sábado, 29 de novembro de 2014

Imperialismo Hoje, predito há 15 anos | Imperialism Today, foreseen 15 years ago

Lemos recentemente um livro fascinante de João Varela Gomes (VG): Esta Democracia Filofascista (edição do autor, distribuição Terramar, Lisboa, 1999). VG discorre sobre vários temas relacionados com o bom acolhimento que as democracias burguesas «ocidentais» dispensam a fascistas e suas ideias. Notavelmente em Portugal, onde teve lugar em 1974-75 uma revolução «rumo ao socialismo». Um aspecto importante do livro é que as suas teses continuam actuais, com previsões confirmadas. De há 15 anos atrás. Em particular, no capítulo II intitulado «Imperialismo, Hoje».
  
O coronel Varela Gomes tem hoje 90 anos. Uma vida de luta pela liberdade do povo, de homem vertical que nunca se vergou ao fascismo nem ao capitalismo. Como capitão, comandou o histórico assalto ao quartel de Beja, em 1962, em pleno fascismo. A acção não teve êxito. Ferido gravemente, VG esteve entre a vida e a morte. Julgado pelo tribunal «Plenário» fascista em 1964, aí fez um depoimento de invulgar coragem. Contra a vontade do seu advogado, como disse a esposa: «ele foi para tribunal instigar que outros fizessem o que eles [VG e outros] tinham feito. Instigar à revolta». Passou seis anos de prisão maior com maus-tratos. A esposa, corajosa antifascista, também esteve presa. Com a Revolução de Abril, VG foi integrado no exército e teve acção destacada no processo revolucionário, designadamente na célebre 5.ª Divisão do EMGFA, o único apoio firme da revolução, do MFA. Afastado e perseguido pela contra-revolução do 25 de Novembro, VG nunca deixou de denunciar os contra-revolucionários, mormente os soaristas aliados à CIA. Figura incómoda do actual regime filofascista, VG tem denunciado certeiramente em livros, jornais e revistas, o imperialismo, o neoliberalismo e a venalidade de renegados e esquerdalhos. Tem também dado contribuições importantíssimas sobre a história da resistência e da revolução portuguesas, de que possui conhecimento profundo e testemunho pessoal. Os seus livros (todos excelentes!) tiveram de ser editados pelo autor ou por pequenas editoras amigas. VG foi homenageado em 2012 na Voz do Operário. Apraz-nos registar que a AOFA se lembrou dos seus 90 anos como «viçoso guerreiro, militante por uma sociedade igualitária e justa» (http://aofaportugal.blogspot.pt/2014/05/joao-varela-gomes-90-anosmuitos-amigos.html).
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Folheemos o «Imperialismo, Hoje», capítulo II do livro. VG começa por referir a desagregação da URSS e consequências disso na hegemonia imperial dos EUA, desmascarando de passagem a tese dos «dois imperialismos». Passando à agressão americana na Jugoslávia, diz assim: «Torna-se cada dia mais patente a semelhança do plano estratégico em curso, com a Mittelleuropa do sonho da expansão germânica, retomado por Hitler [...]: um só bloco económico estendendo-se desde o mar do Norte ao golfo Pérsico, enfeudando os estados e as nações que habitassem esse espaço vital (na concepção imperialista germânica). Provoca um frémito de terror constatar que a Croácia se tornou independente devido ao auxílio militar alemão (instrutores, equipamento, doutrina); com a recuperação dos ustachis (nazis croatas); a benção do Vaticano (segunda chancelaria a reconhecer o novo estado, logo a seguir à alemã); com a instauração de um regime de censura e partido único dirigido pelo sinistro Tudjman. Igualmente pavorosa foi a criação artificial de uma Bósnia muçulmana [...] hoje em dia, para todos os efeitos, um protectorado americano, exercido directamente por um procônsul born in USA.»
  
Mais adiante, uma previsão clara (há 15 anos atrás!) do que veio depois: «Pode com facilidade adivinhar-se qual a fase que se segue na expansão do domínio americano/Nato no flanco sul da Europa. Consolidado o protectorado, com o respectivo dispositivo militar de ocupação implantado até à Macedónia [...] a progressão para Este não encontrará obstáculos dignos de registo». VG prevê a fácil absorção da Roménia e Bulgária, para então dizer: «Depois fica em caminho o mítico objectivo do espaço vital hitleriano: a Ucrânia. Rendição aparentemente mais complicada, mas não o suficiente para deter a voracidade hegemónica imperialista. Já por lá passeiam, impunemente, pelas ruas de Kiev, os antigos colaboradores com o invasor nazi, ostentando fardas e braçadeiras com a cruz gamada.»
  
Seguem-se apreciações sobre a ONU -- «No presente quadro de ruptura do direito internacional -- com a ONU condenada a seguir o destino inglório da sua antecessora, a Sociedade das Nações; com a aceitação do princípio da agressão com fins humanitários (passe o paradoxo)» --, e sobre «onde se situam, que partido tomam os jornalistas, cronistas e opiniocratas em geral, incluindo os que manejam o discurso historiográfico» -- «Pois no sítio do costume, onde é que havia de ser! Ao lado dos poderosos, na sua função de cães de guarda do sistema, repetindo como papagaios a voz do dono [...] Alguns até querem ser mais papistas que o papa. Na ânsia de anunciar mortes e massacres, de exaltar as maravilhas destrutivas do aparato bélico americano, o poder mortífero dos soldados humanitários, tornam-se repulsivos, mesmo obscenos. (Ao espírito ocorre a imagem de funcionários nazis congratulando-se pela produtividade do último modelo de câmara crematória [...])».
  
