sábado, 6 de dezembro de 2014

Marxismo e Ciência. IV – Dialéctica

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Times change, as do our wills,
One's being and assurance change;
All the world is made of change,
Forever attaining new qualities.

We constantly see new things
Differing in all from our hopes;
Of  evil, we remember the pain,
And of good, if any, the yearning.

Time covers the ground with a green cloak,
Once covered by freezing snow,
Converting my sweet songs into laments.

And besides these endless changes,
A more astonishing change it does:
It does not change anymore as it used to do.

Soneto de Luís de Camões (séc. XVI)
Ouvir a versão cantada do soneto, por José Mário Branco, em:
Listen to the song version of the sonnet, by José Mário Branco, in:

Na canção o seguinte refrão foi acrescentado:
E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança.
The following refrain was added to the song:
And if all the world is composed of change
Let’s change its pace since the day is still young.

A dialéctica dos antigos gregos
   
    O soneto acima de Luís de Camões transmite, de forma brilhante, o pensamento dialéctico dos antigos filósofos gregos. Estes impressionaram-se pelo facto de se encontrar por toda a parte a mudança e o movimento. O filósofo pré-socrático Heráclito de Efeso (535 a.C.-475 a.C.), chamado o «pai da dialéctica», considerava que «tudo flui», «tudo se move». Por outras palavras, segundo Heráclito não é possível conceber-se a matéria em repouso absoluto. A matéria está sempre em movimento e mudança, algo que cada vez mais a física moderna comprova. É claro que a Heráclito faltava o conhecimento científico que agora temos. As suas opiniões eram simples conjecturas luminosas, baseadas nas observações do mundo que o rodeava. É famosa a sentença atribuída a Heráclito de que «ninguém entra no mesmo rio duas vezes» exprimindo a constante mudança da natureza. Heráclito também defendia a «unidade dos contrários», afirmando que «o caminho para cima e o caminho para baixo são o mesmo caminho». Dizia ainda que o devir, a mudança que acontece em todas as coisas é sempre uma alternância entre contrários: coisas quentes esfriam, coisas frias aquecem; coisas húmidas secam, coisas secas humedecem, etc. A realidade surge, então, não em uma de duas alternativas isoladas, já que ambas são parte de uma mesma realidade, mas sim assente na mudança, por exemplo «a doença faz da saúde algo agradável e bom», ou seja, se não houvesse a doença a saúde (o contrário) não poderia ser valorizada.
    É neste sentido, da não existência de categorias fixas e imutáveis numa natureza em perpétua evolução, que consideramos a «dialéctica». Existem outros significados do termo que aqui não nos interessam. De uma forma muito genérica podemos dizer que a dialéctica se interessa pela dinâmica evolutiva do universo, incluindo, no nosso planeta Terra, a evolução dos seres vivos e a história e relações internas das sociedades humanas.

O materialismo metafísico
   
    Com o nascimento das ciências da natureza a partir do século XVII a tradição do pensamento dialéctico extingue-se. E extingue-se por uma boa razão: todos os pioneiros nas diversas áreas do conhecimento da natureza -- física (Newton, Galileu, etc.), astronomia (Galileu, Kepler, Herschel, etc.), química (Boyle, Lavoisier, Scheele, etc.), zoologia e botânica (Lineu, Buffon, Jussieu, Mendel, etc.), anatomia (Vesalius, etc.), geologia (Saussure, Hutton, etc.), paleontologia (Alberto da Saxónia, Cuvier, etc.) – viram-se obrigados a desenvolver o conhecimento da sua área de estudo decompondo fenómenos e objectos complexos em componentes simples, categorizáveis, catalogáveis, obedecendo a leis determinísticas e inalteráveis.
    Tudo isto conduziu a concepções de imutabilidade e de existência de «absolutos» na natureza. O espaço e o tempo eram considerados absolutos, dados para todo o sempre e independentes da realidade material. O magnetismo, separado da electricidade. As órbitas dos corpos celestes, inalteráveis. Os seres vivos, sempre os mesmos e isolados uns com os outros. Continentes e oceanos, formados na origem da Terra e mantendo-se praticamente inalterados, aparte pequenas variações de detalhes.
    Esta atitude metafísica da ciência permaneceu até meados do século XIX. Usamos aqui o termo «metafísica» (um termo com muitos significados dentro da filosofia) como designando a atitude anti-dialéctica. A atitude de quem concebe os objectos e fenómenos como categorias imutáveis, independentes e separadas umas das outras. Notemos o «só»: na atitude dialéctica não há nada de errado em estudar fenómenos e objectos isoladamente; desde que estejamos conscientes das suas inter-relações e da sua dinâmica evolutiva a cujo estudo haverá que proceder.
    Conforme diz Politzer ([1]), a atitude metafísica encontrava-se «por exemplo, no estudo da zoologia e da botânica. Porque não se conheciam bem, classificaram-se, primeiro, os animais em raças, espécies, pensando que entre elas não havia nada de comum e que fora sempre assim [...] É daí que vem a teoria a que se chama fixismo” (que afirma, contrariamente ao "evolucionismo", que as espécies animais foram sempre o que o, que nunca evoluíram)».
    Uma área do conhecimento que teve grande influência na atitude metafísica foi a mecânica. A mecânica dominou durante muito tempo o pensamento dos físicos [2]. No século XVIII e até meados do século XIX, físicos e matemáticos, como por exemplo Lagrange e Laplace, desenvolveram a mecânica e, em particular, a mecânica celeste, erguendo-a a um nível muito elevado de sofisticação, que permitiu, nomeadamente, calcular as órbitas dos planetas conhecidos com grande precisão. A culminar este enorme esforço a mecânica celeste conseguiu prever a existência, a massa e a órbita de um planeta na altura desconhecido – Neptuno – a partir das perturbações que esse ainda desconhecido planeta induzia na órbita de Urano. Uma espantosa proeza que solidificava a ideia de imutabilidade do universo. O materialismo -- que é sempre baseado na ciência --, era, muito naturalmente, dominado nessa época pelo pensamento metasico, mecanicista.
    O universo surgia, assim, como um grande relógio, um sistema mecânico posto em movimento por Deus na origem do tempo. As suas mudanças eram cíclicas e perfeitamente conhecidas, não se lhe aplicando o que dizia Luís de Camões: «Que não se muda já como soía.»

As descobertas científicas a partir de meados do século XIX
    
    A partir de meados do século XIX começaram a surgir uma série de descobertas científicas que vieram enterrar definitivamente a atitude metafísica, imobilista e fixista da ciência. Vejamos algumas, sucintamente:
   
A termodinâmica e a  transformação da energia
    Sadi Carnot (1824), Clausius (1850), e outros, estudam as transformações de energia calorífica em energia mecânica e vice-versa. A motivação destes estudos, ditos de termodinâmica, que prosseguem ao longo de todo o séc. XIX, constitui uma boa ilustração da influência do desenvolvimento das forças produtivas (neste caso, as máquinas a vapor da primeira revolução industrial) no progresso científico. Mais tarde, outros tipos de transformação de energia são descobertos, como a transformação de energia electromagnética em calor e em movimento. Não é mais possível considerar isoladamente as diferentes formas de energia. No universo, elas estão sempre a converter-se uma na outra.
O electromagnetismo
    Faraday (1840), Maxwell (1861), e outros, descobrem a relação entre campos eléctricos e magnéticos em movimento. A luz e outras radiações surgem como oscilações de campos electromagnéticos. A electricidade e o magnetismo deixam de estar separados. Mais tarde, com Einstein (1905), a interdependência entre campos eléctricos e magnéticos é ainda explicada a um nível mais profundo, relativista. Faraday, nos seus trabalhos de electroquímica, mostra também a existência de relações profundas entre a física e a química.
A teoria atómica
    Praticamente até aos trabalhos de Dalton (1799) a existência de átomos era pura conjectura. Só com Dalton, Thomson (1802), Rutherford (1911), e outros, nasce a teoria atómica e a existência de átomos e moléculas é comprovada. (Actualmente, é inclusive possível ver alguns deles). A tabela periódica dos elementos é descoberta por Mendeleiev (1869), contribuindo para a fusão entre física e química. Além disso, os átomos e suas partículas elementares (electrão, protão, etc.) permitem pela primeira vez uma visão integrada do universo, do mundo microscópico ao macroscópico:
partículas à
átomos à
moléculas à
planetas, estrelas à
galáxias

polímeros, proteínas à
células à
seres vivos

    Esta visão da interligação de todas as partes constituintes do universo é também característica da visão dialéctica.
    As descobertas, já no século XX, da astronomia e da cosmologia, vieram conferir um grau superior de solidez e comprovação experimental das teorias científicas de uma enorme quantidade de processos dinâmicos (dialécticos) ligando o micromundo ao macromundo (formação das estrelas e de sistemas solares, teoria do big-bang, etc.). As descobertas da física liquidam os «absolutos»: espaço, tempo, e determinismo absolutos deixam de existir.
A descoberta da célula viva e o desenvolvimento da biologia celular
    Em 1839 Schwann e Schleiden estabelecem o princípio de que plantas e animais são constituídos por células, unidade comum da estrutura e desenvolvimento dos seres vivos. Em 1855 Virchow mostra como as células derivam de outras pré-existentes através de divisão celular. Nasce a biologia celular que acaba com o «fixismo» de espécies vivas estranhas umas às outras.
Geologia, paleontologia e selecção natural
    Em 1785 Hutton propõe uma teoria sobre a formação da Terra, envolvendo a sua contínua mudança, com os processos de erosão e sedimentação, originando novas rochas. Defendeu também que a Terra era muitíssimo mais antiga do que se julgava. Desenvolve-se o estudo dos fósseis que permite uma leitura cronológica da evolução da Terra. Darwin e Wallace estabelecem em 1858 a teoria da selecção natural que explica a evolução das espécies, incluindo a espécie humana. A teoria da selecção natural está hoje assente em bases sólidas e os seus êxitos teóricos e experimentais são diários [3]. Conseguiu-se, inclusive, explicar o desenvolvimento evolutivo, por selecção natural, de estruturas vivas muito complexas, como o olho ([4]). O «criacionismo» metafísico é definitivamente enterrado e só sobrevive entre fanáticos religiosos (ou ignorantes). Alfred Wegener, em 1920, propõe a teoria da deriva dos continentes que veio a ser colocada em bases sólidas por estudos de magnetismo terrestre, sismologia, etc. O nosso próprio planeta é uma demonstração impressionante da dialéctica.
*    *    *
    Em meados do século XIX subsistia um único domínio do conhecimento impermeável à atitude materialista e dialéctica das ciências da natureza: a estrutura e a evolução das sociedades humanas, isto é, a sociologia e a história. Revelava-se mais fácil ao Homem (qualquer ser humano, homem ou mulher) estudar/compreender o mundo que lhe era exterior, do que o seu próprio «mundo». É que neste caso ele é não apenas o sujeito que estuda; é também o objecto do estudo.
    Coube a Karl Marx e Friedrich Engels -- filósofos por formação, mas auto-didactas em economia, história e outros domínios do conhecimento --, construir a teoria científica que faltava e que veio a denominar-se de materialismo histórico. Nessa construção usaram as ideias de dialéctica ressuscitadas pelo filósofo idealista alemão F. Hegel, bem como os conhecimentos que tinham das ciências da natureza do seu tempo. Em particular, Engels, tinha um conhecimento muito substancial das ciências do seu tempo, que transmitiu na sua obra A Dialéctica da Natureza, justamente apreciada por cientistas de profissão ([5]).
    
