segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O Sector Financeiro. VI: Jogos com derivados (6)

Por esquecimento não publicámos no passado mês de Março a secção 6 de «Jogos com derivados». Aqui fica o artigo que completa a série.

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Neste artigo:
A explosão dos mercados de derivados
Os reguladores que finjem regular
Perdas com derivados que deram brado
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A explosão dos mercados de derivados
   
    Mencionámos no primeiro artigo sobre derivados (http://revolucaoedemocracia.blogspot.pt/2014/01/o-sector-financeiro-vi-jogos-com.html) que, segundo os peritos, o volume global do mercado de derivados -- isto é, o montante monetário a que se referem todos os contratos (valor nocional) -- era estimado como superior a 1.200 triliões de dólares: 1.200.000.000.000.000 dólares: 20 vezes mais que a riqueza criada em todo o planeta durante um ano! A estimativa referia-se ao final de 2011 ([56]) e o volume tem vindo a subir. Até à próxima explosão.
    Note-se que esta estimativa corresponde não só ao mercado «regulamentado» (mercado bolsista) como ao não regulamentado, o mercado de balcão (OTC, «over the counter») em bancos, firmas de investimentos, etc., cuja reportagem é deficiente. Mas mesmo no mercado regulamentado o volume das transacções é impressionante, como mostra o gráfico abaixo que construímos com dados do Bank of International Settlements (BIS) ([57]) relativo a futuros e opções, os únicos tipos de derivados transaccionáveis no mercado regulamentado. Notar: a) a enorme subida do volume de derivados até ao rebentamento da bolha em finais de 2007; b) uma certa estabilização a partir de 2009, com tendência crescente desde meados de 2012, atingindo em Setembro do ano passado o mesmo valor que em meados de 2005: 70 triliões (mil biliões ou, como temos vindo a usar, milhões de milhões) de dólares; c) o predomínio da América do Norte (fundamentalmente, os EUA; a contribuição do Canadá é bem menor) e da Europa sobre os mercados de outras regiões, mas, curiosamente e sintomaticamente, com o mercado da Europa a alcançar o da América do Norte a partir do rebentamento da bolha.

Volume de derivados (montante nocional total) no mercado regulamentado (Fonte:BIS).

   
    Se usarmos os últimos dados disponíveis da International Swaps and Derivatives Association, Inc. (ISDA) que inclui os valores estimados dos volumes transaccionados no mercado OTC ([57]), vemos claramente a dimensão espantosa do mercado OTC que «escapa» aos reguladores. (Em boa verdade, o que é que não escapa aos reguladores?) É o que mostramos na figura abaixo: a azul, os dados do BIS que só reportam futuros e opções transaccionados no mercado regulamentado; a preto, o volume de todas as transacções de derivados reportados pela ISDA; a magenta, o volume das transacções de CDSs, de acordo com a ISDA. Notar: a) a enorme diferença entre o mercado regulamentado e o mercado OTC (sendo este a diferença entre as curvas a preto e a azul); b) a subida do volume das transacções apesar da crise -- a crise não existe para o capital especulativo -- que, como vimos, não era visível na figura anterior relativa ao mercado regulamentado; c) no final de 2010 o volume total já estava próximo dos 500 triliões de dólares; d) o declínio do volume dos CDSs a partir de 2007, com a queda do crédito hipotecário.
   

Volume de derivados (montante nocional total) no mercado OTC e regulamentado (Fontes: BIS, ISDA).
    
    Os bancos americanos estão «afogados» em derivados. Até os neoliberais do sector confessam isso (ver, p. ex. [59-60])
    No final de 2011, os 9 bancos mundiais com maior volume de transacções em derivados, correspondiam a um volume total de 228,72 triliões de dólares ([61]). A tabela abaixo mostra o volume de derivados de alguns bancos em 2012, e comparações com o PIB português do mesmo ano. O Morgan Stanley, o HSBC, o Goldman Sachs, o Citigroup e o JP Morgan Chase estiveram (estão) envolvidos no caso dos swaps com empresas públicas portuguesas.

Banco
Volume de derivados (em triliões de dólares)
N.º de vezes o PIB português de 2011
Bank of New York
1.375
11
Morgan Stanley
1.722
13
HSBC
4.321
33
Goldman Sachs
44.192
337
Bank of America
50.135
383
Citigroup
52.102
398
JP Morgan Chase
70.151
536
    

    Não conseguimos encontrar valores actuais dos volumes globais de derivados em Portugal. O secretismo parece de regra. Os reguladores parecem marimbar-se para isso. Atente-se, por exemplo, no espantoso documento apresentado pela Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) à Comissão Parlamentar de Inquérito em 3 de Setembro de 2013, sobre os swaps das empresas públicas ([62]). Ostentando o nome do presidente do Conselho Executivo, Carlos Tavares, será que o documento esclarece os parlamentares sobre quanto dinheiro está envolvido no mercado de derivados em Portugal e, particularmente, nos swaps das empresas públicas? Não. Redondamente, NÃO. O esclarecimento é nulo. NULO. Os únicos gráficos que aparecem sobre mercados de derivados -- pasme-se! -- são sobre os mercados mundiais; isto é, semelhantes -- mas piores! -- dos que apresentámos acima. Condimentando estes gráficos com textos sobre «importância», «supervisão» e «ética nos negócios» (consistindo esta secção numas quantas ridículas e deploráveis jeremiadas), a ideia que se transmite é esta: o mercado de derivados é muito importante, não toquem nele; é muito complexo, o melhor será os senhores deputados abandonarem a esperança de o entenderem; está muito supervisionado e até levantámos uns processos de reclamações; e estamos atentos à ética (sabe-se lá o que isso significa para eles). Quanto a nós, demitiríamos liminarmente o Carlos Tavares e seus confrades. Por encobrimento e incompetência.
    Quanto ao BdP, apenas conhecemos com algum valor dois documentos ([63-64]) de inquérito trienal à actividade de mercados de câmbios e de derivados, ambos coordenados pelo BIS com a participação de bancos centrais de vários países incluindo Portugal. Os inquéritos incidiram sobre operações em câmbios e taxas de juro realizadas no mercado de balcão. Vamos apresentar resultados do segundo inquérito que inclui valores do primeiro.
    A figura abaixo mostra os gráficos das operações cambiais para todo o mundo (á esquerda) e para Portugal (à direita). Para sabermos os volumes de derivados, em biliões de dólares (B$), há que subtrair as barras a castanho escuro («operações spot» que dizem respeito às operações cambiais normais). Aparentemente, depois de uma subida importante do volume envolvido em transacções com derivados de 2001 a 2010 (já em plena crise!) este diminuiu em 2013, não acompanhando a tendência mundial.
   