Por fim, um olhar sobre os EUA -- «Ora, parece indispensável, em observação final, esclarecermo-nos um pouco sobre a identidade político-social da superpotência que actualmente domina os destinos do planeta, e, presumivelmente, continuará a fazê-lo pelas próximas décadas» --, desta forma:
  
«Um primeiro aspecto digno de realce envolve a tradição moralizante da acção diplomática dos EUA, numa pretensiosa postura de superioridade ética, fazendo gala dum ridículo puritanismo [...]. Ora, não pode haver contraste maior, contradição mais flagrante, que a que existe entre essa alienação moralista e a realidade brutal da formação histórica, de costa-a-costa da federação dos estados americanos do norte». Referindo várias guerras de agressão expansionista dos EUA até «à presente façanha, de hipocrisia refinada, da “agressão com fins humanitários”», VG recorda que os EUA «autoproclamados apóstolos dos direitos das minorias étnicas, nasceram e cresceram levando a cabo um dos mais terríveis genocídios (uma das mais completas «limpezas étnicas») da história da humanidade [...] mediante o extermínio cruel e sistemático da totalidade da população original ameríndia, da qual restam uns quantos exemplares, confinados em reservas como animais raros para exposição» para concluir «A realidade americana actual é filha e herdeira desse longo passado de massacres e violência, de ódio racial, da lei do mais forte, de pistoleiros à solta com licença para matar, de aventureiros ávidos de confisco, de apropriação e roubo. [...] Os EUA não têm pois a mínima autoridade moral para dar lições de conduta ética seja a quem for».
  
Passando ao tempo actual, VG assinala as condições esquálidas em que vivem as «minorias» étnicas «Vítimas da desconfiança latente da burguesia instalada, sujeitos a apartheid habitacional e social, vigiados por milícias armadas racistas, por múltiplas organizações de defensores da ordem e do american way of life.», acrescentando «Com efeito, a sociedade americana não é -- nunca foi, nem conseguirá vir a sê-lo -- o melting pot de que se orgulhavam os idealistas wilsonianos. Melhor comparado, é uma marmita de pressão onde fervilham, sem se decomporem, contradições, ódios, conflitos raciais e de classes, o pavor de perder estatuto social, a insegurança» o que logo nos traz à mente a brutalidade, bestialidade e hipocrisia da repressão dos humildes e explorados nos «incidentes» de Ferguson e noutros locais. Uma constante da história dos EUA (com a KKK e grupos afins à solta e impunes).
  
Pelo meio, uma reflexão -- «Sim, há boa gente nos States. Infelizmente não são suficientes para alterarem a prática política e a ideologia militante da superpotência americana. A qual continua a ser dirigida pelos interesses da grande burguesia capitalista, agora na fase da globalização económica e financeira, e prosseguindo um projecto de domínio mundial» -- para finalizar assim a análise dos EUA, quanto a nós com inteira pertinência:
  
«A direcção imperialista tem perfeita consciência das tensões explosivas que se entrecruzam no interior da sociedade americana. E essa é uma das motivações -- e não das menores -- do expansionismo exterior, das agressões, ingerências e conquistas. Já assim o tinha entendido o império romano no início da nossa era. No dia em que, por qualquer razão, o escape da expansão externa não possa mais ser utilizado, em que se perfile no horizonte da classe média americana o espectro da depressão económica, rebentará com enorme fragor a marmita de ódios e desesperos ocultos, sob a capa da hipocrisia ética/religiosa/moralista. A violência irracional faz de tal modo parte integrante da personalidade americana que, caso a humanidade vier a soçobrar no holocausto nuclear sê-lo-á, sem sombra de dúvida, por iniciativa da classe governante do último império capitalista.»
  
Fazemos votos para que a divulgação deste pequeníssimo segmento da obra de Varela Gomes possa motivar novas leituras deste lutador tenaz, bem formado e informado, de prosa clara e incisiva.
We finished reading a fascinating book written by João Varela Gomes (VG): “Esta Democracia Filofascista” (“This Philofascist Democracy”, author’s edition, distributed by Terramar, Lisbon, 1999). VG goes through several topics related to the good hosting granted by the «western» bourgeois democracies to fascists and their ideas. Notably in Portugal, where a revolution «on the way to socialism» took place in 1974-75. A relevant feature of the book is that its theses do still hold true, and with confirmed predictions. From 15 years ago. Namely, in chapter II entitled “Imperialism, Today”.
  
Coronel Varela Gomes is now 90 years old. A lifetime fighting for people’s freedom, as a vertical man, who never bent to fascism and to capitalism. As a captain, he commanded the historical attack to the barracks of Beja in 1962, in full fascism. The action didn’t succeed. Seriously wounded, VG was then between life and death. He stood trial by the fascist “Plenary” court in 1964, where he made a speech of unusual courage, against the will of his attorney, as told by his wife: «he went to court to instigate others to do what they [VG and others] had done. To instigate to revolt». He passed six years in major prison and ill-treated. The wife, a courageous antifascist, was also put in jail. VG was integrated in the army with the April Revolution and had an outstanding action in the revolutionary process, namely in the famous 5th Division of the Gen. Staff of A. F., the only firm support of the revolution, of the Movement of A.F. Banned and persecuted by the counter-revolution of 25 November, VG never stopped exposing the counter-revolutionaries, above all the Soares-ists allied to the CIA. A discomforting character to the present philofascist regime, VG denounced right on target the imperialism, the neoliberalism, the venality of renegades and “leftoids”, in books, newspapers and magazines. He also gave outstanding contributions to the history of Portuguese resistance and revolution, of which he has deep knowledge and personal witnessing. His books (all excellent!) had to be edited by the author or by small friendly editors. A homage was paid to VG at the Worker’s Voice in 2012. We also note with pleasure that the Officers’ Association of the Armed Forces praised his 90th anniversary as a “fresh warrior, militant for a fair and egalitarian society” (http://aofaportugal.blogspot.pt/2014/05/joao-varela-gomes-90-anosmuitos-amigos.html).
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Let us browse through the book chapter II, “Imperialism Today”. VG starts by mentioning the USSR implosion and its consequences to the imperial US hegemony, unmasking en passant the “two imperialisms” thesis. Addressing the American aggression to Yugoslavia, he says: “The similarity of the unfolding strategic plan with the Mittelleuropa of the German expansion, recovered by Hitler, becomes each day clearer [...]: a single economic block spanning from the North Sea to the Persian Gulf, subduing states and nations that inhabited this vital space (in the German imperialist conception). One feels a shiver of terror seeing that Croatia became independent due to German military help (instructors, equipment, doctrine); with the recuperation of the ustachis (Croatian Nazis); the Vatican blessing (the second chancellery to recognize the new State, after the German one); the establishing of a censorship regime with a single party directed by the sinister  Tudjman. Equally horrid was the artificial creation of a Muslim Bosnia [...] today, for all purposes, an American protectorate directly exercised by a proconsul  born in USA [sic]”.
  