Dialéctica materialista
   
    Ao mecanicismo que permeou o materialismo das ciências da natureza até meados do século XIX, sucedeu uma visão de interligação de todas as partes constituintes do universo (em vez da visão metafísica de entidades totalmente separadas), de perpétuo movimento em tudo o que nos rodeia, de saltos evolutivos, visão essa que inspirou o materialismo dialéctico. Muitos cientistas não marxistas não usam o termo «materialismo dialéctico» quer por desconhecimento quer por estar politicamente conotado. Usam outros termos em substituição, como por exemplo «realismo evolutivo», «dinâmica de sistemas [materiais]», etc.
    Marx e Engels foram buscar os princípios dialécticos ao idealista Hegel (então muito em voga na Alemanha), dando-lhes um suporte materialista. Ao mesmo tempo que Marx e Engels, também um operário auto-didacta alemão, Josef Dietzgen, aplicou princípios dialécticos na sua visão materialista do mundo e das ciências ([6]).
    É desta dialéctica, que tem por suporte o materialismo, que vamos falar, expondo sucintamente três dos seus princípios mais importantes ([7]): a transformação da quantidade em qualidade; a unidade dos contrários; a negação da negação. Desde já, uma chamada de atenção. Engels, e outros ([8]), designaram por «leis» aquilo que aqui designaremos por «princípios»; isto é, constatações de grande generalidade, embora de universalidade e de condições de aplicabilidade não demonstráveis. Fazemo-lo por três razões:
    
    1) A palavra «lei» tem, em ciência, um significado bem mais estrito e rigoroso do que as «leis» da dialéctica. Uma lei estabelece relações entre determinadas entidades, de forma a permitir um dado tipo de predição de ocorrência de umas em função de outras, desde que satisfeitas determinadas condições explícitas ([9]). Ora, as «leis» da dialéctica não fixam condições e o tipo das predições (caracterização funcional determinística ou estatística) não é conhecido.
    
    2) A ideia de «lei» da dialéctica ou «lei» do materialismo dialéctico tem servido para justificar todos os abusos decorrentes de interpretar o materialismo dialéctico como uma meta-ciência, um dogma, que prevalece sobre a ciência, determinando a validade de uma teoria científica. (Já vimos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/06/marxismo-e-ciencia-ii-materialismo.html que o materialismo dialéctico não é uma ciência, mas sim uma metodologia de análise da realidade. Ver também [10].)
    
    3) Engels, que escreveu abundantemente sobre a dialéctica e o seu papel na ciência, diz assim a propósito de um dos princípios da dialéctica (no Anti-Dühring) (itálicos nossos):
   
«Assim, quando Marx qualifica tal processo de negação da negação não pensa provar, por este meio, a sua necessidade histórica. Muito pelo contrário: só quando provou pela história que, de facto, o fenómeno já parcialmente se produziu e parcialmente deve ocorrer no futuro, ele, para além disso, caracteriza-o como um processo que se desenvolve segundo uma lei dialéctica bem definida
   
    E acrescenta:
   
«A falta total de conhecimento da dialéctica por parte do senhor Dühring é revelada exactamente pelo facto de que ele encara-a como um mero instrumento de prova, tal como uma mente limitada encararia a lógica formal ou a matemática elementar.»
   
   Segundo estas afirmações, Engels não encararia a dialéctica (e, em consequência, o materialismo dialéctico) como um «instrumento de prova», como uma meta-ciência. De facto, como já dissemos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/09/marxismo-e-ciencia-iii-materialismo-e.html , é possível construir teorias explicativas materialistas e dialécticas, mas erradas. Também não é menos verdade que qualquer teoria científica é materialista – em ciência não há lugar para espíritos, divinos ou não – e, geralmente, acaba-se por constatar que muitas das teorias científicas se enquadram num quadro explicativo dialéctico.
    Mas Engels não é coerente. Nos textos sobre dialéctica usa a palavra «lei» (Gesetz) e diz mesmo no Anti-Dühring [11]:
    
«A dialéctica não é mais do que a ciência das leis gerais do movimento da natureza, da sociedade humana e do pensamento.»
        
  Ora, uma «ciência das leis gerais do movimento da natureza, da sociedade humana e do pensamento» é uma meta-ciência, uma «ciência de tudo», que tudo pode provar e validar. Curiosamente, noutro local do Anti-Dühring, Engels tinha afirmado que uma «ciência de tudo» é uma impossibilidade ([12]).

A) A transformação da quantidade em qualidade
    
    Segundo este princípio dialéctico, o acumular de alterações quantitativas acaba por desencadear uma brusca alteração qualitativa.
    A constatação deste princípio é bem conhecida dos físico-químicos, designadamente nas chamadas «transições de fases». Um exemplo trivial é a mudança de estado (gasoso, líquido, sólido) de uma substância -- portanto, mudança de qualidade porque mudança de propriedades físicas fundamentais -- por evolução quantitativa da temperatura, ou da pressão, ou de ambas. Outras transições de fase menos triviais resultam na formação repentina de novas estruturas atómicas, por variação de concentrações iónicas e do pH (diagramas de Pourbaix). Transformações da quantidade em qualidade são observáveis noutras ciências. Na biologia, por exemplo, é actualmente aceite que a acumulação de lípidos em protocélulas num ambiente competitivo conduziram ao salto do surgimento da célula viva.
    Abundam também os exemplos na história. Engels apresenta, como exemplo, o seguinte testemunho de Napoleão sobre os combates da cavalaria francesa, constituída por maus cavaleiros mas disciplinados, contra os mamelucos, os melhores cavaleiros do seu tempo no combate individual, mas indisciplinados: «Dois mamelucos eram, sem dúvida, superiores a três franceses; 100 mamelucos e 100 franceses equivaliam-se; 300 franceses normalmente superavam 300 mamelucos, 1000 franceses derrotavam sempre 1500 mamelucos.» Exemplos bem mais importantes são as transições entre sistemas socio-económicos: esclavagismo à feudalismo à capitalismo à socialismo. A história documenta abundantemente a existência de «pontos de ruptura» nestas transições, resultado da acumulação gradual de modificações num dado sistema socio-económico que desembocam, num salto em tempo curto, para outro sistema, como um vulcão que entra em erupção pelo acumular de pressão na câmara magmática. Chamam-se revoluções a tais saltos qualitativos.
    
B) A unidade dos contrios
    
    Este princípio vai contra a ideia de categorias separadas, absolutas, típica da visão metafísica que se pode enunciar como «uma coisa e a sua contrária nada têm de comum». Em contraposição, a visão dialéctica reconhece e presta atenção à existência de misturas de determinadas propriedades e suas contrárias em muitos objectos e fenómenos. Por outras palavras, reconhece que, em geral, não existem propriedades absolutas.
    Sobre a unidade dos contrários (ou das «contradições»), disse Engels (itálicos nossos, [13]):
   
«Se, na investigação, nos inspirarmos constantemente neste ponto de vista [dialéctico], deixa-se, de uma vez para sempre, de procurar soluções definitivas e verdades eternas; tem-se sempre consciência do carácter necessariamente limitado de todo o conhecimento adquirido, da sua dependência das condições nas quais foi adquirido; não mais nos deixamos iludir pelas antinomias, irreduveis para a velha metafísica sempre em uso, do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, do intico e do diferente, do fatal e do fortuito; sabe-se que estas têm apenas um valor relativo, que o que é conhecido agora como verdadeiro tem o seu lado falso escondido, que aparece mais tarde, assim como o que é actualmente reconhecido como falso tem o seu lado verdadeiro, graças ao qual de, anteriormente, ser considerado como verdadeiro.»
    
    Um exemplo importante é precisamente o da ciência como construção humana. Cada afirmação científica contém, em geral, uma certa dose de verdade e uma certa dose de «erro», de limitação da aplicabilidade da verdade. Pese embora que uma característica distintiva da ciência é a de que novas «verdades», com menor «erro», substituam as antigas «verdades». A ciência é, portanto, uma construção permanente de «melhores» verdades (com menos «erro»).
    Note-se o acima «em geral». É claro que existem inúmeras verdades triviais absolutas (p. ex., «a troika esteve em Portugal»), e mesmo na ciência ocorrem alguns (poucos) «absolutos». Por exemplo, não é possível baixar a temperatura de um corpo abaixo do zero absoluto (-273,15 ºC).
    
