terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Cambaleando à Beira de Novo Precipício

O título acima é o de um recente artigo de Zoltan Zigedy (pseudónimo de Greg Godels, http://zzs-blg.blogspot.pt/) que reputamos de grande interesse e cuja tradução apresentamos abaixo com a permissão do autor.
   
O artigo analisa o estado periclitante da economia dos EUA; uma economia com grande influência nas outras economias capitalistas. Nele se faz referência a indicadores-chave do estado de saúde do capitalismo, incluindo a taxa de lucro. Os leitores que têm acompanhado o nosso blog recordarão que a tendência de declínio da taxa de lucro é uma das leis mais importantes do capitalismo, que determina o investimento e o crescimento da economia. A taxa anual de crescimento do PIB real dos EUA em 2014 foi de 2,4%, a maior desde 2011. Para 2015 havia uma previsão eufórica de 3% ou mais, mas a administração americana veio já reconhecer uma descida significativa na previsão: 2%.
   
Introduzimos alguns curtos esclarecimentos entre «[]».
   
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Cambaleando à Beira de Novo Precipício
Zoltan Zigedy, 8 de Janeiro de 2016
De uma forma geral, os três factores essenciais dos negócios, investimento em capital fixo, produtividade e lucros das empresas, têm exibido uma tendência decrescente desde há três ou quatro anos. No primeiro trimestre de 2015 o investimento em capital fixo caiu 3,4%, pelo que não foi surpreendente a queda da produção por hora (produtividade) de 3,1%, e previa-se que os lucros quase não se alterariam. Estes três indicadores, fundamentais e interdependentes, sublinham a debilidade crítica da economia dos EUA. O capitalismo espremeu o suor dos trabalhadores o mais possível, os gestores estão relutantes em investir em novos ou avançados meios de produção, e as corporações dos EUA estão a sentir um declínio da taxa de lucro.
Desde essa altura, os «três factores essenciais» que avaliam a saúde da economia dos EUA só pioraram: os gastos de capital no terceiro trimestre caíram 3,8%, a produtividade anualizada só subiu 0,4% no terceiro trimestre e os lucros (anualizados durante o terceiro trimestre) sofreram o maior declínio desde a queda de 2008.
   
Para além disso, o índice da actividade transformadora dos EUA (Institute for Supply Management) caiu para o nível mais baixo desde Junho de 2009 e a produção industrial diminuiu durante três meses consecutivos até e incluindo Novembro (os dados que acabam de ser divulgados pelo Institute for Supply Management mostram que Dezembro foi o primeiro mês de contracção consecutiva da actividade transformadora desde 2009).
   
A capacidade de utilização [quanto da capacidade de produção é efectivamente utilizada] caiu para 77%, o menor valor nos últimos dois anos. Antes de 2007 e do início da crise económica, estava em 80%.
   
Escrevi em Junho acerca da inflação do mercado bolsista gerada por fusões e aquisições, recompras de acções e um custo de empréstimos obscenamente baixo [consequência da disponibilidade de fundos do Quantitative Easing]. O efeito dessa inflação sobre a riqueza da economia – o seu efeito psicológico no consumo – declinou. As perdas nos mercados são responsáveis pela maior parte dos 1,2 triliões [1.200.000.000.000] de dólares de riqueza cancelada [riqueza virtual que teve de ser eliminada no ajuste de contas], de acordo com o relatório da Reserva Federal [banco central dos EUA].
   
A debandada das obrigações [títulos obrigacionistas] de lixo (de alto risco e alto retorno) em 2015 aumentou mais a insegurança [dos mercados financeiros]. Enquanto no início da crise em 2008 estas obrigações de lixo totalizavam 709 biliões [milhares de milhões] de dólares, quando os investidores começaram a abandoná-las o total era já de 1,3 triliões  de dólares [milhões de milhões]. Em consequência disso, o quociente da dívida de alto risco relativamente aos lucros das corporações está próximo de um novo máximo. Um mercado fraquejante de títulos de valor está a moderar a euforia dos investidores.
   