   
    Os gráficos sobre derivados em taxas de juro são mostrados na figura abaixo. Aparentemente, depois de uma subida importante de 2001 a 2007, o volume envolvido em transacções com derivados tem vindo a estabilizar até 2013. Também aqui Portugal não tem acompanhando a tendência mundial.
    
   

    Tenha-se, porém, em conta dois aspectos: a) não estão contabilizados os volumes de numerário envolvidos em derivados no mercado regulamentado; b) apesar de algum declínio no mercado regulamentado, os valores continuam elevados. No total e em 2013, Portugal tinha envolvido em derivados no mercado OTC aproximadamente 2100 (mercado cambial) + 720 (taxas de juro) = 2820 B$, ou seja mais de 23 vezes o PIB! ([65].)
     
Os reguladores que finjem regular
    
    Com o colapso de 2008 as entidades reguladoras avançaram com regras dos mercados OTC (onde se transaccionam os CDSs). Nos EUA, o relatório Dodd-Frank intitulado Wall Street Reform and Consumer Protection Act, contendo vários regulamentos sobre os mercados de swaps, passou a lei em Julho de 2010. Em Setembro de 2010, a UE adoptou regulamentos semelhantes ([66]). Mas os reguladores europeus, embora finjam preocupação com o mercado OTC (apenas responsável por 16% do mercado europeu segundo algumas estimativas [67]), na prática não regulam nada. O referido regulamento europeu (entre muito bla-bla sem interesse, BCE dixit) limita-se a abordar tês problemas -- «falta de transparência», «insuficiente atenuação do risco de crédito da contraparte», «insuficiente atenuação do risco operacional» -- limita-se a apontar algumas medidas tipo «cândidos desejos»: obter informações mais completas; melhorar as práticas de compensação de risco entre as partes; aumentar a estandardização dos derivados OTC. Pois… Mas mesmo estas regras suaves puseram numa reunião no Luxemburgo em 2011 os cabelos em pé aos ingleses que controlam 80% do mercado europeu de derivados ([67-68]).
    Uma entidade «muito interessada» na regulamentação e com grande influência no BCE é o Deutsche Bank. Num relatório recente, de Agosto de 2013, o Deutsche Bank também fala (que coincidência!) que os contratos OTC deveriam ser reportados e que todos os derivados OTC estandardizados; e apenas estes devem ser compensados (mediados os riscos) por entidades centrais das partes ([69]). Além disso, os estandardizados poderiam ser transaccionados em bolsas ou em plataformas electrónicas. Acontece que os contratos estandardizados são os de menor risco e se só estes devem ser reportados fica quase tudo na mesma. Acontece também que o Deutsche Bank tem provas dadas no business as usual: foi acusado em 2012 de ter ocultado dívidas de 9.300 milhões de euros em 2008 para evitar o resgate do Governo alemão ([70]); foi banido de transacções de derivados na Coreia do Sul por acusações de manipulação de mercado ([71]).
    Podemos estar certos de que, na actual fase do sistema capitalista, em que os países capitalistas desenvolvidos estão perante uma baixa rendibilidade do sector produtivo, os regulamentos sobre especulação financeira, incluindo regulamentos sobre mercados de derivados, não irão desempenhar qualquer papel de relevo. A jogatina vai continuar e, se necessário, novos jogos ou novas regras de jogo serão inventadas.
    Na China, em marcha para o capitalismo, também já há transacções em derivados. Em 2009 o regulador estatal chinês (Assets Supervision and Administration Commission) apertou as regras pelas quais as empresas estatais (conhecidas por SOES, state-owned enterprises) podiam usar derivados ([72]). Deviam usá-los «cautelosamente», e seguir «estritamente» regras de cobertura, não sendo permitidas transacções especulativas. Pois… Só que na marcha para o capitalismo outras regras maiores se alevantam.

Perdas com derivados que deram brado
   
    A tabela abaixo mostra alguns dos principais prejuízos sofridos por empresas e instituições de vários países com derivados (fontes: wikipedia, [9]). As entradas da tabela estão por ordem decrescente do valor dos prejuízos, apresentados em biliões (milhares de milhões) de dólares correntes.
    Há um ano que se destaca: 2008 (9 entradas em 35), início da Grande Recessão. Há prejuízos para todos os tipos de derivados. Há empresas e instituições de vários tipos: grandes bancos e firmas de investimento, bancos centrais como o Banco Negara da Malásia, empresas de aviação, indústrias petrolíferas e mineiras, companhias de seguros (com destaque para o gigante AIG), etc.; e até há uma autarquia dos EUA: a do condado de Orange na Califórnia. Finalmente, se fôssemos a apurar os directamente envolvidos nos prejuízos, verificaríamos que há também os vilões dos dois tipos: os vilões oficiaisrogue traders», como Nick Lesson que destruiu totalmente o centenário Banco Barings num comportamento de jogador compulsivo com derivados) e os vilões do costume, a quem nunca acontece nada: ou se safam com milhões ou descarregam totalmente as culpas para cima de outros (caso de Jerôme Kerviel da Société Générale). Por vezes os do costume também saem do escândalo com uma auréola de grandes inventores e peritos em matemática financeira, merecedores de todas as reverências, como aconteceu aos prémios Nobel Scholes e Merton que arruinaram a Long Term Capital Management.
    