Further on, a clear forecast (15 years ago!) of what came next: “One can easily guess which stage comes next in the expansion of the American/NATO domination to the southern European flank. Once consolidated the protectorate, with the respective military apparatus of occupation implanted up to Macedonia [...] the Eastward progression will not encounter worth mentioning impediments”. VG foresees the easy absorption of Romania and Bulgaria, and then says: “Afterwards and on the way, the mythical objective of Hitler's vital space: Ukraine. An apparently more complicated subduing but not sufficient to detain the imperialist hegemonic voraciousness. We already find there, walking with impunity along the streets of Kiev, the old collaborators of the Nazi invader, ostentatiously displaying uniforms and armbands with the swastika”.
  
VG then presents appreciations on the UN – “In the present framework of breach of international laws -- with the UN doomed to the inglorious destiny of its predecessor the League of Nations; accepting the principle of aggression with humanitarian aims (pass the paradox)” --, and on “where are situated, which party follow journalists, chroniclers, opinion makers in general, including those handling the historiographic discourse” – “Well, they situate in the usual place, where do you think they are? Side by side with the power-holders, in their mission of watchdogs of the system, repeating as parrots the master’s voice [...] Some even want to be more popish than the Pope. In their eager to announce deaths and massacres, to exalt the destructive wonders of the American bellicose apparatus, and the deadly power of the humanitarian soldiers, they become repulsive, even obscene. (The image of Nazi clerks congratulating on the productivity of the last model of crematory oven, jumps to mind [...])”.
  
Finally, a look to the USA – “Now, it seems indispensable, as a final observation, to clarify ourselves a bit about the politico-social identity of the superpower that presently dominates the destinies of the planet and, presumably, will go on doing that for the next decades” -- , in this manner:
  
“A first aspect worth emphasizing entails the moralizing tradition of the USA diplomatic activities, in a pretentious posture of ethical superiority, boasting a ridiculous puritanism [...]. Now, there can be no bigger contrast, more flagrant contradiction, than the one existing between that moralist alienation and the brutal reality of the historic formation, from coast to coast of the federation of the North-American States”. Mentioning several wars of expansionist aggression of the US up to “the present achievement of refined hypocrisy, the ‘aggression with humanitarian aims’”, VG reminds us that the US “self-proclaimed apostles of the rights of ethnical minorities, were born and grew up carrying through one of the most terrible genocides (one of the most thorough ‘ethnical cleansings’) of the history of mankind [...] by the cruel and systematic extermination of the totality of the original Amerindian population, of which remain a few exemplars, confined to reservations as  rare animals on display. The American reality of nowadays is daughter and heir of that long past of massacres and violence, of racial hatred, of the law of the strongest one, of gunmen on the loose with license to kill, of adventurers with a thirst for confiscation, for illegal appropriation and robbery [...] The USA do not then have the slightest moral authority to lecture on moral codes of conduct to no matter whoever is”.
  
Moving to the present time, VG comments on the squalid conditions in which live the ethnic “minorities”, “Victims of the latent mistrust of the well-installed bourgeoisie, subject to housing and social apartheid, under vigilance by racist armed militias, by multiple organizations of defenders of the order and the American way of life [sic]”, adding: “In fact, the American society is not -- never was and never will succeed to be -- the melting pot  [sic] which the Wilsonian idealists were proud of. As a better analogy, it is a pressure cooker where boil, without decomposing, contradictions, hatreds, racial and class conflicts, the dread of losing social status, the insecurity”, and this brings to mind the brutality, the bestiality and hypocrisy of the repression of the downtrodden and explored ones in the “incidents” of Ferguson and other places. A systematic phenomenon in the history of USA (with the KKK and similar groups on the loose and with impunity).
  
Incidentally, a consideration -- «Yes, there are good people in the States [sic]. They are unfortunately not enough to change the political practice and the militant ideology of the American superpower, which goes on being led by the interests of the capitalist big bourgeoisie, now in the stage of  economic and financial globalization, pursuing a project of world domination” – ending his overview of the analysis of the USA as follows, and in our opinion with entire pertinence:
  
“The imperialist leadership is perfectly aware of the explosive tensions criss-crossing the heart of the American society; one of the motivations – and not the smallest one – of the external expansionism, of the aggression, meddling and conquest. The same had already been understood by the Roman empire at the beginning of our age. In the day that, by any reason, the escape valve of the external expansion can no more be utilized, that the specter of economic depression stands up on the horizon of the American middle class, the boiling pot of hatreds and despairs, hidden under the cloak of the ethic/religious/moral hypocrisy will explode with huge noise. The irrational violence is so much a constituent part of the American personality that, in case mankind collapses in a nuclear holocaust, it will be, no shadow of a doubt, by the initiative of the governing class of the last capitalist empire.”
  
We hope that the publicizing of this very short segment of Varela Gomes works may motivate new readings of this tenacious fighter, well-formed and informed, of clear and sharp prose.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Recortes de Julho a Novembro

1/Jul
«Observatório Português de Sistemas de Saúde (OPSS) acusa governo de esconder o impacto da crise no sector», «centralismo está a destruir o SNS», «OCDE diz que Portugal é dos países que menos investem na Saúde (orçamento da Saúde tem decrescido 5%/ano)», «cuidados de saúde primários não são prioritários, sistemas de informação são deficientes, falta de recursos humanos», «agravamento da dívida [de 2013 a 2014, mais 28,4 M€]», «corte nos fármacos com dificuldades crescentes de acesso a medicamentos», «aumento de diabetes com complicações», «falta de atenção à saúde mental». Descreve, assim, a OPSS a atitude do governo sobre a Saúde: «Síndrome da Negação».

Pois é. Não é de agora a degradação do SNS, para a qual temos vindo a alertar neste blog. O Síndrome da Negação interessa à direita. Infecta também, infelizmente, parte do proletariado e pequena burguesia («não é tão mau como parece», «ainda há pouco fui ao Hospital e fui bem tratado»). Serve de alimento ao indiferentismo («para que me hei-de ralar, ou protestar, se não adianta nada»?).

3/Jul
«BdP diz que BES está sólido».

Viu-se.

9/Jul
«OCDE pede novo corte nas indemnizações de despedimento. Pede também mais impostos, aumento do IVA, redução da duração do subsídio de desemprego para os velhos, aumento de período experimental nas empresas [sem ganhar] até contrato».