Em Junho, fiz notar o seguinte:
   
Existem hoje 65 investimentos de capital de risco acima de 1 bilião de dólares (a CB Insights diz que são 107) que estão a retirar dinheiro de fundos de pensões famintos de rendimento, de fundos comuns, e de fundos de cobertura. Independentemente do número, todos concordam que a capitalização total destes investimentos em firmas que são pouco mais que start-ups [recém-criadas] se aproxima ou excede a capitalização das firmas semelhantes «dot.com» que rebentaram em 2000.
   
Contudo, as novas start-ups estão a deparar com ventos contrários em 2015, especialmente no sector tecnológico/internet. Conforme noticia o The Wall Street Journal: «As companhias de tecnologia e internet que começaram a operar nos EUA obtiveram 9,5 biliões de dólares em 2015, abaixo dos 40,8 biliões em 2014… O número de IPOs [oferta inicial pública de acções] no sector caiu para menos de metade, de 62 para 29.»
   
Sem dúvida os investidores «famintos de dividendos» fizeram mal os cálculos, conforme a actual queda abrupta no mercado NASDAQ de títulos de valor demonstrou.
   
Claro que a economia dos EUA é também fortemente abanada por desenvolvimentos globais: a economia da República Popular da China está no mínimo oscilante, a da UE está estagnada, a do Canadá está a abrandar e as economias da Rússia e do Brasil estão em declínio acentuado.
   
Se por um lado os gastos dos consumidores puseram a economia dos EUA a boiar, colocando o PIB em território positivo, por outro, a mola real do capitalismo – o lucro – continua a ser a questão crítica. No terceiro trimestre de 2015 os lucros anualizados sofreram o maior declínio desde o mergulho de 2008. Os lucros do terceiro trimestre ficaram 1,1% abaixo dos do segundo trimestre e 4,7% abaixo dos do mesmo trimestre de 2014, exibindo uma persistente tendência declinante.
   
Entrevistado pela Barron’s [revista de mercados financeiros] (21 de Dezembro de 2015), David Levy do Centro de Previsão Jerome Levy opinou de forma perceptiva: «[…] Mas o factor que foi de facto a causa da economia enfraquecer um pouco foi a fraqueza dos lucros. Ouvimos alguns a usar a expressão “recessão de lucros”, mas não existe recessão de lucros sem uma recessão real. Vejo sinais das “coisas” a abrandar como resultado do declínio dos lucros […]»
   
Fico confuso quando vejo que economistas progressistas, muitos marxistas, e mesmo Partidos Comunistas, continuam a atribuir a causa da actual crise do capitalismo, agora a aprofundar-se, à «sobreprodução» ou ao declínio do consumo ou da procura. Tais noções são, ou resíduos de uma anterior época pré-monopolista, ou provêm da influência do pensamento keynesiano no marxismo e na Esquerda em geral. A «sobreprodução» que é relevante na crise capitalista é a sobreprodução de capital, que não consegue encontrar uma aplicação lucrativa sem encravar o processo de acumulação.
   
As teorias baseadas na procura servem como peça central da teoria social-democrata das crises. Sim, o retorno das corporações e os gastos dos consumidores estão agora estagnados ou a declinar – não como indicadores principais, mas como consequência do abrandamento económico geral determinado pela perspectiva de menos oportunidades de lucro. É a queda no crescimento dos lucros ou um declínio da taxa de lucro que leva os capitalistas a aplicar travões. Se os mercados demonstrarem uma maior rendibilidade (recompensando, por exemplo, os capitalistas com uma maior fatia), os capitalistas continuarão a investir e alimentarão o motor económico, mesmo se confrontados com retornos momentaneamente estagnados ou declinantes. Claro que retornos a descer acabarão eventualmente por prejudicar a taxa de lucro. Mas é o lucro que propulsiona o capitalismo ou que o afunda se não existir.
   
Para os marxistas não são meramente os números que explicam o futuro, mas as tendências ou padrões. As tendências são claramente negativas. Com as soluções dos bancos centrais largamente exaustas é difícil imaginar uma saída fácil de uma crise que se aprofunda; é difícil pensar que o próximo ano traga qualquer coisa que não seja dificuldade económica.
   