C) A negação da negação
    
    Comecemos por um exemplo (adaptado de J.B.S. Haldane, [5]). O do gelo, corpo sólido com as moléculas de água ocupando posições bem definidas no espaço. No gelo comum (fase 1h) as moléculas dispõem-se hexagonalmente e a sua densidade é de 0,917: o gelo 1h flutua na água. Se aquecermos o gelo até perto do ponto de fusão (0º C) as moléculas vão-se soltando progressivamente, numa mistura de contrários: sólido-líquido. Podemos dizer que o aquecimento provoca uma negação do estado sólido. Se nessa situação aplicarmos uma pressão elevada, de 6.000 atmosferas, obtemos uma outra fase do gelo, o gelo VI. Isto é, a aplicação da pressão corresponde a uma negação da negação: voltamos a obter uma fase sólida, eliminando a líquida. Acontece que a fase VI corresponde a um sólido bem mais resistente, em que as moléculas se dispõem num padrão tetragonal (mais apertado que o hexagonal). É também de maior densidade: 1,31. O gelo VI não flutua na água.
    Tal como neste exemplo do gelo, a negação da negação é observável em muitos processos evolutivos. Podemos dizer, informalmente, que na negação da negação ocorre uma primeira mudança de uma propriedade na sua contrária (negação); segue-se uma nova mudança em sentido inverso (negação da negação) que não repõe o objecto ou sistema no estado original (caso contrário a negação da negação, como nas evoluções cíclicas, não traria qualquer aporte evolutivo). Antes, o conduz a um outro estado, frequentemente de melhores características.
    A evolução das espécies vivas contém muitos exemplos da negação da negação. Por exemplo, sabe-se hoje com inteira certeza que há 375 milhões de anos um peixe (ictiostega), de pântanos e lagos pobremente oxigenados, evoluiu por pressão ambiental no sentido de desenvolver barbatanas dianteiras que lhe permitissem sair da água para se arrastar em terra. Como resultado desta «negação» águaàterra o ictiostega enfrentou dificuldades ao nível da respiração, da visão, e do controlo da temperatura corporal. Entretanto, novas pressões ambientais (e talvez outras) vieram pressionar o desenvolvimento de melhores adaptações da vida em terra (tiktaalik, acantostega) até aos primeiros anfíbios, animais de anatomia mais sofisticada, com pulmões e guelras, e boa visão, que além de viverem em terra firme puderam regressar à água (negação da negação).
    Na evolução histórica dos sistemas socio-económicos encontramos também inúmeros exemplos da negação da negação. O exemplo mais clássico é apresentado por Marx na seguinte sequência do Capítulo XXXII de «O Capital»:
   
«Verifica-se portanto que, na raiz da acumulação primitiva do capital, na raiz da sua génese histórica, está a expropriação do produtor imediato [negação], a dissolução da propriedade fundada no trabalho pessoal do seu possuidor [...] À medida que diminui o número dos potentados do capital [...] aumentam a miséria, a opressão, a escravatura, a degradação, a exploração, mas também a resistência da classe operária [...] O monopólio do capital torna-se um entrave para o modo de produção que com ele cresceu e prosperou [...] A socialização do trabalho e a centralização do seus recursos materiais chegam a um ponto que já não podem conter-se no invólucro capitalista. Este invólucro rebenta em estilhaços. A hora da propriedade capitalista soou. Os expropriadores são por sua vez expropriados [negação da negação].»
   
    Note-se que em escritos marxistas aparecem, por vezes, exemplos ingénuos da negação da negação. O próprio Engels tem culpa nisso. Apresenta no Anti-Dühring um exemplo da matemática, de uma grandeza a que negada dá –a, e depois, negada de novo por multiplicação por –a, dá a2. Superior a a. Acontece que a dialéctica só é aplicável a sistemas evolutivos e não às operações abstractas da matemática. A matemática, na sua versão «pura», está cheia de «absolutos»; como, por exemplo, o ponto sem dimensões. Além disso, ainda que armados de indulgência para com um exemplo meramente ilustrativo, verificamos que a multiplicação por –a é usada arbitrariamente por Engels para a segunda «negação». De facto, na matemática, não estamos em presença de nenhum processo físico evolutivo que imponha tal operação. Podíamos ter escolhido, também arbitrariamente, outra operação qualquer. Em suma, o exemplo surge como ilegítimo, infantil e manipulativo. O que não quer dizer que o Anti-Dühring não seja uma obra de interesse.
    
Utilidade da dialéctica
   
    Nas ciências da natureza o aporte actual da dialéctica é discutível. Vários cientistas, no passado, acharam-na de utilidade ([5]). Nos tempos de hoje, um cientista que não prestasse atenção à dinâmica dos sistemas que estuda e à interligação das várias áreas do conhecimento seria avis rara. Muitos cientistas, aliás, aplicam o materialismo dialéctico sem estarem conscientes disso. Um tanto como aquele personagem de Molière que descobriu que andava a falar há quarenta anos em prosa sem o saber. Assinale-se, entretanto, que mesmo hoje os princípios da dialéctica parecem ter um papel a desempenhar em algumas ciências da natureza, como na biologia, na genética e na ecologia, merecendo a atenção de cientistas prestigiados ([14]).
    Alguns cientistas das ciências da natureza negaram no passado valor à dialéctica e ao materialismo dialéctico. No caso melhor documentado que conhecemos, de um cientista não marxista, essa atitude deveu-se mais a uma errada interpretação do materialismo dialéctico ([15]) de que também muitos marxistas são culpados, e cujo erro fundacional foi já por nós referido: a ideia do materialismo dialéctico como meta-ciência. Há, obviamente, outros marxistas de sólida formação científica que têm combatido esta deturpação do materialismo dialéctico ([16-17]).
    A ideia do materialismo dialéctico como meta-ciência e método de prova, continua ainda, infelizmente, a ser sustentada por alguns que se reclamam de marxistas ([18]). Tem servido para motivar a rejeição liminar e até a ridicularização do marxismo por parte de muitos intelectuais e cientistas destacados com fraco ou nenhum conhecimento do marxismo (muitos, aliás, a priori hostis ao marxismo por posições de classe ou outras, não científicas). São, em especial, de rejeitar quaisquer «provas científicas» pretensamente obtidas por aplicação do materialismo dialéctico ([19]). O materialismo dialéctico não é uma meta-ciência, não é um dogma, não é uma gnose, nem um substituto do conhecimento científico, um substituto do conhecimento profundo das entidades e leis próprias de cada ciência, um substituto da análise da realidade.
    A dialéctica permanece de grande valor nas áreas da história e sociologia. É que, como dissemos acima, uma coisa é o Homem (qualquer ser humano, mulher ou homem) analisar o mundo que lhe é exterior, envolvendo sistemas e processos evolutivos que pode repetir ou observar. Outra coisa, inteiramente diferente, é o Homem que, digamos, «se analisa a si próprio». Mulheres e homens que se debruçam sobre a história das relações económicas e sociais, transportando em si uma carga ideológica e emocional, e vínculos formativos e sociais, que se podem intrometer na imparcialidade da análise, designadamente no «esquecimento» das realidades e dos porquês evolutivos. Sabemos bem como no capitalismo proliferam os historiadores e sociólogos ao serviço do sistema, da defesa do status quo, da metafísica capitalista. Sabemos bem como a divulgação de ideias no «mundo ocidental» é dominada por grandes empresas capitalistas, editoriais e jornalísticas, exercendo a censura por um método muito simples: omitindo «histórias» discordantes do «politicamente correcto». Sabemos bem como se cimentam, assim, determinadas visões do mundo, que aceitam complacente ou entusiasticamente a (des)informação daqueles que, como Fukuyama, dizem que a história acabou. Que não há alternativas. Que a evolução (a dialéctica) acabou e o capitalismo reinará para todo o sempre.
   Mas também na história e sociologia é preciso estar alerta e combater qualquer veleidade de transformação do materialismo dialéctico em meta-ciência. A sua transformação numa gnose situando-o acima da análise da realidade, usada meramente para «justificar» todas as perversões da praxis. Tivemos um retumbante exemplo disso com a implosão do «socialismo real» da URSS e dos outros países da Europa de Leste; implosão que desmentiu a «ciência» (meta-ciência) estalinista defendida como a «ciência» do «materialismo dialéctico» ([20]).
    