Pode-se dizer que a actual filosofia dos técnicos da OCDE (unha com carne com os do FMI, Banco Mundial, etc.) é esta: «Para estes portugueses carneiros, que aceitam tudo, é esbulhá-los que eles deixam.»
Onde está o protesto de massas em Portugal? Pois é. Quem cala consente.
O «reduzir a duração do subsídio de desemprego para os velhos» é um mimo. Evoca as contas detalhadas que os nazis faziam de quanto gastar nos prisioneiros dos campos de concentração, até estes morrerem de exaustão em trabalhos forçados. A «lógica» da OCDE é a mesma: «quando ficam sem emprego, já velhos, sem prestar para nada, é tratar de ver se eles morrem o mais rápido possível».

14/Jul
«Ana Drago [Fórum Manifesto] diz ser errado excluir PS de uma alternativa e que este deve ser “desafiado” para a constituição de um eixo programático».
16/Jul
«Ana Drago diz que “o problema da esquerda à esquerda do PS [...] foi uma incapacidade de puxar o PS para a esquerda”».

Os pequeno-burgueses do «Fórum» também estão em negação. Mas, todavia, bem lançados na trajectória evolutiva de todos os esquerdalhos: de posições de grande radicalismo para posições do mais submisso direitismo, bajulador dos grandes. Quanto ao PS «ser “desafiado” para a constituição de um eixo programático» e à «incapacidade de puxar o PS para a esquerda”» aqui vai uma sugestão: que tal o «Fórum Manifesto», com o «Livre», a «Renovação Comunista [?]», etc., associarem-se na compra de umas guitas que atariam às pernas dos PS’s? Logo que estes revelassem veleidades (congénitas) de singrar para a direita era só puxarem pelas guitas p’rá esquerda. P'ró eixo programático.

12/Ago
«No Hospital da Guarda a cozinha funciona num contentor. A mesma panela é usada para fazer sopa, café e aquecer o leite. Dezassete pessoas confeccionam diariamente, no contentor, 800 refeições».

Mais uma maravilha do SNS. Um dos primeiros sectores a ser atacado quando há que salvar o grande capital. Neste caso a «mesma panela é usada para fazer sopa, café e aquecer o leite». Continuai sereninhos, portugueses, que ireis assistir nos serviços públicos a muitos mais exemplos de «três em um».

2/Set
«Um terço dos jovens portugueses [entre os 20 e 24 anos] é pobre. Empobrecimento é dramático, dizem os especialistas, e está a crescer».

Não vemos, infelizmente, nenhum reflexo deste «terço» nas (quase todas as) manifestações onde estamos presentes. Será que é preciso gritar-lhes aos ouvidos «De pé famélicos da Terra»? Enfim, o povo jovem é (está) sereno. Os Amorins, Belmiros, Ulrichs, etc., agradecem.

10/Out
«Condenado à morte nos EUA sai livre depois de 9 anos de prisão. O julgamento tinha sido de uma incúria tremenda. Um estudo recente mostra que 1 em cada 25 condenados à morte nos EUA é inocente»

«São os direitos humanos, estúpido!».

15/Out
«Investigador do Centro de Estudos sociais de Coimbra diz que portugueses trabalham mais 300 horas [por ano] que os alemães. Sobre se a diferença entre Portugal e Alemanha pode ser ultrapassada, disse: “[Portugal e Alemanha] continuam distantes [em custos do trabalho e output][...] não se pode deduzir que as responsabilidades [por isto] estejam do lado da massa dos trabalhadores»

Claro que as responsabilidades não estão do lado da «massa dos trabalhadores». Estão do lado da roubalheira do grande capital. Já tínhamos dito (e provado) isso mesmo: http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/03/belmiro-e-o-mito-dos-trabalhadores_30.html . Também devia ser claro que «a diferença entre Portugal e Alemanha» não «pode ser ultrapassada». Não e nunca. «It’s the empire, stupid!» Simples ingenuidade jornalística ou a manutenção consciente da velha história da carochinha da «Europa connosco»?

17/Out
«Cortes no ensino básico e secundário [para 2015]: menos 704,4 M€. Para o ensino superior: menos 1,5% do orçamento de 2014».

Já dizia Salazar que para o povinho, que ele considerava mal dotado de inteligência, bastava saber umas letras e fazer umas contas. Cortes no ensino público e benesses ao ensino privado. Tudo no rumo para o antigamente.

21/Out
«PS pretende “desencadear um processo parlamentar de audição pública [da dívida], incluindo a audição por parte da Assembleia de personalidades relevantes, especialistas na matéria».

Senhora Dívida: apresente-se publicamente para ser ouvida! E para ser auditada por personalidades relevantes: Santana Lopes, Vítor Constâncio, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix José Sócrates, Teixeira dos Santos, Vítor Gaspar, etc. Por «especialistas na matéria». Na matéria de aumentar a dívida, é claro. (Muitos mais nomes de especialistas poderiam ser acrescentados, incluindo o de Cavaco Silva.)

24/Out
«O PM francês, Manuel Valls, quer mudar o nome do PS francês e retirar a palavra “socialismo”, dado que quer “abandonar o saudosismo de esquerda e preso aos preceitos políticos do passado, tornar o partido mais progressista». Diz que não quer «matar a esquerda», mas pelo contrário «recriá-la» para fazer face à extrema-direita».

Ora aqui está uma excelente ideia para o PS, que há muitos anos, pela voz de Mário Soares, pôs o «socialismo na gaveta». Porque não mudar o nome para Partido Modernaço do Eixo? Sem o saudosismo do «socialista», recriando a «esquerda» e poupando trabalho ao «Fórum Manifesto» & C.ª que fazem esforços desesperados para o puxar p'rá esquerda. Além disso, como a «extrema-direita» está cada vez mais modernaça (Marine le Pen, etc.) o «fazer face à extrema-direita» também poderia ir sem qualquer perigo para a «gaveta», em nome do progresso e de não estar «preso aos preceitos políticos do passado». Ficava tudo entre amigos (a tal «tolerância democrática»). Que se cumprimentam com um sorriso amável nos lábios. Como o de Mário Soares ao pide Rosa Casaco na farsa do seu julgamento.