Tendo em conta o aumento da extrema-direita e a ausência de uma esquerda militante na maioria dos países, a crise económica ameaça colocar obstáculos políticos formidáveis. Dada a ubiquidade de conflitos letais e as crescentes hostilidades inter-imperialistas, o novo ano exige um comprometimento acrescido pela paz e pela justiça social. Um comprometimento que terá de ir para além das tinturas de iodo e curativos constantemente servidos pelos liberais e sociais-democratas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Portugal: Ponto da Situação (2015)

No fim de 2015 tornaram-se conhecidas, de várias instituições, previsões de indicadores económicos e de contas nacionais que não deverão estar longe dos valores oficiais finais. Também a Comissão Europeia (CE), como habitualmente, publicou as suas previsões de Outono [1]. Estamos, portanto, em condições de complementar o que já tínhamos dito sobre a situação do país em Maio passado [2]. Usamos dados do Eurostat e do INE excepto quando expressamente citada a fonte. A nossa análise versará os seguintes temas:
    
1 – Contas Públicas: Défice Orçamental (DO) e Dívida Pública (DP)
2 – Estado da Economia: PIB, Produção, Investimento e Lucros
3 – Desemprego e Outros Indicadores de Desastre Social
    
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1 – Contas Públicas: Défice Orçamental (DO) e Dívida Pública (DP)   
Recordemos que foram os elevados DO e DP, conjuntamente com os elevados juros de serviço da dívida através de obrigações do Tesouro, exacerbados pelas agências de rating de risco obrigacionista, que levou à intervenção da troika nos moldes aceites pelo PS e PSD/CDS.
    
No final de 2010, a três meses de assinar em Abril de 2011 o acordo de resgate no valor de 78 B€ (usamos B€ = bilião de euros = mil milhões de euros), o DO de Portugal era igual a 11,2% (do PIB). No final de 2014 estava em 7,2%. Tinha sido primeiro oficialmente colocado em 4% e depois revisto para 7,2% devido à injecção pelo Estado de fundos no BES-Novo-Banco. Portanto, embora inferior ao valor de 2010, regressou ao nível de 2011 (7,4%). Isto é, todos os sacrifícios e roubos impostos pelos governos do grande capital aos de menor rendimento tinham-se perdido e voltava-se ao princípio. Perdido devido às fraudes bancárias e outras, fraudes do grande capital. O valor anunciado para 2015 era primeiro de 2,7% e depois revisto para 4% devido ao «caso Banif». É provável que mesmo este valor seja optimista.
    
É claro que, em toada pré-eleitoral, o PSD, o CDS, e os seus proxies na comunicação social, não se cansaram de cantar maravilhas sobre as contas públicas, estado da economia e questões sociais, atirando números para o ar totalmente irrealistas. Este é um aspecto muito conhecido e que não necessita aqui da nossa atenção
    
A DP depende dos DOs acumulados. No final de 2010 a DP portuguesa era de 96,2% (do PIB). A DP tem vindo sempre a subir e encontrava-se em 130,2% em 2014. Fontes do governo prevêem que esse será também o valor em 2015. Veremos…
    
Entretanto, conforme mostram os gráficos abaixo, a toada de optimismo da CE continua.
     
   
Há também dois aspectos que importa considerar, ilustrados pelo gráfico abaixo. Todos os países da zona euro (mesmo os não mostrados no gráfico) viram a sua DP aumentar a seguir à crise de 2008, com uma excepção: a Alemanha, que sistematicamente tem visto a sua DP a decair. Além disso, verifica-se que dois países tinham em 2010 uma DP superior à de Portugal e não foram alvo de resgates: a Itália e a Bélgica. A Itália tinha, inclusive em 2014, uma DP superior à de Portugal.
    
Estes dois aspectos revelam algo que temos vindo a assinalar em vários artigos desde o início do nosso blog: a UE e o euro serviram para enriquecer a Alemanha [3]; os que têm de «quebrar» para sustentar a Alemanha-França imperiais e seus proxies Áustria e Benelux são os do «elo mais fraco» [4].
        


   
2 – Estado da Economia: PIB, Produção, Investimento e Lucros
    
A figura abaixo à esquerda mostra o PIB real (isto é, a preços constantes). Verifica-se que ainda não recuperou da crise e está aparentemente ao nível de há 7 anos atrás. De facto, está ainda mais abaixo devido às disparatadas alterações nas regras de cálculo do PIB introduzidas em 2014 pelo Eurostat e de que já falámos em [5].
    
