sábado, 25 de outubro de 2014

Capitalismo: de mal a pior (I)

I - Panorama Global (presente artigo)
II - Panorama Português (próximo artigo)
    
    Até há bem pouco tempo só os marxistas e um ou outro keynesiano alertavam para a decadência do capitalismo, para a grave crise que este sistema socio-económico atravessa e que está a agravar-se. Entretanto, os factos tornaram-se tão evidentes e o receio do que está para vir tão premente que as instituições ao serviço do grande capital, vêm, agora, a multiplicar declarações e divulgar relatórios elaborados por economistas convencionais reconhecendo muito do que os marxistas já vinham dizendo. É claro que, se há pontos comuns no diagnóstico o mesmo não acontece nas terapêuticas. Os capitalistas e economistas ao serviço do Capital pretendem salvá-lo à custa de redobrada exploração dos trabalhadores; os marxistas lutam diariamente contra essa perspectiva, quer na prática, pela mobilização dos trabalhadores, quer no esclarecimento de que a única terapêutica humanista é o socialismo.
    Vejamos, sucintamente, quais os factos que justificam a nossa afirmação de que o capitalismo vai de mal a pior. (Todos os factos se baseiam em dados de fontes oficiais citadas nas referências.)
     
I - Panorama Global
     
1) O capitalismo a nível global encontra-se em Longa Depressão
     
    Comecemos pelos EUA, a maior economia capitalista (perto de ¼ do PIB mundial) que, por isso mesmo, influencia a economia de muitos outros países. A figura 1 mostra, a traço preto, a evolução do PIB nominal ([1]) nos EUA ([2]) e a traço magenta a tendência de crescimento antes da crise da «bolha imobiliária» de 2008, que despoletou outras crises, como a do «euro». Portanto, a magenta, temos o crescimento esperado se não tivesse havido a crise. Claramente, ao fim de cinco anos depois da crise, o PIB dos EUA ainda não retomou a tendência de crescimento pré-crise. O desvio actual supera 1.200 biliões de dólares (como sempre, neste blog, bilião = mil milhões). Os cálculos feitos de forma mais rigorosa, em termos do PIB real per capita, levam a concluir que o desvio do PIB per capita tem aumentado, situando-se agora em cerca de 6.000 dólares/ano ([3]).
     
Fig. 1. Evolução do PIB dos EUA de Janeiro de 2000 a Abril de 2014. A traço magenta a tendência evolutiva que deveria ter o PIB de acordo com os valores pré-crise.
     
    Note-se que no caso de recessões, como se mostra nos dois gráficos da esquerda da figura 2 ([4]), observa-se uma descida temporária na taxa de crescimento do PIB, durante pelo menos três trimestres ([5]). Nesse período, de pelo menos três trimestres, a taxa de crescimento do PIB (trimestre-a-trimestre) é negativa. Na situação «típica», ilustrada pelo gráfico mais à esquerda (recessão da «crise do petróleo»), depois da descida verifica-se a subida do PIB para a tendência de crescimento anterior à recessão (gráfico em forma de V). Os economistas reconhecem também um outro tipo de recessões (double-dip recessions) com duas recessões «típicas» muito próximas uma da outra e uma breve subida a separá-las, tal como mostra o gráfico do meio (em forma de W). Enquanto a recessão dura, até à retoma, entre cerca de seis meses a dois anos, no caso de depressão o PIB não recupera a anterior tendência de crescimento por um período mais prolongado de tempo, como ilustra o gráfico da direita da Grande Depressão dos anos trinta. É esta a situação actual nos EUA, como mostra a figura 1. Nas duas únicas depressões reconhecidas para os EUA, anteriores à actual e que afectaram gravemente a economia mundial, a recuperação só se verificou com a eclosão das duas guerras mundiais...
     
Fig. 2. Evolução do PIB dos EUA durante duas recessões e durante a Grande Depressão.
     
    A depressão não ocorre apenas nos EUA. Ocorre também noutras economias capitalistas ditas desenvolvidas – além dos EUA, também no Canadá, Japão, e com particular gravidade na Zona Euro (incluindo a Alemanha e a França) --, nas economias ditas emergentes – por exemplo, na Rússia e na África do Sul -- e, de facto, a nível mundial conforme mostra a figura 3 ([6]). (As designações «desenvolvidas» e «emergentes» são eufemismos, como quase todas as designações inventadas pelos serventuários do capitalismo. Neste caso, trata-se de cobrir com um manto de respeitabilidade as seguintes traduções: «economias desenvolvidas» = «economias imperialistas, do conglomerado Ianque&C.ª, que se alimentam predatoriamente dos recursos e exploração da mão-de-obra de outros países, incluindo dos "emergentes"»; «economias emergentes» = «economias candidatas a futuros imperialismos». Ver o que dissemos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/08/a-logica-galopante-do-imperialismo-e-o.html .)
    
Fig.3. Evolução do PIB mundial entre 2004 e 2014.
    
    A magnitude da actual depressão, que alguns economistas já denominam de Longa Depressão, é reconhecida pelo 16.º Relatório Anual de Genebra do passado mês de Setembro, patrocinado pelo Centro Internacional de Estudos Financeiros e Bancários, um think-tank obviamente defensor do capitalismo e povoado por economistas neoliberais. A figura pertinente desse Relatório está abaixo ([7]: world = todas as economias capitalistas, developed markets = economias desenvolvidas, emerging markets = economias emergentes). Mostra como a taxa de crescimento real do PIB, referido ao ano 2006 (tomando nesse ano o valor da taxa de crescimento como igual a 100), se situou sempre abaixo das sucessivas previsões de crescimento do FMI («f/c» = forecast = previsão). Incluindo a previsão extrapolada dos anos pré-crise, como na figura 1 do PIB dos EUA.
     
Fig. 4. As sucessivas previsões do FMI a partir de 2006, sempre em baixa.
     
    Relativamente às economias emergentes é importante ver como também elas estão deprimidas, independentemente da parte do globo em que se situam. É o que mostra a figura 5, proveniente de um relatório do FMI ([8]). Inclusive a China, embora não tenha entrado em recessão em 2008 – o valor mais baixo da sua taxa anualizada de crescimento do PIB situou-se acima duns confortáveis 6%! --, tem vindo a exibir taxas de crescimento decrescentes (em «abrandamento» como eufemisticamente gostam de dizer os economistas convencionais), de perto de 12% em 2010 para os actuais 7,4%. (Já vimos em vários artigos anteriores que a economia chinesa se rege em larga medida pela «economia de mercado», isto é, pelo sector capitalista e por práticas capitalistas.)
     
Fig. 5. As sucessivas previsões do FMI a partir de 2010 para as economias emergentes, sempre em baixa.
     
2) A dívida global é enorme e continua a aumentar
     
    A ganância do lucro conduziu a níveis fantásticos de dívida pública e privada a nível mundial, principalmente nas economias desenvolvidas. Ao contrário do que seria de esperar, as políticas pós-crise, quer de austeridade que bem conhecemos, quer de quantitative easing (facilitação quantitativa) dos EUA e Inglaterra, com os bancos centrais a suportarem empréstimos vultuosos, quer ainda uma mistura dos dois métodos, como no Japão, não têm conduzido à liquidação da dívida pública e privada (designada por deleveraging = desalavancagem, [9]). Muito pelo contrário, como mostra a figura 6 do já citado 16.º Relatório Anual de Genebra.
     
Fig. 6. Evolução da dívida total em percentagem do PIB a nível global (todas as economias capitalistas) de 2001 a 2013.
     
    O valor total da dívida cresceu cerca de 25% nos quatro anos anteriores a 2009 (ponto mais baixo da crise). Nos quatro anos seguintes o acréscimo não foi tão elevado mas mesmo assim cresceu mais de 15% e continua a aumentar. O Relatório alerta para uma «combinação venenosa de elevada e crescente dívida global com PIB nominal desacelerado, impelido por um crescimento real em abrandamento e inflação em queda» ([10]). O Financial Times, conhecida voz do grande capital internacional, também revela apreensão sobre a actual situação, a começar pelo título da sua análise de 28 de Setembro ([11]): «O Relatório de Genebra avisa que dívida recorde e baixo crescimento apontam para crise». De facto, a crise tem existido sempre desde 2008. É a Longa Depressão. Mas tudo indica que uma outra vem a caminho, sobrepondo-se à Longa Depressão.
    Um dos problemas da dívida elevada é que qualquer «ajuste de contas», inclusive de pequena dimensão inicial, faz ruir o castelo de cartas construído à custa de títulos de dívida a ressarcir no futuro e com míticas garantias de ressarcimento. E os ajustes de contas podem assumir variadíssimas formas, por exemplo: impossibilidade de pagar hipotecas imobiliárias devido a baixa de salários e desemprego, como aconteceu na «crise imobiliária» dos sub-prime; incumprimentos de «activos tóxicos» dos bancos (derivados, hipotecas, títulos de dívida nacional em baixa de cotação, etc.) na «crise do euro»; subida das taxas de juro do banco central, ainda que débil, como aconteceu na Grande Depressão dos anos de 1930. Ou mesmo uma coisa «tão pequena» como a verificada no preciso momento em que escrevemos, 17/10, relatada assim no JN ([12]): «Não foi a quinta-feira negra de 24 de Outubro de 1929, mas esteve muito perto. Pressionadas pelos receios de abrandamento económico e de uma crise política na Grécia, as bolsas mundiais foram ontem inundadas por uma maré vermelha. As perdas chegaram a ser avultadas – Madrid, por exemplo, chegou a perder mais de 4%». Em Portugal a queda bolsista do PSI-20 foi de 3,2%. E, como também refere este artigo do JN, «Os mercados europeus afundaram pelo oitavo dia consecutivo e arrecadaram o maior ciclo de quedas desde 2003».
    Um outro aspecto preocupante é que a dívida tem também crescido em algumas economias emergentes (ver figura 7, proveniente de [11]), com destaque para a China, onde a dívida de todos os sectores de actividade excluindo o financeiro tem crescido aceleradamente desde 2008. Essa dívida está agora perto dos 220% do PIB (na UE é de 257%).
    

Fig. 7. Evolução da dívida total de economias emergentes (EM) em percentagem do PIB, com exclusão de dívidas do sector financeiro.
    
3) O investimento a nível mundial está deprimido
    
    A figura 8 mostra a evolução do investimento no sector produtivo de várias economias, tomando como referência (=100) o valor quando se iniciou a crise ([13]). Só os EUA ultrapassaram ligeiramente o nível de Dezembro de 2007, embora, segundo a tendência do crescimento pré-crise, estejam cerca de 13% abaixo do valor esperado. Mas para as outras economias desenvolvidas é bem pior. O investimento na Alemanha ainda não alcançou o valor que tinha em Dezembro de 2007. E na Zona Euro sem Alemanha (EMUxGer) o nível de investimento, ao fim de seis anos, está 25% abaixo!
    
Fig. 8. Evolução do investimento no sector produtivo de Dezembro de 2007 (início da crise) a Dezembro de 2013.
     
    O problema essencial é que a rendibilidade do sector produtivo continua baixa, pelo que muitos dos grandes capitalistas preferem apostar na especulação financeira do que investir na indústria. Este tema foi já por nós abordado em detalhe noutros artigos. Note-se, a propósito, que as baixas taxas de juro actualmente praticadas permitem aos conglomerados alavancar em alto nível a compra de activos financeiros nas bolsas e nos mercados de derivados. Nas próprias economias emergentes, em especial no Brasil, Rússia, Índia e China, se tem vindo a verificar quedas de investimento; da ordem de 4% em 2013 e possivelmente outro tanto em 2014 o que constitui uma inflexão da tendência destas economias nos últimos anos. Há, aliás, quem preveja que uma nova grande crise seja despoletada por um destes países.
    A figura 9 ([13]) mostra a taxa de crescimento do investimento em capital fixo (capex=capital expenditure), ou seja, em instalações industriais, maquinaria, laboratórios, consertos e remodelações, etc. A figura mostra bem onde reside a falência do capitalismo actual na produção de valor.

Fig. 9. Taxa de crescimento de investimentos em capital fixo a nível de todas as economias capitalistas.
     
    Já fundamentámos, com algum detalhe em artigos anteriores, que a quebra de investimento é causada pela queda da rendibilidade. Todas as recessões são precedidas por quedas de rendibilidade (ver, p. ex., [15]). Além disso, a rendibilidade do capital no sector produtivo tem exibido uma tendência secular de declínio (a famosa lei da queda tendencial da taxa de lucro, proposta por Karl Marx), conforme tem sido analisado e constatado experimentalmente em muitos trabalhos (ver, p. ex., [16-17]). 
     
4) Salários, produtividade e desemprego
     
    Nas economias capitalistas a classe social dominante é, obviamente, a classe dos capitalistas, a burguesia. São os capitalistas que dominam as instituições e controlam as políticas estatais; que impõem as regras do jogo a que os trabalhadores estão sujeitos; pesem embora algumas concessões aos trabalhadores mercê da sua luta constante por melhores condições de vida. Num cenário de baixa rendibilidade do capital, aumenta a pressão dos capitalistas para ainda aumentar mais o grau de exploração dos trabalhadores, o que se traduz, entre outras coisas, em cortes salariais e aumento das exigências laborais (mais horas de trabalho, por exemplo).
    A figura 10 ([18]) mostra a variação média anual do crescimento dos salários reais (isto é, tendo em conta o índice de preços) e da produtividade desde o 2.º trimestre de 2009 (quase no fim oficial da crise) até ao 1.º trimestre de 2014. É patente que, por exemplo, um aumento de produtividade na Zona Euro semelhante ao dos EUA foi «acompanhado» por uma baixa dos salários reais, enquanto nos EUA houve aumento (ainda que débil). No Japão, um maior aumento de produtividade «acompanhou» uma maior diminuição dos salários reais. Esta actual tendência da sobre-exploração do trabalho surge aqui e além noticiada para as economias emergentes. Não foi por nada que a China assistiu a greves selvagens dos mineiros do carvão em Outubro de 2009, dos trabalhadores da Honda em Maio de 2010 e várias outras de Junho a Agosto de 2013.
    Na Zona Euro os custos reais do trabalho também têm decrescido em vários países, conforme mostra a figura 11 ([19]), o que significa que nesses países os gastos em salários decresceram face ao valor acrescentado real. As maiores descidas dos valores pré-crise foram na Itália, Espanha e Portugal. Particularmente acentuadas a partir de 2009.
   
Fig. 10. Crescimento dos salários reais (castanho escuro) e da produtividade (rosa) entre o 2.º trimestre de 2009 e o 1.º trimestre de 2014.
     
Fig.11. Custos reais unitários do trabalho, tomando o valor de 1999 como referência.
     
    O desemprego, como é sabido, tem assumido níveis dramáticos não só nas economias desenvolvidas como em muitos outros países ([20]). É ainda mais dramático e totalmente desumano o nível de desemprego na juventude (15-24 anos) nas economias «ricas» da Europa, conforme mostra a figura 12 ([21]). O crescimento do desemprego pós-crise é enorme. O desemprego jovem tinha atingido níveis espantosamente elevados na Grécia, Espanha (superior a 50%!), Croácia, Itália, Portugal e Chipre (perto ou superior a 40%). Nos 28 países da UE, 26 tinham taxas de desemprego jovem superiores a 10%! Os Durões Barrosos, os Draghi, os Juncker e todos os seus serventuários e correligionários mostram-se muito compungidos com esta situação. Desdobram-se em declarações e em relatórios gizando planos para vencer esta calamidade social. Quem ouça e leia com atenção e conhecimentos aquilo que dizem sabe que são pilhas de tretas, destinadas a manter o povo adormecido. A situação é o que é pelas razões já explicadas da baixa rendibilidade do capital nos sectores produtivos (e com explicação detalhada em muitos dos nosso artigos anteriores). No mundo do Capital são os capitalistas quem mais ordena e as declarações optimistas dos Durões Barrosos, etc., servem apenas para tapar os olhos das «criancinhas» que ainda creditam em presentes do Pai Natal.
     