30/Out
«O último número da revista de referência em ciências sociais [“Análise Social”] foi retirada de circulação por ordem do presidente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa [que disse que] tinha «conjunto de imagens» ofensivas e que poriam em causa o bom nome e a reputação institucional do Instituto [...] Direcção cessante considera «um gesto de censura». As imagens, de grafitti, causticavam as figuras do regime, como esta: «Américo Amorim | Ricardo Salgado | Belmiro Azevedo | Soares dos Santos | Pingo Doce | Sacrifícios o C... »

Pois é, portugueses. A censura está aí. Muita dela não se vê. É simplesmente um ou outro jornalista que não dobra a espinha, participando nos hossanas ao neoliberalismo e ao imperialismo, e que deixamos de ver no ecrã ou em artigo de jornal. Ou um incomodativo qualquer que não arranja quem lhe queira publicar a prosa. Agora, quanto ao caso da «Análise Social», quem é que os mandou cometer esse magno sacrilégio de sugerir que há luta de classes?

3/Nov
«Crianças lusas punidas por falarem português no Luxemburgo. [idem para] funcionários, creches e ATL públicos]

Mais uma maravilha do «Europa connosco».

4/Nov
«Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra não cedeu sala para debate sobre ideologias [com a alegação:] “conteúdo político-ideológico” do evento desrespeitaria a “tradição” da Faculdade» Quem acabou por ceder a sala foi o Departamento de Matemática.

Pois cá temos mais um caso de censura. Este, purinho da costa. Nada de «conteúdo político-ideológico». Isso é para os comunistas. Safa! Felizmente que a «tradição» ainda é o que era. Esta deve remontar a 1928, pelo menos.

4/Nov
«Número dois do Podemos: «linha que separa a esquerda da direita esgotou-se».

Pois claro. Agora é «tudo ao monte e fé em Deus». O novo partido Podemos -- a lembrar o Yes, we can, de Obama -- esteve presente na Convenção do BE sendo agora a sua grande inspiração. Grande inspiração, não haja dúvida!
(Quanto a nós, o Podemos é uma fraude total. Uma sua tese central é a do assistencialismo. A grande descoberta dos cidadãos de mão estendida a receberem RSI, em vez de lutar contra o desemprego e suas causas. Tese política castradora da luta dos trabalhadores. Anestesiadora das consciências. Facilmente aceite pelo grande capital. Tudo se resume depois a uma discussão sobre o tamanho das côdeas. Sobre este tema ver http://www.rebelion.org/noticia.php?id=191315 do espanhol José T. Granados, economista e Professor Associado da Drexel University.)

10/Nov
Ana Drago, Daniel de Oliveira, ex-BE, no clube dos pensadores, querem uma solução de convergência à esquerda no governo».
12/Nov
«Daniel de Oliveira, do Fórum Manifesto, afasta hipótese de coligação pré-eleitoral com o PS mas admitiu contudo ter o objectivo de “condicionar o Governo” que sair das próximas eleições».

Ana Drago e Daniel de Oliveira. A «esquerda» de quem os media gostam. No clube dos pensadores! Como a burguesia se enternece por eles! E pensa assim: «Ah! Se ao menos toda a esquerda fosse como estes jovens. Dizem umas rabulices tão engraçadas…».
«Daniel ... afasta a hipótese de». Mas «tem o objectivo de “condicionar o Governo”». Lá ambições, tem o rapaz. Diagnóstico: Megalómano. Consciente ou inconscientemente servindo a direita. Uma espécie de nova versão da megalomania do MRPP. E do serviço também.

18/Nov
«Escravatura tem aumentado a nível mundial. Há agora 38 milhões de vítimas de escravatura»

Desde que o imperialismo Ianque & C.ª domina o mundo sem o socialismo (de estado) da URSS e Europa de Leste em contraponto, tem sido um fartote de boas notícias a nível de «direitos humanos». Um tema em que os EUA se arrogam o direito de descobridores, especialistas, avaliadores, e... impositores.

18/Nov
«Livre, Fórum, RC, Manifesto 3D vão organizar uma convenção de cidadãos em 31 de Janeiro de 2015 e admitem primárias.»

Pois claro. Se queres ir com (ou para?) o PS faz como ele.

18/Nov
Neste dia, vimos nos escaparates: Miguel Gomes Ferreira, Carta a um Bom Português. Manual para fazer uma revolução da cidadania que falta para resgatar o País.

O título diz tudo. Ainda bem porque evita ter de o ler! As seguintes teses decorrem logicamente do título: 1) Há «bons» e «maus» portugueses. Não interessa que haja trabalhadores e capitalistas; interessa, sim, que há os «bons» e os «maus». 2) O livro dirige-se aos «bons» (os «maus», o Diabo que os carregue!). 3) Dado que há «bons», é porque há capitalistas «bons» e trabalhadores «bons» (estes últimos, o mais certo é estarem na UGT), todos numa grande união, dispostinhos a beber os ensinamentos do «Manual» do novo Messias, Miguel Gomes Ferreira. 4) O «Manual» propõe-se ensinar como fazer uma «revolução», coisa que nem os grandes revolucionários até hoje tinham tido a ousadia de fazer; assim, com todos os «pontos nos is», num manual pronto a usar com todas as instruções. 5) Uma «revolução» nas almas, quase de certeza. Porque se dirige aos «bons» e porque uma «revolução» das antigas, uma revolução não nas almas (benditas) mas nas condições materiais em que assentam as relações sociais, é coisa já vista, demasiado terra-a-terra, muito plebeia e que já não faz «falta». 6) E também porque se trata aqui de uma revolução de «cidadania», certamente de preceitos de civismo (do tipo, não cuspir para o chão, não fazer ruídos em público, respeitar os limites de velocidade, etc.), porque quanto a cidadania já desde a Revolução Francesa que somos todos citoyens (incluindo Amorins e Belmiros, vejam lá!); com a liberté de votar de quatro em quatro anos (fica tudo na mesma, mas não interessa). (Não era o Manuel Alegre que também andava muito preocupado com a cidadania?) 7) A revolução «que falta para resgatar o país». Toca a ler e a seguir bem as instruções e o país rumará às alturas, com todos os «bons» -- capitalistas e trabalhadores uni-vos! --, de braço dado, resolvendo todos os problemas em amena cavaqueira. A Bem do País (ou da Nação?).
Onde é que eu já li esta coisa?

19/Nov
«Uma em cada 30 crianças nos EUA não tem casa. Um máximo histórico.».

Novo milagre dos pregadores de «direitos humanos».

20/Nov
«Doentes com cancro sem tratamento há meio ano. Medicamentos para tumores na bexiga em falta desde Junho. Vacina contra a tuberculose em ruptura.»