   
Prejuízo (biliões de $)
País
Empresa
Tipo de Derivado
Ano

9
EUA
Morgan Stanley
Swaps (CDS)
2008
7,22
França
Société Générale
Futuros no índice FTSE
2008
6,50
EUA
Amaranth Advisors
Futuros no preço do gás natural
2006
5,80
Reino Unido
JP Morgan Chase
Swaps (CDS)
2012
5
EUA
Amaranth
Futuros no preço do gás natural
2006
4,6
EUA
Long Term Capital Management
Derivados em taxas de juro e acções
1998
3,16
Malásia
Bank Negara
Forwards no forex
1994
2,62
Japão
Sumitomo Corporation
Futuros no preço do cobre
1996
2,52
Brasil
Aracruz
Opções no forex
2008
1,8
EUA
Deutsche Bank
Derivados
2008
1,7
EUA
Orange County
Swaps em taxas de juro
1994
1,59
Alemanha
Metallgesellschaft
Futuros no preço do petróleo
1993
1,50
Japão
Kashima Oil
Forwards no forex
1994
1,49
Japão
Showa Shell Sekiyu
Forwards no forex
1993
1,31
Singapura
Barings Bank
Opções (straddles) no índice Nikkei
1995
1,1
França
Groupe Caisse d'Epargne
Derivados
2008
1,09
Brasil
Sadia
Opções no crédito e no forex
2008
0,8
Reino Unido
Soros Fund
Futuros no índice SP500
1987
0,69
EUA
Allied Irish Bank
Opções no forex
2002
0,64
Canada
Bank of Montreal
Derivados no preço do gás natural
2007
0,60
EUA
Askin Capital Management
Swaps (CDS)
1994
0,55
China
China Aviation Oil (Singapura)
Futuros e opções no preço do petróleo
2004
0,43
Suíça
Union Bank of Switzerland
Derivados em valores mobiliários
1998
0,35
EUA
Calyon
Derivados do crédito
2007
0,28
EUA
Merrill Lynch
Swaps (CDS)
1987
0,28
EUA
State of West Virginia
Derivados em taxas de juro
1987
0,269
Reino Unido
Allied-Lyons
Opções no forex
1991
0,207
Chile
Codelco
Futuros nos preços do cobre, prata e ouro
1993
0,20
China
State Reserves Bureau
Futuros no preço do cobre
2005
0,16
EUA
Procter & Gamble
Swaps em taxas de juro
1994
0,15
Reino Unido
NatWest
Opções em taxas de juro
1997
0,15
EUA
AIG
Swaps (CDS)
2008
0,15
Suécia
HQ Bank
Derivados em valores mobiliários
2010
0,14
EUA
MF Global
Futuros no preço do trigo
2008
0,12
EUA
Morgan Stanley
Opções em índices de crédito
2008
    
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Próximo e último artigo da série:
O caso dos swaps (publicado em Março de 2014)
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Notas
[56] FINANCIAL IMPLOSION: Global Derivatives Market at $1,200 Trillion Dollars … 20 Times the World Economy. http://www.globalresearch.ca/financial-implosion-global-derivatives-market-at-1-200-trillion-dollars-20-times-the-world-economy]
[57] BIS Quarterly Review: December 2013, Table 23A: Derivative financial instruments traded on organized exchanges. http://www.bis.org/statistics/extderiv.htm .
[59] Halah Touryalai "Risk Is Back: America's Big Banks Are Knee-Deep In Derivatives", Forbes, 28/3/2013.
[60] Michael Sivy "Why Derivatives May Be the Biggest Risk for the Global Economy" Time Business & Money, 27/3/2013. http://business.time.com/2013/03/27/why-derivatives-may-be-the-biggest-risk-for-the-global-economy/#ixzz2h3nKgMLT. Neste último afirma-se: "Desde a recessão o valor de referência dos derivados tem crescido e eles continuam muito arriscados com o potencial de largas e imprevisíveis perdas.
[61] Derivatives: The Unregulated Global Casino for Banks. http://demonocracy.info/infographics/usa/derivatives/bank_exposure.html
[63] Estatísticas relativas a Portugal apuradas pelo Inquérito Trienal à Actividade nos Mercados de Câmbios e de Produtos Derivados – Turnover em Abril de 2010 (1) http://www.bportugal.pt/pt-PT/Estatisticas/PublicacoesEstatisticas/NIE/Paginas/NotadeInforma%C3%A7%C3%A3oEstat%C3%ADstica20100908.aspx
[65] O PIB português era estimado em 2013 em 165.830 milhões de €, o que corresponde a cerca de 120.429 milhões de dólares usando o câmbio do final de 2013.
[66] Proposal for a REGULATION OF THE EUROPEAN PARLIAMENT AND OF THE COUNCIL on OTC derivatives, central counterparties and trade repositories. {COM(2010) 484}{SEC(2010) 1059}.
[67] Jeremy Grant, OTC trading is just 16% of European market, Financial Times, April 20, 2011. http://www.ft.com/cms/s/0/db22fa4c-6b27-11e0-9be1-00144feab49a.html#ixzz2lgWuJuga.
[68] Ecofin chega a acordo para controlar mercado de derivativos, 04/10/11 EuroNews: http://pt.euronews.com/2011/10/04/ecofin-chega-a-acordo-para-controlar-mercado-de-derivativos/
[69] Reforming OTC derivatives markets, Deutsche Bank Research Management, 7 de Agosto de 2013
[70] Deutsche Bank acusado de ocultar nove mil milhões de euros em dívida para fugir a resgate, Público Por Félix Ribeiro 06/12/2012. A fonte original é o Financial Times.
[71] Deutsche Bank banido de transacção de derivados na Coreia do Sul por manipular mercado, Jornal de Negócios 23 Fevereiro 2011, 13:52 por Jornal de Negócios Online |