Fig. 12. Evolução do desemprego jovem (15-24 anos) em países da UE e na Zona Euro.
     
5) Desigualdade social
     
    Um gráfico que ilustra de forma dramática o que representou(a) o neoliberalismo e, a partir de 1989 com o colapso da URSS e de outros países socialistas, o neoliberalismo em rédea solta, é o da figura 13 que mostra a evolução nos EUA da produtividade e do rendimento mediano real (isto é, tendo em conta o índice de preços) das famílias ([22]). A partir da «crise do petróleo» em 1975, que marca o fim das políticas keynesianas e a inflexão para políticas neoliberais, a produtividade aumentou e acelerou o seu aumento a partir de cerca de 1990. Mas o aumento da riqueza criada não foi para a população em geral, já que o rendimento mediano das famílias praticamente estagnou e decresceu a partir da crise de 2008.
     
Fig.13. Evolução da produtividade e do rendimento mediano das famílias desde 1947. Notar a descolagem evolutiva a partir de 1975 que se agrava até hoje.
     
    Para onde «fugiu» a riqueza criada pelos aumentos de produtividade? Para os muito ricos, para os grandes capitalistas. A prova está na figura 14 ([23]) que complementa a anterior. Veja-se como evoluiu nos EUA o rendimento médio dos 1% do topo, comparado com o valor médio dos salários e a produtividade.
     
Fig. 14. Evolução do rendimento médio dos 1% do topo, do valor médio dos salários e da produtividade nos EUA, desde 1979.
     
    Mas mesmo o rendimento médio dos 1% do topo não transmite a ideia justa do enriquecimento dos grandes capitalistas. Por exemplo, o valor de rendimento anual em Portugal e em 2013, dos que se situaram no início dos 1% do topo, foi de 36.169 € ou seja de 2583,5 €/mês (contando com subsídios de férias e de Natal). Um rendimento mensal ridiculamente baixo para os grandes capitalistas, que ocupam uma faixa muito mais reduzida no topo da distribuição, da ordem dos 0,1%. Dados sobre esta longuíssima faixa no topo da distribuição de rendimento não estão normalmente disponíveis nas instituições estatísticas. Existem, contudo, estudos sobre o número de milionários e bilionários, e estes dão uma ideia bem mais precisa de para onde vai a riqueza criada pelos trabalhadores.
    Ora, o número de milionários e bilionários tem vindo constantemente a crescer em quase todo o mundo, conforme mostra a figura 15 ([24]) e, como é óbvio, a riqueza não aumenta sem aumentar o rendimento, o qual, independentemente da fonte directa de onde provém (muitas das fontes são inclusive ilegítimas: desvios, fraudes, roubos, prostituição, droga, casinos, etc.), acaba sempre por provir dos criadores de valor: os trabalhadores.

Fig. 15. Evolução do número de milionários (com uma riqueza maior que um milhão de dólares US) a nível mundial.
     
    Com isto tudo, não é de admirar o crescimento dramático da desigualdade social a nível mundial, quer dentro de cada país quer entre países. Esta crescente desigualdade social está retratada na figura 16 ([25]).
     
Fig. 16. Evolução dos escalões de riqueza a nível mundial entre 2010 e 2014.
     
    O gráfico da esquerda mostra o número de adultos em cada escalão de riqueza (medida em dólares dos EUA) em fracção, por mil, da população mundial. Vemos que nos três escalões mais baixos o número de adultos se tem mantido praticamente estacionário ou baixado ligeiramente. Há um escalão em que a subida é bem visível. É o escalão dos mais ricos a traço azul («> 1 milhão de USD» significa mais de 786 mil euros ao câmbio actual) que passou de 5 por mil (0,5%) para 7 por mil (0,7%) da população mundial. Este escalão tem também subido na percentagem de riqueza mundial; passou de 35,6% para 44%. Uma subida de 8,4% em apenas 4 anos! Todos os outros escalões viram diminuir a sua fatia da riqueza mundial. (De 4,2% para 2,9% para os do escalão de menos de 10 mil USD, de 14,5% para 11,8% para os do escalão de 10 mil a 100 mil USD e de 43,6% para 41,3% para os do escalão de 100 mil a 1 milhão de USD.) Mas o que tem acontecido com os milionários também acontece com os bilionários (mais de 786 milhões euros ao câmbio actual): são cada vez mais e cada vez mais ricos. De 2008 a 2014 passaram de 100 a 240 com uma riqueza global avaliada em 6,3 triliões de dólares (4.950.670 milhões de euros, ou seja, quase 30 vezes o PIB de Portugal; [26]). Note-se que todos estes valores-estimativas sobre milionários e bilionários pecam por defeito. Como disse um economista sénior do BCE, «muitos dos ricos preferem avaliar por baixo os seus activos quando respondem a inquéritos».
    Em suma, a Longa Depressão neoliberal tem sido um maná para os ricos e muito ricos.
   O enorme aumento da desigualdade social é amplamente reconhecido, incluindo por organismos ao serviço do capitalismo, como a OCDE, o FMI e o Banco Mundial. Um livro recentemente muito comentado pelos economistas (e não só) de todo o mundo é o livro do economista francês Thomas Piketty «O Capital no Século XXI» de 2013 ([27]). O livro contém pilhas de dados demonstrando o aumento da desigualdade social a nível global e de vários países, defendendo a tese de que é a desigualdade social a causadora das crises. Ao retomar esta velha tese keynesiana de que é o subconsumo que causa as crises, o livro não traz nada de novo, nem do ponto de vista do diagnóstico nem da terapêutica. Referimos o leitor interessado para as críticas marxistas ao livro em [28].
    
Referências:
     
[1] O PIB nominal (ou PIB a preços correntes) é a soma de toda a riqueza produzida num ano usando os valores correntes dos preços. O PIB real (ou PIB a preços constantes) é o PIB nominal dividido pelo índice de preços de cada ano.
[2] Dados do Federal Reserve Bank of St. Louis: http://research.stlouisfed.org/fred2/
[3] O leitor interessado pode ver a comparação entre PIB real per capita dos EUA e o PIB esperado (por regressão exponencial) no seguinte portal de uma firma americana de consultoria financeira: http://www.advisorperspectives.com/dshort/updates/Real-GDP-Per-Capita.php
[4] Construímos os dois gráficos da esquerda com o PIB trimestral (sazonalmente ajustado) do Federal Reserve Bank of St. Louis. O gráfico da direita foi construído com os dados U. S. Bureau of Economic Analysis (BEA).
[5] O período mínimo de três trimestres é usado por várias entidades que classificam as recessões. Ver o que dissemos a este respeito em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2013/11/austeridade-em-portugal-ponto-da.html
[6] Global gross domestic product (GDP) at current prices from 2004 to 2015* (in billion U.S. dollars), Statista-The Statistics Portal, http://www.statista.com/statistics/268750/global-gross-domestic-product-gdp/
[7] Luigi Buttiglione, Philip Lane, Lucrezia Reichlin, Vincent Reinhart, Deleveraging, What Deleveraging? The 16th Geneva Report on the World Economy, Vox (Centre for Economic Policy Research), 29/9/2014, http://www.voxeu.org/article/geneva-report-global-deleveraging
[8] Sweta Saxena, Three Key Questions About the Slowdown in Emerging Markets, IMFdirect, 18/9/2014,  http://blog-imfdirect.imf.org/2014/09/18/three-key-questions-about-the-slowdown-in-emerging-markets/
[9] A alavancagem tem a ver com o total de activos que se podem mobilizar por empréstimos face aos activos iniciais próprios (ver exemplos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2012/09/a-crise-do-euro-uma-apreciacao-parte-i.html ). A desalavancagem tem, portanto, a ver com a liquidação de dívidas de empréstimos.
[10] Já falámos num artigo anterior do risco de deflação, à beira da qual estão várias economias da UE, incluindo a nossa. A deflação (inflação negativa) leva à queda de preços com adiamento do consumo e não realização do lucro capitalista.
[11] Chris Giles (Economics Editor), Geneva Report warns record debt and slow growth point to crisis, September 28, http://www.ft.com/intl/cms/s/0/4df99d28-4590-11e4-ab10-00144feabdc0.html#axzz3GONVxHMw
[12] Tiago Figueiredo Silva «Grécia e crise económica ditam novo crash bolsista», JN 17/10.
[13] Michael Roberts, Slowing global growth and the capitalist future, 6/7/2014, http://thenextrecession.wordpress.com/2014/07/08/slowing-global-growth-and-the-capitalist-future/. Os dados da figura são do 16th Geneva Report on the World Economy.
[14] A figura, tirada do trabalho [13], provém da Standard&Poor’s.
[15] Tapia Granados, J. A., Statistical Evidence of Falling Profits as Cause of Recession: A Short Note, Review of Radical Political Economics, December 2012, 44: 484-493.
[16] Andrew Kliman, The Failure of Capitalist Production. Underlying Causes of the Great Recession, Pluto Press, November 2011.
[17] Peter Jones, The Falling Rate of Profit Explains Falling US Growth, 12th Australian Society of Heterodox Economists Conference, November 2013.
[18] Chris Giles, Sarah O’Connor, Claire Jones and Ben McLannahan, Pay pressure, Financial Times, 18/9/2014, http://www.ft.com/intl/cms/s/2/ec422956-3f22-11e4-a861-00144feabdc0.html#axzz3GONVxHMw. A figura foi construída com dados da OCDE.
[19] Labour Costs and Crisis Management in the Euro Zone:

A Reinterpretation of Divergences in Competitiveness, Robert Schuman Foundation, European Issue nº 289, 23/09/2013, http://www.robert-schuman.eu/en/european-issues/0289-labour-costs-and-crisis-management-in-the-euro-zone-a-reinterpretation-of-divergences-in. Os dados do gráfico são da Ameco, um organismo da Comissão Europeia.
[20] Valores do desemprego entre 2005 e 2013 (com previsões de 2014 a 2018) podem ser vistos em http://www.ilo.org/global/research/global-reports/global-employment-trends/2014/WCMS_233936/lang--en/index.htm
[21] Gráfico construído com os últimos dados do Eurostat, consultado em 21 de Outubro de 2014 e que vão até Outubro de 2013.
[22] O gráfico é da wikipedia (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Productivity_and_Real_Median_Family_Income_Growth_1947-2009.png  ) que cita as seguintes fontes dos dados: EPI Authors' analysis of Current Population Survey Annual Social and Economic Supplement Historical Income Tables, (Table F–5) and Bureau of Labor Statistics Productivity – Major Sector Productivity and Costs Database (2012).
[23] Dave Gilson and Carolyn Perot, It's the Inequality, Stupid, Mother Jones, March/April 2011 Issue, http://www.motherjones.com/politics/2011/02/income-inequality-in-america-chart-graph. O site cita todas as fonts oficiais que usa nos seus gráficos.
[24] Global Wealth Report 2014, Credit Suisse Research Institute, https://publications.credit-suisse.com/tasks/render/file/?fileID=60931FDE-A2D2-F568-B041B58C5EA591A4. Um gráfico que mostra a evolução do PIB e do rendimento mediano até 2013 é apresentado em http://en.wikipedia.org/wiki/Income_inequality_in_the_United_States#cite_note-54. É visível que o rendimento mediano continua a baixar.
[25] Gráficos construídos com os dados das «pirâmides da riqueza» de sucessivos relatórios Global Wealth Report do Credit Suisse Research Institute.
[26] The World’s Billionaires, Forbes Magazine, 3/3/2014, http://www.forbes.com/billionaires/
[27] O original é de Agosto de 2013. A tradução portuguesa é do passado mês de Outubro da Editora Intrínseca.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A história ignominiosa do PS: de 9 de Agosto a 5 de Setembro de 1975