Mais degradação no SNS. É diária. Degradações num processo imparável, de retorno ao antigamente. Embora com uns computadores pelo meio.

21/Nov
«Francisco Assis e João Proença [apoiantes de António Seguro] admitem aliança com o PSD»

Ora ainda bem. Estes ao menos não disfarçam. Assim, fica clarinho como água. Para quem quiser ver, claro. Se o PS vier a aliar-se com o PSD o que é que vão fazer o Livre + Fórum + RC + Manifesto 3D? Vão também «puxar» o PSD p'rá esquerda?

22/Nov
«Sócrates detido à chegada ao aeroporto de Lisboa. Suspeito de crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documentos»

Sócrates, um marco incontornável na «história ignominiosa do PS» que temos vindo a apresentar. Mais um «caso» no rol das bandalheiras da democracia burguesa e novembrista portuguesa. Parida, sob os auspícios da CIA, em 25 de Novembro de 1975. Pelo PS de Sócrates e pelos Nove (encabeçados por Vasco Lourenço). Manu militari por Ramalho Eanes. (Muitos artigos nossos já se debruçaram sobre este parto.)
Sócrates. Quem sai aos seus não degenera.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Algazarra sobre os Médicos Cubanos

    Periodicamente, o imperialismo americano trata de agredir Cuba, actual porta-estandarte do socialismo, pelos mais variados meios: boicote económico, infiltração de agentes, aliciamento de cidadãos cubanos para actos contra o Estado e a propriedade do povo, campanhas de desinformação, etc. A vertente da desinformação é constantemente utilizada, com alteração periódica do tema em voga. O actual tema em voga é o dos «médicos cubanos». E, como sempre acontece, o imperialismo encontra nos mais diversos paraísos «ocidentais» personagens que consciente ou inconscientemente servem de caixa de ressonância da desinformação.
    Vem isto a propósito de um artigo que o JN publicou no passado 23 de Outubro. Um artigo da secção «Opinião» da autoria do Dr. Miguel Guimarães, Presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos: «Cuba e Portugal: direitos humanos são negociáveis?».
    Enviámos ao JN um artigo respondendo às «denúncias» do Dr. Guimarães. Tinha quase o mesmo número de palavras do supracitado. Foi rejeitada a sua publicação com base em que teria sido um erro terem-no publicado na secção de «Opinião», dado ser reservada a opiniões contratadas, e que não iriam repetir o erro… Aceitaram, contudo, publicar uma versão resumida (cerca de 1/3 do original) que o próprio JN elaborou. O texto final mereceu a nossa aprovação e saiu no JN em 24 de Novembro. Embora contribuindo para o esclarecimento que desejávamos, o resumo publicado é demasiadamente curto para um cabal esclarecimento. Aqui fica por inteiro o que considerávamos importante dizer.
*    *    *
    O título do artigo do Dr. Guimarães coloca uma pergunta de retórica. O conteúdo aborda o tema de momento usado para atacar o regime cubano: a alegada «exploração humana», por parte de Cuba, dos seus compatriotas médicos a prestar serviço em países carenciados de quadros médicos, ao abrigo de contratos inter-governamentais.
    O Dr. Guimarães baseia a sua discorrência numa única fonte: um artigo da revista brasileira «Veja». Artigo de Fevereiro de 2014 expondo denúncias de uma médica (Ramona M. Rodriguez) integrante de um contingente de 4.000 médicos cubanos, chegado ao Brasil em meados de 2013 no âmbito do programa brasileiro «Mais Médicos».
    À primeira vista, as denúncias são chocantes e parecem substanciais. Resta saber se são verdadeiras e qual o valor real do seu conteúdo. Desde já, um reparo. Qualquer intelectual sensato e honesto, ao escrever sobre questões sociais, históricas ou políticas, não se deve basear numa única fonte de informação. Ainda para mais uma fonte pouco séria como a revista «Veja», conhecida no Brasil pelas suas mentiras; uma fonte que se opôs ao programa da vinda dos cubanos ([1]) argumentando que Cuba tinha um dos piores sistemas de saúde do mundo (!) e «vai inundar o Brasil com espiões comunistas». O intelectual sensato e honesto deve, nas questões sociais, históricas ou políticas (e não só!), confrontar várias fontes, questionar porque razão dizem o que dizem, e coligir dados factuais, quantitativos e qualitativos, de fontes autorizadas, que alicercem as afirmações. Pelos vistos, não o entende assim o Dr. Guimarães, Presidente do Conselho Regional do Norte da Ordem dos Médicos.
    Analisemos as denúncias socorrendo-nos de fontes autorizadas governamentais do Brasil e de Cuba, de organismos da ONU, da OMS, do Banco Mundial, e outras:
   
