiar a agonia capitalista aparecem constantemente grupos que apresentam as velhas e falhadas ideias da social-democracia sob novas roupagens. Arvoram novas denominações, procurando inclusive demarcar-se da etiqueta «social-democrata» e parodiar-se de «marxistas» ou «progressistas». São como o «gato escondido com o rabo de fora». E o essencial do «rabo», seja quais forem as roupagens com que se pavoneiam, é sempre o mesmo: a colaboração de classes, em nome de uma utópica e etérea democracia acima das classes, que será sempre e não poderá ser outra coisa senão a submissão à classe dominante.
   
O último exemplo emblemático de tais grupos é o recentíssimo Movimento Democracia na Europa 2025, dinamizado pelo bem conhecido «marxista errático» (assim auto-denominado) Yanis Varoufakis, ex-ministro grego das Finanças. Membro do grupo é também o filósofo eslovaco Slavoj Žižek, muito apreciado pelos media quando querem mostrar a sua independência entrevistando um marxista (imagine-se!). A este poderíamos denominar de «marxista esotérico». Também não faltam portugueses a abrilhantar o grupo: o confusionista pós-moderno Boaventura de Sousa Santos e o jovem dos conceitos absolutos e puros, livres dessa coisa chata e ultrapassada de tingimentos de classe, Rui Tavares.
   
Sobre o «Democracia na Europa» encontrámos um artigo de muito interesse no MLToday (http://mltoday.com/ ) que traduzimos abaixo. Confirma e expande algumas das ideias por nós avançadas desde 2012.
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A UE Não Pode Ser Democratizada
Nota do editor do MLToday:
Uma linha de fractura essencial entre o Centro e a Esquerda na política europeia é a atitude face à União Europeia (UE). Os reformistas sociais, de novas e velhas variedades, afirmam que a UE tem algum potencial progressivo. Os comunistas afirmam que a UE é uma instituição de classe dominante que não pode ser reformada. Este último ponto de vista é convincentemente argumentado no artigo que se segue.
    
O Movimento Democracia na Europa 2025: o velho mascarado de novo
Texto de análise do Partido Comunista da Irlanda
12 de Fevereiro de 2016
   
Ao mesmo tempo que o povo trabalhador da União Europeia começa a questionar o seu papel e até mesmo a sua natureza, incluindo os interesses que serve, eis que um novo agrupamento apareceu a semear a confusão e a atirar poeira aos olhos.


O «Movimento Democracia na Europa 2025», o grupo mais recente a apresentar-se como salvador do povo, despertou interesse devido à participação de um representante do Right2Change [Direito à Mudança, um grupo político da Irlanda] na sua reunião de fundação em Berlim, no passado 9 de Fevereiro.  A 13 de Fevereiro, a conferência do Right2Change em Dublin terá uma participação por vídeo de um dos fundadores do «Movimento», o ex-ministro grego das Finanças, Varoufakis. Ele irá também viajar por um certo número de países periféricos para promover este novo grupo.

O «Movimento Democracia na Europa» é um agregado de personalidades e de políticos falhados da tradição social-democrata (Labour Party). Varoufakis não é o único ex-ministro do grupo: um outro membro fundador proeminente é Arnaud Montebourg, ex-ministro do governo francês que é também vice-presidente da cadeia de armazéns Habitat e membro do comité de orientação estratégica da companhia Talan (França).

Antes do almoço formal em Berlim o grupo emitiu um manifesto no qual declara que o objectivo ou estratégia do movimento é «democratizar» a União Europeia. Contrapõe esta «democratização» a duas «opções terríveis»: ou um recuo para o casulo do Estado-Nação ou uma submissão à zona livre-de-democracia de Bruxelas.

As reivindicações iniciais do grupo são as de uma transparência completa no processo de decisão, com difusão ao vivo das reuniões do Conselho da UE, do Conselho de Ministros das Finanças e do Eurogrupo, a divulgação integral das negociações económicas, das actas do Banco Central da UE, etc. Se bem que fosse útil saber o que tais organismos estão a planear, sabemos por experiência que as decisões realmente importantes são tomadas nos bastidores: no campo de golfe, em restaurantes de luxo, ou nos corredores dos parlamentos patrulhados pelos lobistas das corporações.

Este novo grupo quer que as actuais instituições da UE obtenham recursos e implementem políticas dirigidas à resolução das crises da dívida, à banca, ao investimento, à pobreza, ao emprego, e à migração. Desde logo, este programa parte do pressuposto de que as ditas instituições tomam «más» decisões porque operam à porta fechada ou negoceiam em segredo, em vez de ter em conta o simples facto de que as ditas instituições representam, reflectem e trabalham no interesse das forças económicas reais. Elas não são neutrais, nem estão acima do serviço de interesses de classe.