    Vimos (http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/07/a-historia-ignominiosa-do-ps-de-1-de.html ) como a 8 de Agosto de 1975 o PS consegue uma vitória importante da sua ala militar: a apresentação da «Carta dos Nove». (Recordemos: quando dizemos PS referimo-nos principalmente às cúpulas do PS, em especial aqui aos dirigentes contra-revolucionários da clique de Mário Soares: Manuel Alegre, Jaime Gama, Almeida Santos, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, António Barreto, etc; excluímos as massas trabalhadoras enganadas pela demagogia «socialista» do PS.)
    A «carta», dirigida ao PR, general Costa Gomes, e rapidamente divulgada, não era assim tão importante pelo texto em si mesmo, parido pelo ideólogo do Grupo dos Nove, Melo Antunes, embora não escondesse os seus propósitos sociais-democratas. O próprio Vasco Lourenço, também dos Nove e líder da contra-revolução dentro do MFA, impaciente pelo atrasado parto do documento, referiu-se-lhe nestes termos: «nunca mais escrituravam isso; já falámos tantas vezes nessas m...» (citado num livro de um PS orgulhoso da contra-revolução). O que interessava era sair cá para fora com qualquer coisa que catapultasse a ala pró-PS do MFA. E arrebanhasse aliados. Mesmo que à força, como nos quartéis da Região Militar Centro em que logo se iniciou a recolha de apoios em reuniões habilmente manipuladas. Às vezes não tão habilmente, como no quartel da Guarda em que o comandante disse logo preto no branco que «toca a assinar o documento» porque era preciso «correr com os comunistas».
    Os «Nove» também eram designados por «não-alinhados» e «moderados». Quanto ao não-alinhamento, toda a gente sabia que eram pró-PS e restante direita. Confirmaram-no, destruindo o MFA com o apoio de Otelo, derrubando o governo de Vasco Gonçalves e alçando ao poder o PS e restante direita. Quanto ao moderantismo, ficou mais tarde esclarecido o que entendiam por isso, quando prenderam, perseguiram e irradiaram das forças armadas toda a esquerda militar, sem qualquer culpa formada, que tinha participado destacadamente no 25 de Abril e no processo revolucionário, reintroduzindo os spinolistas e parte dos fascistas que tinham sido saneados.
    Mas a história da contra-revolução militar ficará para outra altura. Veremos então o papel dissimulado do hábil contra-revolucionário Costa Gomes, bem como do «revolucionário» Otelo, o aspirante a «Fidel da Europa», que sistematicamente apoiou a contra-revolução em todos os momentos decisivos. Veremos também como, desde o início (24/1/1975), o novo embaixador em Lisboa, Franck Carlucci, com agentes da CIA (e dos serviços secretos alemães) que na altura pulularam pelo país, contribuiu para articular a componente militar da contra-revolução liderada pelos «Nove» com a componente civil liderada pelo PS.
    No período em análise a CIA-Carlucci articulou de forma convergente, com o seu aliado PS, três vectores contra-revolucionários: o vector governamental e de propaganda interna e externa (PS às claras); o vector militar (PS por detrás dos «Nove»): o vector da actividade terrorista contra a esquerda civil, também com o apoio do PS.
    Este é o período denso do apogeu do «Verão Quente», expressão que designou as múltiplas actividades terroristas contra as forças de esquerda: assaltos e incêndios de sedes do PCP, MDP/CDE, Sindicatos e Uniões Sindicais, e, em muito menor número, da FSP (Frente Socialista Popular) e UDP; ataques armados contra comícios e sessões de esclarecimento do PCP e MDP/CDE; ataques com bombas em instalações de forças de esquerda e de Sindicatos; destruição com bombas de carros de militantes de esquerda; agressões violentas e assassinatos de trabalhadores, dirigentes sindicais, intelectuais progressistas, e militantes do PCP, MDP/CDE e UDP.
    O «Verão Quente» teve o seu início «oficial» em 13 de Julho de 1975, em Rio Maior, quando uma multidão fanatizada, encabeçada por energúmenos ao serviço da CAP, atacou as sedes do PCP e da FSP. Os energúmenos armados de mocas, quais réplicas dos broncos trauliteiros miguelistas, agrediram barbaramente militantes comunistas e outros democratas. A moca foi promovida desde essa época a «orgulhoso» símbolo do reaccionarismo caceteiro de Rio Maior. Até hoje. Quem então aplaudiu o caceteirismo bronco de Rio Maior foi Manuel Alegre do PS. Disse na visita que logo aí fez: «Esta terra tornou-se um símbolo. O nome de Rio Maior entrou na história do povo português pela liberdade e o socialismo». Nunca fomos a Rio Maior, mas a avaliar pela apreciação de Manuel Alegre deve lá reinar um socialismo de fina água. (Manuel Alegre é uma das maiores fraudes do PS, um indivíduo fátuo, poseur de esquerda, envolvido em tudo que o PS tem feito de mais reaccionário. Apesar disso, certa «esquerda», da RC ao BE, parece gostar tanto desta fraude que o apoiaram nas últimas eleições presidenciais!)
    O simples facto de ter sido levada a cabo a campanha terrorista, às claras, com conhecimento de quem eram os operacionais terroristas, e feita em larga escala, comprova, desde logo, que não existia (e nunca existiu) durante o período revolucionário um poder revolucionário capaz de defender a revolução. (O Copcon de Otelo era inoperante; quando instado porque permitia os assaltos e incêndios a sedes do PCP Otelo respondeu que não fazia mal porque o PCP tinha muitas sedes.) Como é óbvio e tem sido provado pela história, uma revolução sem um poder revolucionário, logo sem meios de se defender, está condenada desde o início a morte súbita. A revolução portuguesa foi mais uma confirmação deste axioma.
    A campanha terrorista do «Verão Quente» comprova também que o mito da «ditadura comunista» era uma gigantesca mentira criada e alimentada pelo PS com fins de propaganda interna e externa para liquidar a via socialista da revolução.
    Na campanha terrorista participaram: agrários (latifundiários do Sul e médios camponeses da zona da Estremadura, com destaque para os energúmenos da CAP de Rio Maior, Alcobaça e Bombarral; grupos organizados pelo ELP e MDLP (pides, fascistas e spinolistas) no Norte; grande parte do clero português do Norte e Centro, não só por incitamento à violência anti-comunista (lembremos aqui que o clero reaccionário da tarimba salazarista sempre designou por comunistas não só os comunistas propriamente ditos como todos os democratas incomodativos) durante as homilias, mas também participando fisicamente nas operações terroristas. Ficou famoso, neste particular, o cónego Melo de Braga; agora promovido a herói com uma estátua em Braga. Promoção feita pelo presidente da Câmara, Mesquita Machado. Do PS.
    O PS não poupou o apoio moral, e em alguns casos também físico, à campanha terrorista. O terrorismo serviu ao PS e restante direita para dois propósitos: intimidar e remeter as forças de esquerda a uma posição defensiva; propagandear interna e externamente que o «povo» rejeitava a revolução, fornecendo assim a justificação para actos de força contra a revolução, actos contra-revolucionários. Na época toda a imprensa de direita da Europa e EUA vertia lágrimas pelas coitadinhas das populações portuguesas, vítimas de uma ditadura comunista e que, espontaneamente, se revoltavam contra os comunistas. Enfim, um modus operandi velho como a história, sempre presente no saco de truques das classes exploradoras quando necessitam de defender com unhas e dentes o seu «direito» de continuar a explorar.

De 9 de Agosto a 5 de Setembro de 1975
A 2.ª fase contra-revolucionária do PS

Agosto
Notícia
Comentário
9/8. Comunicado do PS sobre a «Carta dos Nove»: «acontecimento de primeira importância».
Obviamente de «primeira importância» para o PS. Finalmente, sob a batuta de Carlucci, a contra-revolução militar surgia articulada com a contra-revolução civil.
10/8. Melo Antunes ao Nouvel Observateur: «estratégia comunista acaba de malograr-se em Portugal.»
Melo Antunes, ideólogo dos Nove, repete a tese do PS de que tudo faziam para malograr a «estratégia comunista» e instaurar em vez disso o «socialismo democrático», ou como também diziam «o verdadeiro espírito do 25 de Abril». De facto, restauraram o capitalismo monopolista e latifundiário, colocando no poder económico os mesmos capitalistas do regime anterior. Se não queriam o socialismo deviam logo tê-lo dito no 25 de Abril de 1974 e não andar a enganar o povo.
14/8. Os Nove preparam um «Programa de Acção». Em manifs e comícios em Lisboa, Porto e Portimão o PS exige a saída de Vasco Gonçalves e declara o seu apoio ao «Documento Melo Antunes».
Fica confirmado que a «Carta dos Nove» é o «Documento Melo Antunes». Afastar Vasco Gonçalves, um dos elementos mais consequentes do 25 de Abril, homem probo e sério, sempre foi um objectivo essencial do PS. Facilitado agora com a consolidação da ala contra-revolucionária do MFA liderada pelos «Nove». Nessa altura Melo Antunes chegou a ser indiciado para PM.
17/8. PS contesta a greve simbólica de meia hora, marcada pela Inter, de repúdio à violência fascista do «Verão Quente».
Imperava o terrorismo bombista e caceteiro contra tudo que fosse de esquerda. Orquestrado por PS e direita e, no terreno, a cargo de bandos fascistas e esquerdistas. Nesse mesmo dia o comicio do PCP em Alcobaça foi interrompido por tiroteio.
O PS, ao contestar a greve simbólica marcada pela Inter, revela de que lado está.
28/8. Manifestação do PS no Porto contra Corvacho e Vasco Gonçalves.
Eurico Corvacho, comandante da Região Militar Norte, oficial bem identificado com o MFA e que tinha denunciado o ELP (o elo fascista da contra-revolução onde se acoitaram ex-pides) era uma espinha atravessada nos planos soaristas. Na RMCentro estava Franco Charais, e na RMSul Pezzarat Correia, ambos pró-PS. Apadrinhados pelos «Nove» e incarnando «o verdadeiro espírito do 25 de Abril».
30/8 Mário Soares encontra-se com o PR e defende um governo de salvação nacional com PS, PPD e PCP.
O objectivo era afastar Vasco Gonçalves, o inimigo n.º 1. Para isso tudo servia, inclusive o engodo de incluir o PCP num suposto «governo de salvação nacional».

    O V Governo Provisório tomou posse a 8 de Agosto de 1975 e terminou o seu mandato a 19 de Setembro de 1975 por pressão dos militares contra-revolucionários dos «Nove» com apoio de Otelo. Presidido por Vasco Gonçalves, era composto por personalidades militares e civis prestigiadas, quase todas independentes (isto é, não militantes de partidos). Entre estas últimas, assinale-se José Teixeira Ribeiro (prestigiado Prof. Catedrático de Direito da U. Coimbra), Macaísta Malheiros (juiz, desembargador e actual Presidente da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos), Mário Ruivo (cientista dos recursos aquáticos). O governo não tinha nenhum militante do PCP, tinha um do MDP/CDE (Pereira de Moura, católico militante) e um, Mário Murteira, pró-PS senão mesmo militante do PS (foi militante e dirigente da UEDS, um rebento secessionista do PS de 1979 a 1984, que depois se reintegrou no PS, voltando à alma mater). Era este o governo da «ditadura comunista», da «ditadura gonçalvista», berrada histericamente por PS e restante direita, com coro internacional nos media ligados ao imperialismo, por Kissinger e consortes.
    Em pouco mais de um mês os ministros do V Governo, que substituíram os PSs dos governos anteriores, fizeram mais pelo povo, pelo país, do que fizeram durante mais de um ano os socialistas de pacotilha da clique soarista, já então transpirando incompetência e fatuidade por todos os poros, já então mais preocupados em colocar familiares e amigalhaços na administração pública.
    No MFA avança agora com rapidez a contra-revolução. A 5/8 o «revolucionário» Otelo reintegra nos Comandos Jaime Neves, oficial fascista, «herói» do massacre de Wiriyamu em Moçambique. Esse «herói» tinha sido justamente saneado a 3/8 pelos militares progressistas dos Comandos. Mas, para Otelo, tudo que era progressista cheirava a PCP e tudo que cheirava a PCP era «social-fascista», de acordo com as sábias lições trotskistas bebidas do PRP-BR. Vai daí, reintregra o fascista Jaime Neves que iria ser «herói» destacado no 25 de Novembro. E para dar o toque magistral na farsa do seu «revolucionarismo», o Otelo-Copcon faz «auto-crítica revolucionária» dizendo ter sido precipitada a publicação do seu comunicado sobre os factos ocorridos nos Comandos a 31 de Julho, onde justamente se apontavam as manobras contra-revolucionárias de Neves et al. Agora sim, feita a «auto-crítica revolucionária» e com o fascista Neves (e outros do mesmo jaez) reintegrados, a revolução singrava bem. A 10/8 são suspensos do CR os nove da «Carta dos Nove» ao PR; são rapidamente reintegrados. A 12/8 alguns oficiais do Copcon propõem um «programa político» do tipo «poder popular» ao sabor esquerdista; uma iniciativa irrelevante como todas as iniciativas dos esquerdistas, cujo único móbil era atacar o PCP e seus aliados; independentemente do que PCP e aliados faziam no terreno. (A questão não reside aqui no direito de criticar fundamentadamente erros do PCP ou diferir das suas análises e propostas. Há uma enorme distância entre isso e a difamação e ataques sistemáticos ao PCP quer por dogmatismo e sem pejo de distorsão dos factos históricos, quer por opção reaccionária ou contra-revolucionária.)
*    *    *
Impõe-se aqui uma reflexão sobre o papel do esquerdismo na revolução portuguesa.
    O leitmotiv dos grupelhos esquerdistas na revolução portuguesa foi sempre este: «Isso foi feito ou proposto pelo PCP? Então está mal [mesmo que com a iniciativa, apoio e implementação por largas massas de trabalhadores!]. É preciso denunciar e destruir isso; mesmo que nos tenhamos de aliar ao PS» E a denúncia era feita com berros histéricos e os mais variados e contraditórios slogans: porque era reformista; porque era estalinista; porque não era estalinista; porque era revisionista; porque era social-fascista; porque era capitalismo de estado; porque a luta contra o imperialismo soviético era mais importante que a luta contra o imperialismo americano, etc., etc. Enfim, filhotes da burguesia, ignorantes e/ou mascarados de revolucionários, em grupelhos que se multiplicaram como os cogumelos – MRPP, OCMLP, FEC-ml, AOC, PCP(r), UDP, LCI, PRP-BR, FUP, GDUPs, LST, MUT, PCP(m-l), PUP, CCRML, CARP(m-l), URML, etc. Todos, objectivamente contra-revolucionários. Muitos deles sempre aliados ao PS e presentes nas respectivas manifestações (com especial destaque para o MRPP e FEC-ml, amigos do coração do PS). Muitos manipulados pelas centrais do imperialismo. Muitos pagos pelas centrais do imperialismo (com destaque para a CIA). Todos responsáveis pela ajuda prestada à liquidação do processo revolucionário. Nenhum com rebates de consciência.
    Quase todos tiraram a máscara «revolucionária» quando a sua tarefa de destruir a revolução acabou. Basta olhar para Durão Barroso, revolucionaríssimo militante do MRPP, ou para Pacheco Pereira, grande lutador contra o capitalismo no PCP(m-l), ou ainda para Artur Albarran, ousado revolucionário do PRP, que entrou logo para comentador da TV uma vez terminada a revolução, e que, em 1997, se torna presidente do Conselho de Administração da EuroAmer, uma holding imobiliária de empresários e políticos norte-americanos, de que um membro destacado é Frank Carlucci da CIA. Coincidências! (Em 2005, com a falência da EuroAmer, Albarran seria alvo de uma investigação do Ministério Público, suspeito de branqueamento de capitais e falsificação de documentos. Ah, grande «revolucionário»!)
    Todos estes grupelhos esquerdistas tinham como base social os estudantes, alguma pequena burguesia radical de tendências anarquizantes (em que a ideia de «poder popular» se articulava as ideias basistas de não existência de partidos condutores da revolução (a não ser eles, claro; ver o que dissemos em http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2013/06/a-manif-da-apre.html ) e à não existência de qualquer Estado), e trabalhadores de colarinhos brancos (haja em vista a influência do MRPP na TAP, em particular no sindicato dos pilotos) para quem a máscara «revolucionária» servia (e serve) para esconder os propósitos elitistas.
    Muitos destes grupelhos esquerdistas, com destaque para o MRPP e UDP, promoveram greves selvagens com fins meramente provocatórios, como a dos padeiros, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, e sucessivas greves dos pilotos da TAP. Aliaram-se constantemente com o PS, em eleições para os sindicatos dos bancários, dos jornalistas, dos trabalhadores do comércio, etc., e nas listas para as associações de estudantes e para os órgãos de gestão das escolas de ensino superior; ecoando os slogans mais reaccionários do PS e as tiradas mais difamatórias do PCP.
    Muitos destes grupelhos apoiaram e participaram no terrorismo contra-revolucionário. O MRPP descreveu a violência no Norte como «uma revolta camponesa contra o social-fascismo». Quando os militantes do PCP defenderam a sua sede em Leiria isso foi descrito pelo MRPP como «os sociais-fascistas a abater camponeses».
    É sabido que a CIA financiou grupos maoístas por todo o mundo. Várias fontes concordam em que Franck Carlucci, embaixador dos EUA em Portugal e agente da CIA, financiou e manipulou o MRPP (ver p. ex. http://www.humanite.fr/blogs/commission-europeenne-barroso-et-juncker-anciens-maoiste-et-trotskiste-reperes-par-la-cia#sthash.JnyoR1RR.dpuf). E não se trata apenas de fontes comunistas ou de esquerda. Vale a pena ouvir o que diz François Asselineau do partido da direita francesa Union Populaire Republicaine, sobre como Carlucci descobriu no MRPP o talento de Barroso e o orientou na adesão ao PPD; a CIA depois financiou-o em estudos nos EUA e apoiou-o na ascenção na UE : Qui gouverne réellement la France et l'Europe: https://www.youtube.com/watch?v=Bb8dB7d3BdE. Neste longo discurso a parte importante é a partir de 2h 35 min. (Uma outra revelação é a de que Jean-Claude Juncker, protector ardoroso do paraíso fiscal do Luxemburgo, e apoiado pelo NSA num escândalo de espionagem, era um elemento de um grupelho trotskista. Um ex-esquerdista ciático substituiu outro ex-esquerdista ciático na presidência da CE.)
*    *    *
    A traição a Vasco Gonçalves acentua-se. A 24/8 Otelo dá mais uma facada na revolução aconselhando-o numa carta, logo divulgada, a resignar. Além disso, proíbe-lhe a entrada nas unidades do Copcon! Enquanto dava facadas na revolução, Otelo, num tom patético, diz a 22/8 aos jornalistas que «andamos [ele, o ideólogo, claro] à procura de uma linha ideológica para o MFA»!
    Um dos alvos principais da contra-revolução militar era a famosa 5.ª Divisão da CEMGFA, criada a 18 de Julho de 1974 com o objectivo de difusão e propaganda do ideário do MFA -- relembremos o Programa do MFA: «a) Uma nova política económica, posta ao serviço do Povo Português, em particular das camadas da população até agora mais desfavorecidas, [...] o que necessariamente implicará uma estratégia antimonopolista» e «b) Uma nova política social que, em todos os domínios, terá essencialmente como objectivo a defesa dos interesses das classes trabalhadoras» --, tendo a seu cargo os assuntos de natureza político-militar. Constituía um baluarte coeso de oficiais honestos e dedicados à revolução portuguesa, uma importante secção do que se convencionou chamar de «esquerda militar». A 5.ª Divisão ajudou a resolver muitos problemas levantados pelas populações e levou a cabo «campanhas de dinamização cultural», nomeadamente em zonas rurais e suburbanas, as quais, para além de actividades culturais, incluíam sessões de esclarecimento sobre o que se passava no país, sobre o que era a democracia e o socialismo (lembremos que as populações vinham de uma situação de profunda ignorância, fruto de quase meio século de fascismo), e sobre outras questões (como realizar assembleias, como iria decorrer o processo eleitoral, etc.). O PS e restante direita cedo revelaram um enorme medo por tudo que contribuísse para dissipar a ignorância política das populações. Na realidade, e da nossa própria experiência, podemos afirmar que deparámos com o boicote sistemático do PS às «campanhas de dinamização cultural», enquanto de figuras locais do PPD encontrámos, muitas vezes, receptividade. O PS (e restante direita na sua esteira) vieram a propalar desde o «Verão Quente» o mito, que mantêm até hoje, de que as «campanhas de dinamização cultural» se destinavam a difundir o «comunismo». Se isso fosse verdade custa a entender como é que o PCP não teve muito maior votação, apesar do elevadíssimo número de campanhas da 5.ª Divisão. De facto, tal afirmação não é verdadeira. É inteiramente falsa. O apartidarismo das campanhas era escrupulosamente observado. Naquelas em que participámos ia quase sempre o comandante da nossa Unidade, homem honesto, que nas suas perorações e esclarecimentos pouco se afastava do que diziam os oficiais da 5.ª Divisão. Este comandante era do PPD.
    As razões do ódio da direita à 5.ª Divisão eram: a) o contributo que dava à dissipação da ignorância das populações; b) a publicação do «Boletim do MFA», segundo nós uma das mais lúcidas publicações da época, que circulava principalmente nas unidades das forças armadas, e que em termos simples, factuais e muito claros denunciava as manobras da contra-revolução militar (e, em menor detalhe, também da civil); c) o ser constituído por um corpo coeso de oficiais honestos e de ideias políticas claras a favor da revolução que, pela sua participação nas Assembleias do MFA (e outros órgãos), muito incomodavam os planeadores da contra-revolução; d) o terem tido uma contribuição decisiva no derrube do putsch spinolista do 11 de Março, algo que a reacção não podia perdoar.
    A 5.ª Divisão tornou-se o alvo principal a abater por parte dos militares contra-revolucionários (spinolistas, «moderados» do Grupo dos Nove, etc.).
    A 25/8, unidades do Copcon (mas não seguidoras de Otelo) afirmam recusar o documento dos Nove. Em retaliação, o CR manda suspender no dia seguinte as actividades da 5.ª Divisão. A 28/8, militares do Copcon, a mando de Otelo (o grande «revolucionário» mais uma vez em acção), assaltam com grande aparato bélico as instalações da 5-ª Divisão e encerram-nas! Não estava lá na altura quase ninguém. E também não encontraram as armas com que supostamente os «comunistas» da 5.ª Divisão estariam armados até aos dentes. Otelo veio depois, mentirosamente e sem qualquer vergonha na cara, declarar que a ocupação da 5.ª Divisão se tinha efectuado «por haver ameaças de assalto [da direita]» à 5.ª Divisão! O assalto bélico do Copcon-Otelo às modestas instalações quase vazias da 5.ª Divisão do CEMGFA foi o maior acto «revolucionário» que a história registará da actividade de protecção à revolução levada a cabo pelo Copcon-Otelo! Debalde procuraríamos nos arquivos históricos testemunhos factuais da defesa da revolução contra a violência spinolista-fascista por parte do Copcon-Otelo. Mas o assalto bélico às instalações da 5.ª Divisão, esse sim, consta.
    Com o fim da 5.ª Divisão em 28 de Agosto de 1975 termina o MFA apartidário, aliado ao povo, tendo como objectivos «a) Uma nova política económica, posta ao serviço do Povo Português, em particular das camadas da população até agora mais desfavorecidas, [...] «b) Uma nova política social que, em todos os domínios, terá essencialmente como objectivo a defesa dos interesses das classes trabalhadoras».
    Começa um novo MFA, partidário, aliado ao PS (trazendo pela arreata a restante direita), cujo objectivo era instalar o capitalismo «social-democrata» em Portugal tendo como corolário a submissão total ao imperialismo ianque-alemão.
 *    *    *
    Em vários pontos do país surgem manifestações orquestradas pelo PS e restante direita contra figuras progressistas. Em Coimbra, manifestação de católicos a 4/8 contra Vasco Gonçalves, sendo denunciadas pelo bispo prisões arbitrárias (dos elementos fascistas do ELP) e tribunais populares (que nunca existiram); no Porto, contra Corvacho e Vasco Gonçalves a 28/8; ataques a Vasco Gonçalves por Emídio Guerreiro no comício do PPD a 16/8; etc.
    Os actos de terrorismo são demasiados para os relatar todos aqui. Eis alguns: a 10/8, manifestações em Braga e Viseu com o apoio dos bispos que estavam com os «nove verdadeiros revolucionários» acabam com ataques e incêndios a sedes do PCP; a 11/8 o distrito de Braga é percorrido por uma onda de violência contra sedes do PCP, com algumas incendiadas, agressões a militantes, etc., destacando-se o envolvimento de energúmenos logisticamente organizados e açolados por padres; no mesmo dia, diz Mário Soares no comício em Braga: «Em Rio Maior o povo soube reagir às afrontas [...] É um exemplo que pode ser seguido noutras regiões», defendendo também o protagonismo provocatório dos «rapazes do MRPP»; a 17/8, um comício do PCP em Alcobaça, onde participava Álvaro Cunhal, é interrompido por nutrido tiroteio de hostes reaccionárias dinamizadas pela CAP e só não tem lugar um banho de sangue porque os seguranças do PCP conseguiram, também com armas, escorraçar os assaltantes; a 18/8 é incendiada a sede do PCP em Ponte de Lima; de 18 a 20/8 a sede do PCP de Aveiro esteve cercada e alvejada a tiro por bandos de arruaceiros do ELP, que puderam actuar à vontade porque o QG de Coimbra e o Copcon não mexeram uma palha; ainda a 18/8 as instalações da União dos Sindicatos de Aveiro foram saqueadas por bandos de arruaceiros incluindo elementos do MRPP; a 23/8 é assaltada a sede do PCP em Bragança.
    A 29/8, enquanto milhares de pessoas no Porto apoiam Corvacho, fica-se a saber que Pinheiro de Azevedo é o novo PM, escolhido pelo CR dominado pelos Nove.