à «Para Ramona […] o maior motivo de indignação foi perceber que obtinha apenas mil reais por mês, dos cerca de 10 mil que Brasília pagava tanto a Havana como a todos os colegas que integravam o “Mais Médicos”. Desumanos e indignos 10%, que em Portugal representariam um ordenado pouco superior aos 323 euros».
Esta denúncia contém três erros. 1) Os médicos cubanos recebiam 933 reais no Brasil e 1.400 reais numa conta em Cuba (Ministério da Saúde do Brasil, [2]). Um total de 2.333 reais e não de 1.000 reais. Recebiam também alojamento. 2) Só certos profissionais não cubanos recebiam 10 mil reais e não «Havana». 3) Os índices de paridade de poder de compra  mostram que 1 € em Portugal tinha, em 2013, um poder de compra de 2,56 € no Brasil ([3]). Os 933 reais, à taxa de câmbio usada pelo Dr. Guimarães, correspondem a 301 €. Mas não basta aplicar a taxa de câmbio, como fez o Dr. Guimarães. É que em termos de poder de compra os 301 € no Brasil correspondem, em média, a 771 € em Portugal ([3]). Os 1.400 reais em Cuba, fazendo contas semelhantes, correspondem em Portugal a 2.940 €. Portanto, um total de 3.711 €. Há muitos médicos portugueses cujo ordenado (líquido ou bruto) é inferior.
à «Ramona […] denunciou a situação esclavagista […] e obrigou o regime cubano a subir-lhes o ordenado».
1) Em 2013 o rendimento mensal mediano das famílias portuguesas foi inferior a 681 (tomando ano = 12 meses como no Brasil). Como 681 € é inferior a 771 €, temos de concluir, de acordo com o Dr. Guimarães, que 50% da população portuguesa vive numa «situação esclavagista». E se tivermos em conta os 3.711 € totais dos médicos cubanos, a coisa complica-se: 99% dos portugueses, com rendimento mensal abaixo de 3.014 € em 2013, também estariam numa «situação esclavagista»! 2) A ideia de que Ramona «obrigou o regime cubano» a subir ordenados é ridícula. De facto, foi a 28 de Fevereiro (o mesmo mês das denuncias à «Veja») que o aumento foi anunciado e esses aumentos passaram por negociações bilaterais Cuba-Brasil que não se fazem de um dia para o outro. O aumento foi anunciado pelo ministro de Saúde brasileiro ([2]). Os médicos cubanos passaram a ganhar 2.333 reais (os anteriores 933 + 1.400) e 571 reais passaram a ficar numa conta em Cuba. Em suma, o governo brasileiro (e não Cuba) pagou mais 571 reais por médico. O ordenado dos cubanos no Brasil é agora de 2.333 reais, equivalente a 1.928 € em Portugal. Escravos?
à «mais de 30 médicos cubanos pediram exílio o Brasil ou regressaram ao país de origem».
O ministro da Saúde brasileiro falou em Março de 2014 de 2 médicos que pediram asilo e em 3 que estavam desaparecidos ([4]). Ou seja, 5/4.000 = 0,125%. Os dados da cubainformacion.tv vão mais longe: referem que 0,2% dos médicos abandonaram o programa, número aliás inferior a qualquer dos outros países que enviou médicos neste programa e inferior ao número de médicos brasileiros que desiste do programa: 8,4% ([5]).
(Curiosamente, nunca se fala dos que «desertam» para Cuba, como o destacado actor espanhol Willy Toledo, ou os cubanos (incluindo médicos!) que pediram para regressar a Cuba depois de terem experimentado algumas das maravilhas do capitalismo.)
à «[Ramona] vigiada 24 horas por dia por uma “controleira”, também ela médica, mas cujas competências não passavam por atender doentes […]».
1) A "controleira" vigiava 24 horas por dia; i.e., não dormia. 2) Uma "controleira" sem exercer medicina seria recambiada, dado que o governo brasileiro pagou para ter médicos e não "controleiros". 3) O termo "controleira" é uma alfinetada no PCP e ajuda a situar o Dr. Guimarães. Que, aliás, tinha obrigação de lembrar-se que todas as missões de carácter humanitário (como por exemplo as da ONU), têm um chefe de missão. E o papel do elemento sénior, chefe de missão, é precisamente, sem descurar as suas tarefas específicas, estar atento a problemas profissionais e pessoais que possam prejudicar a missão.
à «qualquer deslocação para fora da localidade de trabalho tem de ser comunicada aos superiores e estão expressamente proibidas declarações à Comunicação Social.»
O meu filho trabalha no Brasil na função pública. Também ele não pode oficialmente deslocar-se «para fora da localidade de trabalho» sem comunicar e obter autorização superior. São estas as regras no Brasil, uma enorme república federativa de vários estados e com regiões de travessia perigosa. Também se compreende a proibição de «declarações à Comunicação Social». Qualquer declaração, ainda que inocente, à Comunicação Social, poderia ser interpretada como posição oficial de todos os médicos cubanos a trabalhar na mesma comunidade. Para não falar nas distorções a que se prestaria, como a promoção a verdade absoluta das «denúncias» de Ramona à «Veja». (Ramona vai agora para os EUA. Lá terá muitas ocasiões de prestar declarações sobre Cuba à Comunicação Social.)
à «código disciplinar férreo […] proibidos quaisquer contactos […] com habitantes locais “cuja conduta não esteja de acordo com os princípios e valores da sociedade cubana" (sic)».

Todas as missões têm «códigos», regulamentos de conduta. Que a não serem cumpridos implicam em sanção, como por exemplo a expulsão da missão. Qual é, portanto, a surpresa? A proibição de contactos sociais é certamente um disparate da «Veja», já que ao atenderem pacientes os médicos têm necessariamente contactos sociais. No que concerne ao «cuja conduta não esteja de acordo com os princípios e valores da sociedade cubana», que tanto choca o Dr. Guimarães que ele até tem o cuidado de colocar «sic», parece apropriado esclarecer o seguinte: Todas as missões de médicos cubanos têm sido elogiadas por organismos da ONU ([6]), pela Organização Mundial de Saúde (OMS, [7]) e pela organização dos Médicos sem Fronteiras ([8]), pela sua conduta exemplar. Ainda recentemente isso ficou demonstrado a propósito do ébola; Cuba foi o primeiro país a oferecer médicos voluntários para África, numa clara demonstração de conduta «de acordo com os princípios e valores da sociedade cubana».
    