As instituições e os indivíduos que as povoam não tomaram más decisões: tomaram as decisões correctas no sentido de favorecer os interesses das grandes corporações e das empresas financeiras. Estas estruturas foram desenvolvidas e estão a ser constantemente refinadas para assegurar o controlo e a conformidade com qualquer que seja a estratégia requerida pela elite dominante em dado momento, ao mesmo tempo emprestando-lhes uma aparência democrática formal.
O «Democracia na Europa» também deseja convocar «uma assembleia constitucional onde os europeus deliberarão como avançar, em 2015, para uma democracia europeia total, caracterizada por um parlamento soberano da UE que respeite a auto-determinação nacional e partilhe o poder com os parlamentos nacionais, as assembleias regionais e os concelhos municipais». O objectivo a longo prazo é, portanto, «instituir uma Europa totalmente democrática e funcional em 2015».

O que significa, na realidade, esta altissonante democracia de poder-ao-povo, paramentada de tão fantástica linguagem? Eles querem um «parlamento» Europeu com poderes «soberanos»: logo, aquilo que estão a reclamar, é que todas as decisões fiscais, monetárias, económicas e sociais sejam do foro deste «parlamento» reforçado. Eles querem que todo o poder seja dado a este novo parlamento mas, ao mesmo tempo, «partilhando» o poder e «respeitando» os parlamentos nacionais e as assembleias regionais.

O que estariam de facto a «partilhar» com o parlamento nacional? É óbvio que se temos um Parlamento Europeu «genuíno» e democraticamente legítimo, então teremos de ter um «Governo Europeu» que dê expressão a essa nova instituição democrática. Eles querem uma estratégia federalista «de esquerda», a qual preferem ao actual processo intergovernamental, com os representantes dos Estados membros a tomar decisões.

Sendo assim, o povo irlandês [ou português, ou qualquer outro] poderia votar em quem quer que desejasse a nível nacional, mas ficaria sem qualquer capacidade de mudança a esse nível, dado que o poder e a tomada de decisões reais, segundo o «Movimento», pertenceriam a esse novo e «democrático» parlamento Europeu.

As decisões políticas significativas já estão fora dos Estados membros; já temos uma forma de «governo Europeu» onde reduzidos círculos de uma elite politico-económica – tal como a Mesa Redonda Europeia dos Industriais – decidem o que deve ser feito. Assim, segundo a visão do «Movimento», tratar-se-ia apenas de democratizar este processo.

Aqui há que ter em conta a recente experiência do encargo da dívida imposto ao povo irlandês pelo BCE e CE, bem como o «Programa para a Irlanda» exigindo a privatização de activos públicos, incluindo a companhia das águas e companhias públicas. [Idem, para Portugal, etc.]

É, portanto, falsamente apresentada, sob a capa de uma maior democraticidade, a ideia de que uma espécie de Parlamento reforçado da UE é melhor do que a actual governação por uma elite económica com a sua burocracia tecnocrática, a qual na verdade um tal Parlamento improvavelmente desafiaria, ainda que o pudesse fazer.

Mesmo que seguíssemos à letra essa ideia do «Movimento», não existiria simplesmente qualquer possibilidade de que obtivesse um apoio legítimo do povo, que o levasse a aceitar um voto maioritário de um novo Parlamento da UE da mesma forma que sucede internamente nos Estados independentes, onde o povo consente ser governado por decisões maioritárias dos parlamentos nacionais.
Se, no proposto parlamento recauchutado, tivéssemos a actual composição de representação política do Parlamento da UE, com a sua maioria de cristãos democratas e de outros partidos conservadores, apoiada pela minoria social-democrata que partilha com eles a mesma visão de política fiscal e económica, então tal maioria poderia «democraticamente» votar pela austeridade e impor aos povos o fardo da dívida massiva das corporações.

Será que o «Democracia na Europa» acredita seriamente que num Parlamento da UE recauchutado tais políticas iriam ser mais aceitáveis para o povo trabalhador da Grécia, Espanha, Portugal, e Irlanda? [Na realidade] À semelhança de outras instituições da Europa, eles desejam despolitizar a democracia, despolitizar as decisões económicas e fiscais, de facto despolitizar o próprio Estado-Nação, defendendo que já nada mais pode ser feito ao nível do Estado-Nação, que os Estados-Nações são redundantes no que diz respeito à política fiscal, económica e social.