[72] China orders end to speculative derivatives trading by central SOEs www.chinaview.cn http://imgs.xinhuanet.com/icon/2006english/2007korea/space.gif2009-03-24 19:11:48

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A lógica galopante do imperialismo e o torpor das massas

We shall overcome, we shall overcome
We shall overcome someday Oh! Deep in my heart, I do believe We shall overcome someday [1]
   
Canção pelos direitos civis e pela paz, muito cantada nos protestos contra a guerra imperialista no Vietname, seguindo a interpretação do famoso cantor progressista e activista Pete Seeger (ver em http://www.youtube.com/watch?v=2b24Ewk934g)

A ilusão Obama e a lógica galopante do imperialismo
   
Em 20 de Janeiro de 2009 Barack Obama vencia as eleições presidenciais dos EUA contra o republicano John McCain. Foi uma apoteose. Era o primeiro presidente negro dos EUA. E tinha vencido com a palavra de ordem «Voto na Mudança» («Vote for Change»). Os meios de comunicação portugueses, e não só, espalhavam aos quatro ventos que agora sim, ia assistir-se a uma mudança radical na política americana, sem ingerências nos outros países e promovendo uma espécie de «capitalismo humanista» no seu próprio país. Muita gente de esquerda portuguesa acreditava nisso ([2]). E nos EUA também ([3]).
   
Obama voltou a ganhar as eleições em 2012, de novo sob o lema da «mudança» ([4]). Mudou alguma coisa? Internamente, muito pouco ou nada ([5]). Externamente, nada.
   
Obama foi o «plano B» dos grandes capitalistas americanos; suficientemente à vontade na sua aura de presidente negro e de «mudança» para continuar e aprofundar a lógica da classe que representa, a lógica avassaladora do imperialismo ianque. A infame prisão de Guantánamo, onde os presos, muitas vezes sem culpa formada, foram detidos e torturados, continua de pé. Obama reconheceu recentemente o que já se sabia há muito tempo: a existência da tortura em Guantánamo. Fê-lo num tom patético, dizendo que não fazia parte dos «nossos valores» (e em Abu Ghraib no Iraque? Fazia parte?). Mas, efectivamente, a tortura sempre fez parte dos valores imperialistas ianques; senão, não tinha acontecido. E, pelas notícias e denúncias que vão chegando de organizações de defesa dos direitos humanos, a tortura continua a fazer parte dos «valores» imperialistas. Em Guantánamo e noutros lugares. Obama tem constantemente adiado a retirada das últimas tropas do Afeganistão (agora programada para fins de 2014) e mantém conselheiros militares e outros apoios aos regimes corruptos do Afeganistão, do Iraque, da Colômbia, etc. Voltaram os bombardeamentos ao Iraque; bombardeiam os mesmos que armaram na Síria. Tudo, como sempre, de suporte a empresas que sacam as riquezas desses países. Sob Obama o conglomerado imperialista EUA-UE, cujo braço altamente armado é a NATO ([6]), interveio e intervém na Líbia, Egipto e Síria. Incentivaram o «drang nach Osten» tradicional dos imperialistas ocidentais, intervindo, apoiando e guindando ao poder regimes de extrema-direita, agressivos e super-corruptos, na Geórgia, países bálticos, Moldóvia, Polónia e agora na Ucrânia. O vice de Obama, Joe Biden, já colocou o filho a fazer negócios na Ucrânia com o apoio dos fascistas. Biden e o secretário John Kerry, juntamente com o ex-adversário de Obama, McCain, estiveram juntos em Kiev a montar com os fascistas locais a intervenção armada que os colocou no poder; uma bela demonstração de que, no essencial, democratas e republicanos são a mesma coisa. Obama é o sustentáculo dos sionistas, sem escrúpulos para em plena carnificina de palestinos pelas tropas sionistas, condenada pela ONU e inúmeros países, não hesitar em fornecer a Israel os mísseis mais avançados. Obama também apoia e está por detrás da recente decisão do Japão de se militarizar, rasgando acordos do fim da II Guerra Mundial, para consolidar o conglomerado imperialista EUA-JPN no Pacífico. Um conglomerado pronto a enfrentar a China no controlo económico e político da região (Filipinas, Tailândia, Malásia, Indonésia, etc.). Obama, o «democrata» que, ao contrário dos rumores eleitorais, manteve o bloqueio a Cuba e apadrinha miseráveis ataques subversivos a esse país, porta-bandeira do socialismo ([7]).
   
Obama, o presidente que recentemente revelou e repisou a natureza «excepcional» dos estado-unidenses. Já tínhamos o «povo escolhido de Deus» dos sionistas e o «povo dos senhores» dos hitlerianos; agora temos o «povo excepcional» dos imperialistas estado-unidenses. Aos excepcionais e escolhidos de Deus tudo é permitido. Inclusive, torturar. Torturam, mas é para o bem de nós todos. Eles são o Verbo. Eles são os únicos detentores da Verdade. Eles são os portadores do Bem, que condescendem em ensiná-lo ao mundo através dos grandes meios de comunicação, e em impô-lo, à custa de enormes sacrifícios, aos outros povos que se transviam do Bem e que, ainda por cima, são mal agradecidos.
   
Depois da implosão da URSS e dos países socialistas do Leste Europeu (1989) o imperialismo ianque sentiu-se à vontade para impor o seu domínio económico em todo o mundo, com a colaboração dos seus pivots: a Alemanha-França (teatro europeu e africano), Israel e Arábia Saudita (teatro do Médio Oriente), Japão e Austrália (teatro do Pacífico), México e Colômbia (teatro da América Latina). Domínio económico imperialista = controlo de parte substancial das riquezas da Terra e exploração do trabalho de biliões de seres humanos por uma ínfima percentagem (menos de 1%) de exploradores, no quadro de um sistema económico em fase descendente.
   