Referências
   
[1] Georges Politzer, Princípios Elementares da Filosofia, Ed. Prelo, 1974. Uma introdução didáctica das questões essenciais da filosofia e do materialismo dialéctico. O livro baseia-se nas notas das aulas de Politzer na Universidade Operária de Paris. O filósofo comunista Georges Politzer foi fuzilado pelos nazis em 1942 pelo crime de ser comunista e patriota, depois de meses de tortura. Foi entregue aos nazis pelo governo fascista e colaboracionista da França, dito de Vichy. O livro pode ser descarregado a partir de http://www.dorl.pcp.pt/index.php/outros-textos-de-divulgacao-do-marxismo-leninismo/3222-politzer-os-princpios-elementares-da-filosofia.
[2] Albert Einstein, Leopold Infeld, A Evolução da Física: De Newton até à Teoria dos Quanta, Edição “Livros do Brasil”, data de edição não mencionada (a edição original da Cambridge University Press é de 1938). Este livro contém uma excelente apresentação da concepção mecanicista da física e da sua transição para concepções posteriores (concepção de campo, de leis quânticas, etc.).
[3] A teoria da evolução das espécies por selecção natural constitui uma brilhante ilustração do materialismo dialéctico. Sobre este tema recomendamos vivamente os seguintes livros: Jerry A. Coyne, A Evidência da Evolução. Porque é que Darwin tinha razão, Tinta da China, 2012; Teresa Avelar, Margarida Matos, Carla Rego, Quem Tem Medo de Charles Darwin?, Relógio d’Água, 2004; Teresa Avelar, A Evolução Culminou no Homem? Progresso, Contingências, Catástrofes e Extraterrestres, Bertrand Editora 2010.
[4] Um artigo recente e interessantíssimo no tema é: Nick Lane, Chance or Necessity?, Bioenergetics and the Probability of Life, Journal of Cosmology, 2010, Vol 10, 3286-3304.
[5] Friedrich Engels, Dialéctica da Natureza, Editorial Presença (Portugal) e Livraria Martins Fontes (Brasil), 1974. Esta é a única tradução completa que conhecemos em português. Existem traduções em muitas línguas e acessíveis no Marxists Internet Archive (MIA). Entre os cientistas que reconheceram o valor da obra de Engels – dentro, é claro, das limitações da ciência do seu tempo --, citemos o físico japonês Shoichi Sakata (1911-1970) reconhecido internacionalmente pelos seus trabalhos pioneiros sobre os neutrinos e a proposta de um modelo nuclear precursor do modelo dos quarks. Sakata escreveu Philosophy and Methodology of Present-Day Science, Progress of Theoretical Physics (supplement), No. 50, 1971 (disponível do MIA), onde tece considerações interessantes sobre dialéctica e ciência. Tende, contudo, a «forçar a nota» quando sugere uma transposição directa das leis da natureza para as leis sociais. Outros cientistas com trabalhos de interesse no materialismo dialéctico e apreciações de Engels, são John B. S. Haldane (1892-1964), biólogo britânico conhecido pelos seus trabalhos pioneiros em genética e biologia evolutiva (ver Dialectical Materialism and Modern Science, Labour Monthly, 1941, MIA), John D. Bernal (1901-1971), cientista irlandês com trabalhos pioneiros no âmbito da cristalografia de raios X (ver Engels and Science, Labour Monthly Pamphlets, no. 6, MIA), e Anton Pannekoek (1873-1960) cientista holandês, pioneiro da astrofísica (ver Marxism and Darwinism, Charles H. Kerr & Co., 1912, MIA).
[6] Joseph Dietzgen (1828–1888) foi um operário curtidor alemão, depois pequeno empresário. Filósofo auto-didacta e jornalista, desenvolveu a noção de materialismo dialéctico em várias obras que escreveu. Militante socialista, veio a estabelecer um contacto estreito com Marx. Três das suas obras foram reeditadas em inglês: Nature of Human Brain Work: An Introduction to Dialectics, Left Bank Books, Reprint 1984; Philosophical Essays on Socialism and Science, Religion, Ethics; Critique-Of-Reason and the World-At-Large, Kessinger Publications, 2004; The Positive Outcome of Philosophy; The Nature of Human Brain Work, Letters on Logic, Kessinger Publications, 2007. Engels refere-se a Dietzgen nos seguintes termos no Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã (IV, pag. 128): «E esta dialéctica materialista, que era, de há anos, o nosso melhor meio de trabalho e a nossa arma mais afiada, foi, coisa notável, descoberta de novo, não apenas por nós, mas, além disso ainda, independentemente de nós e mesmo de Hegel, por um operário alemão, Josef Dietzgen».
[7] Para além das obras [1] e [5] as «leis» da dialéctica são apresentadas por Engels em: Anti-Dühring, Edições Afrodite, 1974, e Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Editorial Estampa, 1975. Marx também se lhes refere em «O Capital» (uma versão integral dos vols. I e II foi editada pela Delfos, com 7.ª edição de 1975). Ver também os seguintes trabalhos de Haldane e Bernal (MIA): J.D. Bernal, Engels and Science, Labour Monthly Pamphlets, No. 6 (sem data), the Trinity Trust, London; J.D. Bernal, Dialectical Materialism and Modern Science, Science and Society, Volume II, No. 1, Winter 1937; J. B. S. Haldane, Engels' Dialectics of Nature, Random House, 1939.
[8] Parece que Marx, mais cauteloso, não chegou a designar por «leis» os princípios do materialismo dialéctico.
[9] O dicionário de Oxford de 2005 define assim uma lei científica: «um princípio teórico deduzido de factos específicos, aplicável a um grupo ou classe bem definida de fenómenos, que se pode exprimir por uma asserção de que um dado fenómeno ocorre sempre que certas condições se verificam». Note-se a predição de ocorrência de um fenómeno se certas condições se verificam. Sabemos, da mecânica quântica (ver nosso artigo anterior) que as predições podem ser estatísticas, para além de determinísticas.
[10] Alguns autores assinalam que Marx e Engels nunca usaram a designação «materialismo dialéctico». Embora Engels tenha usado a expressão «dialéctica materialista» como vimos em [6]. Este aspecto não tem qualquer importância, dado que Marx e Engels defenderam, sem qualquer dúvida, o materialismo e a dialéctica materialista. (O termo «materialismo dialéctico», que estaria já certamente no ar, parece ter sido usado pela primeira vez em textos de Kautsky e Plekhanov.)
[11] A tradução portuguesa das Edições Afrodite (1974) coincide neste excerto com a tradução francesa e inglesa e reproduz bem o original alemão: Die Dialektik ist aber weiter nichts als die Wissenschaft von den allgemeinen Bewegungs- und Entwicklungsgesetzen der Natur, der Menschengesellschaft und des Denkens. (Noutras, muitas, passagens, a tradução das Edições Afrodite é péssima, exigindo constantemente o cotejo com o original e com traduções noutras línguas. Tanto quanto sabemos não existe uma tradução escorreita do Anti-Dühring em português. Lamentável!)
[12] «A percepção de que todos os processos da natureza estão sistematicamente ligados, impele a ciência a provar toda essa ligação sistemática, ao mesmo tempo no todo e nas partes. Mas uma descrição científica adequada e exaustiva dessa conexão, a construção de uma imagem exacta do sistema do mundo em que vivemos é e permanecerá para nós sempre impossível. Se num qualquer momento da evolução humana se construísse tal sistema definitivo das conexões de que o mundo se compõe -- físicas bem como espirituais e históricas -- isso significaria que o conhecimento humano tinha atingido o seu limite, e a partir do momento em que a sociedade estivesse organizada de acordo com tal sistema, teria acabado a evolução histórica -- o que seria um absurdo, um contra-senso.» Anti-Dühring, Parte I – Filosofia, Cap. III – Classificação- apriorismo.
[13] F. Engels, Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã (IV, pag.129).
[14] O livro The Dialectical Biologist («O Biólogo Dialéctico»), da Harvard University Press, 1985, é um de vários livros escritos por Richard Levins e Richard Lewontin defendendo a dialéctica como ferramenta metodológica na investigação em biologia. De assinalar também, dos mesmos autores, Biology Under The Influence, Dialectical Essays on Ecology, Agriculture, and Health, Monthly Review Press, 2007 e, de Levins, Evolution in Changing Environments, Princeton University Press, 1968, e Dialectics and systems theory, Science and Society, 62(3):373-399, 1998. Que saibamos o «O Biólogo Dialéctico» não está traduzido em português. Richard Levins é um ecologista matemático, professor na Universidade de Harvard, conhecido pelos seus trabalhos em evolução em mudanças ambientais e metapopulações. É marxista, tendo afirmado que a sua metodologia em mudanças ambientais era a mesma de «O Capital» de Marx. Está na lista negra do FBI. Richard Lewontin é um biólogo e geneticista, também professor em Harvard, pioneiro nos fundamentos matemáticos da genética de populações e na aplicação de técnicas da biologia molecular. Em 1979 Lewontin e Stephen Jay Gould introduziram o conceito de spandrel na teoria da evolução.
[15] Jacques Monod (1910-1976), prémio Nobel da Medicina, diz, por exemplo, o seguinte no seu livro O Acaso e a Necessidade (obra muito interessante, sobre o que é a vida e como surgiu, publicada pela Europa-América, 2.ª edição): «Por isso é particularmente revelador verificar que, querendo fundar nas leis da própria natureza o edifício das suas doutrinas sociais, Marx e Engels tenham recorrido, eles também [...] à “projecção animista”». Não é verdade que Marx e Engels tenham «querido fundar nas leis da própria natureza o edifício das suas doutrinas sociais». É verdade, sim, que quiseram e deram, pioneiramente, uma fundamentação científica das leis (e não «doutrinas») sociais; e que, ao darem essa fundamentação científica, se regeram por princípios metodológicos subjazendo a qualquer teoria científica, quer os seus construtores estejam disso conscientes ou não: o materialismo (existe uma realidade material independente do espírito e da existência do homem) e a dialéctica (não existe matéria sem movimento e evolução). Quanto à «projecção animista», esclarece Monod que «é a hipótese de que os fenómenos naturais podem e devem explicar-se, em definitivo, da mesma maneira pelas mesmas «leis» que a actividade humana subjectiva, consciente e projectiva». Nada poderia estar mais afastado do marxismo do que esta afirmação. Para os marxistas, nem as «leis» são as mesmas em todas as áreas de conhecimento humano, nem é o subjectivo que explica o objectivo, a matéria, mas exactamente o contrário (ver nosso artigo sobre o materialismo dialéctico). Muitas outras passagens do livro contêm erros colossais sobre o tema, como, por exemplo, «o materialismo dialéctico é um aditamento relativamente tardio ao edifício sócio-económico já erigido por Marx». Foi precisamente o contrário. Marx, como filósofo, começou por desenvolver o materialismo na sua forma dialéctica, aplicável à história, muitos anos antes de se ter voltado para as questões da economia (quando emigrou para Londres). Diz Monod a seguir. «Aditamento abertamente destinado a fazer do materialismo dialéctico uma “ciência” fundada nas leis da própria natureza». Já vimos o que há de errado nesta afirmação. O materialismo dialéctico não é ou poderia ser uma «ciência», e muito menos uma «ciência» «fundada» (tomada de empréstimo) nas leis da natureza, como expusemos acima. Em suma, Monod revela um conhecimento superficial do marxismo com preconceitos de parti pris.
[16] Erwin Marquit, professor de física na Universidade do Minnesota e conhecido marxista, diz o seguinte em Phylosophy of Physics in General Physics Courses, Science & Society, 42, pp.410-425, 1978, a propósito do materialismo dialéctico: «Um sistema filosófico não pode ser um substituto da ciência da física, mas pode servir como um guia metodológico para a investigação e exposição científica. O materialismo dialéctico não é um dogma e os materialistas dialécticos não reivindicam nenhum monopólio no acesso ao conhecimento científico».
[17] Peter Mason, físico marxista, diz assim no seu livro Science, Marxism and the Big Bang (Socialist Publications Ltd, 2007): «Na nossa discussão sobre cosmologia [...] não temos quaisquer ilusões que nós, como marxistas, possuímos, baseados no materialismo dialéctico, critérios prontos-a-usar pelos quais podemos julgar as teorias científicas».
[18] No livro de Peter Mason são apontados erros clamorosos de dois marxistas trotskistas proeminentes (Ted Grant e Alan Woods) num livro que publicaram sobre descobertas da física, desde a Teoria da Relatividade até ao big-bang. Chegam esses marxistas ao cúmulo de defender a visão metafísica de um universo infinito e no «estado estacionário», invocando a autoridade de, nem mais nem menos que... Nicolau de Cusa, teólogo e astrónomo alemão do século XV!!! Incrível, mas é verdade.
Note-se que não são apenas marxistas da corrente trotskista que cometeram erros neste particular. Poderíamos também apresentar inúmeros erros do mesmo tipo da corrente estalinista, designadamente na URSS no tempo de Estaline (ver [20]). Como o caso Lysenko, que rejeitou a genética «burguesa» (não materialista dialéctica) atrasando tremendamente os estudos soviéticos nesse campo, ou, de forma análoga, os atrasos que sofreram a cibernética e as ciências da computação na URSS pelo mesmo motivo.
[19] Engels caiu nesse erro na sua obra Dialéctica da Natureza, ao criticar duas grandes descobertas científicas do seu tempo: a 2.ª Lei da Termodinâmica e a interpretação puramente selectiva da Teoria da Evolução das Espécies de Darwin. Erros justamente apontados no livro, acima referido, de Jacques Monod.
Sobre a 2.ª Lei da Termodinâmica, diz Engels assim (Notas e Fragmentos. Física): «De qualquer modo que se nos apresente o segundo princípio de Clausius, etc., implica sempre que a energia de perde, qualitativamente ou mesmo quantitativamente. A entropia não pode ser destruída por via natural, mas por outro lado, pode ser criada. Deve ter-se dado em primeiro lugar corda ao relógio do universo [...] A energia para lhe dar corda desapareceu, pelo menos quantitativamente, e só pode ser restituída por uma impulsão vinda do exterior. Portanto a impulsão do exterior era igualmente necessária no princípio [...] Ad absurdum!» De facto, a 2.ª Lei da Termodinâmica não põe em causa a conservação da energia; a energia não «se perde». Apenas diz que, qualitativamente, as diversas formas de energia não são iguais (na interpretação termodinâmica clássica de Clausius, a energia térmica e a energia mecânica). Engels, contudo, vê bem a questão do «impulso inicial»; questão que tem atrapalhado a ciência até à actual teoria do big bang. Embora ainda não inteiramente resolvida, uma pedra angular da explicação reside no princípio da incerteza da mecânica quântica, relativamente à energia e ao tempo. É possível obter energia a partir do «nada» num tempo muito curto. Para mais sobre este assunto sugerimos: Lawrence Krauss, A Universe from Nothing. Simon & Schuster, 2012.
Sobre a teoria de Darwin, diz Engels assim (Notas e Fragmentos. Biologia): «É precisamente de Darwin o erro de misturar [...] duas coisas absolutamente estranhas: 1. A selecção por pressão da sobrepopulação [...] 2. A selecção graças a uma faculdade de adaptação maior [...]» De facto, as duas coisas não são «estranhas» uma à outra, mas complementares. Engels denota neste texto estar ainda muito influenciado por Malthus (o teórico da «sobrepopulação») e não ter compreendido bem a teoria de Darwin. Sobre este tema recomendamos o livro acima citado de Teresa Avelar et al., Quem Tem Medo de Charles Darwin?
Engels só cometeu estes dois erros na Dialéctica da Natureza. Em grande parte por limitações da ciência do seu tempo. Disse também muitas coisas acertadas, como esta que a física só posteriormente veio a confirmar: «No zero absoluto nenhum gás é possível. Todo o movimento das moléculas está parado. A menor pressão, portanto, a sua própria atracção aglomera-as. Portanto um gás permanente é um absurdo
Erwin Marquit, apesar da opinião que citámos acima, não nos parece isento de crítica. A propósito do paradoxo de Zeno, defende que a «solução» dialéctica é superior à solução apresentada por outros, por exemplo por Bertrand Russel (baseada no conceito de limite). Ora, a «solução» dialéctica de Marquit reduz-se à expressão da unidade dos contrários: «Podemos agora ver a vantagem de tomar a contradição básica do movimento mecânico de deixar uma região e entrar noutra [Parafraseia a formulação de Hegel de que um corpo num certo momento está aqui e não está aqui]. Ao não incluirmos posição definida como uma propriedade de um corpo em movimento, tomamos o movimento como propriedade fundamental da matéria». Quanto a nós, nenhum enunciado metodológico pode solucionar o que quer que seja e não é por dizermos que «o movimento é propriedade fundamental da matéria» que o paradoxo de Zeno fica solucionado e muito menos com «vantagem».
[20] Note-se que o trabalho de Estaline «Materialismo Dialéctico e Histórico» está bastante bem feito. Começa por dizer (sublinhados nossos) «O materialismo dialéctico é a visão do mundo do partido marxista-leninista. É chamado materialismo dialéctico porque a sua abordagem aos fenómenos da natureza, o seu método de os estudar e os apreender, é dialéctico, enquanto a sua interpretação dos fenómenos da natureza, o seu conceito desses fenómenos, a sua teoria, é materialista.», prosseguindo «O materialismo histórico é a extensão dos princípios do materialismo dialéctico ao estudo da vida social, uma aplicação dos princípios do materialismo dialéctico aos fenómenos da vida em sociedade; ao estudo da sociedade e da sua história.» Concordamos inteiramente com esta exposição. Note-se a menção de «método» e «princípios» como defendemos.
O problema é que, mais adiante no texto, Estaline deixa cair as palavras «método» e «princípios» e começa a usar «lei» («lei do desenvolvimento [dialéctico]», «desenvolvimento da sociedade de acordo com leis regulares», etc.). Ora, a dialéctica não tem «leis», com toda a carga definitiva e autoritativa que a palavra carreia, e as leis do desenvolvimento da sociedade estão muito longe de serem «regulares».
Além disso, no seu texto, Estaline intitula as secções (1) e (2), respectivamente, como «Método Dialéctico Marxista» e «Materialismo Filosófico Marxista». Ora, não existe nada, nem na dialéctica nem no materialismo, que seja exclusivo dos marxistas. Uma imensidade de pessoas segue exactamente a mesma atitude/filosofia materialista e dialéctica dos marxistas sem se posicionar como tal (nomeadamente no plano político).
Deslizes de pouca monta? Talvez não. A breve trecho, a «visão do mundo» materialista dialéctica passa na URSS a ser uma «ciência oficial» muito especial, só conhecida dos «marxistas» do PCUS. Os «cientistas» com capacidade de interpretar as leis da «ciência» começam por ser os membros do Comité Central do PCUS. Mais tarde, apenas o «cientista-mor» Estaline é proclamado como o depositário da correcta interpretação das «leis».