É simplesmente impossível que uma forma parlamentar de governo da UE ganhasse aceitação popular, por várias razões. As dimensões diferentes e os diferentes níveis de desenvolvimento económico dos estados membros, bem como a heterogeneidade das populações nacionais, tornam isso impossível.

O Parlamento da UE, tal como existe, é uma fachada, um fingimento de democracia, que serve para esconder o funcionamento não democrático do sistema. Serve também como meio de propaganda de uma «identidade europeia», como um disfarce do relacionamento neo-colonial existente entre os poderosos Estados nucleares e a periferia. Esta é uma lição que muitas nações que buscam uma separação dos actuais Estados multinacionais, tais como a Escócia, a Catalunha, e o País Basco, precisam de aprender. A verdade crua e simples é que dentro da UE nenhuma independência pode existir.

As propostas do «Democracia na Europa», de aumentarem os poderes aparentes do parlamento, apenas iriam redecorar a fachada e não contribuiriam em nada para alterar a natureza imperialista da UE, quer internamente quer externamente.

A reivindicação ou estratégia de mais integração, mesmo que com uma componente eleitoral-representativa de alguma forma melhorada, não é a mesma coisa que controlo popular. Nada tem a ver com uma transferência fundamental de poder dos escritórios das corporações e empresas financeiras para o povo trabalhador. Tal reivindicação ou estratégia simplesmente ignora ou não consegue entender a natureza do poder político e económico, a natureza do Estado e das instituições de governo e controlo.

O esvaziamento da democracia representativa decorrente da adopção dos múltiplos tratados da UE seria ainda mais completo se e quando o TTIP [Transatlantic Trade and Investment Partnership = Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, projecto das administrações Obama-Merkel de consolidação e reforço do pólo imperial EUA-Alemanha] fosse adoptado. Os tratados da UE visaram retirar todas as decisões de políticas fiscais, económicas e sociais, do âmbito nacional, assegurando que elas não poderiam ser influenciadas pelas lutas de classes a nível nacional, e assegurando de forma permanente que um governo progressista eleito a nível nacional ficasse severamente restringido na sua acção. O colete de forças fiscal e económico está firmemente atado.

A elite governante, especialmente a nível da UE, despolitizou as decisões fiscais e económicas relegando-as para meras questões técnicas. Isso também se aplica à despolitização dos Estados individuais. Tal como a elite governante o «Democracia na Europa» defende que os problemas não podem ser reolvidos a nível nacional: só podem ser resolvidos a nível internacional, limpando assim, de forma conveniente, a classe dominante irlandesa de qualquer responsabilidade [idem, para outros países] e negando a possibilidade de mudança.

A entrega pelas classes governantes nacionais de poderes soberanos de estruturas nacionais a estruturas internacionais, só pode ser entendida como uma componente de um processo de reversão das conquistas democráticas, económicas e sociais dos trabalhadores, conduzido pelas respectivas classes governantes.

O que Varoufakis e outros como ele advogam é uma forma de democracia sem o povo, uma maior erosão da soberania nacional e da democracia nacional, é o erigir novos obstáculos a qualquer possível transformação radical das estruturas económicas e sociais a nível nacional.

Indivíduos como Varoufakis e grupos como o «Democracia na Europa» são apenas a última versão de uma longa linha de personagens que intentaram colocar uma face humana num sistema inumano e suas estruturas de controlo, como as da União Europeia. Neste aspecto, estão a emular a campanha bem sucedida do Syriza na Grécia que mobilizou forças populares para as conduzir à derrota e à desilusão. É essa a missão de Varoufakis, agora ao nível do palco europeu.


O que têm para oferecer é apenas mais do mesmo: o velho mascarado de novo. Há uma necessidade crescente de cirurgia bem mais radical se queremos construir e viver numa sociedade decente, onde o pilar fundamental é a solidariedade e a justiça económica a nível popular, uma sociedade onde o «mercado» deve estar submetido ao povo, em vez do que agora acontece, onde o povo está submetido ao «mercado».

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Cambaleando à Beira de Novo Precipício

O título acima é o de um recente artigo de Zoltan Zigedy (pseudónimo de Greg Godels, http://zzs-blg.blogspot.pt/) que reputamos de grande interesse e cuja tradução apresentamos abaixo com a permissão do autor.
   