A curva a preto na figura abaixo à direita mostra os valores oficiais do crescimento anual do PIB real, com excepção dos anos 2015 e 2016, que são ainda previsões. A estimativa de 2015 deverá estar muito próxima do valor final. Quanto à de 2016 pode ter um erro importante [6]. Apesar de positiva a partir de 2014, a taxa de crescimento do PIB é muito baixa, como já explicámos em [2]. Quanto às curvas de previsão da CE vemos que a previsão a dois anos era demasiado optimista até 2013, um aspecto por nós apontado em artigos anteriores. A partir de 2014 as previsões da CE são bem mais convergentes com o valor final. Já toda a gente, incluindo o FMI, reconhece a estagnação das economias da UE e o risco de nova crise.
    
   

    
O valor produzido nas indústrias transformadoras também não recuperou da crise e está estagnado, conforme mostra a curva a vermelho da figura abaixo à esquerda. Efectivamente, o valor total produzido pelas empresas privadas do sector produtivo tem exibido uma tendência declinante até 2013.
    
Estas constatações não surpreendem, por duas razões: por um lado, o investimento em capital fixo (FBCF = Formação Bruta de Capital Fixo) tem declinado, com um ligeiro aumento nos últimos dois anos; por outro lado, a taxa de utilização da capacidade produtiva da indústria transformadora, que era de 80,5% antes da crise, tem estado estagnada em torno de cerca de 74% até ao 2º trimestre de 2014, registando um pequena subida até 77,4% no 3º trimestre de 2015.
       
    
O investimento e a utilização da capacidade produtiva estão em baixa porque o leit motiv do capital – o lucro – também está em baixa. Infelizmente, os dados globais sobre rendibilidade  e taxa de lucro das empresas não estão directamente disponíveis [7]. Entretanto, um estudo do BdP de Outubro de 2013 revelou que, de 2008 a 2012, a rendibilidade das empresas não financeiras tinha caído para metade, e com uma tal pressão financeira que os lucros em alguns sectores (como o da construção) não excediam os juros cobrados nos empréstimos [8].
   
Um sintoma de que a rendibilidade das empresas não tem melhorado desde 2012 é fornecido pelo elevado número de insolvências, que inclusive cresceu de 7,6% em 2015 face a 2014 [9].
    
Concluindo, ao contrário do que afirmam muitos políticos e comentaristas da Direita, a situação económica não registou qualquer melhoria sensível desde 2014. Isto, apesar da queda dos preços de combustíveis que, o mais provável, é não continuar por muito mais tempo (a própria Arábia Saudita começa a enfrentar sérios problemas com esta baixa).
    
Será que há razões para esperar uma melhoria? Mantendo as condições actuais (UE, euro, capitalismo neoliberal, etc.) pensamos que não. Pensamos que, pelo contrário, há razões para esperar uma pioria, conforme já assinalámos em Outubro de 2014 [10]. A nível global regista-se uma diminuição do comércio (a própria China se está a ressentir disso), o que afecta a nossa balança comercial que continua negativa. É afectada também pela nossa falta de produção para o mercado interno, como já temos comentado. Para dar um exemplo, em Outubro de 2015 importámos 1,3 B€ de alimentos, o que representou uma subida de 11% face a 2014! O quantitative easing do BCE, como já esperávamos tendo em conta o que aconteceu nos EUA e Japão, não tem tido uma contribuição substancial para incentivar a economia real. Com baixa taxa de lucro, a injecção de dinheiro no sector financeiro tem apenas contribuído para aumentar a especulação. Os sintomas de ameaça de crise começam a surgir por todo o lado, particularmente nos mercados bolsistas. Na primeira semana de Janeiro a Bolsa da China sofreu por duas vezes um crash que levou o governo a fechá-la por dois dias. No momento em que escrevemos estas linhas está a decorrer o Encontro de Davos (46.º Fórum Económico Mundial) que congrega os grandes bonzos da economia mundial, e a mensagem que daí provém é clara: o medo de uma nova crise pelo excesso de concentração do capital (pois é; é o Capitalismo Monopolista de Estado) em alguns activos que se abalados (e o abalo é fácil, porque se trata em grande parte de activos virtuais) podem provocar um movimento em massa de vendas ao desbararato, e ainda porque, ao contrário do que os bonzos dantes assumiam, reconhecem agora que a China não «é uma máquina de crescimento perpétuo».
     