Entretanto, a fase unipolar do imperialismo na história mundial foi de curta duração; rapidamente evoluiu para uma fase multipolar.
    
Os incipientes imperialismos russo e chinês
   
Desde já, uma chamada de atenção: a fim de branquear a sua imagem, o imperialismo ianque&C.ª flagela diariamente a Rússia a China com o rótulo de «imperialistas» nos meios de comunicação a nível mundial. Qualquer um que procure na Internet com «russian imperialism» ou «chinese imperialism» encontra dezenas e dezenas de artigos de jornais, revistas, blogs, etc., claramente provenientes de fontes amigas do imperialismo ianque&C.ª batendo forte e feio nos «imperialismos» russo e chinês. Com relevância para o primeiro, porque é aquele que de momento mais incomoda o governo dos EUA. Na óptica dessas fontes e de comentaristas da TV, os EUA defendem abnegadamente a liberdade e a democracia; a Rússia e a China são os únicos imperialistas que defendem a opressão e a ditadura.
   
Note-se que muita gente que se diz de esquerda tem ideias pouco claras sobre o assunto, e não se dá conta ou negligencia o facto de que colocar EUA e Rússia no mesmo saco, além de errado, é usado pelo imperialismo ianque&C.ª para travar qualquer manifestação de solidariedade com os russos étnicos da Ucrânia que lutam contra o fascismo, conforme é bem argumentado em [8]. Por exemplo, num artigo do Partido Socialista da Grã-Bretanha ([9]), um de vários partidos trotskistas, lê-se esta coisa espantosa: «A rivalidade imperialista entre Rússia, EUA e UE, ameaça com um festival de reacção através da Ucrânia, que lança ucranianos contra ucranianos, promovendo forças reaccionárias de ambos os lados». O autor não diz uma única palavra contra os fascistas promovidos por EUA&UE, confunde agressores com agredidos, esquece ou faz por esquecer que o «festival» não foi de reaccionários de ambos os lados, mas só de fascistas assaltando o poder, agredindo e massacrando quem não o era, e, finalmente, também não reconhece um facto evidente: a grande contenção da Rússia em todo o processo que começa a ser reconhecida inclusive pelos media ocidentais (TV alemã e jornais britânicos, [10]) por pressão de vários factos (com destaque para os económicos visto que muitos políticos europeus de direita começam a recear o efeito das sanções e das ajudas à Ucrânia). O artigo revela também uma cegueira russófoba, quando o autor insinua que a luta é entre fascistas pró-EUA e pró-Rússia, dizendo ainda: «Entretanto, Putin alcunhou o governo de Kiev de um “putsch fascista”». Isto é, insinua-se que a Junta da Ucrânia não é fascista, desmentindo a evidência de que ela é apoiada por partidos de extrema-direita e neo-nazis. Para o autor foi só Putin que a alcunhou assim. (Nem todos os trotskistas, porém, pensam dessa maneira: [11].)
   
O mal deste trotskista (e também de outros, trotskistas ou não) é querer impor à realidade um esquema explicativo preexistente, proveniente dos mestres do marxismo (magister dixit). Provavelmente leu os textos de Lenine sobre a guerra entre potências imperialistas de 1914-18. A partir daí, tudo que é conflito passou a ser explicado pela mera transposição do mestre; todo o conflito passou a ser explicado por imperialistas contra imperialistas ou por fascistas contra fascistas. É como se alguém quisesse impor a lei da gravitação de Newton à atracção de cargas eléctricas, sem ligar qualquer atenção às propriedades eléctricas das cargas, tal como se manifestam na realidade. O nosso trotskista esqueceu que para os marxistas «a verdade é sempre concreta»; logo, é a realidade que terá de validar qualquer teoria explicativa e não o contrário.
   
Quer isto dizer que não há imperialismo na Rússia ou na China? Para responder a esta questão teremos de olhar para a realidade e para a definição de imperialismo.
   
Quanto á definição, consultemos primeiro a obra de Vladimir Lénine «O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo» escrita em 1916 ([12]). Lénine começa por notar que «O capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países “avançados”» e que da subjugação colonial provinha um superlucro: «É evidente que tão gigantesco superlucro (visto ser obtido para além do lucro que os capitalistas extraem aos operários do seu “próprio” país) permite subornar os dirigentes operários e a camada superior da aristocracia operária». Quanto a uma definição, diz assim (itálico nosso):
   
«Se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, dever-se-ia dizer que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo. Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais, e, por outro lado, a partilha do mundo é a transição da política colonial que se estende sem obstáculos às regiões ainda não apropriadas por nenhuma potência capitalista para a política colonial de posse monopolista dos territórios do globo já inteiramente repartido.»
   
Apresenta, de seguida, cinco «traços fundamentais» do imperialismo do seu tempo:
   
«1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida económica;
2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse "capital financeiro" da oligarquia financeira;
3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande;
4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si;
5) a partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes está finalizada. [13]»
   