O artigo analisa o estado periclitante da economia dos EUA; uma economia com grande influência nas outras economias capitalistas. Nele se faz referência a indicadores-chave do estado de saúde do capitalismo, incluindo a taxa de lucro. Os leitores que têm acompanhado o nosso blog recordarão que a tendência de declínio da taxa de lucro é uma das leis mais importantes do capitalismo, que determina o investimento e o crescimento da economia. A taxa anual de crescimento do PIB real dos EUA em 2014 foi de 2,4%, a maior desde 2011. Para 2015 havia uma previsão eufórica de 3% ou mais, mas a administração americana veio já reconhecer uma descida significativa na previsão: 2%.
   
Introduzimos alguns curtos esclarecimentos entre «[]».
   
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Cambaleando à Beira de Novo Precipício
Zoltan Zigedy, 8 de Janeiro de 2016
De uma forma geral, os três factores essenciais dos negócios, investimento em capital fixo, produtividade e lucros das empresas, têm exibido uma tendência decrescente desde há três ou quatro anos. No primeiro trimestre de 2015 o investimento em capital fixo caiu 3,4%, pelo que não foi surpreendente a queda da produção por hora (produtividade) de 3,1%, e previa-se que os lucros quase não se alterariam. Estes três indicadores, fundamentais e interdependentes, sublinham a debilidade crítica da economia dos EUA. O capitalismo espremeu o suor dos trabalhadores o mais possível, os gestores estão relutantes em investir em novos ou avançados meios de produção, e as corporações dos EUA estão a sentir um declínio da taxa de lucro.
Desde essa altura, os «três factores essenciais» que avaliam a saúde da economia dos EUA só pioraram: os gastos de capital no terceiro trimestre caíram 3,8%, a produtividade anualizada só subiu 0,4% no terceiro trimestre e os lucros (anualizados durante o terceiro trimestre) sofreram o maior declínio desde a queda de 2008.
   
Para além disso, o índice da actividade transformadora dos EUA (Institute for Supply Management) caiu para o nível mais baixo desde Junho de 2009 e a produção industrial diminuiu durante três meses consecutivos até e incluindo Novembro (os dados que acabam de ser divulgados pelo Institute for Supply Management mostram que Dezembro foi o primeiro mês de contracção consecutiva da actividade transformadora desde 2009).
   
A capacidade de utilização [quanto da capacidade de produção é efectivamente utilizada] caiu para 77%, o menor valor nos últimos dois anos. Antes de 2007 e do início da crise económica, estava em 80%.
   
Escrevi em Junho acerca da inflação do mercado bolsista gerada por fusões e aquisições, recompras de acções e um custo de empréstimos obscenamente baixo [consequência da disponibilidade de fundos do Quantitative Easing]. O efeito dessa inflação sobre a riqueza da economia – o seu efeito psicológico no consumo – declinou. As perdas nos mercados são responsáveis pela maior parte dos 1,2 triliões [1.200.000.000.000] de dólares de riqueza cancelada [riqueza virtual que teve de ser eliminada no ajuste de contas], de acordo com o relatório da Reserva Federal [banco central dos EUA].
   
A debandada das obrigações [títulos obrigacionistas] de lixo (de alto risco e alto retorno) em 2015 aumentou mais a insegurança [dos mercados financeiros]. Enquanto no início da crise em 2008 estas obrigações de lixo totalizavam 709 biliões [milhares de milhões] de dólares, quando os investidores começaram a abandoná-las o total era já de 1,3 triliões  de dólares [milhões de milhões]. Em consequência disso, o quociente da dívida de alto risco relativamente aos lucros das corporações está próximo de um novo máximo. Um mercado fraquejante de títulos de valor está a moderar a euforia dos investidores.
   
Em Junho, fiz notar o seguinte:
   
Existem hoje 65 investimentos de capital de risco acima de 1 bilião de dólares (a CB Insights diz que são 107) que estão a retirar dinheiro de fundos de pensões famintos de rendimento, de fundos comuns, e de fundos de cobertura. Independentemente do número, todos concordam que a capitalização total destes investimentos em firmas que são pouco mais que start-ups [recém-criadas] se aproxima ou excede a capitalização das firmas semelhantes «dot.com» que rebentaram em 2000.
   
Contudo, as novas start-ups estão a deparar com ventos contrários em 2015, especialmente no sector tecnológico/internet. Conforme noticia o The Wall Street Journal: «As companhias de tecnologia e internet que começaram a operar nos EUA obtiveram 9,5 biliões de dólares em 2015, abaixo dos 40,8 biliões em 2014… O número de IPOs [oferta inicial pública de acções] no sector caiu para menos de metade, de 62 para 29.»
   