Setembro
Notícia
Comentário
3/9. Carta de Mário Soares ao PR propõe a implementação de um conjunto de «condições político-militares» e um «socialismo autogestionário».
Ao referir-se a «socialismo autogestionário» Soares devia estar a referir-se à colocação de militantes, familiares e amigalhaços seus em todos os postos do Estado. Este «socialismo autogestionário» o PS, de facto, apressou-se a implementar.
4/9. O PS diz em Londres que recusou formar um governo predominantemente socialista.
No VI Governo Provisório, oficializado a 19 de Setembro, de 16 ministros 12 (75%) eram do PS ou pró-PS. Se isto não é «predominantemente»...

    A 3/9, Pinheiro de Azevedo da JSN, prossegue com contactos para formar um governo que substitua o V Governo Provisório, o último que se manteve fiel aos objectivos do 25 de Abril e que foi traído pelos Nove e por Otelo. Vasco Gonçalves é nomeado para CEMGFA (presente envenenado de Costa Gomes), cargo a que renuncia a 5/9.
    A 5/9, tem lugar uma famosa e última Assembleia do MFA, na Base de Tancos das tropas paraquedistas. Tratou-se de uma Assembleia totalmente manipulada pelos Nove, que a encheram dos seus delegados escolhidos antidemocraticamente, com os comandos do spinolista Jaime Neves de armas aperradas, prontos para um golpe de força contra os «comunistas» se a Assembleia não parisse os resultados desejados, e impedimentos de elementos da esquerda militar de tomar a palavra e apresentar moções. Enfim, uma demonstração do que a direita entende por democracia. A Assembleia oficializa o afastamento de Vasco Gonçalves (que nela pronunciou um discurso corajoso e de grande dignidade), consagra o domínio dos Nove, e «assina» a sua auto-destruição.
    A Assembleia de Tancos marca o fim oficial do MFA. A partir dela começa, oficialmente, um outro «MFA», ao serviço do PS e da direita, ao serviço da recuperação capitalista de Portugal, sob a capa de «socialismo democrático».
*    *    *
Na série «A história ignominiosa do PS» vimos até agora:
   
A fase marxista do PS (25 de Abril a 31 de Dezembro de 1974): o PS desdobra-se em declarações marxistas e socialistas com o objectivo de obter uma larga base de apoio proletária que lhe faltava.
A fase de duplicidade do PS (1 de Janeiro a 25 de Abril de 1975): o PS, embora não criticando as medidas dos governos em que participa, revela incomodidade com as medidas socializantes e começa a propalar a tese de que os governos de Vasco Gonçalves eram governos comunistas (apesar de ter neles participação maioritária). Aceita entemdimentos com os spinolistas, exibindo uma posição muito dúbia no putsch spinolista de 11 de Março.
A 1.ª fase contra-revolucionária do PS (de 26 de Abril a 8 de Agosto de 1975): tendo obtido votação maioritária nas eleições para a Assembleia Constituinte de 25/4/1975, o PS sente-se institucionalmente legitimado, perante a opinião pública e o MFA, para sacudir o «rumo ao socialismo», flagelando o PCP e outras forças de esquerda consequentes e incitando à criação da sua facção no MFA: os «Nove».
A 2.ª fase contra-revolucionária do PS (9 de Agosto a 5 de Setembro de 1975): o PS articula com Carlucci-CIA três vectores contra-revolucionários: o vector governamental e de propaganda interna e externa; o vector militar (os «Nove»): o vector da actividade terrorista.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Marxismo e Ciência. III – Materialismo e Mecânica Quântica

    À primeira vista o presente artigo parece fugir um tanto aos temas do nosso blog: política, economia e história. A razão porque nos sentimos obrigados a abordar a Mecânica Quântica no âmbito de «Marxismo e Ciência» (ver artigos anteriores da série, em particular http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/06/marxismo-e-ciencia-ii-materialismo.html ) é porque ela é hoje a disciplina científica mais invocada e abusada para combater a concepção materialista do mundo em geral e das ciências sociais em particular.
    O artigo está estruturado em sete secções: Preâmbulo, A Mecânica Quântica ao Serviço do Idealismo, Os Aspectos Intrigantes da Mecânica Quântica, Interpretações da Mecânica Quântica, Balanço, Notas e Referências.
Preâmbulo

    Desde sempre os idealistas de todos os matizes procuraram usar resultados da ciência para desacreditar a concepção materialista do mundo, a única que os cientistas das ciências da natureza espontaneamente usam no seu trabalho prático, embora possam abraçar concepções idealistas na interpretação dos respectivos resultados, bem como em tudo que transcenda a sua área de trabalho. (Já discutimos este aspecto em artigo anterior). Na análise da fenomenologia social (economia, história, política) não há, contudo, lugar para equívocos: ou se abraça uma análise científica consequente, única capaz de fornecer uma explicação consistente dos fenómenos sociais, ou se envereda por caminhos idealistas que não explicam nada, não conduzem a nada. Não há lugar para se ser materialista nas horas de trabalho e ser idealista quando, sentado no sofá, se ouve o governador do BdP a dizer que a solução para o BES é a melhor possível para todos os portugueses. A única análise científica da fenomenologia social que a humanidade criou é designada por marxismo. Poderia ser designada, por exemplo, por «análise materialista dialéctica da fenomenologia social»; uma designação mais precisa mas encombrant. (A propósito, o próprio Karl Marx, avesso a tudo que parecesse culto da personalidade, dizia que não era marxista.) Exactamente por essa razão, a da consequência científica, os marxistas têm-se destacado pela atenção que prestam a todas as ciências, sejam da natureza ou do homem.
    Vale a pena lembrar aqui a atenção que Lenine (Vladimir Ulianov) dedicou às teorias físicas do seu tempo sobre a natureza da electricidade, por ele reportadas e comentadas na sua obra «Materialismo e Empiriocriticismo», já citada em artigo anterior. Lenine descreve em detalhe as interpretações idealistas de Poincaré e de outros físicos que viam a electricidade como apenas «energia» descrita por equações diferenciais (as de Maxwell), visão que supostamente invalidava a noção materialista de existência de realidade objectiva. Tanto bastou para que uma enorme quantidade de filósofos pegasse nesta deixa e proclamasse aos quatro ventos que o materialismo estava destruído, contribuindo para o reactivar de doutrinas místicas e de uma caterva de superstições. Quem se opôs a Poincaré e consortes, conforme reporta Lenine, foram Heinrich Herz, Ludwig Boltzmann e William Ramsay ([1]). Lenine comenta, assim, como bom materialista dialéctico: «Se os nossos machianos [idealistas da corrente positivista de Ernst Mach, ver nosso artigo anterior] que escrevem livros e artigos sobre assuntos filosóficos fossem capazes de pensar, entenderiam que a expressão “a matéria desaparece”, “a matéria é reduzida a electricidade”, etc., é apenas uma expressão epistemologicamente inútil da verdade de que a ciência é capaz de descobrir novas formas de movimento material, de reduzir as formas antigas às novas formas, e assim por diante». Isto foi escrito em 1908 quando a famosa E=mc2 da equivalência massa-energia era ainda mal conhecida (a fórmula ainda não aparecia assim escrita em 1907), a teoria atómica ainda não tinha nascido e as partículas elementares estavam quase todas por descobrir.
    No tempo de Lenine era a electricidade que servia de arma de arremesso contra o materialismo e de motivo incentivador o idealismo. No nosso tempo é a Mecânica Quântica (MQ). E as variantes idealistas das ciências da natureza de uma época têm sempre repercussões nas teorias idealistas dominantes da política, economia e história.