    Depois de apresentar as «denúncias» da «Veja» o Dr. Guimarães aborda a questão dos médicos cubanos em Portugal. De facto, era aqui que ele queria chegar. As «denúncias» serviram apenas de intróito para vituperar a presença de médicos cubanos em Portugal, com a «transgressão dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos». Para reforçar a argumentação refere que o British Medical Journal, em 2010 também estaria muito condoído com a «clara violação dos direitos humanos, sociais, profissionais e laborais de 40 médicos» cubanos que vieram para Portugal. Até agora, que saibamos, não houve nenhuma queixa desses médicos sobre uma alegada «clara violação dos direitos humanos, sociais, profissionais e laborais». Já vimos que no Brasil tal «clara violação» é uma balela. Cozinhada por aqueles a quem os médicos cubanos incomodam nos seus direitos corporativos. E por Aécio Neves e seus apoiantes, adversários de Dilma Rousseff cujo governo lançou o «Mais Médicos».
    Deixando de lado a «Veja» e os senhores doutores e professores do British Medical Journal, terrivelmente bem informados sobre o que se passa em Portugal, o que se pode afirmar de concreto sobre as missões dos médicos cubanos em várias partes do mundo? Já assinalámos atrás que as apreciações oficiais são excelentes: ONU/Brasil ([6]): «Médicos cubanos revolucionam atendimento em comunidades no Espírito Santo. Em um dos casos, profissionais de Cuba já conseguiram resolver o atraso nas consultas de pré-natal, desenvolveram um programa de atendimento para os casos de hipertensão e diabetes e sistematizaram as consultas domiciliares». OMS ([7]): «"Cuba é conhecida mundialmente por sua capacidade de formação de médicos e enfermeiros destacados, bem como pela sua generosidade em ajudar outros países no caminho para o progresso", disse a Directora-Geral da OMS». Inquéritos oficiais do Brasil: «Inquéritos de várias entidades à população brasileira reportam percentagens de opinião favorável ao "Mais Médicos" de 73,9% com 61% em Porto Alegre e 59,3% em Rio Grande do Sul, um estado onde venceu Aécio contra Dilma». Para terminar, a opinião do Dr. José Antonio Bastos, presidente de Médicos sem Fronteiras de Espanha. «Me gustaría que comparásemos la respuesta del Gobierno cubano y la del Gobierno español, por ejemplo. El Gobierno cubano ha mandado 160 profesionales de salud que piensa aumentar a 300. Es el gobierno que ha dado una respuesta más rápida, más eficaz y más contundente a esta epidemia en el oeste de África. Eso es bastante impresionante, si comparamos las posibilidades de cada gobierno". Acrescenta esta notícia da cubainformacion.tv que «La mayoría de los grandes medios españoles han pasado por alto la incómoda comparación entre Cuba y España.». Como cá.
    Como contraponto às denúncias de Ramona é de elementar justiça citar as declarações do médico cubano Oswaldo Aloma que há 14 anos trabalha no Brasil ([9]). Segundo ele, as missões de solidariedade fazem parte do dia a dia do médico cubano e todo o médico que se forma em Cuba -- onde os estudos são totalmente gratuitos e onde não existe a mercantilização da medicina -- sabe que em algum momento será convocado para estas funções por que já faz parte da formação académica. Saberão (ou lembrar-se-ão) os leitores de um programa semelhante que completava a «formação académica» dos médicos? Pois foi o programa do Serviço Médico à Periferia, criado em 1975, em plena «ditadura comunista». Os jovens médicos prestavam serviço durante 1 ano nas regiões carenciadas do interior. Serviço que era obrigatório para prosseguir na carreira. Em 1979 recebiam cerca de 20 contos por mês (para além de alojamento) que equivaliam a uns actuais 1.224 € mensais ([11]).
    Em suma, com mais e melhores fontes, desmorona-se a pilha de «denúncias» usada pelo Dr. Guimarães para atacar a vinda de médicos cubanos para Portugal. Ele ainda termina dizendo que «Nada me move contra os médicos cubanos». Certo. Só o regime de Cuba o «move», como se infere de expressões como «os rigores do regime dos irmãos Castro», «O “Big brother” do Governo cubano», «Os “novos negreiros”», «situação esclavagista», e outras amabilidades. É claro que o Dr. Guimarães, como qualquer cidadão, tem o direito de escolher as suas hostilidades. E se essas hostilidades forem as «politicamente correctas» encontrarão certamente divulgação assegurada e detalhada nos jornais e na televisão. Só que, quando a hostilidade é posta ao serviço da distorção da verdade, deixa de ser um direito para ser um defeito.

    Quando pela primeira vez lemos o título do artigo do Dr. Guimarães, ainda pensámos que ele iria talvez comparar o estado da Saúde nos dois países, e mencionar, por exemplo, os 30% de crianças pobres em Portugal. Ou o nosso aumento de suicídios e de doenças infecciosas. Ou o aumento de mortalidade, nomeadamente infantil, relacionada com o aumento de pobreza, conforme denunciado por figuras destacadas da comunidade médica, bem como pelo Instituto Ricardo Jorge e pelo Sindicato dos Médicos (mas, se bem me lembro, não pela corporativa Ordem dos Médicos). E outras maravilhas do estado da Saúde em Portugal constantemente divulgadas a nível oficial. Todas elas configurando graves atentados aos direitos humanos. Todas, também, agravadas em resultado de negociações com a troika. Então, sim, ficaria plenamente justificada a pergunta de retórica do título: «Cuba e Portugal: direitos humanos são negociáveis?» É que Cuba não sofre desses atentados aos direitos humanos. E, sim, os «direitos humanos não deveriam ser negociáveis». Como o foram em Portugal.
    
Notas e Referências
    
[1] Até 2003 a «Veja» era favorável ao programa do governo brasileiro, chegando a criticar o Conselho Federal de Medicina por interpor uma acção pedindo o fim do convénio com Cuba. Só em 2013 mudou de 180º.
[2] http://gazetaweb.globo.com/noticia.php?c=362616&e=17 . Noticiado também na Folha de S. Paulo em 28/02/2014 e por outros órgãos noticiosos.
[3] O Banco Mundial disponibiliza os índices de Paridade de Poder de Compra (PPC) para o consumo privado em http://data.worldbank.org/indicator/PA.NUS.PRVT.PP. O país de referência é os EUA (PPC=1). Consultando a tabela, vemos que, em 2013, 1 USD no Brasil tinha o mesmo poder de compra que 1,79 USD nos EUA e 1 USD em Portugal tinha o mesmo poder de compra que 0,7 USD nos EUA. Note-se que, embora expressos em USD, a proporcionalidade dos PPCs mantém-se qualquer que seja a unidade monetária utilizada. Logo, o poder de compra no Brasil, relativamente a uma (qualquer) unidade monetária em Portugal é 1,79/0,7=2,56 vezes maior. Isto é, os 323 € em Portugal «compravam» no Brasil, em 2013, o equivalente a 2,56x301 = 769 € em Portugal.
[8] »Médicos sin Fronteras: Cuba ejemplo frente al ébola y España contraejemplo: Medios españoles callan», cubainformacion.tv: https://www.youtube.com/watch?v=NdXMVBvzMaY. Também vale a pena ver: https://www.youtube.com/watch?v=V61CWTLXM_M.
[10] Susete Francisco, Quando os serviços médicos saíram à rua, DN 25/4/1979 http://www.dn.pt/especiais/interior.aspx?content_id=1211699&especial=A%20revolu%E7%E3o%20de%20Abril&seccao=POL%CDTICA
[11] Os 20 contos de 1979 correspondem a nominalmente 99,76 euros. Mas esse valor tem de ser ajustado com as taxas de inflação (índices de preços no consumidor) dos anos que medeiam entre 1979 e 2013, o que corresponde a multiplicar por 12,27 (os valores das taxas podem ser encontrados na Pordata).