Sem dúvida os investidores «famintos de dividendos» fizeram mal os cálculos, conforme a actual queda abrupta no mercado NASDAQ de títulos de valor demonstrou.
   
Claro que a economia dos EUA é também fortemente abanada por desenvolvimentos globais: a economia da República Popular da China está no mínimo oscilante, a da UE está estagnada, a do Canadá está a abrandar e as economias da Rússia e do Brasil estão em declínio acentuado.
   
Se por um lado os gastos dos consumidores puseram a economia dos EUA a boiar, colocando o PIB em território positivo, por outro, a mola real do capitalismo – o lucro – continua a ser a questão crítica. No terceiro trimestre de 2015 os lucros anualizados sofreram o maior declínio desde o mergulho de 2008. Os lucros do terceiro trimestre ficaram 1,1% abaixo dos do segundo trimestre e 4,7% abaixo dos do mesmo trimestre de 2014, exibindo uma persistente tendência declinante.
   
Entrevistado pela Barron’s [revista de mercados financeiros] (21 de Dezembro de 2015), David Levy do Centro de Previsão Jerome Levy opinou de forma perceptiva: «[…] Mas o factor que foi de facto a causa da economia enfraquecer um pouco foi a fraqueza dos lucros. Ouvimos alguns a usar a expressão “recessão de lucros”, mas não existe recessão de lucros sem uma recessão real. Vejo sinais das “coisas” a abrandar como resultado do declínio dos lucros […]»
   
Fico confuso quando vejo que economistas progressistas, muitos marxistas, e mesmo Partidos Comunistas, continuam a atribuir a causa da actual crise do capitalismo, agora a aprofundar-se, à «sobreprodução» ou ao declínio do consumo ou da procura. Tais noções são, ou resíduos de uma anterior época pré-monopolista, ou provêm da influência do pensamento keynesiano no marxismo e na Esquerda em geral. A «sobreprodução» que é relevante na crise capitalista é a sobreprodução de capital, que não consegue encontrar uma aplicação lucrativa sem encravar o processo de acumulação.
   
As teorias baseadas na procura servem como peça central da teoria social-democrata das crises. Sim, o retorno das corporações e os gastos dos consumidores estão agora estagnados ou a declinar – não como indicadores principais, mas como consequência do abrandamento económico geral determinado pela perspectiva de menos oportunidades de lucro. É a queda no crescimento dos lucros ou um declínio da taxa de lucro que leva os capitalistas a aplicar travões. Se os mercados demonstrarem uma maior rendibilidade (recompensando, por exemplo, os capitalistas com uma maior fatia), os capitalistas continuarão a investir e alimentarão o motor económico, mesmo se confrontados com retornos momentaneamente estagnados ou declinantes. Claro que retornos a descer acabarão eventualmente por prejudicar a taxa de lucro. Mas é o lucro que propulsiona o capitalismo ou que o afunda se não existir.
   
Para os marxistas não são meramente os números que explicam o futuro, mas as tendências ou padrões. As tendências são claramente negativas. Com as soluções dos bancos centrais largamente exaustas é difícil imaginar uma saída fácil de uma crise que se aprofunda; é difícil pensar que o próximo ano traga qualquer coisa que não seja dificuldade económica.
   

Tendo em conta o aumento da extrema-direita e a ausência de uma esquerda militante na maioria dos países, a crise económica ameaça colocar obstáculos políticos formidáveis. Dada a ubiquidade de conflitos letais e as crescentes hostilidades inter-imperialistas, o novo ano exige um comprometimento acrescido pela paz e pela justiça social. Um comprometimento que terá de ir para além das tinturas de iodo e curativos constantemente servidos pelos liberais e sociais-democratas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Portugal: Ponto da Situação (2015)

No fim de 2015 tornaram-se conhecidas, de várias instituições, previsões de indicadores económicos e de contas nacionais que não deverão estar longe dos valores oficiais finais. Também a Comissão Europeia (CE), como habitualmente, publicou as suas previsões de Outono [1]. Estamos, portanto, em condições de complementar o que já tínhamos dito sobre a situação do país em Maio passado [2]. Usamos dados do Eurostat e do INE excepto quando expressamente citada a fonte. A nossa análise versará os seguintes temas:
    
1 – Contas Públicas: Défice Orçamental (DO) e Dívida Pública (DP)
2 – Estado da Economia: PIB, Produção, Investimento e Lucros
3 – Desemprego e Outros Indicadores de Desastre Social
    
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1 – Contas Públicas: Défice Orçamental (DO) e Dívida Pública (DP)   
Recordemos que foram os elevados DO e DP, conjuntamente com os elevados juros de serviço da dívida através de obrigações do Tesouro, exacerbados pelas agências de rating de risco obrigacionista, que levou à intervenção da troika nos moldes aceites pelo PS e PSD/CDS.
    