A Mecânica Quântica ao Serviço do Idealismo

    A MQ ([2]) é uma das mais bem validadas teorias da física ([3]), com resultados aplicados em muitos dispositivos actuais (lasers, ressonância magnética, semicondutores usados em diversa aparelhagem, etc.). Apesar da familiaridade com tais dispositivos, as leis quânticas em que se baseiam desafiam o senso-comum materialista. Os pescadores de águas turvas aproveitaram-se disso, usando quer interpretações idealistas e especulativas dos físicos, quer ideias e frases soltas pescadas fora de qualquer compreensão do tema (ainda que mínima!), para construir uma pletora de correntes idealistas que vão desde o holismo ([4]) New Age e esoterismo (taoísmo, teoria de Gaia, teosofia, homeopatia, arqueoastronomia, etc.) ao neo-positivismo e relativismo pós-modernista. Afirmam que «a ciência [a MQ] já mostrou que tudo é incerto [princípio da incerteza]», que «tudo é relativo» ([5]), que «tudo no mundo está harmoniosamente interligado», que «a ciência [a MQ] mostra que não há leis realistas», etc., etc. Vale, portanto, tudo: a incerteza da vida, como a necessidade de haver desemprego, estaria provada cientificamente; a crise é relativa e não tem causas materiais mas sim causas «mentais» (o «espírito animal» de Keynes e Ben Bernanke); pobres e ricos estão harmoniosamente interligados; a crise é global e tem sempre de existir; não há leis sociais, mas apenas a ganância de grupos e de indivíduos que lutam pelo poder; as lutas de classes são um mito; os mercados devem funcionar sem regras (quanto mais caótico melhor como [supostamente] nos átomos); «o realismo das assunções [de uma teoria] não interessa» [positivismo de Milton Friedman], etc. Todas estas correntes ludibriam o público em geral, obviamente ignorante da ciência e da MQ e, por isso, presa fácil de especuladores e charlatães: sacerdotes, filósofos idealistas, gurus, médicos e físicos holistas, economistas neoliberais, sociólogos e políticos pós-modernistas, etc. Eis alguns exemplos de «obras» destes pensadores sobre a MQ:
Robson Rodovalho (bispo), «Ciência e Fé: o reencontro pela física quântica», Rio de Janeiro, Leya, 2013.
Isidoro Mazzarolo (doutor em teologia bíblica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), «Jesus e a física quântica», Editora Reflexão, 1992.
Sergio M. Levy, «O livre-arbítrio: uma análise apoiada na Relatividade e na Mecânica Quântica», Editora E-papers, 2009.
Fritjof Capra (físico), «The Tao of Physics: An Exploration of the Parallels Between Modern Physics and Eastern Mysticism», Shambhala Publications of Berkeley, California, 1975.
Gary Zukav (professor de espiritualismo), «The Dancing Wu Li Masters: an overview of the new physics», William Morrow, 1979. Ganhou em 1980 o «U.S. National Book Award in category Science»!
Deepak Chopra (médico) «Quantum Healing: Exploring the Frontiers of Mind/Body Medicine», Bantam, 1989.
David Hamilton (medico), «Quantum Field Healing», Hay House UK, 2010.
Boaventura Sousa Santos, «Introdução a uma ciência pós-moderna», Livraria Almedina, 1989.

    Estes apenas alguns de inúmeros exemplos. Contabilizando livros, revistas (incluindo as de divulgação científica!), artigos dos media e portais na net, são às centenas! Constituem uma corrente de desinformação muitíssimo mais poderosa do que a da informação séria. Dos artigos de revista, citamos estes da Superinteressante: «Deus existe?» (http://super.abril.com.br/ciencia/deus-existe-441875.shtml) e «Ciência, uma questão de fé?» (http://super.abril.com.br/ciencia/ciencia-questao-fe-447815.shtml); em portais, temos, por exemplo, este: «Jesus Cristo ensinou Física Quântica e o mundo não entendeu!» (http://www.youtube.com/watch?v=SycV-qsWYLY) ou este: «Veja Luz» (http://blog.vejaluz.com/2011/11/dinamica-da-fe-na-fisica-quantica.html), de um auto-intitulado filósofo-epistemólogo que «casa» Cristo com a Mecânica Quântica ([6]).
    Geralmente os cientistas têm pouco tempo e paciência para lidar com disparates. Só muito poucos o fazem. Por exemplo, Murray Gell-Mann, no seu livro «O Quark e o Jaguar» (publicado pela Gradiva), tem um capítulo («Mecânica Quântica e Disparate») onde desmonta timidamente alguns (poucos) dos disparates. Melhor apontado no desmonte dos disparates idealistas é o livro de Victor Stenger «The Unconscious Quantum» ([7]).

Os Aspectos Intrigantes da Mecânica Quântica

    Para se entender minimamente as interpretações da MQ iremos de descrever os seus aspectos mais intrigantes de forma sumária q.b. e em termos muito simples.
    A MQ descreve correctamente o comportamento da matéria em escalas extremamente pequenas, atómicas e subatómicas, que chamaremos microscópicas. Poderia ser aplicada a maiores escalas, mas aí as leis da física clássica, pré-quântica, são mais fáceis de aplicar e produzem os mesmos resultados.
Qual é a particularidade da matéria a escalas microscópicas que exige a descrição quântica? Essa particularidade é a chamada dualidade onda-partícula: a mesma matéria pode comportar-se quer como partículas (corpúsculos individualizados, capazes, por exemplo, de chocar uns com os outros como bolas de bilhar) quer como ondas. Esta dualidade da mesma matéria origina comportamentos que desafiam o «realismo» da visão clássica. Vejamos alguns deles:

Incerteza da Medida Simultânea da Posição e da Velocidade

    A figura 1 mostra ondas de água passando, de cima para baixo, por uma pequena fenda.

Fig. 1

    Na figura da esquerda a abertura da fenda é maior que a distância entre as cristas das ondas e estas passam com ligeira perturbação. Na da direita a abertura da fenda é menor e a perturbação maior: ondas planas passam a ondas curvas que claramente extravasam a fenda. Chama-se difracção a este fenómeno e foi estudado para a luz monocromática por Huygens no séc. XVII. A figura 2 mostra uma imagem de difracção da luz monocromática de um laser obtida num ecrã. A figura 3 ilustra o dispositivo experimental ([8]).


    Para explicar a difracção (e outros fenómenos) os físicos tiveram de admitir a natureza ondulatória da luz. James Maxwell do séc. XIX mostrou que, efectivamente, a luz correspondia à propagação de uma onda contínua electromagnética (radiação); isto é, em termos simples, constituída por uma onda de electricidade e uma onda de magnetismo, intimamente associadas ([9]). Tirando o aspecto estranho da imagem no ecrã, com picos e vales de intensidade luminosa cuja causa não discutiremos, a onda electromagnética da luz comporta-se, ao passar por uma fenda, de forma semelhante à onda de água: ondas planas (garantidas pelo facto de usarmos luz monocromática) passam a ondas curvas. A figura 4 ilustra um aspecto importante no caso da luz: a zona central de maior intensidade alarga-se quando a fenda estreita e estreita-se quando a fenda alarga.

Fig. 4


    No princípio do séc. XX o estudo de certos fenómenos de radiações electromagnéticas, impôs que se lhes atribuísse uma natureza corpuscular, com cada corpúsculo (partícula) «encapsulando» uma certa quantidade – quantum -- de energia. Um desses fenómenos foi o do efeito fotoeléctrico, muito usado actualmente para detectar passagens em portas. Verificou-se, neste fenómeno, que a luz incidindo numa placa metálica lhe arrancava electrões, não como se fosse uma onda mas sim como se fosse constituída por corpúsculos. Denominados de fotões por Einstein (que explicou o fenómeno), a sua existência está hoje comprovada. Com os meios tecnológicos actuais podemos, aliás, fazer algo impensável nos tempos de Huygens e Maxwell: efectuar a difracção com uma luz monocromática extremamente fraca, de forma a corresponder à emissão de fotões isolados, um a um, e fotografar um ecrã impressionado pelos fotões em tempos sucessivos de exposição. Obtêm-se fotos como as da figura 5, em que cada ponto corresponde ao embate de um fotão no ecrã.



    Vemos que os fotões embatem ao acaso no ecrã mas comportam-se colectivamente de forma disciplinada, com maior probabilidade de cair no centro, reconstituindo cada vez melhor, ao longo do tempo, a imagem da difracção! (Na figura 5 só mostramos a zona central.) Portanto, o mesmo fenómeno – a difracção – é explicável quer pela natureza ondulatória (campo electromagnético) quer pela natureza corpuscular (fotões) da luz.
    Entretanto, a natureza corpuscular da luz leva-nos de imediato a uma conclusão estranha em relação com a figura 4, onde um fotão é representado por um pontinho na trajectória superior. A fenda pode ser vista como um medidor de posição dos fotões, com uma certa tolerância ou desvio de posição, x. À esquerda a posição é melhor medida, com menor desvio, do que à direita. Mas o que acontece com a velocidade, v, dos fotões? Como à esquerda a largura da zona central é maior, a probabilidade de encontrar fotões que se desviaram mais da horizontal – exigindo, por conseguinte, maior desvio de velocidade na direcção vertical – é maior. E vice-versa: com maior x (à direita) menor v. Verifica-se, de facto, que o produto xv é sempre maior que uma determinada quantidade a, embora pequena ([10]): xv > a .
    Segundo o senso-comum é possível medir arbitrariamente bem simultaneamente a posição e velocidade de uma bola de bilhar, por exemplo. Mas o mundo microcópico contesta este senso-comum. Nele, quanto melhor meço a posição (desvio x pequeno), dado que  xv > a, então a velocidade é necessariamente pior medida (desvio v grande) e vice-versa. Não se trata aqui de uma limitação dos aparelhos de medida, mas sim de uma propriedade intrínseca da matéria a essas escalas. É esta uma das formulações do princípio da incerteza de Heisenberg: medições arbitrariamente boas, simultaneamente da posição e velocidade de uma partícula, são impossíveis ([11]).

Ondas de Partículas «Normais»
    A incerteza não se verifica apenas para essas estranhas partículas chamadas fotões. (Estranhas porque, entres outras coisas, têm massa nula quando em repouso.) Verifica-se também com electrões, protões, neutrões e outras partículas ou corpúsculos com massa não nula em repouso, como átomos e moléculas. E estas últimas até não são invisíveis como os fotões; já as conseguimos ver com microscópios sofisticados.
De facto, desde o trabalho pioneiro de Louis de Broglie, foi possível comprovar que todas as partículas têm uma onda associada (embora possa ser de comprimento de onda extremamente pequeno), pelo que a experiência da difracção da luz também se pode efectuar com resultados semelhantes com electrões (por exemplo). Na realidade, do ponto de vista de obediência a leis quânticas, não há diferença entre fotões e outras partículas. Tudo que a seguir dissermos para dadas partículas (fotões, por exemplo) aplica-se a todas as outras partículas microscópicas.
    Para a difracção de electrões obtêm-se também fotos como as da figura 5. Quer para a luz quer para as partículas «normais» existem leis probabilísticas que regem não só a difracção como outros fenómenos. Poder-se-ia pensar que a natureza ondulatória das partículas «normais» poderia causar um universo muito instável. É precisamente o contrário. São as ondas associadas aos electrões que são responsáveis por estes só ocuparem determinadas órbitas nos átomos. Responsáveis, portanto, pela estabilidade atómica e, por isso mesmo, de todo o universo.

Indeterminismo
    Na física clássica considerava-se que, uma vez sabidas as condições iniciais de um corpo, o seu comportamento futuro poderia, em princípio, ser exactamente predito. Todos os fenómenos da natureza eram considerados deterministas ([12]). Mas a posição em que vai incidir no ecrã um dado fotão (ou qualquer partícula microscópica) não é regido por nenhuma lei conhecida: indeterminismo individual. Mas, atenção! Nem tudo é indeterminado. Ao nível da partícula individual o resultado pode ser indeterminado. Mas, ao nível de um grande número de partículas (ao nível estatístico), podemos sempre saber como elas se comportam globalmente: a distribuição de probabilidade das partículas. Temos aqui uma situação de acaso e necessidade ([13]).
    A MQ fornece ferramentas matemáticas – operando com entidades matemáticas tais como a função de onda de Schrödinger e matrizes de estados ([14]) -- que permitem determinar, para cada caso concreto, as distribuições de probabilidade de conjuntos de partículas nas mesmas condições. (A distribuição de probabilidade para o conjunto de fotões de um feixe de luz da figura 3 corresponde ao perfil de intensidade luminosa. Desde logo, uma conclusão: a probabilidade de os fotões se propagarem em linha recta é máxima.)
Influência das Medições

    A figura 6 ilustra a famosa experiência das duas fendas, onde F é uma fonte de luz monocromática como na figura 3 ([15]).



    Lembrando o que acontece com a difracção por uma fenda, em (a) temos o que poderíamos esperar que acontecesse no caso das duas fendas. Estamos a supor, como vimos acima, que cada fenda causa uma difracção, e a representar com traço fino apenas a zona central da difracção de cada fenda. Considerando que, segundo o senso-comum, um fotão ou passa por A ou passa por B, e dado que a intensidade da luz no ecrã é uma medida de probabilidade, esperaríamos obter uma intensidade total da luz no ecrã que fosse a soma das intensidades: ‘probabilidade de passar por A ou passar por B’ = ‘probabilidade de passar por A’ + ‘probabilidade de passar por B’, obtendo a soma de intensidades representada pela curva a traço grosso. Seria isso que de facto obteríamos com partículas macroscópicas, como berlindes (b). Com partículas microscópicas, como os fotões, não é isso que se obtém, mas sim uma imagem de interferência com alternância de bandas claras e escuras cujo perfil de intensidade é representado em (c), e é explicável em termos da natureza ondulatória da luz: as bandas claras são devidas a ondas que «chegam ao mesmo tempo» com picos que se adicionam, e as bandas escuras a ondas que chegam em oposição, com o pico de uma cancelando o «vale» de outra.
    A interferência é também obtida experimentalmente com luzes muito fracas, com os fotões a chegar um a um ao ecrã [16]. (Idem, se a experiência for realizada não com fotões mas com outras partículas). Repetindo o procedimento fotográfico anterior, obtêm-se imagens como a da figura 7, em que cada ponto é o impacto de um fotão. Também aqui a intensidade da luz na imagem de interferência descreve a distribuição da probabilidade da chegada dos fotões ao ecrã.



    Mas surge aqui uma dificuldade de interpretação do resultado da experiência. Dificuldade que não surgia classicamente quando se considerava apenas a natureza ondulatória da luz. Como é que cada fotão «sabe» por onde deve passar – fenda A ou fenda B --, de forma a, em termos de grandes números, criar o padrão de interferência e, portanto, a distribuição de probabilidade associada? Há quem diga que o fotão passa ao mesmo tempo pelas duas fendas; mas, como refere o Richard Feynmann em [iv], a noção clássica de «passar» não se aplica nesta situação; há quem defenda, como propôs Louis de Broglie, que os fotões são precedidos por uma onda («onda-piloto») que os orientam probabilisticamente na passagem pelas fendas; e, finalmente, Einstein e outros que sempre se bateram por uma interpretação realista (materialista) da MQ, sugeriram a existência de propriedades internas das partículas («variáveis escondidas locais») que determinariam por que fenda passavam os fotões. Note-se que se trata aqui apenas de uma dificuldade de interpretação. A MQ fornece regras de operação com os fotões (ou outras partículas) que explicam porque razão a anterior soma de probabilidades não é válida ([17]) e porque razão se obtém o padrão de interferência. E essas regras de operação fornecem resultados exactos.
    Um outro aspecto intrigante é este. Suponhamos que colocamos detectores, logo a seguir às fendas, que nos indiquem se um fotão passou através de qualquer delas. Pois bem, nesse caso, o padrão de interferência desaparece, e obtemos o padrão da figura 6a! Portanto, se não nos interessa saber por onde passam os fotões da luz, esta comporta-se como onda; se, pelo contrário, queremos saber por onde eles passam (comportamento de partícula), ficamos a sabê-lo mas o padrão de interferência desaparece. Podemos dizer que se trata aqui de mais uma manifestação do princípio da incerteza: não é possível medir simultaneamente bem a posição (por qual das fendas passa) e a velocidade (contribuição para o padrão de interferência) de um fotão ([18]). Mas continua sem resposta a pergunta: sem detectores, como é que o fotão «sabe» por qual das fendas deve passar? Embora haja trabalhos prometedores, que veremos à frente, a resposta ainda não é clara.
    Note-se que a aplicação de um detector corresponde a uma medição. Neste caso, medição de posição: por que fenda passou determinado fotão. A perda da interferência, corresponde à perda de informação sobre a velocidade (ver o que dissemos sobre difracção). Niels Bohr, pioneiro da MQ, propôs com outros (1927) uma interpretação positivista, dita de Copenhaga (IC): só é real o que é medido. As duas propriedades (posição e velocidade, ou, equivalentemente, comportamento de partícula e comportamento de onda) nunca eram reais ao mesmo tempo; eram ditas incompatíveis ou complementares.