    
3 – Desemprego e Outros Indicadores de Desastre Social
    
Um dos indicadores mais abusados, e que mais tem servido aos políticos e comentaristas da Direita para vender a mentirosa propaganda da melhoria da situação económica, é a taxa de desemprego, cujo gráfico é mostrado na figura abaixo.
    
   

A taxa de desemprego é, como facilmente se entende, o quociente entre a população desempregada e a população activa. Resta saber como se define desempregado. A definição usada pelo INE, Eurostat, etc., é esta: um indivíduo com idade entre os 15 e os 74 anos que, num período de referência (consideramos o ano), não tem trabalho remunerado nem qualquer outro, está apto e disponível para trabalhar imediatamente, e procura activamente emprego.   
    
Em 2014 a população activa (média) era de 5.224 mil indivíduos. Para uma taxa de desemprego de 14,5% o número de desempregados é de 5.224x0,145 = 757 mil indivíduos. Se a oferta de emprego se mantivesse constante, então a taxa de desemprego só poderia variar devido à diferença entre os que entram no mercado de trabalho e os que o abandonam por limite de idade. Podemos desprezar num reduzido intervalo de anos as variações demográficas, tanto mais que o intervalo de idades em causa é grande (dos 15 aos 74 anos). Se a oferta de emprego diminuir, aumentará o número de desempregados. Em Portugal, porém, um enorme número de desempregados vem perdendo a esperança de «procurar activamente emprego» e emigra. O número de emigrantes passou, assim, a constituir um bom estimador do aumento de desemprego. Concretamente, em 2015 emigraram, segundo fontes oficiais, 110 mil indivíduos. Se subtrairmos estes emigrantes aos 757 mil desempregados registados em 2014 ficam 647 mil desempregados no país o que corresponde a uma taxa de desemprego de 647/5224 = 12,4% que é precisamente o valor registado em 2014.
    
Na realidade, no gráfico acima, a desaceleração do aumento de desemprego e depois a sua diminuição não reflecte um aumento da oferta de emprego e concomitante diminuição do número de desempregados; reflecte, sim, o aumento brutal da emigração a partir de meados de 2011. Neste caso, as previsões aparentemente pessimistas da CE a partir de 2013 acabam por ser mais realistas: a CE não teve em conta a emigração. Portugal é hoje o 12.º país do mundo com mais emigração. De onde todos os anos saem dezenas e dezenas de cidadãos jovens e com boas habilitações que se tornam «refugiados» noutros países [11]. Além disso, apesar da emigração, o desemprego continua a crescer nas camadas jovens, na população dos 15 aos 24 anos: em Outubro de 2014 a taxa de desemprego neste grupo etário era de 31,8% e em Dezembro já era de 33,4%!!!
    
Para além do desastre económico, o desastre social em Portugal é enorme.
    
Para além do elevado desemprego e emigração, existem outros indicadores que documentam o espantoso nível de desastre social a que chegou Portugal. Apontamos aqui alguns dados que, embora noticiados, podem ter passado despercebidos:
    
a) A taxa de risco de pobreza tem vindo sempre a aumentar, situando-se actualmente, já depois de todas as transferências sociais, em 19,5%;
b) O Observatório da Pobreza é peremptório: um em cada cinco portugueses é pobre (2 milhões) e a pobreza tem aumentado (para 11%) na população empregada e na população idosa (para 14,5%);
c) 120 mil crianças têm fome permanente (mais 35 mil que em 2012 [12]); 2 milhões e 750 mil portugueses passam fome permanente durante a semana e 1,5 milhões não conseguem obter uma refeição completa pelo menos um dia por semana;
d) 4,3 milhões vivem em privação material severa, com dificuldade, por exemplo, em pagar rendas em atraso, manter a casa aquecida, ou fazer uma refeição de carne ou de peixe de dois em dois dias;
e) O SNS está cada vez mais degradado (conforme já assinalámos em artigos anteriores), tendo ocorrido pelo menos uma morte em 2015 por falta de atendimento;
f) A corrupção tem vindo sempre a aumentar e ainda recentemente um inquérito da consultora Ernest & Young, sobre percepção de fraude e corrupção em 38 países, colocava Portugal na quinta posição dos mais corruptos, abaixo da Croácia, Quénia, Eslovénia e Sérvia, mas acima da índia, Ucrânia, África do Sul, Nigéria, Grécia, Egipto, Turquia e Rússia [13].
    