No final de 2010, a três meses de assinar em Abril de 2011 o acordo de resgate no valor de 78 B€ (usamos B€ = bilião de euros = mil milhões de euros), o DO de Portugal era igual a 11,2% (do PIB). No final de 2014 estava em 7,2%. Tinha sido primeiro oficialmente colocado em 4% e depois revisto para 7,2% devido à injecção pelo Estado de fundos no BES-Novo-Banco. Portanto, embora inferior ao valor de 2010, regressou ao nível de 2011 (7,4%). Isto é, todos os sacrifícios e roubos impostos pelos governos do grande capital aos de menor rendimento tinham-se perdido e voltava-se ao princípio. Perdido devido às fraudes bancárias e outras, fraudes do grande capital. O valor anunciado para 2015 era primeiro de 2,7% e depois revisto para 4% devido ao «caso Banif». É provável que mesmo este valor seja optimista.
    
É claro que, em toada pré-eleitoral, o PSD, o CDS, e os seus proxies na comunicação social, não se cansaram de cantar maravilhas sobre as contas públicas, estado da economia e questões sociais, atirando números para o ar totalmente irrealistas. Este é um aspecto muito conhecido e que não necessita aqui da nossa atenção
    
A DP depende dos DOs acumulados. No final de 2010 a DP portuguesa era de 96,2% (do PIB). A DP tem vindo sempre a subir e encontrava-se em 130,2% em 2014. Fontes do governo prevêem que esse será também o valor em 2015. Veremos…
    
Entretanto, conforme mostram os gráficos abaixo, a toada de optimismo da CE continua.
     
   
Há também dois aspectos que importa considerar, ilustrados pelo gráfico abaixo. Todos os países da zona euro (mesmo os não mostrados no gráfico) viram a sua DP aumentar a seguir à crise de 2008, com uma excepção: a Alemanha, que sistematicamente tem visto a sua DP a decair. Além disso, verifica-se que dois países tinham em 2010 uma DP superior à de Portugal e não foram alvo de resgates: a Itália e a Bélgica. A Itália tinha, inclusive em 2014, uma DP superior à de Portugal.
    
Estes dois aspectos revelam algo que temos vindo a assinalar em vários artigos desde o início do nosso blog: a UE e o euro serviram para enriquecer a Alemanha [3]; os que têm de «quebrar» para sustentar a Alemanha-França imperiais e seus proxies Áustria e Benelux são os do «elo mais fraco» [4].
        


   
2 – Estado da Economia: PIB, Produção, Investimento e Lucros
    
A figura abaixo à esquerda mostra o PIB real (isto é, a preços constantes). Verifica-se que ainda não recuperou da crise e está aparentemente ao nível de há 7 anos atrás. De facto, está ainda mais abaixo devido às disparatadas alterações nas regras de cálculo do PIB introduzidas em 2014 pelo Eurostat e de que já falámos em [5].
    
A curva a preto na figura abaixo à direita mostra os valores oficiais do crescimento anual do PIB real, com excepção dos anos 2015 e 2016, que são ainda previsões. A estimativa de 2015 deverá estar muito próxima do valor final. Quanto à de 2016 pode ter um erro importante [6]. Apesar de positiva a partir de 2014, a taxa de crescimento do PIB é muito baixa, como já explicámos em [2]. Quanto às curvas de previsão da CE vemos que a previsão a dois anos era demasiado optimista até 2013, um aspecto por nós apontado em artigos anteriores. A partir de 2014 as previsões da CE são bem mais convergentes com o valor final. Já toda a gente, incluindo o FMI, reconhece a estagnação das economias da UE e o risco de nova crise.
    
   

    
O valor produzido nas indústrias transformadoras também não recuperou da crise e está estagnado, conforme mostra a curva a vermelho da figura abaixo à esquerda. Efectivamente, o valor total produzido pelas empresas privadas do sector produtivo tem exibido uma tendência declinante até 2013.
    
Estas constatações não surpreendem, por duas razões: por um lado, o investimento em capital fixo (FBCF = Formação Bruta de Capital Fixo) tem declinado, com um ligeiro aumento nos últimos dois anos; por outro lado, a taxa de utilização da capacidade produtiva da indústria transformadora, que era de 80,5% antes da crise, tem estado estagnada em torno de cerca de 74% até ao 2º trimestre de 2014, registando um pequena subida até 77,4% no 3º trimestre de 2015.
       