sábado, 29 de novembro de 2014

Imperialismo Hoje, predito há 15 anos | Imperialism Today, foreseen 15 years ago

Lemos recentemente um livro fascinante de João Varela Gomes (VG): Esta Democracia Filofascista (edição do autor, distribuição Terramar, Lisboa, 1999). VG discorre sobre vários temas relacionados com o bom acolhimento que as democracias burguesas «ocidentais» dispensam a fascistas e suas ideias. Notavelmente em Portugal, onde teve lugar em 1974-75 uma revolução «rumo ao socialismo». Um aspecto importante do livro é que as suas teses continuam actuais, com previsões confirmadas. De há 15 anos atrás. Em particular, no capítulo II intitulado «Imperialismo, Hoje».
  
O coronel Varela Gomes tem hoje 90 anos. Uma vida de luta pela liberdade do povo, de homem vertical que nunca se vergou ao fascismo nem ao capitalismo. Como capitão, comandou o histórico assalto ao quartel de Beja, em 1962, em pleno fascismo. A acção não teve êxito. Ferido gravemente, VG esteve entre a vida e a morte. Julgado pelo tribunal «Plenário» fascista em 1964, aí fez um depoimento de invulgar coragem. Contra a vontade do seu advogado, como disse a esposa: «ele foi para tribunal instigar que outros fizessem o que eles [VG e outros] tinham feito. Instigar à revolta». Passou seis anos de prisão maior com maus-tratos. A esposa, corajosa antifascista, também esteve presa. Com a Revolução de Abril, VG foi integrado no exército e teve acção destacada no processo revolucionário, designadamente na célebre 5.ª Divisão do EMGFA, o único apoio firme da revolução, do MFA. Afastado e perseguido pela contra-revolução do 25 de Novembro, VG nunca deixou de denunciar os contra-revolucionários, mormente os soaristas aliados à CIA. Figura incómoda do actual regime filofascista, VG tem denunciado certeiramente em livros, jornais e revistas, o imperialismo, o neoliberalismo e a venalidade de renegados e esquerdalhos. Tem também dado contribuições importantíssimas sobre a história da resistência e da revolução portuguesas, de que possui conhecimento profundo e testemunho pessoal. Os seus livros (todos excelentes!) tiveram de ser editados pelo autor ou por pequenas editoras amigas. VG foi homenageado em 2012 na Voz do Operário. Apraz-nos registar que a AOFA se lembrou dos seus 90 anos como «viçoso guerreiro, militante por uma sociedade igualitária e justa» (http://aofaportugal.blogspot.pt/2014/05/joao-varela-gomes-90-anosmuitos-amigos.html).
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Folheemos o «Imperialismo, Hoje», capítulo II do livro. VG começa por referir a desagregação da URSS e consequências disso na hegemonia imperial dos EUA, desmascarando de passagem a tese dos «dois imperialismos». Passando à agressão americana na Jugoslávia, diz assim: «Torna-se cada dia mais patente a semelhança do plano estratégico em curso, com a Mittelleuropa do sonho da expansão germânica, retomado por Hitler [...]: um só bloco económico estendendo-se desde o mar do Norte ao golfo Pérsico, enfeudando os estados e as nações que habitassem esse espaço vital (na concepção imperialista germânica). Provoca um frémito de terror constatar que a Croácia se tornou independente devido ao auxílio militar alemão (instrutores, equipamento, doutrina); com a recuperação dos ustachis (nazis croatas); a benção do Vaticano (segunda chancelaria a reconhecer o novo estado, logo a seguir à alemã); com a instauração de um regime de censura e partido único dirigido pelo sinistro Tudjman. Igualmente pavorosa foi a criação artificial de uma Bósnia muçulmana [...] hoje em dia, para todos os efeitos, um protectorado americano, exercido directamente por um procônsul born in USA.»
  