No tempo de Lénine as potências capitalistas eram potências colonialistas. Tinha-se completado a partilha de extensos territórios da África e da Ásia entre essas potências ([14]). O colonialismo entretanto acabou ([15]), dando lugar ao neocolonialismo. Tirando essa actualização do ponto 5 os outros pontos continuam aplicáveis. Ora, quer a Rússia quer a China satisfazem aos pontos 1, 2 e 4: têm multinacionais com grande peso na economia, têm uma oligarquia financeira (ainda que incipiente no caso da China) e formaram associações internacionais de multinacionais. Também exportam capitais, mas não de «importância particularmente grande». Seguindo o critério do trabalho [8] constata-se que em 2013 a Rússia recebeu 552,8 biliões (B€=mil milhões de euros) de dólares de investimento estrangeiro directo (IEDdentro) e exportou 439,2 biliões de dólares para o estrangeiro (IEDfora, [16]). Isto é, o fluxo de capital para fora foi de 0,7 vezes o fluxo de capital que entrou. Para a China, este quociente é de 0,4 (IEDdentro=1344 B$, IEDfora=541  B$). Estes quocientes contrastam fortemente com o dos EUA, que é de 1,72 (IEDdentro=2815  B$, IEDfora=4854 B$). Se tomarmos em conta as populações dos países, medindo quanto capital sai para fora per capita, este contraste é também nítido; os valores são: 15.221 $, para os EUA, 3.023 $, para a Rússia, 399 $, para a China. Isto é, em termos proporcionais à população, os EUA exportam 5 vezes mais capitais do que a Rússia e 38 vezes mais do que a China!
   
A definição de imperialismo, como a de todas as categorias históricas, está sujeita a actualizações (houve vários impérios ao longo da História, com características socio-económicas muito diferentes). É óbvio que o actual imperialismo dos EUA, o imperialismo mais avançado, é muito diferente do existente no tempo de Lénine. Apontemos algumas diferenças salientes em correspondência com os pontos anteriores. Os monopólios (ponto 1) transformaram-se em multinacionais, inclusive no sector comercial de bens de consumo e, notavelmente pelas suas implicações, no sector financeiro especulativo (ver os nossos artigos sobre derivados). Actualmente, existe uma oligarquia financeira totalmente desligada do capital industrial (ponto 2) e das actividades produtivas. A exportação de capitais (ponto 3), que no tempo de Lénine era usada pelo império no saque de riquezas das colónias (principalmnte saque de matérias-primas em bruto ou pré-processadas), é agora usada predominantemente para amarrar as economias neocolonizadas a dívidas permanentes, criando um fluxo constante de capital monetário para a sede imperial (note-se que a dívida externa americana é a dívida do povo americano, não é a dívida dos oligarcas americanos). Quanto ao ponto 5, deve-se ter em conta o actual neocolonialismo, num quadro em permanente mudança, com os imperialistas a conquistar «territórios» -- exploração de recursos e mão-de-obra barata, em aliança com capitalistas dos países neocolonizados -- (Jugoslávia, Indonésia, etc.), a disputá-los entre si, ou a perdê-los na sequência de revoluções populares (Cuba, Vietname, Venezuela, etc.).
   
Parece, assim, razoável definir o imperialismo actual como a fase mais avançada do capitalismo, a fase do actual imperialismo ianque&C.ª, como se segue:
   
Países imperialistas são países capitalistas onde se verificam as seguintes condições:
   
1) Concentração da produção e do capital em multinacionais;
2) Bancos e firmas com actividades financeiras especulativas, actuando a uma escala global como quaisquer multinacionais;
3) Grande e crescente peso na economia do sector financeiro e do capital especulativo;
4) Actividade permanente de exploração económica de países neocolonizados com o conluio das burguesias locais;
5) Exportação de capitais para países neocolonizados, em particular com o objectivo de a amarrá-los a dívidas garantindo fluxos permanentes de capitais para os exportadores;
6) Actividade de ingerência em países cuja neocolonização é entendida como necessária, por motivos económicos ou outros, através de meios militares e de subversão e com o conluio das burguesias locais; esta actividade pode incluir a guerra aberta contra as forças do progresso desses países e exige dos países ingerentes enormes exércitos, enormes gastos em armamento, enormes serviços secretos e meios de propaganda (media) operando a uma escala global;
7) Formação de alianças dos países capitalistas, que dividem entre si a exploração dos países neocolonizadas e as tarefas dos pontos 4 a 6;
    
Na Rússia, assistiu-se a partir de 1991 à formação acelerada de um capitalismo controlado por grandes capitalistas, com mafia e tudo como nos EUA ([17]). Formaram-se multinacionais. Exemplos disso são: o gigante privado Metalloinvest na área metalúrgica (Ural Steel, Gazmetall JSC, Oskol Electrometallurgical Plant); a companhia de investimento privado Millhouse, com sede em Londres e interesses importantes na Gazprom Neft (parte da Gazprom), Aeroflot, indústria do alumínio e outras; a conhecida Gazprom, grande conglomerado russo do petróleo controlado pelo Estado, de que a Gazprom Neft é uma subsidiária com interesses na Sérvia (indústrias da nafta). A Gazprom tem um sector financeiro próprio (Gazprom Finance B. V.) e interesses em vários países. O Quirguistão tinha uma produção própria de gás natural, mas também tinha dívidas à Rússia; pagou-as entregando o seu gás natural à Gazprom pelo preço simbólico de um dólar. Poder-se-ia pensar, por este exemplo, que a Rússia controla totalmente o que se passa nas ex-repúblicas soviéticas asiáticas tratando-as como neocolónias, uma ideia muito divulgada no ocidente. Há, contudo, notícias que desmentem esta visão. Por exemplo, o Kazaquistão já declarou que não vai seguir o embargo de produtos alimentares do ocidente recentemente decidido pela Rússia.
   