    
O investimento e a utilização da capacidade produtiva estão em baixa porque o leit motiv do capital – o lucro – também está em baixa. Infelizmente, os dados globais sobre rendibilidade  e taxa de lucro das empresas não estão directamente disponíveis [7]. Entretanto, um estudo do BdP de Outubro de 2013 revelou que, de 2008 a 2012, a rendibilidade das empresas não financeiras tinha caído para metade, e com uma tal pressão financeira que os lucros em alguns sectores (como o da construção) não excediam os juros cobrados nos empréstimos [8].
   
Um sintoma de que a rendibilidade das empresas não tem melhorado desde 2012 é fornecido pelo elevado número de insolvências, que inclusive cresceu de 7,6% em 2015 face a 2014 [9].
    
Concluindo, ao contrário do que afirmam muitos políticos e comentaristas da Direita, a situação económica não registou qualquer melhoria sensível desde 2014. Isto, apesar da queda dos preços de combustíveis que, o mais provável, é não continuar por muito mais tempo (a própria Arábia Saudita começa a enfrentar sérios problemas com esta baixa).
    
Será que há razões para esperar uma melhoria? Mantendo as condições actuais (UE, euro, capitalismo neoliberal, etc.) pensamos que não. Pensamos que, pelo contrário, há razões para esperar uma pioria, conforme já assinalámos em Outubro de 2014 [10]. A nível global regista-se uma diminuição do comércio (a própria China se está a ressentir disso), o que afecta a nossa balança comercial que continua negativa. É afectada também pela nossa falta de produção para o mercado interno, como já temos comentado. Para dar um exemplo, em Outubro de 2015 importámos 1,3 B€ de alimentos, o que representou uma subida de 11% face a 2014! O quantitative easing do BCE, como já esperávamos tendo em conta o que aconteceu nos EUA e Japão, não tem tido uma contribuição substancial para incentivar a economia real. Com baixa taxa de lucro, a injecção de dinheiro no sector financeiro tem apenas contribuído para aumentar a especulação. Os sintomas de ameaça de crise começam a surgir por todo o lado, particularmente nos mercados bolsistas. Na primeira semana de Janeiro a Bolsa da China sofreu por duas vezes um crash que levou o governo a fechá-la por dois dias. No momento em que escrevemos estas linhas está a decorrer o Encontro de Davos (46.º Fórum Económico Mundial) que congrega os grandes bonzos da economia mundial, e a mensagem que daí provém é clara: o medo de uma nova crise pelo excesso de concentração do capital (pois é; é o Capitalismo Monopolista de Estado) em alguns activos que se abalados (e o abalo é fácil, porque se trata em grande parte de activos virtuais) podem provocar um movimento em massa de vendas ao desbararato, e ainda porque, ao contrário do que os bonzos dantes assumiam, reconhecem agora que a China não «é uma máquina de crescimento perpétuo».
     
    
3 – Desemprego e Outros Indicadores de Desastre Social
    
Um dos indicadores mais abusados, e que mais tem servido aos políticos e comentaristas da Direita para vender a mentirosa propaganda da melhoria da situação económica, é a taxa de desemprego, cujo gráfico é mostrado na figura abaixo.
    
   

A taxa de desemprego é, como facilmente se entende, o quociente entre a população desempregada e a população activa. Resta saber como se define desempregado. A definição usada pelo INE, Eurostat, etc., é esta: um indivíduo com idade entre os 15 e os 74 anos que, num período de referência (consideramos o ano), não tem trabalho remunerado nem qualquer outro, está apto e disponível para trabalhar imediatamente, e procura activamente emprego.   
    
Em 2014 a população activa (média) era de 5.224 mil indivíduos. Para uma taxa de desemprego de 14,5% o número de desempregados é de 5.224x0,145 = 757 mil indivíduos. Se a oferta de emprego se mantivesse constante, então a taxa de desemprego só poderia variar devido à diferença entre os que entram no mercado de trabalho e os que o abandonam por limite de idade. Podemos desprezar num reduzido intervalo de anos as variações demográficas, tanto mais que o intervalo de idades em causa é grande (dos 15 aos 74 anos). Se a oferta de emprego diminuir, aumentará o número de desempregados. Em Portugal, porém, um enorme número de desempregados vem perdendo a esperança de «procurar activamente emprego» e emigra. O número de emigrantes passou, assim, a constituir um bom estimador do aumento de desemprego. Concretamente, em 2015 emigraram, segundo fontes oficiais, 110 mil indivíduos. Se subtrairmos estes emigrantes aos 757 mil desempregados registados em 2014 ficam 647 mil desempregados no país o que corresponde a uma taxa de desemprego de 647/5224 = 12,4% que é precisamente o valor registado em 2014.
    