Mais adiante, uma previsão clara (há 15 anos atrás!) do que veio depois: «Pode com facilidade adivinhar-se qual a fase que se segue na expansão do domínio americano/Nato no flanco sul da Europa. Consolidado o protectorado, com o respectivo dispositivo militar de ocupação implantado até à Macedónia [...] a progressão para Este não encontrará obstáculos dignos de registo». VG prevê a fácil absorção da Roménia e Bulgária, para então dizer: «Depois fica em caminho o mítico objectivo do espaço vital hitleriano: a Ucrânia. Rendição aparentemente mais complicada, mas não o suficiente para deter a voracidade hegemónica imperialista. Já por lá passeiam, impunemente, pelas ruas de Kiev, os antigos colaboradores com o invasor nazi, ostentando fardas e braçadeiras com a cruz gamada.»
  
Seguem-se apreciações sobre a ONU -- «No presente quadro de ruptura do direito internacional -- com a ONU condenada a seguir o destino inglório da sua antecessora, a Sociedade das Nações; com a aceitação do princípio da agressão com fins humanitários (passe o paradoxo)» --, e sobre «onde se situam, que partido tomam os jornalistas, cronistas e opiniocratas em geral, incluindo os que manejam o discurso historiográfico» -- «Pois no sítio do costume, onde é que havia de ser! Ao lado dos poderosos, na sua função de cães de guarda do sistema, repetindo como papagaios a voz do dono [...] Alguns até querem ser mais papistas que o papa. Na ânsia de anunciar mortes e massacres, de exaltar as maravilhas destrutivas do aparato bélico americano, o poder mortífero dos soldados humanitários, tornam-se repulsivos, mesmo obscenos. (Ao espírito ocorre a imagem de funcionários nazis congratulando-se pela produtividade do último modelo de câmara crematória [...])».
  
Por fim, um olhar sobre os EUA -- «Ora, parece indispensável, em observação final, esclarecermo-nos um pouco sobre a identidade político-social da superpotência que actualmente domina os destinos do planeta, e, presumivelmente, continuará a fazê-lo pelas próximas décadas» --, desta forma:
  
«Um primeiro aspecto digno de realce envolve a tradição moralizante da acção diplomática dos EUA, numa pretensiosa postura de superioridade ética, fazendo gala dum ridículo puritanismo [...]. Ora, não pode haver contraste maior, contradição mais flagrante, que a que existe entre essa alienação moralista e a realidade brutal da formação histórica, de costa-a-costa da federação dos estados americanos do norte». Referindo várias guerras de agressão expansionista dos EUA até «à presente façanha, de hipocrisia refinada, da “agressão com fins humanitários”», VG recorda que os EUA «autoproclamados apóstolos dos direitos das minorias étnicas, nasceram e cresceram levando a cabo um dos mais terríveis genocídios (uma das mais completas «limpezas étnicas») da história da humanidade [...] mediante o extermínio cruel e sistemático da totalidade da população original ameríndia, da qual restam uns quantos exemplares, confinados em reservas como animais raros para exposição» para concluir «A realidade americana actual é filha e herdeira desse longo passado de massacres e violência, de ódio racial, da lei do mais forte, de pistoleiros à solta com licença para matar, de aventureiros ávidos de confisco, de apropriação e roubo. [...] Os EUA não têm pois a mínima autoridade moral para dar lições de conduta ética seja a quem for».
  
Passando ao tempo actual, VG assinala as condições esquálidas em que vivem as «minorias» étnicas «Vítimas da desconfiança latente da burguesia instalada, sujeitos a apartheid habitacional e social, vigiados por milícias armadas racistas, por múltiplas organizações de defensores da ordem e do american way of life.», acrescentando «Com efeito, a sociedade americana não é -- nunca foi, nem conseguirá vir a sê-lo -- o melting pot de que se orgulhavam os idealistas wilsonianos. Melhor comparado, é uma marmita de pressão onde fervilham, sem se decomporem, contradições, ódios, conflitos raciais e de classes, o pavor de perder estatuto social, a insegurança» o que logo nos traz à mente a brutalidade, bestialidade e hipocrisia da repressão dos humildes e explorados nos «incidentes» de Ferguson e noutros locais. Uma constante da história dos EUA (com a KKK e grupos afins à solta e impunes).
  
Pelo meio, uma reflexão -- «Sim, há boa gente nos States. Infelizmente não são suficientes para alterarem a prática política e a ideologia militante da superpotência americana. A qual continua a ser dirigida pelos interesses da grande burguesia capitalista, agora na fase da globalização económica e financeira, e prosseguindo um projecto de domínio mundial» -- para finalizar assim a análise dos EUA, quanto a nós com inteira pertinência:
  
«A direcção imperialista tem perfeita consciência das tensões explosivas que se entrecruzam no interior da sociedade americana. E essa é uma das motivações -- e não das menores -- do expansionismo exterior, das agressões, ingerências e conquistas. Já assim o tinha entendido o império romano no início da nossa era. No dia em que, por qualquer razão, o escape da expansão externa não possa mais ser utilizado, em que se perfile no horizonte da classe média americana o espectro da depressão económica, rebentará com enorme fragor a marmita de ódios e desesperos ocultos, sob a capa da hipocrisia ética/religiosa/moralista. A violência irracional faz de tal modo parte integrante da personalidade americana que, caso a humanidade vier a soçobrar no holocausto nuclear sê-lo-á, sem sombra de dúvida, por iniciativa da classe governante do último império capitalista.»
  
Fazemos votos para que a divulgação deste pequeníssimo segmento da obra de Varela Gomes possa motivar novas leituras deste lutador tenaz, bem formado e informado, de prosa clara e incisiva.
We finished reading a fascinating book written by João Varela Gomes (VG): “Esta Democracia Filofascista” (“This Philofascist Democracy”, author’s edition, distributed by Terramar, Lisbon, 1999). VG goes through several topics related to the good hosting granted by the «western» bourgeois democracies to fascists and their ideas. Notably in Portugal, where a revolution «on the way to socialism» took place in 1974-75. A relevant feature of the book is that its theses do still hold true, and with confirmed predictions. From 15 years ago. Namely, in chapter II entitled “Imperialism, Today”.
  
Coronel Varela Gomes is now 90 years old. A lifetime fighting for people’s freedom, as a vertical man, who never bent to fascism and to capitalism. As a captain, he commanded the historical attack to the barracks of Beja in 1962, in full fascism. The action didn’t succeed. Seriously wounded, VG was then between life and death. He stood trial by the fascist “Plenary” court in 1964, where he made a speech of unusual courage, against the will of his attorney, as told by his wife: «he went to court to instigate others to do what they [VG and others] had done. To instigate to revolt». He passed six years in major prison and ill-treated. The wife, a courageous antifascist, was also put in jail. VG was integrated in the army with the April Revolution and had an outstanding action in the revolutionary process, namely in the famous 5th Division of the Gen. Staff of A. F., the only firm support of the revolution, of the Movement of A.F. Banned and persecuted by the counter-revolution of 25 November, VG never stopped exposing the counter-revolutionaries, above all the Soares-ists allied to the CIA. A discomforting character to the present philofascist regime, VG denounced right on target the imperialism, the neoliberalism, the venality of renegades and “leftoids”, in books, newspapers and magazines. He also gave outstanding contributions to the history of Portuguese resistance and revolution, of which he has deep knowledge and personal witnessing. His books (all excellent!) had to be edited by the author or by small friendly editors. A homage was paid to VG at the Worker’s Voice in 2012. We also note with pleasure that the Officers’ Association of the Armed Forces praised his 90th anniversary as a “fresh warrior, militant for a fair and egalitarian society” (http://aofaportugal.blogspot.pt/2014/05/joao-varela-gomes-90-anosmuitos-amigos.html).
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Let us browse through the book chapter II, “Imperialism Today”. VG starts by mentioning the USSR implosion and its consequences to the imperial US hegemony, unmasking en passant the “two imperialisms” thesis. Addressing the American aggression to Yugoslavia, he says: “The similarity of the unfolding strategic plan with the Mittelleuropa of the German expansion, recovered by Hitler, becomes each day clearer [...]: a single economic block spanning from the North Sea to the Persian Gulf, subduing states and nations that inhabited this vital space (in the German imperialist conception). One feels a shiver of terror seeing that Croatia became independent due to German military help (instructors, equipment, doctrine); with the recuperation of the ustachis (Croatian Nazis); the Vatican blessing (the second chancellery to recognize the new State, after the German one); the establishing of a censorship regime with a single party directed by the sinister  Tudjman. Equally horrid was the artificial creation of a Muslim Bosnia [...] today, for all purposes, an American protectorate directly exercised by a proconsul  born in USA [sic]”.
  