A Experiência EPR

    Einstein, embora não contestando a correcção dos resultados obtidos pela MQ-IC, sempre se bateu por uma fundamentação realista da MQ. Juntamente com os físicos Podolsky e Rosen, escreveu um artigo célebre que defendia a incompletude da MQ ([v]).
    O artigo contém, logo no início, uma declaração materialista: «Qualquer consideração séria de uma teoria física deve ter em conta a distinção entre a realidade objectiva, que é independente de qualquer teoria, e os conceitos físicos com os quais a teoria opera. Estes conceitos pretendem estar em correspondência com a realidade objectiva, e por meio destes conceitos nós próprios formamos uma imagem da realidade». O artigo demonstra que a teoria da função de onda da MQ não pode ser completa («cada elemento da realidade física deve ter um elemento correspondente na teoria física») dado violar um critério de realidade física ([19]). A palavra «realidade» tem sido interpretada de várias maneiras pelos físicos. No artigo, os autores apresentam um critério suficiente ([20]) de realidade de uma quantidade de um sistema físico: «se pudermos predizer com inteira certeza (isto é, com probabilidade igual a um) o valor de uma quantidade física sem de qualquer forma perturbar o sistema». O «sem perturbar o sistema» assegura a objectividade da quantidade predita, dependente do objecto-sistema e não do observador. A predição com «inteira certeza» assegura que a teoria preditiva é determinístíca.
    Os argumentos do artigo vieram a traduzir-se na «experiência EPR» (dos apelidos dos autores), inicialmente só a nível conceptual, que se pode apresentar assim (figura 8):

Duas partículas do mesmo tipo, A e B, são emitidas por uma fonte em repouso. No momento em que são simultaneamente emitidas a velocidade total das partículas é nula. Existe um medidor da posição de A e outro medidor da velocidade de A. Se a posição de A é medida, a posição de B fica conhecida (fonte em repouso). Logo, a posição de B é um «elemento da realidade física», segundo a definição acima. Se a velocidade de A é medida, a velocidade de B fica conhecida (velocidade inicial total nula). Isto é, duas variáveis, ditas incompatíveis pela IC, são preditíveis com probabilidade=1. Logo, posição e velocidade são «elementos da realidade física». Ora, na MQ-IC a função de onda que representa o estado de um conjunto de partículas de posição definida não contém informação sobre as respectivas velocidades; a partir da função de onda todas as velocidades são igualmente prováveis. E vice-versa. Logo, à luz da experiência EPR, a descrição da função de onda é incompleta, o que contradiz a IC ao sustentar que a MQ-IC é completa e que variáveis incompatíveis não podem ser simultaneamente reais.


Teorema de Bell

    Einstein pensava que as partículas deviam possuir propriedades internas (variáveis escondidas locais, [21]) determinando o seu comportamento quântico. John Bell demonstrou em 1964, num famoso teorema ([22]), que uma tal teoria determinística levaria a correlações dos valores das propriedades da partículas A e B na experiência EPR não excedendo certo valor (desigualdade de Bell); ora tal valor máximo das correlações era violado pela leis da MQ. A desigualdade de Bell foi testada em muitas experiências do tipo EPR ([23]). É hoje largamente aceite que as experiências confirmaram a violação da desigualdade de Bell, embora subsistam interrogações. Quanto às leis da MQ, a violação da desigualdade de Bell só é explicável por uma de três razões: são não-determinísticas; são não-locais (a localidade é uma assunção da física de que o que é feito num local só afecta esse local); são ambas. A não-localidade tem sido interpretada como uma propriedade holista pela qual o que se mede em A tem efeitos instantâneos sobre o que se mede em B, com a transmissão de informação a velocidade superior à da luz! De facto, tal assunção anti-relativista é inútil como se explica em [ii].

Interpretações da Mecânica Quântica

    Existe um grande número de interpretações da Mecânica Quântica, com perspectivas diferentes sobre as questões do indeterminismo, da não-localidade e do «problema da medição». Têm surgido interpretações quer idealistas quer materialistas. Provavelmente não existe nenhum outro ramo do conhecimento da natureza tão fértil em reflexões no espectro idealismo-materialismo.
    Convém desde já ter em atenção o seguinte: não é pelo facto de uma interpretação ser materialista, ainda que dialéctica, que ela é correcta. Podemos ter muitas interpretações materialistas dialécticas alternativas e todas elas erradas. Não são os critérios filosófico-metodológicos que validam a ciência. Mas, pelo contrário, são os resultados validados da ciência que contribuem para o enriquecimento dos critérios filosófico-metodológicos. Em particular, o enriquecimento de o conceito de matéria que, como dizia Lenine, é inesgotável ([24]).
    O uso de critérios filosóficos como critérios absolutos (dogmas), que devem validar a ciência, corresponde a um erro dogmático muito em voga na URSS do tempo de Estáline (mas não só!), como neste trecho sobre a MQ de um discurso do político Andrei Jdanov, em 1947, perante cientistas soviéticos ([viii]): «As divagações kantianas dos modernos físicos atómicos burgueses leva-os a inferências sobre os electrões possuírem “livre arbítrio” [refere-se provavelmente ao electrão ‘saber’ por que fenda deve passar] e a tentativas de descrever a matéria como apenas a conjunção de ondas [refere-se à natureza ondulatória da matéria e talvez também à função de onda] e a outros truques diabólicos». Perversões do materialismo dialéctico como estas conduziram a que os físicos soviéticos tivessem de ser cautelosos para não serem acusados de «burgueses» e usarem «truques diabólicos»; com a consequência de que no período jdanovista a concepção materialista dialéctica não se enriqueceu; pelo contrário, empobreceu. E contribuiu fortemente para o descrédito do marxismo entre muitos intelectuais, não só na URSS como noutros lugares.

A Interpretação de Copenhaga (IC)

    É a interpretação idealista mais difundida e ensinada nas universidades, cujo principal proponente foi o físico Niels Bohr [25] da Universidade de Copenhaga. É uma interpretação idealista da variante positivista (ainda muito prevalente entre os físicos e nos meios académicos) que defende o seguinte: uma propriedade pode ser considerada real se tiver sido medida. Lembremo-nos que a tese essencial dos positivistas é também que não existe realidade objectiva fora das sensações (idealismo subjectivo). (Sensações são medições.) Em última análise, para os positivistas é o observador que cria a realidade!
    A IC usa as ideias de «sobreposição» de estados e da «complementaridade». Vamos ilustrá-las com um exemplo muito simples: vamos imaginar partículas girando sobre si próprias tal que em qualquer momento só podem girar em torno de uma ou outra de duas direcções perpendiculares, por exemplo, horizontal (H) e vertical (V). Tal propriedade (rotação) e tal restrição (direcções perpendiculares) existem no mundo das partículas microscópicas ([26]). As partículas progridem até embaterem num detector que determina em que sentido giram. Um físico da IC dirá: antes de chocar contra o detector não sabemos se um qualquer dos dois estados possíveis de uma partícula (rotação H ou V) é real; como não sabemos nada, teremos de admitir que ela está num estado de «sobreposição» das duas rotações; só quando choca contra o detector é que sabemos que um dado estado de rotação tem existência real. Na verdade, a famosa «sobreposição» proveio de uma técnica operativa da matemática usada na MQ que, na IC, se viu promovida a realidade objectiva, como no famoso gato de Schrödinger ([27]) que está em «sobreposição» de «vivo» e «morto»; se é que alguém sabe o que isso significa.
    A IC vai ainda mais longe no seu positivismo. Suponhamos (ver figura 9) que um fluxo de partículas com o mesmo tipo de rotação (qualquer que ele seja), entra num dispositivo, Tipo_1, que coloca as partículas nos estados de rotação H ou V. O dipositivo tem duas saídas: por uma, sai o fluxo (de partículas) H, pela outra, o fluxo V. A seguir, os dois fluxos entram noutros dispositivos, Tipo_2, que colocam as partículas a girar em torno de direcções de +45º e -45º; duas direcções também perpendiculares entre si, como é exigido. As partículas que saem dos dispositivos Tipo_2 chocam contra detectores, as suas rotações são medidas, e fica-se a saber em que sentido giram (+45º ou -45º). Pois bem, um físico da IC dirá: não se pode atribuir nenhuma realidade objectiva às rotações ±45º antes de terem sido medidas e, além disso, depois destas medições, como qualquer conhecimento da prévia rotação H/V foi destruído é incorrecto atribuir essa propriedade às partículas (mesmo sabendo da existência do dispositivo Tipo_1!). As propriedades «rotação H/V» e «rotação +45º/-45º» dizem-se complementares: ou se sabe uma ou se sabe outra, como no caso da posição e da velocidade dos fotões na difracção da luz.



    Note-se que a complementaridade, só por si, é equivalente ao princípio da incerteza e não invalida uma interpretação materialista da MQ ([28]). Mas os aderentes da IC usaram (e alguns ainda usam) a «complementaridade» num sentido positivista (só a medição confere realidade), avançando a partir daí para a negação da causalidade, a defesa da natureza subjectiva da função de onda, chegando ao ponto de transformar a «complementaridade» em princípio universal aplicável também à biologia, à psicologia, à sociologia, etc.
    Como interpretação positivista a IC enferma de todos os males desta corrente filosófica; alguns já indicados no nosso artigo anterior. Por exemplo, se as propriedades das partículas elementares só são reais depois de medidos – mesmo quando estas são efectuadas sem intervenção humana, como no caso dos choques contra o detector --, o que acontece aos átomos quando as propriedades das partículas que os constituem não são medidas? Por exemplo, a propriedade que confere estabilidade atómica? Deixam de existir? Certamente que não, caso contrário o universo não existiria. Mas o positivismo específico da IC coloca outro grande problema: o da recorrência infinita das medições (primeiro descrito por John von Neumann). É assim: temos uma partícula a girar; só sabemos em que sentido gira com um medidor M, talvez um aparelho com um ponteiro a indicar o sentido da rotação; mas o medidor M também está sujeito às leis quânticas, o seu ponteiro sofre da «sobreposição» de estados (indicar num sentido ou noutro) enquanto o seu estado não for medido; para tal usamos um medidor N, talvez uma célula fotoeléctrica que acusa a interrupção dum feixe de luz pelo ponteiro de M; mas o medidor N também sofre da «sobreposição» de estados (célula on ou off),..., etc. É óbvio que nem os físicos da IC acreditam nisto senão nunca realizariam experiências e medições.
    Existem outros aspectos controversos da IC, que se prestam a leituras idealistas e dos quais têm feito muito uso os místicos e charlatães, nomeadamente a questão do «colapso da função de onda». O leitor interessado pode consultar a nota [29].

A Interpretação Mística (IM)

    É a interpretação idealista filha directa da anterior: só quando o resultado da medição entra na consciência de alguém é que colapsa a função de onda e acaba a recorrência infinita de von Neumann. A consciência humana efectuaria isso. Por exemplo, o gato de Schrödinger está vivo ou morto quando existe um ser humano para o observar. Caso contrário continua (coitado!) em sobreposição de estados, zombie portanto. O principal proponente desta interpretação foi Eugene Wigner: teoria do domínio da mente sobre a matéria. O famoso astrónomo e místico confesso Arthur Eddington vai ainda mais longe: a MQ provou que existe a alma. Muitos dos disparates místicos assinalados na primeira secção acima são filhos directos da IM.

A Interpretação do Potencial Quântico (IPQ)

    Trata-se de uma interpretação proposta por David Bohm em 1952, que mantém alguns aspectos essenciais da IC, como a função de onda, mas numa teoria que procura ser materialista, explicando os fenómenos quânticos em termos de trajectórias normais de partículas que passam a ter realidade física. Para tal, usa uma nova ideia de variáveis escondidas, ditas não-locais, isto é, externas às próprias partículas (ao invés das variáveis escondidas locais de John Bell). As variáveis escondidas da IPQ correspondem a um «potencial quântico», matematicamente derivado da equação de onda de Schrödinger; potencial que estabelece uma relação energética entre a partícula em causa e todo o restante universo (holismo). A dificuldade com a IPQ é que o «potencial quântico» é holista sendo difícil ou impossível testar a sua existência física. Note-se que muitos místicos usam a ideia do «potencial quântico» de Bohm ([30]), mesmo sem a entenderem, simplesmente pelo seu holismo.

A Interpretação dos Universos Paralelos (IUP)

    Proposta por Hugh Everett e John Wheeler, a argumentação é a seguinte: o problema da medição deriva de exigirmos uma medição de um estado quântico; isso levanta o problema da recorrência infinita das medições que na IM só termina na mente humana. Podemos eliminar esta dificuldade se admitirmos que a detecção (o colapso da função de onda) nunca ocorre e cada estado de sobreposição na altura da medição simplesmente se desdobra em tantos universos paralelos quanto os estados em causa. Concretizando, para uma partícula que na figura 9 entra no dispositivo Tipo_1. No momento de entrar considera-se a partícula em «sobreposição» H/V. No dispositivo dar-se-ia a medição passando a partícula pela saída H, com colapso da função de onda na saída V; em alternativa, a partícula passa por V e o colapso dá-se em H. Pois bem, na IUP nada de colapso! Na altura em que o dispositivo «se prepara» para medir a partícula o universo divide-se em dois universos iguaizinhos, que só diferem porque num e na respectiva versão do dispositivo Tipo_1 a partícula passa por H, e no outro passa por V. Temos assim dois valores igualmente reais, só que em universos diferentes sem qualquer comunicação entre si. Dado existir um número extraordinariamente grande de estados quânticos no universo, a IUP conduz a um número inimaginável de universos paralelos ([31]), e sempre inimaginavelmente crescente.
    A IUP é obvimente esotérica. A frase «Na altura em que o dispositivo “se prepara” para medir a partícula» no estilo dos criadores da IUP não tem para nós qualquer sentido. Espantosamente, alguns consideram a IUP materialista por propor trajectórias reais e eliminar o recurso à consciência humana. Pondo de lado a violação de leis materiais (como é que um universo com dada energia se divide em cada instante num número incrivelmente grande de universos «iguais» sem violar a conservação da energia?), consideremos um humano que tem um pensamento despoletando transmissão iónica nas membranas sinápticas. Os iões obedecem às leis quânticas; logo, o pensamento pode despoletar, segundo a IUP, universos paralelos. Em cada universo (por exemplo, eu aqui e agora) o humano pode legitimamente dizer: «Aqui estou eu com a cópia do universo que criei»». Enfim, idealismo subjectivo que se poderia qualificar de solipsismo holista. A IUP é também muito apreciada pelos místicos ([32]).