Na realidade, no gráfico acima, a desaceleração do aumento de desemprego e depois a sua diminuição não reflecte um aumento da oferta de emprego e concomitante diminuição do número de desempregados; reflecte, sim, o aumento brutal da emigração a partir de meados de 2011. Neste caso, as previsões aparentemente pessimistas da CE a partir de 2013 acabam por ser mais realistas: a CE não teve em conta a emigração. Portugal é hoje o 12.º país do mundo com mais emigração. De onde todos os anos saem dezenas e dezenas de cidadãos jovens e com boas habilitações que se tornam «refugiados» noutros países [11]. Além disso, apesar da emigração, o desemprego continua a crescer nas camadas jovens, na população dos 15 aos 24 anos: em Outubro de 2014 a taxa de desemprego neste grupo etário era de 31,8% e em Dezembro já era de 33,4%!!!
    
Para além do desastre económico, o desastre social em Portugal é enorme.
    
Para além do elevado desemprego e emigração, existem outros indicadores que documentam o espantoso nível de desastre social a que chegou Portugal. Apontamos aqui alguns dados que, embora noticiados, podem ter passado despercebidos:
    
a) A taxa de risco de pobreza tem vindo sempre a aumentar, situando-se actualmente, já depois de todas as transferências sociais, em 19,5%;
b) O Observatório da Pobreza é peremptório: um em cada cinco portugueses é pobre (2 milhões) e a pobreza tem aumentado (para 11%) na população empregada e na população idosa (para 14,5%);
c) 120 mil crianças têm fome permanente (mais 35 mil que em 2012 [12]); 2 milhões e 750 mil portugueses passam fome permanente durante a semana e 1,5 milhões não conseguem obter uma refeição completa pelo menos um dia por semana;
d) 4,3 milhões vivem em privação material severa, com dificuldade, por exemplo, em pagar rendas em atraso, manter a casa aquecida, ou fazer uma refeição de carne ou de peixe de dois em dois dias;
e) O SNS está cada vez mais degradado (conforme já assinalámos em artigos anteriores), tendo ocorrido pelo menos uma morte em 2015 por falta de atendimento;
f) A corrupção tem vindo sempre a aumentar e ainda recentemente um inquérito da consultora Ernest & Young, sobre percepção de fraude e corrupção em 38 países, colocava Portugal na quinta posição dos mais corruptos, abaixo da Croácia, Quénia, Eslovénia e Sérvia, mas acima da índia, Ucrânia, África do Sul, Nigéria, Grécia, Egipto, Turquia e Rússia [13].
    
Referências
[3] «A União Europeia e o Euro serviram para enriquecer a Alemanha» é o título de um artigo de Eugénio Rosa publicado em: http://resistir.info/e_rosa/ue_alemanha_31jan15.html. Contudo, desde Setembro de 2012 que temos vindo precisamente a tocar nessa tecla com base em dados objectivos.
[6] Banco de Portugal piora estimativas de crescimento até 2017, 09/12/2015: «O Banco de Portugal piorou as estimativas de crescimento económico para este ano, para 1,6%, e até 2017, admitindo um "grau de incerteza particularmente elevado" na projecção devido à inexistência do Orçamento do Estado para 2016.» http://www.sapo.pt/noticias/banco-de-portugal-piora-estimativas-de_566828b6ce68572130141eea
[7] No INE e no Eurostat estes dados estão muito sectorizados. A Ameco, spin-off do Eurostat, tem dados mais trabalháveis que contamos utilizar em próximo artigo.
[8] Nota de Informação Estatística, BdP, 21 de Outubro de 2013; Sara Antunes, Rendibilidade das empresas portuguesas cai para metade em seis anos, 21 de Outubro de 2013, Jornal de Negócios,
[9] Estudo da Ignios divulgado no JN de 19/01/2016.
[11] Alexandra Campos, Portugal é o 12.º país do mundo com mais emigração, Público, 28/10/2015.
[12] Estes e outros dados de interesse são de http://euacuso.blogs.sapo.pt/tag/fome . O autor cita o BACF - Banco Alimentar Contra a Fome.