Further on, a clear forecast (15 years ago!) of what came next: “One can easily guess which stage comes next in the expansion of the American/NATO domination to the southern European flank. Once consolidated the protectorate, with the respective military apparatus of occupation implanted up to Macedonia [...] the Eastward progression will not encounter worth mentioning impediments”. VG foresees the easy absorption of Romania and Bulgaria, and then says: “Afterwards and on the way, the mythical objective of Hitler's vital space: Ukraine. An apparently more complicated subduing but not sufficient to detain the imperialist hegemonic voraciousness. We already find there, walking with impunity along the streets of Kiev, the old collaborators of the Nazi invader, ostentatiously displaying uniforms and armbands with the swastika”.
  
VG then presents appreciations on the UN – “In the present framework of breach of international laws -- with the UN doomed to the inglorious destiny of its predecessor the League of Nations; accepting the principle of aggression with humanitarian aims (pass the paradox)” --, and on “where are situated, which party follow journalists, chroniclers, opinion makers in general, including those handling the historiographic discourse” – “Well, they situate in the usual place, where do you think they are? Side by side with the power-holders, in their mission of watchdogs of the system, repeating as parrots the master’s voice [...] Some even want to be more popish than the Pope. In their eager to announce deaths and massacres, to exalt the destructive wonders of the American bellicose apparatus, and the deadly power of the humanitarian soldiers, they become repulsive, even obscene. (The image of Nazi clerks congratulating on the productivity of the last model of crematory oven, jumps to mind [...])”.
  
Finally, a look to the USA – “Now, it seems indispensable, as a final observation, to clarify ourselves a bit about the politico-social identity of the superpower that presently dominates the destinies of the planet and, presumably, will go on doing that for the next decades” -- , in this manner:
  
“A first aspect worth emphasizing entails the moralizing tradition of the USA diplomatic activities, in a pretentious posture of ethical superiority, boasting a ridiculous puritanism [...]. Now, there can be no bigger contrast, more flagrant contradiction, than the one existing between that moralist alienation and the brutal reality of the historic formation, from coast to coast of the federation of the North-American States”. Mentioning several wars of expansionist aggression of the US up to “the present achievement of refined hypocrisy, the ‘aggression with humanitarian aims’”, VG reminds us that the US “self-proclaimed apostles of the rights of ethnical minorities, were born and grew up carrying through one of the most terrible genocides (one of the most thorough ‘ethnical cleansings’) of the history of mankind [...] by the cruel and systematic extermination of the totality of the original Amerindian population, of which remain a few exemplars, confined to reservations as  rare animals on display. The American reality of nowadays is daughter and heir of that long past of massacres and violence, of racial hatred, of the law of the strongest one, of gunmen on the loose with license to kill, of adventurers with a thirst for confiscation, for illegal appropriation and robbery [...] The USA do not then have the slightest moral authority to lecture on moral codes of conduct to no matter whoever is”.
  
Moving to the present time, VG comments on the squalid conditions in which live the ethnic “minorities”, “Victims of the latent mistrust of the well-installed bourgeoisie, subject to housing and social apartheid, under vigilance by racist armed militias, by multiple organizations of defenders of the order and the American way of life [sic]”, adding: “In fact, the American society is not -- never was and never will succeed to be -- the melting pot  [sic] which the Wilsonian idealists were proud of. As a better analogy, it is a pressure cooker where boil, without decomposing, contradictions, hatreds, racial and class conflicts, the dread of losing social status, the insecurity”, and this brings to mind the brutality, the bestiality and hypocrisy of the repression of the downtrodden and explored ones in the “incidents” of Ferguson and other places. A systematic phenomenon in the history of USA (with the KKK and similar groups on the loose and with impunity).
  
Incidentally, a consideration -- «Yes, there are good people in the States [sic]. They are unfortunately not enough to change the political practice and the militant ideology of the American superpower, which goes on being led by the interests of the capitalist big bourgeoisie, now in the stage of  economic and financial globalization, pursuing a project of world domination” – ending his overview of the analysis of the USA as follows, and in our opinion with entire pertinence:
  
“The imperialist leadership is perfectly aware of the explosive tensions criss-crossing the heart of the American society; one of the motivations – and not the smallest one – of the external expansionism, of the aggression, meddling and conquest. The same had already been understood by the Roman empire at the beginning of our age. In the day that, by any reason, the escape valve of the external expansion can no more be utilized, that the specter of economic depression stands up on the horizon of the American middle class, the boiling pot of hatreds and despairs, hidden under the cloak of the ethic/religious/moral hypocrisy will explode with huge noise. The irrational violence is so much a constituent part of the American personality that, in case mankind collapses in a nuclear holocaust, it will be, no shadow of a doubt, by the initiative of the governing class of the last capitalist empire.”
  
We hope that the publicizing of this very short segment of Varela Gomes works may motivate new readings of this tenacious fighter, well-formed and informed, of clear and sharp prose.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Recortes de Julho a Novembro

1/Jul
«Observatório Português de Sistemas de Saúde (OPSS) acusa governo de esconder o impacto da crise no sector», «centralismo está a destruir o SNS», «OCDE diz que Portugal é dos países que menos investem na Saúde (orçamento da Saúde tem decrescido 5%/ano)», «cuidados de saúde primários não são prioritários, sistemas de informação são deficientes, falta de recursos humanos», «agravamento da dívida [de 2013 a 2014, mais 28,4 M€]», «corte nos fármacos com dificuldades crescentes de acesso a medicamentos», «aumento de diabetes com complicações», «falta de atenção à saúde mental». Descreve, assim, a OPSS a atitude do governo sobre a Saúde: «Síndrome da Negação».

Pois é. Não é de agora a degradação do SNS, para a qual temos vindo a alertar neste blog. O Síndrome da Negação interessa à direita. Infecta também, infelizmente, parte do proletariado e pequena burguesia («não é tão mau como parece», «ainda há pouco fui ao Hospital e fui bem tratado»). Serve de alimento ao indiferentismo («para que me hei-de ralar, ou protestar, se não adianta nada»?).

3/Jul
«BdP diz que BES está sólido».

Viu-se.

9/Jul
«OCDE pede novo corte nas indemnizações de despedimento. Pede também mais impostos, aumento do IVA, redução da duração do subsídio de desemprego para os velhos, aumento de período experimental nas empresas [sem ganhar] até contrato».

Pode-se dizer que a actual filosofia dos técnicos da OCDE (unha com carne com os do FMI, Banco Mundial, etc.) é esta: «Para estes portugueses carneiros, que aceitam tudo, é esbulhá-los que eles deixam.»
Onde está o protesto de massas em Portugal? Pois é. Quem cala consente.
O «reduzir a duração do subsídio de desemprego para os velhos» é um mimo. Evoca as contas detalhadas que os nazis faziam de quanto gastar nos prisioneiros dos campos de concentração, até estes morrerem de exaustão em trabalhos forçados. A «lógica» da OCDE é a mesma: «quando ficam sem emprego, já velhos, sem prestar para nada, é tratar de ver se eles morrem o mais rápido possível».

14/Jul
«Ana Drago [Fórum Manifesto] diz ser errado excluir PS de uma alternativa e que este deve ser “desafiado” para a constituição de um eixo programático».
16/Jul
«Ana Drago diz que “o problema da esquerda à esquerda do PS [...] foi uma incapacidade de puxar o PS para a esquerda”».

Os pequeno-burgueses do «Fórum» também estão em negação. Mas, todavia, bem lançados na trajectória evolutiva de todos os esquerdalhos: de posições de grande radicalismo para posições do mais submisso direitismo, bajulador dos grandes. Quanto ao PS «ser “desafiado” para a constituição de um eixo programático» e à «incapacidade de puxar o PS para a esquerda”» aqui vai uma sugestão: que tal o «Fórum Manifesto», com o «Livre», a «Renovação Comunista [?]», etc., associarem-se na compra de umas guitas que atariam às pernas dos PS’s? Logo que estes revelassem veleidades (congénitas) de singrar para a direita era só puxarem pelas guitas p’rá esquerda. P'ró eixo programático.

12/Ago
«No Hospital da Guarda a cozinha funciona num contentor. A mesma panela é usada para fazer sopa, café e aquecer o leite. Dezassete pessoas confeccionam diariamente, no contentor, 800 refeições».

Mais uma maravilha do SNS. Um dos primeiros sectores a ser atacado quando há que salvar o grande capital. Neste caso a «mesma panela é usada para fazer sopa, café e aquecer o leite». Continuai sereninhos, portugueses, que ireis assistir nos serviços públicos a muitos mais exemplos de «três em um».

2/Set
«Um terço dos jovens portugueses [entre os 20 e 24 anos] é pobre. Empobrecimento é dramático, dizem os especialistas, e está a crescer».

Não vemos, infelizmente, nenhum reflexo deste «terço» nas (quase todas as) manifestações onde estamos presentes. Será que é preciso gritar-lhes aos ouvidos «De pé famélicos da Terra»? Enfim, o povo jovem é (está) sereno. Os Amorins, Belmiros, Ulrichs, etc., agradecem.

10/Out
«Condenado à morte nos EUA sai livre depois de 9 anos de prisão. O julgamento tinha sido de uma incúria tremenda. Um estudo recente mostra que 1 em cada 25 condenados à morte nos EUA é inocente»

«São os direitos humanos, estúpido!».

15/Out
«Investigador do Centro de Estudos sociais de Coimbra diz que portugueses trabalham mais 300 horas [por ano] que os alemães. Sobre se a diferença entre Portugal e Alemanha pode ser ultrapassada, disse: “[Portugal e Alemanha] continuam distantes [em custos do trabalho e output][...] não se pode deduzir que as responsabilidades [por isto] estejam do lado da massa dos trabalhadores»

Claro que as responsabilidades não estão do lado da «massa dos trabalhadores». Estão do lado da roubalheira do grande capital. Já tínhamos dito (e provado) isso mesmo: http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/03/belmiro-e-o-mito-dos-trabalhadores_30.html . Também devia ser claro que «a diferença entre Portugal e Alemanha» não «pode ser ultrapassada». Não e nunca. «It’s the empire, stupid!» Simples ingenuidade jornalística ou a manutenção consciente da velha história da carochinha da «Europa connosco»?