Referências
[3] «A União Europeia e o Euro serviram para enriquecer a Alemanha» é o título de um artigo de Eugénio Rosa publicado em: http://resistir.info/e_rosa/ue_alemanha_31jan15.html. Contudo, desde Setembro de 2012 que temos vindo precisamente a tocar nessa tecla com base em dados objectivos.
[6] Banco de Portugal piora estimativas de crescimento até 2017, 09/12/2015: «O Banco de Portugal piorou as estimativas de crescimento económico para este ano, para 1,6%, e até 2017, admitindo um "grau de incerteza particularmente elevado" na projecção devido à inexistência do Orçamento do Estado para 2016.» http://www.sapo.pt/noticias/banco-de-portugal-piora-estimativas-de_566828b6ce68572130141eea
[7] No INE e no Eurostat estes dados estão muito sectorizados. A Ameco, spin-off do Eurostat, tem dados mais trabalháveis que contamos utilizar em próximo artigo.
[8] Nota de Informação Estatística, BdP, 21 de Outubro de 2013; Sara Antunes, Rendibilidade das empresas portuguesas cai para metade em seis anos, 21 de Outubro de 2013, Jornal de Negócios,
[9] Estudo da Ignios divulgado no JN de 19/01/2016.
[11] Alexandra Campos, Portugal é o 12.º país do mundo com mais emigração, Público, 28/10/2015.
[12] Estes e outros dados de interesse são de http://euacuso.blogs.sapo.pt/tag/fome . O autor cita o BACF - Banco Alimentar Contra a Fome.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

E depois do Capitalismo Monopolista de Estado?

O título acima é o de um recente artigo de Zoltan Zigedy (pseudónimo de Greg Godels) que reputamos de grande interesse, cuja tradução apresentamos abaixo com a permissão do autor.
   
Nele se analisa a visão do actual capitalismo «avançado» expressa pelo economista político Robert Reich, que foi membro das administrações norte-americanas de três presidentes (Gerald Ford, Jimmy Carter e Bill Clinton; neste último, como equivalente a Ministro do Trabalho) e pelo economista keynesiano Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia. Visão semelhante à do keynesiano Joseph Stiglitz, também Prémio Nobel, preocupada com o crescente aumento da desigualdade social, analisada em detalhe pelo economista Thomas Piketty, autor do recente e discutido livro O Capital no Século XXI.
   
Já em Agosto de 2013 tínhamos recomendado a leitura dos artigos de Zoltan Zigedy, escritor, activista e estudioso atento do marxismo-leninismo. O endereço do respectivo blog é: http://zzs-blg.blogspot.pt/. Os seus artigos também se encontram num portal de muito interesse já por nós citado: http://mltoday.com/ . Na nossa tradução usámos a versão do artigo constante neste portal.
   
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E depois do Capitalismo Monopolista de Estado?
   
Zoltan Zigedy, 20 de Dezembro de 2015
   
Poucos artigos de revisão satisfazem tanto quanto a análise recente feita por Paul Krugman do novo livro de Robert Reich, Salvando o Capitalismo: Para os Muitos, Não para os Poucos, na New York Review of Books (17 de Dezembro de 2015). Desde logo, é gratificante deparar com a crua franqueza por detrás do título do livro de Reich. “Salvando o Capitalismo” seguramente implica que o capitalismo está sob sentença de morte – em risco de expirar – uma implicação em que acredito e saúdo.
   