A China derivou para o capitalismo a partir dos anos oitenta e veio a evoluir a partir de 2000 para uma grande potência capitalista, com mais de 70 % do PIB no sector privado, incluindo as áreas estratégicas da energia, metalurgia e transportes. O sector privado na China tem vindo a crescer e a política oficial chinesa é de manter esse crescimento. Há várias multinacionais chinesas. Um exemplo, no comércio electrónico, é o gigante privado Alibaba de que dois sites movimentaram em 2012 cerca de 170 biliões de dólares em vendas, mais do que a eBay e Amazon.com, juntos. Outros exemplos são: a Jiangsu Shagang Group, um gigante do ferro e do aço com agências no Sudeste Asiático, na Austrália e n Coreia; a multinacional de bens de consumo Suning Appliance; o conglomerado Legend Holdings Ltd, com negócios no imobiliário, nos bens de consumo, no sector de novos materiais, na agricultura e nos serviços financeiros. Multinacionais e PMEs chinesas têm muitas áreas de negócio em África, na agricultura, nas pescas, no petróleo, na mineração, no sector imobiliário, etc.; negócios muitas vezes conduzidos num estilo neocolonial, de suborno de líderes corruptos e de exploração de mão-de-obra. Dois exemplos ([18]): os negócios do petróleo na Nigéria ([19]) e o escândalo da cidade de Kilamba em Angola ([20]). (Sobre o capitalismo chinês tencionamos falar mais em detalhe no futuro.)
   
A China e a Rússia formaram uma «entente cordiale» de contrapeso à agressividade ianque&C.ª ([21]). Fundaram em 2001 a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), juntamente com o Kazaquistão, Tajiquistão, Quirguistão e Uzbequistão. Uma cooperação económica, política e militar; com a China e a Rússia, para já, mais interessadas na consolidação de um poder económico alternativo aos EUA. O recente tratado do gás entre os dois países, os entendimentos de abandonar o dólar em pagamentos bilaterais, a proposta no âmbito dos BRICS de criar um banco alternativo ao Banco Mundial (proposta que pôs os cabelos em pé aos EUA), são claros reflexos disso.
   
A tabela abaixo sintetiza a posição ocupada pelos capitalismos russo e chinês, bem como o dos EUA, em cada um dos sete pontos anteriores, com os quantificadores que conseguimos encontrar. Tendo em conta esta síntese descrevemos os capitalismos russo e chinês como imperialismos incipientes, ainda longe do nível imperial dos EUA, da Grã-Bretanha, etc. Contudo, qualquer potência capitalista move-se necessariamente na busca rapace do lucro, move-se necessariamente num sentido cada vez mais imperialista. A Rússia pós-1990 e a China pós-2000 iniciaram esse caminho.
    
Países
1)
Multinac.
em sectores produtivos
2)
Multinac. no sector financeiro
especulativo
3)
Peso do sector financeiro em 2011
(% PIB)
[22]
4)
Exploração económica neocolonial
5)
Exportação de capitais em 2013 (IEDfora ¸ IEDdentro)
[16]
6)
Ingerência militar e subversiva
6)
Gastos militares em 2012
%PIB
($ p.c.)
[16]
7)
Aliança para a exploração neocolonial
EUA
Sim
Sim
8,4
Sim
1,72
Sim
4,35 (2247)
Sim
Rússia
Sim
Poucas
4,5
Não
0,79
Reduzida
4,47 (791)
Não
China
Sim
Não
<2,4 ?
Reduzida
0,40
Reduzida
1,99 (182)
Não
($ p.c significa dólares per capita.)
    
O imperialismo ianque&C.ª representa essencialmente (não exclusivamente) o pólo agressivo do capitalismo decadente, assente nos sectores improdutivos da economia, na especulação financeira, no «capitalismo de casino». Capitalismo decadente de baixa taxa de lucro e baixo crescimento do PIB, com reduzidos exércitos autóctones de mão-de-obra barata. Por ser o pólo mais poderoso e agressivo, o pólo fautor de guerras e que mais ameaça a paz mundial – os EUA têm provocado e vivido num estado de guerra permanente desde a 2.ª Guerra Mundial ([23]) --, é aquele que exige neste momento a maior vigilância, desmascaramento e oposição activa de todas as forças progressistas a nível mundial.
   
A «entente cordiale» China-Rússia representa essencialmente (não exclusivamente) o pólo produtivo do capitalismo, com elevadas taxas de lucro e alto crescimento do PIB, com volumosos exércitos autóctones de mão-de-obra barata. Se a «entente» ainda se mantém numa postura não agressiva é porque lhe faltam a motivação económica e os meios. Esta situação não irá, pela lógica interna do capitalismo, perdurar sempre.
    
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

[...]
    
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.
    
Trecho da «Cantata da Paz» de Sophia de Mello Breyner. Ver interpretação de Francisco Fanhais em https://www.youtube.com/watch?v=1o96Ocn7C-c
    
O estranho torpor das massas
    
Nunca a ameaça de um grande conflito à escala mundial, por culpa dos EUA, foi tão grande como agora. O posicionamento reaccionário, provocatório e pró-fascista do imperialismo ianque nunca se mostrou tão cínica e abertamente como agora. Com o cinismo de «donos do mundo» que tudo podem fazer, impunemente.
   
O imperialismo ianque apoia os neo-nazis na Ucrânia, proclama para consumo interno e externo o povo americano como «excepcional», tocando a corda nacionalista tal como os hitlerianos a tocavam quando diziam que os alemães eram o «povo dos senhores» ([24]), ateia guerras, faz provocações constantes, tortura sistematicamente nas prisões dos EUA e fora dos EUA, comete crimes de guerra recusando a jurisdição do Tribunal Internacional de Haia sobre os seus criminosos, vende e usa armas proibidas como químicas e biológicas, assassina civis inocentes com «drones», faz  e desfaz governos, paga a assassinos para matar dirigentes opositores ([25]), monta campanhas globais de caricaturação e aviltamento de quem não lhe agrada, como agora com Putin, apoia todos os Estados e movimentos reaccionários, saqueia as riquezas naturais de meio mundo, impõe tratados de comércio desiguais, constrói uma rede gigantesca de espionagem e de invasão de privacidade a nível mundial, o sistema PRISM do NSA.
    