A Interpretação das Histórias Consistentes (IHC)

    Proposta por R. Griffiths (1984) a IHC sustenta a realidade objectiva de várias «histórias» possíveis de partículas quânticas, desde que pertençam a uma família consistente de histórias. A consistência deve ser avaliada de acordo com o sistema em causa e deve, nomeadamente, corresponder a valores de probabilidades que façam sentido. Consideremos o exemplo muito simples de uma partícula que sai a girar segundo um eixo horizontal no dispositivo Tipo_1 da figura 8. Ao passar pelo dispositivo Tipo_2 há duas histórias consistentes: (H,+45º) com probabilidade ½; (H,-45º) com probabilidade ½. As duas histórias obedecem às leis da MQ; em particular, ½ + ½ = 1, o que faz sentido (a partícula de certeza fica a girar a +45º ou -45º). Se a partícula passasse por um dispositivo Tipo_1, teríamos também duas histórias consistentes, (H,H) e (H,V) com probabilidades respectivas de 1 e 0, com soma 1. Nenhum dispositivo existe que proporcione a família de histórias inconsistentes (H,H) e (H,+45º) com probabilidade conjunta, sem sentido, de 1+½.
    A «sobreposição» e a falta de realidade de propriedades não medidas, da IC, são descartadas. A «natureza» escolhe ao acaso, para uma partícula individual, uma de várias histórias consistentes com determinada probabilidade. Griffiths mostrou que a IHC fornece explicações realistas, objectivas, mas indeterminísticas (a nível individual). (Em particular na experiência EPR o que se passa em B nada tem a ver com as medições em A. As medições em A apenas afectam a nossa capacidade de predizer o resultado de uma medição em B. Não existe nenhuma acção ou transmissão de informação à distância. Existe simplesmente uma dada história consistente escolhida ao acaso entre várias possíveis.) Resta explicar qual poderia ser o conteúdo material da escolha ao acaso da «natureza».

A Interpretação da Decoerência (ID)

    Uma questão que se coloca é porque razão os fenómenos quânticos não se verificam no mundo macroscópico quotidiano. Em particular, há uma pergunta inescapável: a partir de que tamanho um corpo é macroscópico no sentido quântico? Ou, em alternativa: a partir de que tamanho é legítimo substituir a MQ pela física clássica?
    Comecemos por lembrar que o que dissemos acima para a difracção da luz ou para a experiência das duas fendas, tem lugar quando a luz é monocromática: um só tipo de oscilação electromagnética. Com a luz de uma lâmpada vulgar não se observa o fenómeno da interferência, dado que tal luz é constituída por muitas oscilações electromagnéticas, cujos desvios entre os respectivos picos são aleatórios. Tal luz é incoerente. Se tivermos uma luz de várias oscilações sincronizadas (o caso trivial é a luz monocromática), então temos coerência e observa-se o fenómeno da interferência.
    Os corpos macroscópicos são compostos por um enormíssimo número de átomos e/ou moléculas, logo de partículas elementares (fotões, electrões, protões, etc.). Todas na vizinhança umas das outras. Cada uma servindo de «detector» a outra. No universo macroscópico não existe a granularidade esparsa do mundo quântico, em que as partículas podem viajar «grandes» distâncias (face ao seu comprimento de onda) até embater com um «detector». Há sempre um elevadíssimo número de «choques» no mundo dos corpos quase contínuos do quotidiano, logo decoerência, logo determinismo e ausência do princípio da incerteza. Temos aqui um bom exemplo da propriedade dialéctica da transformação da quantidade em qualidade.
    Qual o tamanho e tempo necessário para se observar a decoerência (dando resposta à pergunta acima) depende das partículas em causa e da respectiva involvência. Um neutrino, por exemplo, pode atravessar a Terra sem interferir com nada. Já, por exemplo, uma partícula de poeira de raio 10-4 mm (100 micron) fica em decoerência – logo, num estado não quântico – num milésimo do milionésimo do segundo ([xi]). A ID é materialista e dialéctica.

Outras Interpretações

Existem muitas outras interpretações de menor interesse ([33]).

Contribuições Recentes

    Muitos físicos continuam a sentir-se desconfortáveis com as questões do indeterminismo e da não-localidade. Na conferência Quantum Physics and the Nature of Reality (A Física Quântica e a Natureza da Realidade) de 2011, foi colocada a seguinte questão aos participantes: «Com que frequência mudou para uma interpretação diferente?» Quarenta e dois porcento (42%) dos cientistas disseram que mudaram de opinião pelo menos uma vez, e um deles disse mesmo que «às vezes mudo de interpretação várias vezes por dia» ([34]).
    Trabalhos recentes têm vindo a pôr em causa certos aspectos da MQ que se julgava bem estabelecidos. Eis alguns:
-- Shahriar Afshar desenvolveu em 2004 uma versão da experiência das duas fendas que pôs em dúvida o princípio da complementaridade da IC. O trabalho, publicado em 2007, evidencia, na mesma experiência, comportamento de onda e de partícula de um feixe de fotões. Este trabalho tem suscitado debates acesos na comunidade científica ([35]).
-- O princípio da incerteza não proíbe, tanto como se julgava, a obtenção de conhecimento sobre propriedades «complementares», como a posição e velocidade de partículas. Com uma nova técnica, conhecida por «medição fraca», foi possível determinar a trajectória média de pequenos conjuntos de fotões de posição conhecida em experiências de duas fendas ([36], 2011). Aspecto interessante: as trajectórias médias obtidas reproduzem as predições da IPQ.
-- O físico Tony Legget desenvolveu uma versão da desigualdade de Bell para teorias não-locais mas que mantêm o determinismo. Experiências do tipo EPR, efectuadas para testar tais teorias ([37], 2007), mostraram a violação da desigualdade de Legget. Isto é, o mundo quântico parece de acordo com a não-localidade.
-- A violação da desigualdade de Bell não tem lugar apenas no mundo quântico. Experiências recentes ([38], 2013) mostraram que a desigualdade de Bell também tem lugar num sistema clássico, no qual fenómenos não-locais são causados por processos locais! Isto é, a condição estrita de não-localidade não é imperativa.

Balanço

-- O facto de subsistirem interrogações sobre a interpretação de leis do mundo microscópico não põe em causa a existência e as propriedades desse mundo como realidade material objectiva. Realidade material comprovada pelas partículas elementares, pelos átomos e pelo universo. Realidade objectiva, quer estejamos presentes ou não; quer efectuemos observações ou não; quer interferiramos com esse mundo ou não. Também não sabemos ainda o que é a gravidade. A existência dos gravitões não está comprovada; logo, não está explicado o móbil da acção à distância da gravidade, embora saibamos que não há matéria sem gravidade. Sabemos também que as maçãs caiem das árvores com movimento uniformemente acelerado, mesmo quando não estamos a olhar para elas. Mas não sabemos predizer quando uma cai se não interferirmos no «sistema».

-- A MQ só é indeterminística a nível individual. Para um conjunto de partículas a MQ é determinística (determinismo estatístico), obedecendo a distribuições de probabilidade que se podem calcular, e tendendo para os mesmos resultados realistas da física clássica para grandes números. Só não sabemos ainda o que subjaz ao indeterminismo individual. A designação de «acaso puro» que se lê em alguns trabalhos técnicos da MQ apenas exprime a nossa ignorância sobre o que é o indeterminismo individual da MQ.

-- O determinismo estatístico é causal, consistente com a velocidade subliminal de uma acção e a impossibilidade de influenciar o passado. Na física clássica a causalidade estava associada ao determinismo. A MQ enriqueceu a noção de causalidade com a admissão de leis estatísticas causais.

-- O princípio da incerteza só se aplica a certos pares de propriedades «complementares». Existem muitas outras propriedades que podem ser medidas simultaneamente sem interferirem uma com a outra, tais como a massa em repouso, a carga eléctrica, o momento magnético, e o momento angular das partículas elementares. Portanto, a MQ está longe de dizer que tudo é incerto ou holista, como apregoam os místicos e charlatães.

-- Mesmo descontando o efeito da decoerência, a incerteza quântica não se verifica com objectos macroscópicos. O comprimento de onda de De Broglie de uma bala real disparada por uma arma é da ordem de 100.000.000.000.000.000.000 vezes menor que o tamanho de um electrão. Isto é, é da ordem de 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.01 metros, ou seja, da ordem do menor comprimento possível no universo, o comprimento de Planck ([39]). Quando místicos e charlatães transpõem as leis quânticas para o mundo macroscópico e colocam corpos do quotidiano em «incerteza» não sabem do que estão a falar. Abusam da MQ.

-- O avanço da ciência sempre varre para o caixote do lixo os «espíritos» e «divindades» que  subsistem numa dada época: a Terra como centro do universo, as divinas esferas celestes, o «fiat lux» divino, a criação do mundo a 23 de Outubro de 4.000 anos a.C. (declaração do bispo James Ussher baseada na Bíblia), o criacionismo das espécies vivas, a consciência, a alma, etc., etc. Em vez de «espíritos» e «divindades», meras designações de ignorância, o conhecimento e praxis humanas revelam passo a passo causas materiais, objectivas. Podemos estar certos que o mesmo acontecerá na MQ, traduzindo-se em novos passos na elucidação material do indeterminismo e da não-localidade ([40]).

Notas

[1] Reproduzimos aqui citações de cientistas incluídas por Lenine na sua obra (e nela dadas com referências completas). Herz (Mechanik): «Se inquirirmos sobre a razão real pela qual a física actual prefere exprimir-se em termos de energética, podemos responder que é porque dessa forma melhor evita falar sobre coisas de que conhece muito pouco... Claro, nós estamos agora convencidos de que a matéria ponderável consiste em átomos; e em certos casos temos ideias bastante definidas da grandeza desses áomos e dos seus movimentos [...]». Conforme faz notar Lenine, Herz revela aqui que não lhe passava pela cabeça separar a energia da natureza atómica, corpuscular, da matéria. Boltzmann (Populäre Schrift): «aqueles que acreditam que o atomismo foi eliminado pelas equações diferenciais [de Maxwell] não conseguem ver a floresta por trás das árvores... nós não podemos duvidar que esta imagem do mundo (expressa em equações diferenciais) deve de novo, pela sua natureza, ser uma imagem atómica [...]» e «[Vubel com a concordância de Boltzmann] logo à partida toma o ponto de vista de que os fenómenos de electricidade são determinados pela interacção e movimento de entidades atómicas, os electrões». Ramsay (Essays, 1908): «Perguntaram-me muitas vezes: “Mas não é a electricidade uma vibração? Como pode a telegrafia sem fios ser explicada pela passagem de pequenas partículas ou corpúsculos?” A resposta é: “A electricidade é uma coisa; são esses minúsculos cospúsculos, mas quando eles deixam um objecto, uma onda, como uma onda de luz, dispersa-se através do éter, e esta onda é usada pela telegrafia sem fios». Espantosa previsão materialista de Ramsay! Embora a proposta dos quanta de luz fosse feita por Einstein em 1905, só nos anos vinte a realidade dos fotões associados não só à luz mas a todas as radiações electromagnéticas (como na telegrafia sem fios) ficou bem estabelecida. (Note-se que Max Planck, habitualmente considerado o pai da MQ, inventou a palavra «quantum» mas não estava nada seguro da natureza corpuscular das radiações. Ver [i].)
[2] Há quem prefira usar, e com razão, a designação «Física Quântica». Mantemos a designação clássica e mais popularizada de «Mecânica Quântica».
[3] A MQ permitiu, por exemplo, determinar teoricamente valores de grandezas físicas com espantosa precisão: o momento magnético do electrão foi calculado como 1,00115965246. O valor experimental veio a ser medido como 1,001159652193 ± 0,000000001. Isto é, a predição teórica afastou-se da medição experimental com um desvio de uma parte em 10 biliões!
[4] O holismo é a concepção filosófica que sustenta que tudo que existe no universo tem de ser visto como um todo. Opõe-se à concepção física do reducionismo, de que há partes do todo que podem ser analisadas separadamente. O holismo é vulgarmente usado para defender a existência de uma «mente universal», de um «ser universal», da «natureza como um todo», do antropocentrismo e de Deus.
[5] Contrariamente ao que muita gente julga que Einstein disse na Teoria da Relatividade Especial, esta não é sobre um suposto relativismo das leis da Física, sobre supostas alternativas das leis da física. Muito pelo contrário. A teoria sustenta a invariância das leis da física em todos os sistemas de referência inerciais.
[6] Este filósofo-epistemólogo finaliza a sua prelecção com esta preciosidade: «Então, os geólogos do futuro, os sábios em geologia, os geólogos; através do domínio quântico-cognitivo de cada elétron em cada átomo de cada molécula, poderá pensar a montanha, (pensar por ela, visto que seus componentes geológicos compõem também o corpo do pensador a nível molecular, onde se organizam em forma de mente humana) e sentenciar: Ergue-te e precipita-te ao mar!».
[7] Victor Stenger destacou-se pelo seu trabalho pioneiro na astronomia dos neutrinos e dos raios gama de muito alta energia. No seu livro ([ii]), ao memo tempo que expõe em termos simples a MQ, faz uma desmontagem exaustiva dos teses idealistas e místicas. Stenger defende uma visão materialista das ciências da natureza. Diz, por exemplo, no primeiro capítulo: «Quer queiramos quer não, a conclusão mais económica que se retira do repositório completo dos dados científicos é a de que somos seres materiais compostos de átomos e moléculas, estruturados por processos largamente dependentes do acaso da auto-organização e da evolução, que nos dotou do comportamento complexo associado às noções de vida e de mente. Esses dados não fornecem qualquer motivo para postular forças transcendentais, vitais ou espirituais. A matéria é suficiente para explicar tudo que até agora descobrimos com os mais poderosos instrumentos científicos». Critica também o positivismo, denunciando o seu subjectivismo e citando a propósito Einstein: «a Lua está lá mesmo quando ninguém olha para ela». Faz remontar correctamente a interpretação positivista da MQ a David Hume, Auguste Comte e Ernst Mach.
[8] Para a luz visível o orifício é da ordem de 0,5 mm.
[9] Quando dizemos «onda de electricidade» e «onda de magnetismo» queremos dizer que existem duas entidades, «campo eléctrico» e «campo magnético» cujas grandezas oscilam no tempo e no espaço mais ou menos como as ondas de água num tanque. Os «campos» são entidades vectoriais. Podemos, por exemplo, representar uma onda eléctrica num certo ponto do espaço como uma seta (um vector) cujo comprimento (grandeza) oscila periodicamente à medida que a onda se propaga no espaço; o quadrado da grandeza representa a energia eléctrica nesse ponto. Se for um ponto de uma antena, tal energia eléctrica traduz-se na capacidade de fazer vibrar electrões da antena nesse ponto (captação da onda).
A intensidade da luz que vemos no ecrã das figuras 2 e 3 é proporcional, em cada ponto, à energia eléctrica. No tempo de Maxwell não se sabia muito bem o que era, de facto, a electricidade e o magnetismo. Falava-se em campo eléctrico e magnético para representar as acções à distância da electricidade e do magnetismo, e eram percebidos como manifestações de um certo tipo de energia. Só muito mais tarde se descobriu que todas as manifestações de campo são mediadas por partículas de natureza corpuscular. É o trânsito de partículas com velocidades que não excedem a da luz que é responsável pela acção à distância do respectivo campo. Note-se, contudo, que os gravitões que supostamente devem mediar o campo gravítico ainda não foram descobertos.
[10] É habitual apresentar este resultado substituindo velocidade por momento (linear) ou quantidade de movimento, o produto da massa pela velocidade. Esta substituição é aqui irrelevante. O valor da constante a é extremamente pequeno e está relacionado com a chamada constante de Planck, uma das constantes básicas da natureza. Apesar de extremamente pequena, no mundo microscópico o fenómeno da incerteza torna-se perfeitamente perceptível e não negligenciável.
[11] O princípio da incerteza aplica-se a outros pares de propriedades, notavelmente à energia e ao tempo.
[12] Quando se lança uma moeda ao ar o resultado parece depender do acaso. Todavia, se soubermos as dimensões e massa da moeda, como é dado o impulso inicial e o seu valor, a resistência do ar, a atracção da gravidade, a fricção no solo, etc., poderíamos, em princípio, prever como cai a moeda. Quase ninguém o faz porque as condições são muitas, as equações intrincadas e o resultado muito sensível a pequenas variações das condições do problema. Para efeitos práticos, o resultado pode ser tratado como proveniente do acaso. O mesmo se diz para os fenómenos ditos de caos: são deterministas e sabemos quais as leis que os regem. Simplesmente, dada a grande sensibilidade dessas leis a desvios de condições iniciais, o resultado pode frequentemente ser tratado como proveniente do acaso (ver [iii]).
[13] O indeterminismo individual com determinismo colectivo não se verifica apenas nos fenómenos quânticos. Verifica-se também em fenómenos da física clássica, como ilustra a máquina de Galton: http://ww2.odu.edu/~eneukrug/galton.htm
[14] No início da década de 1930, Heisenberg, Max Born e Pascual Jordan desenvolveram uma mecânica matricial para fundamentar teoricamente a MQ. Schrödinger inventou uma mecânica ondulatória com a mesma finalidade. Ambas as abordagens conduzem aos mesmos resultados, mas a abordagem de Schrödinger da função de onda é mais popular.
[15] Numa configuração possível da experiência o ecrã poderá estar a 1 metro da fonte de luz e o anteparo a meia distância, com os furos distantes de 0,5 mm.
[16] O facto de a interferência se verificar nestas experiências de «um a um» invalida quaisquer explicações de que a interferência se deveu a «choques de trânsito» entre as partículas ao passar pelas fendas.
[17] De facto, a regra de operação quântica determina que a soma não pode ser feita aqui com quantidades escalares (o que levaria à simples soma de curvas como na figura 6a), mas sim com vectores.
[18] A experiência das duas fendas é um de muitos exemplos de como se podem obter resultados completamente diferentes em experiências regidas por leis quânticas, dependendo do que se mede.
[19] Já vimos que muitas vezes os físicos usam «realismo» como sinónimo de «materialismo» ou como apenas um dos aspectos do materialismo: a existência de uma realidade objectiva, independente do observador.
[20] O critério é suficiente na medida em que se for satisfeito a realidade física é considerada um facto. Os autores do artigo EPR referem que para os fins que tinham em vista não precisaram de apresentar uma definição exaustiva de realidade física.
[21] Note-se que a ideia das variáveis escondidas não é nova na física. Por exemplo, durante séculos os átomos e moléculas nunca tinham sido vistos e a sua existência comprovada. Boltzmann baseou-se nestas «variáveis escondidas» para construir a sua mecânica estatística.
[22] Há muitas demonstrações do teorema de Bell. A mais simples que encontrámos aparece em [ii]. Simples e interessante é também a de [vi].
[23] Experiências com partículas «entrelaçadas», isto é emitidas por uma fonte que impõe uma determinada condição aos pares de partículas (velocidade total nula na experiência acima e, em experiências reais, spin total nulo no caso de electrões ou polarizações ortogonais no caso de fotões. O balanço experimental (nomeadamente depois das sofisticadas experiências da equipa de Alain Aspect desde 1986) confirma a violação da desigualdade de Bell.
[24] Na secção 2 («A Matéria Desapareceu») do capítulo 5 (A Revolução Recente das Ciências da Natureza e o Idealismo Filosófico) da obra Materialismo e Empiriocriticismo, Lenine diz o seguinte: «o electrão é inesgotável tal como  átomo, a natureza é infinita, mas ela existe infinitamente». Este aspecto da inesgotabilidade da matéria (no tempo de Lénine, corporizada em átomos e electrões) é devidamente apreciado na sua perspicácia no artigo [vii].
[25] Note-se que o próprio Bohr oscilou muito nas suas opiniões. Durante um certo período o seu colaborador, o físico e marxista Leon Rosenfeld, chegou a afirmar que a teoria de Bohr era materialista dialéctica. Ver [ix].
[26] Os mais familiarizados com a física entenderão de imediato as partículas a girar como partículas elementares com momento angular (spin) não nulo. A experiência também pode ser representada em termos de luz polarizada.
[27] O leitor interessado neste gato zombie, muito do agrado das interpretações idealistas, pode consultar a wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Schr%C3%B6dinger's_cat . O próprio Schrödinger apresentou o paradoxo do gato por insatisfação com o irrealismo da MQ.
[28] O cientista soviético Vladimir A. Fock (1898-1974) argumentou bem este ponto de vista, mostrando não existir diferença essencial entre a noção de «complementaridade» e o princípio da incerteza de Heisenberg. Entretanto, quando os proponentes da IC tiraram conclusões da «complementaridade» que levavam à negação da causalidade, à liquidação do materialismo e à natureza subjectiva da função de onda, Fock abandonou a noção de complementaridade em 1951: «Inicialmente o termo complementaridade significava a situação que provinha directamente da relação de incerteza; a complementaridade dizia respeito à incerteza na medida da coordenada e da quantidade de movimento... e o termo «princípio da complementaridade» era entendido como sinónimo da relação de Heisenberg. Muito cedo, contudo, Bohr começou a ver no seu princípio da complementaridade um certo princípio universal... aplicável não só à física, mas até mesmo à biologia, psicologia, sociologia e a todas as ciências... Na medida em que o termo “princípio da complementaridade” perdeu o seu significado original é preferível abandoná-lo».
[29] A função de onda de Schrödinger é uma ferramenta matemática útil, que permite operar com as variáveis de estado quânticas e calcular as respectivas probabilidades. Não é a única ferramenta, conforme assinalámos em [14]. Consideremos a difracção de fotões por uma fenda atrás da qual temos dois detectores, A e B, como na figura 10.