17/Out
«Cortes no ensino básico e secundário [para 2015]: menos 704,4 M€. Para o ensino superior: menos 1,5% do orçamento de 2014».

Já dizia Salazar que para o povinho, que ele considerava mal dotado de inteligência, bastava saber umas letras e fazer umas contas. Cortes no ensino público e benesses ao ensino privado. Tudo no rumo para o antigamente.

21/Out
«PS pretende “desencadear um processo parlamentar de audição pública [da dívida], incluindo a audição por parte da Assembleia de personalidades relevantes, especialistas na matéria».

Senhora Dívida: apresente-se publicamente para ser ouvida! E para ser auditada por personalidades relevantes: Santana Lopes, Vítor Constâncio, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix José Sócrates, Teixeira dos Santos, Vítor Gaspar, etc. Por «especialistas na matéria». Na matéria de aumentar a dívida, é claro. (Muitos mais nomes de especialistas poderiam ser acrescentados, incluindo o de Cavaco Silva.)

24/Out
«O PM francês, Manuel Valls, quer mudar o nome do PS francês e retirar a palavra “socialismo”, dado que quer “abandonar o saudosismo de esquerda e preso aos preceitos políticos do passado, tornar o partido mais progressista». Diz que não quer «matar a esquerda», mas pelo contrário «recriá-la» para fazer face à extrema-direita».

Ora aqui está uma excelente ideia para o PS, que há muitos anos, pela voz de Mário Soares, pôs o «socialismo na gaveta». Porque não mudar o nome para Partido Modernaço do Eixo? Sem o saudosismo do «socialista», recriando a «esquerda» e poupando trabalho ao «Fórum Manifesto» & C.ª que fazem esforços desesperados para o puxar p'rá esquerda. Além disso, como a «extrema-direita» está cada vez mais modernaça (Marine le Pen, etc.) o «fazer face à extrema-direita» também poderia ir sem qualquer perigo para a «gaveta», em nome do progresso e de não estar «preso aos preceitos políticos do passado». Ficava tudo entre amigos (a tal «tolerância democrática»). Que se cumprimentam com um sorriso amável nos lábios. Como o de Mário Soares ao pide Rosa Casaco na farsa do seu julgamento.

30/Out
«O último número da revista de referência em ciências sociais [“Análise Social”] foi retirada de circulação por ordem do presidente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa [que disse que] tinha «conjunto de imagens» ofensivas e que poriam em causa o bom nome e a reputação institucional do Instituto [...] Direcção cessante considera «um gesto de censura». As imagens, de grafitti, causticavam as figuras do regime, como esta: «Américo Amorim | Ricardo Salgado | Belmiro Azevedo | Soares dos Santos | Pingo Doce | Sacrifícios o C... »

Pois é, portugueses. A censura está aí. Muita dela não se vê. É simplesmente um ou outro jornalista que não dobra a espinha, participando nos hossanas ao neoliberalismo e ao imperialismo, e que deixamos de ver no ecrã ou em artigo de jornal. Ou um incomodativo qualquer que não arranja quem lhe queira publicar a prosa. Agora, quanto ao caso da «Análise Social», quem é que os mandou cometer esse magno sacrilégio de sugerir que há luta de classes?

3/Nov
«Crianças lusas punidas por falarem português no Luxemburgo. [idem para] funcionários, creches e ATL públicos]

Mais uma maravilha do «Europa connosco».

4/Nov
«Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra não cedeu sala para debate sobre ideologias [com a alegação:] “conteúdo político-ideológico” do evento desrespeitaria a “tradição” da Faculdade» Quem acabou por ceder a sala foi o Departamento de Matemática.

Pois cá temos mais um caso de censura. Este, purinho da costa. Nada de «conteúdo político-ideológico». Isso é para os comunistas. Safa! Felizmente que a «tradição» ainda é o que era. Esta deve remontar a 1928, pelo menos.

4/Nov
«Número dois do Podemos: «linha que separa a esquerda da direita esgotou-se».

Pois claro. Agora é «tudo ao monte e fé em Deus». O novo partido Podemos -- a lembrar o Yes, we can, de Obama -- esteve presente na Convenção do BE sendo agora a sua grande inspiração. Grande inspiração, não haja dúvida!
(Quanto a nós, o Podemos é uma fraude total. Uma sua tese central é a do assistencialismo. A grande descoberta dos cidadãos de mão estendida a receberem RSI, em vez de lutar contra o desemprego e suas causas. Tese política castradora da luta dos trabalhadores. Anestesiadora das consciências. Facilmente aceite pelo grande capital. Tudo se resume depois a uma discussão sobre o tamanho das côdeas. Sobre este tema ver http://www.rebelion.org/noticia.php?id=191315 do espanhol José T. Granados, economista e Professor Associado da Drexel University.)

10/Nov
Ana Drago, Daniel de Oliveira, ex-BE, no clube dos pensadores, querem uma solução de convergência à esquerda no governo».
12/Nov
«Daniel de Oliveira, do Fórum Manifesto, afasta hipótese de coligação pré-eleitoral com o PS mas admitiu contudo ter o objectivo de “condicionar o Governo” que sair das próximas eleições».

Ana Drago e Daniel de Oliveira. A «esquerda» de quem os media gostam. No clube dos pensadores! Como a burguesia se enternece por eles! E pensa assim: «Ah! Se ao menos toda a esquerda fosse como estes jovens. Dizem umas rabulices tão engraçadas…».
«Daniel ... afasta a hipótese de». Mas «tem o objectivo de “condicionar o Governo”». Lá ambições, tem o rapaz. Diagnóstico: Megalómano. Consciente ou inconscientemente servindo a direita. Uma espécie de nova versão da megalomania do MRPP. E do serviço também.

18/Nov
«Escravatura tem aumentado a nível mundial. Há agora 38 milhões de vítimas de escravatura»

Desde que o imperialismo Ianque & C.ª domina o mundo sem o socialismo (de estado) da URSS e Europa de Leste em contraponto, tem sido um fartote de boas notícias a nível de «direitos humanos». Um tema em que os EUA se arrogam o direito de descobridores, especialistas, avaliadores, e... impositores.

18/Nov
«Livre, Fórum, RC, Manifesto 3D vão organizar uma convenção de cidadãos em 31 de Janeiro de 2015 e admitem primárias.»

Pois claro. Se queres ir com (ou para?) o PS faz como ele.

18/Nov
Neste dia, vimos nos escaparates: Miguel Gomes Ferreira, Carta a um Bom Português. Manual para fazer uma revolução da cidadania que falta para resgatar o País.

O título diz tudo. Ainda bem porque evita ter de o ler! As seguintes teses decorrem logicamente do título: 1) Há «bons» e «maus» portugueses. Não interessa que haja trabalhadores e capitalistas; interessa, sim, que há os «bons» e os «maus». 2) O livro dirige-se aos «bons» (os «maus», o Diabo que os carregue!). 3) Dado que há «bons», é porque há capitalistas «bons» e trabalhadores «bons» (estes últimos, o mais certo é estarem na UGT), todos numa grande união, dispostinhos a beber os ensinamentos do «Manual» do novo Messias, Miguel Gomes Ferreira. 4) O «Manual» propõe-se ensinar como fazer uma «revolução», coisa que nem os grandes revolucionários até hoje tinham tido a ousadia de fazer; assim, com todos os «pontos nos is», num manual pronto a usar com todas as instruções. 5) Uma «revolução» nas almas, quase de certeza. Porque se dirige aos «bons» e porque uma «revolução» das antigas, uma revolução não nas almas (benditas) mas nas condições materiais em que assentam as relações sociais, é coisa já vista, demasiado terra-a-terra, muito plebeia e que já não faz «falta». 6) E também porque se trata aqui de uma revolução de «cidadania», certamente de preceitos de civismo (do tipo, não cuspir para o chão, não fazer ruídos em público, respeitar os limites de velocidade, etc.), porque quanto a cidadania já desde a Revolução Francesa que somos todos citoyens (incluindo Amorins e Belmiros, vejam lá!); com a liberté de votar de quatro em quatro anos (fica tudo na mesma, mas não interessa). (Não era o Manuel Alegre que também andava muito preocupado com a cidadania?) 7) A revolução «que falta para resgatar o país». Toca a ler e a seguir bem as instruções e o país rumará às alturas, com todos os «bons» -- capitalistas e trabalhadores uni-vos! --, de braço dado, resolvendo todos os problemas em amena cavaqueira. A Bem do País (ou da Nação?).
Onde é que eu já li esta coisa?

19/Nov
«Uma em cada 30 crianças nos EUA não tem casa. Um máximo histórico.».

Novo milagre dos pregadores de «direitos humanos».

20/Nov
«Doentes com cancro sem tratamento há meio ano. Medicamentos para tumores na bexiga em falta desde Junho. Vacina contra a tuberculose em ruptura.»

Mais degradação no SNS. É diária. Degradações num processo imparável, de retorno ao antigamente. Embora com uns computadores pelo meio.

21/Nov
«Francisco Assis e João Proença [apoiantes de António Seguro] admitem aliança com o PSD»

Ora ainda bem. Estes ao menos não disfarçam. Assim, fica clarinho como água. Para quem quiser ver, claro. Se o PS vier a aliar-se com o PSD o que é que vão fazer o Livre + Fórum + RC + Manifesto 3D? Vão também «puxar» o PSD p'rá esquerda?

22/Nov
«Sócrates detido à chegada ao aeroporto de Lisboa. Suspeito de crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documentos»

Sócrates, um marco incontornável na «história ignominiosa do PS» que temos vindo a apresentar. Mais um «caso» no rol das bandalheiras da democracia burguesa e novembrista portuguesa. Parida, sob os auspícios da CIA, em 25 de Novembro de 1975. Pelo PS de Sócrates e pelos Nove (encabeçados por Vasco Lourenço). Manu militari por Ramalho Eanes. (Muitos artigos nossos já se debruçaram sobre este parto.)
Sócrates. Quem sai aos seus não degenera.