Robert Reich, Paul Krugman, e outro colega, Joseph Stiglitz, partilham trabalhos académicos de elevado nível em Economia e constituem o triunvirato da Esquerda não-marxista nos EUA. Embora não concordem em tudo, têm em comum um conjunto nuclear de convicções sobre a viabilidade do capitalismo e a respectiva necessidade de reforma. É fora do habitual depararmos com Krugman e Reich a sugerir uma tão flagrante urgência.
   
A urgência sentida tem a ver com o crescimento dramático da desigualdade económica nos maiores países capitalistas, particularmente nos EUA. Krugman salienta que a desigualdade era uma questão que Reich e ele “já consideravam seriamente” há vinte e cinco anos atrás. Isso pode ser verdade, mas penso que nenhum deles estava a tomar a desigualdade a sério, como uma característica estrutural do capitalismo, até aparecer a importante obra de Thomas Piketty dois anos atrás.
   
Krugman conduz-nos numa viagem intelectual, expondo de forma clara e em termos não técnicos como ele, Reich e outros economistas não marxistas modificaram a sua compreensão das causas do crescimento da desigualdade (não simplesmente a desigualdade, mas o seu crescimento) nas últimas várias décadas. E a conclusão a que Krugman chega não pode deixar de supreender: Krugman, sem dúvida sem se dar conta, descreve um capitalismo evoluído que se parece com o capitalismo que os marxistas já descreveram há bem mais de meio século atrás.
   
Há umas décadas atrás os economistas convencionais, liberais, acreditavam que a crescente desigualdade nos EUA provinha de uma fraca adequação dos requisitos tecnológicos às competências dos trabalhadores – aquilo que Krugman denomina de “mudança tecnológica baseada nas competências” (MTBC). A educação era vista como a grande niveladora, restaurando a riqueza e o rendimento dos que se situavam atrás. Mas, com a correlação entre nível de educação e nível salarial actualmente desfeita, todos rejeitam a MTBC como explicação adequada e como a chave para parar o crescimento da desigualdade. O aumento de licenciados endividados a trabalhar em call centers sem dúvida alguma destrói essa ilusão. Ou, tal como Krugman argutamente observa: “… os gestores de fundos especulativos e os professores do ensino médio possuem níveis semelhantes de formação”.
   
Entretanto, os economistas recaíram num outro exemplo tecnológico: os robots e outros dispositivos de melhoria da produtividade a substituir trabalhadores. Contudo, Krugman rapidamente afasta esta explicação:
   
… se estamos a viver uma revolução tecnológica guiada por robots,  então porque razão o crescimento da produtividade parece estar a declinar em vez de acelerar?
... se se estivesse a tornar mais fácil substituir trabalhadores por máquinas, teríamos assistido a um aumento de investimento nos negócios com as corporações numa corrida para obter vantagens das novas oportunidades; não assistimos a isso e de facto as corporações estão cada vez mais a parquear os seus lucros nos bancos ou a usá-los para recomprar acções.
   
Portanto, Krugman rejeita a explicação tecnológica como causa do aumento da desigualdade.
   
Em vez disso, incita-nos a considerar o argumento central do estudo de Reich: o poder dos monopólios.
   
Segundo Krugman e Reich, é a concentração do poder económico nas mãos de alguns agentes corporativos que explica o aumento da desigualdade económica: “... é sumamente óbvio que a nossa economia consiste muito mais de monopólios e de oligopolistas, do que de competidores atomistas em guerra de preços, tal como os economistas muitas vezes perspectivam.”
   
Então, porque razão levaram Reich e Krugman tanto tempo a chegar a esta conclusão, a um lugar já visitado por Lénine há mais de cem anos atrás? Os economistas marxistas Paul Baran e Paul Sweezy devotaram todo um livro ao capitalismo monopolista há cerca de cinquenta anos atrás.
   
Krugman atribui apologeticamente – “um erro intelectual e político” – o desprezo da economia convencional pelos monopólios a um artigo influente escrito por Milton Friedman em 1953, no qual são enfaticamente rejeitados os efeitos do poder dos monopólios como tendo algum significado no comportamento económico. Em consequência, os economistas não marxistas e os seus aliados políticos escarneceram do conceito do poder dos monopólios até recentemente, um conceito que os marxistas erigiram em peça central das suas análises durante a maior parte do século vinte. Aquilo que é agora “sumamente óbvio...” faz actualmente parte das teorias abraçadas pelos nossos reformadores inclinados à esquerda.
   