Fig. 10

Na IC diz-se que quando um fotão é detectado em A a função de onda que descreve a posição e velocidade ([10]) do fluxo de fotões, que passa pela fenda, colapsa em B. Estar-se-ia perante uma acção à distância pela qual, quando um fotão é detectado em A, envia um sinal para colapsar a função de onda em B. Como o colapso é instantâneo o envio teria de ser feito a uma velocidade infinita! Einstein chamou-lhe de «acção fantasmagórica à distância». Na verdade, nunca se provou a existência real da função de onda. (O efeito Aharonov-Bohm (1959) baseado na experiência das duas fendas parecia mostrar a existência real da função de onda, mas esse efeito foi depois (1991) explicado em termos da física clássica.) Além disso, nem a equação de Schrödinger nem a teoria de Heisenberg prevêem o colapso da função de onda. Tem havido tentativas de construir teorias com um mecanismo prevendo o colapso da função de onda; nenhuma foi bem sucedida.
[30] Que a teoria do americano Bohm tenha sido abraçada pelos místicos é sumamente irónico. De facto, David Bohm, considerado um dos maiores físicos teóricos do século XX, era marxista e comunista. Foi perseguido nos EUA no período mccarthista, tendo emigrado para o Brasil e Inglaterra (trabalhou aí com Basil Hiley, outro proponente da IPQ).
[31] Num cálculo por alto e considerando apenas sobreposições de dois estados, as estimativas variam entre 10^10^12 e 10^10^115. (10^10=1010=10.000.000.000. Logo, 10^10^12 corresponde a 10.000.000.000 muliplicado por si próprio 12 vezes!) Curiosamente os defensores da IUP parecem desprezar o cômputo para sobreposições de muitos mais estados, como na experiência das duas fendas com uma infinidade de valores de v e x.
[32] Os escritores de ficção científica também gostam da IUP. Estranhamente, embora a IUP não tenha grande aceitação na comunidade científica, os físicos Stephen Hawking e Steve Weinberg aceitam-na. Alastair Rae diz no seu livro [x] que em certos universos alguns humanos podem ver a «sociedade construída da maneira que desejariam porque o seu partido favorito vence todas as eleições»! Que maravilha!
[33] A Interpretação do Colapso Espontâneo (ICE) dos italianos Ghirardi, Rimini e Weber (1985) resolve o problema da medição inserindo na teoria da IC uma probabilidade não nula mas extremamente pequena das partículas saírem espontaneamente da «sobreposição» de estados (colapso espontâneo da função de onda); para uma ou poucas partículas essa probabilidade é tão pequena que não faz qualquer diferença, mas como o medidor é constituído por um número elevado de partículas quase de certeza sai da «sobreposição». Tirando o problema da medição a ICE é tão idealista quanto a IC.
A Interpretação Estatística (IE) foi proposta na década de 1930 pelo físico soviético D. I. Blokhintsev. Com o objectivo de manter o realismo, defendia que a MQ só era aplicável a grandes números de partículas, fornecendo resultados estatísticos como a trajectória média das partículas, e que era inaplicável às partículas individuais, isoladas. A IE contém dificuldades explicativas a um nível fundamental (ver [viii]) e é hoje pouco seguida.
Interpretações quantum-informacionais (não confundir com o uso legítimo da teoria da informação na análise de fenómenos quânticos) foram desenvolvidas por J.A. Wheeler (pémio Nobel) a partir dos anos setenta. Caracterizam-se pelo seu idealismo exacerbado, místico, propondo um mundo não material em que a única coisa que existe é «informação». Numa versão destas interpretações o mundo não existe mas apenas o conhecimento que um observador tem do mundo. É hoje uma corrente em voga.
[34] Kate Becker, For the Camera, 01/24/2013, "Quantum physics has been rankling scientists for decades".
[35] A experiência da Afshar é bastante bem descrita em http://en.wikipedia.org/wiki/Afshar_experimenthttp://en.wikipedia.org/wiki/Afshar_experiment . Há quem diga que a experiência não põe em causa o princípio da complementaridade, como A. Drezet (Wave Particle Duality and Afshar Experiment, Progress in Physics, pp. 57-64, 2011); mas este autor concentra a sua atenção no que acontece a um único fotão, fugindo, quanto a nós, à mensagem essencial de Afshar. Quanto a E. Flores e J. De Tata (Complementarity Paradox Solved: Surprising Consequences, Foundations of Physics, 40:11, pp. 1731-1746, 2010) admite a possibilidade de violação da complementaridade, compatível com a IPQ. Abstemo-nos de comentar outros trabalhos que claramente assumem a tese na hipótese.
[36] Sacha Kocsis et al., Observing the Average Trajectories of Single Photons in a Two-Slit Interferometer, Science, 232:1170-1173, 2011.
[37] Alain Aspect, To Be Or Not To Be Local, Nature, vol. 446, pp. 866-867, Nature, 2007.
[38] Robert Brady, Ross Anderson, Violation of Bell’s Inequality in Fluid Mechanics, Physics, arXiv:1305.6822 [physics.gen-ph], 2013.
[40] Muitos físicos pensam que se irá assistir a uma nova revolução quântica com contribuição na elucidação material do indeterminismo e da não-localidade.

Referências
Apenas referimos livros e artigos não técnicos ou com poucas tecnicalidades que se podem omitir na leitura.

[i] Helge Kragh, Max Planck: the reluctant revolutionary, 2000, physicsworld.com.
[ii] Victor J. Stenger, “The Unconscious Quantum. Metaphysics in Modern Physics and Cosmology”, Prometheus Books, 1996. Apesar de ser de 1996 o livro continua bastante actual nas matérias que nos interessam. Depois de 1996 ganhou maior desenvolvimento a IHC e a abordagem da decoerência, com novos resultados no sentido materialista dialéctico. O autor é materialista.
[iii] Joaquim Marques de Sá, O Acaso. A Vida do Jogo e o Jogo da Vida, Gradiva, 2006.
[iv] Richard Feynmann, QED. A Estranha Teoria da Luz e da Matéria, Gradiva, 1988. Um livro excelente para uma larga audiência. Feynmann dizia que a experiência das duas fendas continha todos os mistérios da MQ.
[v] Einstein A, Podolsky B, Rosen N “Can the Quantum Mechanical Description of Reality Be Considered Complete?”, Physical Review 47, 1935.
[vi] Bernard d’Espagnat, The Quantum Theory and Reality, Scientific American, 1979, pp. 158-177. d’Espagnat tem uma visão mística, espiritualista, da MQ.
[vii] The philosophic legacy of V. I. Lenin in the struggle for materialism in science, Polymer Mechanics, vol. 6:2, pp. 177-178, Springer-Verlag, 1970.
[viii] Loren R. Graham, Quantum Mechanics and Dialectical Materialism, Slavic Review, Vol. 25, No. 3 (Sep., 1966), pp. 381-410.
[ix] Anja Skaar Jacobsen, Léon Rosenfeld’s Marxist defense of complementarity, Historical Studies in the Physical and Biological Sciences, vol. 37, pp. 3-34,University of California, 2007.
[x] Alastair Rae, Quantum Physics. Illusion or Reality?, Cambridge University Press, 2nd edition, 2004. Um livro interessante, destinado a uma larga audiência, que expõe de forma simples os aspectos estranhos da MQ. O autor mostra-se simpático para as interpretações idealistas.
[xi] Guido Bacciagaluppi, The Role of Decoherence in Quantum Mechanics, Sanford Encyclopedia of Philosophy, April 16, 2012, http://plato.stanford.edu/entries/qm-decoherence/
[xii] Albert Einstein, Leopold Infeld, A Evolução da Física: De Newton até à Teoria dos Quanta, Edição “Livros do Brasil”, data de edição não mencionada (a edição original da Cambridge University Press é de 1938). Um bom livro introdutório para uma larga audiência.
[xiii] George Greenstein, Arthur G. Zajong, The Quantum Challenge, Jones and Bartlett Pub., 1997. Um livro não muito técnico (e cujas tecnicalidades se podem saltar) que complementa bem [x], dedicando atenção à IPQ, IHC e ID.
[xiv] Paul Davies, J. R. Brown, O Átomo Assombrado, Gradiva (ed. original de 1986). Um livro muito divulgado mas, quanto a nós, um mau livro. Vale apenas pelas entrevistas. A posição, numa fachada de pseudo-neutralidade, é de facto pró-idealista-mística. O livro, por exemplo, não fala na IHC e ID, mas presta grande atenção à IM. Paul Davies é defensor de que não existe matéria.
[xv] G Ghirardi, Sneaking a Look at God’s Cards, Princeton University Press, 2005. Uma exposição interessante e pouco técnica de uma grande quantidade de tópicos da MQ. O autor, um dos proponentes da ICE ([33]), abraça abertamente o positivismo, aparentemente sem reparar que se trata de uma variante de idealismo. Aqui e além omite o que não suporta o seu ponto de vista (por exemplo, sobre o colapso da função de onda, [29]). Diz também, erroneamente, que o materialismo «tende a negar qualquer natureza específica dos processos mentais». De facto, os materialistas reconhecem a «natureza específica dos processos mentais». Específica, mas material, baseada nas «células cinzentas».
[xvi] Harry Nielsen, Against the Copenhagen interpretation of quantum mechanics – in defence of Marxism, 13 July 2005, http://www.marxist.com/quantum-mechanics-copenhagen130705.htm . Artigo com algum interesse, descontando exageros, alguma demagogia e a utilização abusiva da «dialéctica» como explicação que serve para tudo.
[xvii] Peter Byrne, The Many Worlds of Hugh, Scientific American, Dezembro 2007.
[xviii] Pete Mason, Is quantum mechanics materialist?, Socialism Today, 127, 2009, http://www.socialismtoday.org/127/quantum.html . Uma interessante revisão de um livro -- Manjit Kumar, Quantum: Einstein, Bohr and the great debate about the nature of reality, Icon Books, 2008 – feita por um físico marxista. Mason critica justamente Kumar por pretender impor à força à MQ uma visão materialista ultrapassada. Cita, a propósito, o trabalho [v] de Einstein: «os elementos da realidade física não podem ser determinados a priori por considerações filosóficas, mas devem ser encontrados por um apelo aos resultados de experiências e medições». Confrontar com o que dissemos no início da secção de «Interpretações».

[xix] Jürgen Renn, Schrödinger and the Genesis of Wave Mechanics, Max Planck Institute for the History of Science, 2013. Um bom relato sobre os primórdios da MQ. Schrödinger apoiou Einstein na busca de uma interpretação realista da MQ.