Além disso, Krugman e Reich revelam uma outra ligação crucial – a que existe entre o poder económico (o poder dos monopólios) e o poder político (“E isto amarra a questão do poder dos mercados ao poder político”). Eles vêem o poder dos monopólios como sustentado, protegido e expandido pelos actores políticos. Juntamente com isso, vêem também os actores políticos como seleccionados, alimentados e orientados pelo poder dos monopólios. Tudo isto cria um busílis perturbador para os que procuram reformar o capitalismo. O busílis de Reich, segundo as palavras de Krugman, é:
   
A riqueza crescente dos fulanos do topo aumenta-lhes a influência política através de contribuições para campanhas, grupos de pressão, e recompensas de porta giratória. A influência política por sua vez é usada para reescrever as regras do jogo – leis anti-trust, desregulação, alterações em leis contratuais, dar cabo dos sindicatos – de uma forma que reforça a concentração do rendimento. O resultado é uma espécie de espiral, um círculo vicioso da oligarquia.
   
Pondo de lado as metáforas altissonantes de círculos e espirais, a afirmação acima captura razoavelmente bem o mecanismo por trás da formação socio-económica que os marxistas denominam de Capitalismo Monopolista de Estado. Para os marxistas, a concentração gera necessariamente capitalismo monopolista, o qual subsequentemente se funde com o Estado, criando uma síntese mutuamente reforçadora. O Estado governa no interesse do capitalismo monopolista, ao mesmo tempo policiando o terreno económico de forma a maximizar a viabilidade e o sucesso do capital monopolista.
   
O capital monopolista legitimiza o Estado e selecciona e impõe os seus supervisores. Nada demonstra melhor esta intimidade do que os resgates das crises das mega-corporações (“demasiado grande para ruir”) e o estabelecimento crescente de corpos governantes internacionais e de acordos de comércio. Nada demonstra melhor o domínio político do capital monopolista do que o papel decisivo do dinheiro das mega-corporações nos procedimentos políticos do sistema de dois-partidos.
   
Com o reconhecimento da ligação vital entre o capital monopolista e o Estado, Krugman e Reich atingem uma compreensão que segue a par da dos teóricos marxistas que caracterizaram a era pós Segunda Guerra Mundial como sendo a era do Capitalismo Monopolista de Estado. Ainda que alguns aspectos da caracterização tivessem sido e são algumas vezes disputados (ver, por exemplo, Y. Varga, Politico-Economic Problems of Capitalism, 1968), a maioria dos marxistas, no que respeita a esta importante questão, acolheria entusiasticamente os dois economistas no seu campo.
   
Mas, ao contrário dos marxistas, que vêem no derrube do capitalismo a resposta final ao casamento do poder dos monopólios com o poder político, Krugman, Reich e os seus colegas liberais e sociais-democratas permanecem com o busílis que resulta inescapavelmente das suas conclusões sobre a causa da desigualdade. As reformas económicas que perspectivam para retardar o crescimento da desigualdade são totalmente bloqueadas pelo poder político que massivamente se congrega contra eles. E esse poder político agrega-se contra reformas porque o poder político é uma aquisição paga pelo poder dos monopólios. Por outras palavras, as conclusões a que chegaram confirmam que os monopólios detêm o processo político trancado e que essa tranca assegurará que os monopólios continuem a crescer conjuntamente com a desigualdade.
   
Krugman reconhece claramente o busílis e lança sérias dúvidas acerca da mirada saudosa de Reich para o passado, de fé numa solução do tipo New Deal, que irá emergir magicamente do “populismo” amorfo dos candidatos de ambos os partidos (ele menciona Ted Cruz!).
   
Claro que Krugman tem razão ao rejeitar a resposta nostálgica de Reich, mas também não oferece qualquer alternativa.
   

Concluímos dizendo que o crescimento da desigualdade só pode ser parado quando o programa de salvação do capitalismo for posto de lado por um programa que vigorosamente conteste o sistema capitalista. Esperemos que Krugman e Reich cheguem futuramente à mesma conclusão.