Para quê? Para que os oligarcas que constituem menos de 1% da população estado-unidense continuem crescentemente mais ricos e a controlar uma parcela desproporcionalmente enorme da riqueza produzida mundialmente (20% do PIB mundial em 2013). Chama-se a isto a «segurança dos EUA». É, de facto, a «segurança» da riqueza, a «segurança» da continuidade de exploração dos grandes capitalistas estado-unidenses.
   
Apesar de tudo isto serem factos puros e duros, divulgados diariamente nos media, pese embora o mascaramento, branqueamento e distorção, é surpreendente o actual torpor das massas.
   
Num interessante artigo do jornalista John Pilger ([26]) intitulado «Quebrem o silêncio: uma guerra mundial está a acenar» («Break the silence: a world war is beckoning», [27]) é dito o seguinte:
   
«Porque razão toleramos a ameaça de uma outra guerra mundial em nosso nome? Porque razão permitimos mentiras que justifiquem este risco? O nível da nossa doutrinação por propaganda, escreveu Harold Pinter [actor e escritor britânico, defensor de causas sociais], é um “altamente bem sucedido acto de hipnotismo brilhante e mesmo engenhoso”, como se a verdade “não tivesse acontecido mesmo quando estava a acontecer”».
   
John Pilger lembra as campanhas de mentiras claras e despudoradas, como as mais recentes sobre a Ucrânia: «Quando Putin anunciou a retirada de tropas russas da fronteira o secretário da defesa da junta de Kiev – um membro fundador do partido fascista Svoboda – vangloriou-se de que os ataques aos “insurgentes” iriam continuar. Num estilo orwelliano a propaganda ocidental inverteu isto para Moscovo “tentando orquestrar conflito e provocação”, de acordo com William Hague. O cinismo deste só é comparável às grotescas congratulações de Obama enviadas à Junta golpista pelo seu “notável comedimento” logo a seguir ao massacre de Odessa. A Junta, ilegal e dominada por fascistas, é descrita por Obama como “devidamente eleita”. A verdade não interessa para nada. Como uma vez disse Henry Kissinger “[o que interessa] é aquilo que é percebido como sendo verdade” [Frase comparável à do ministro da propaganda nazi, Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”]. A atrocidade de Odessa é apresentada nos media EUA [...] como “nacionalistas” (os neo-nazis) a atacar “separatistas”. O Wall Street Journal de Rupert Murdoch [o magnate do escândalo dos subornos e escutas ilegais] condenou as vítimas: “Fogo Ucraniano Letal Possivelmente Ateado pelos Rebeldes, Diz o Governo”. A propaganda na Alemanha tem sido de pura guerra-fria com o Frankfurter Allgemeine Zeitung a avisar os leitores de “guerra não declarada” da Rússia.»
   
John Pilger menciona também as repetidas provocações da NATO (no momento em que escrevemos foi noticiado que um submarino nuclear americano, com mísseis tomahawk, foi detectado em águas do árctico russo, tendo sido repelido pelas forças navais russas e um avião), concluindo assim: «Segundo o grande denunciante Daniel Ellsberg [28] um golpe silencioso tomou conta de Washington e o poder está nas mãos do militarismo galopante. O Pentágono conduz actualmente “operações secretas” -- guerras secretas – em 124 países. Internamente, a crescente pobreza e a debilitação da liberdade são o corolário histórico dum estado perpétuo de guerra. Some-se a isso o risco de guerra nuclear e impõe-se a questão: porque toleramos isto?»
   
E a questão é mesmo essa. Perante este militarismo galopante do imperialismo ianque, perante o clima constante de provocações da NATO, perante as atrocidades de Odessa ou de Gaza, perante a ameaça de uma guerra mundial, como explicar a actual apatia das massas, pelo menos em muitos países ocidentais, incluindo Portugal, sem paralelo na história contemporânea?
   
É claro que sempre houve e continuará a haver muitos apáticos («Para que me hei-de estar a incomodar com isto?» e suas variantes mais ou menos ridículas como «os políticos são todos o mesmo» repetida até à náusea por quem sempre vota nos mesmos políticos do «arco da governação»), e a «cultura» hedonística da sociedade actual incentivada pelo capitalismo só agravou a tendência para muitos se enconcharem em «mundos virtuais». Mas há mais do que isso, conforme se vê na intelectualidade portuguesa: a implosão do mundo socialista e as distorções e aberrações feitas em nome do socialismo levaram a uma desconfiança a tudo que cheire a socialismo e dissidência, a tudo que critique o imperialismo dos EUA, considerado uma espécie de mal menor.
   
Os partidos consequentes da Esquerda também não estão isentos de erros. Como é óbvio, tudo que é humano está sujeito a erros. Mas há muitos tipos de erros, e os mais perniciosos, a nosso ver, têm sido as leituras dogmáticas e romântico-escolásticas da única teoria científica da evolução das sociedades e das condições a ter em conta para as transformar – o materialismo histórico. Quanto ao dogmatismo, abundam os textos quer defendendo tudo que disse Trotsky, quer defendendo tudo que foi feito na URSS no tempo de Estáline como sendo maravilha, puro materialismo dialéctico, pura ciência, e que quem coloca objecções a isso só pode ser «burguês» ([29]). Quanto à leitura romântico-escolástica, um exemplo disso é este trecho de um artigo intitulado «É preciso uma organização de revolucionários» («An Organization of Revolutionaries is Needed», [29]): «O materialismo histórico ensina-nos que as massas do povo, cedo ou tarde, começam a organizar-se para lutar contra as condições da sua existência [...] Embora as pessoas possam não ter uma ideia clara porque existem estas condições, ou como mudá-las, os que estão esfomeados, explorados, etc., procurarão mudar essa situação.». Para além de já há muito se saber que «é preciso uma organização de revolucionários» para mudar as sociedades, não foi preciso esperar que o materialismo histórico ensinasse «que as massas do povo, cedo ou tarde, começam a organizar-se para lutar contra as condições da sua existência.» (Aliás, o materialismo histórico não é bem isso que diz.) Já na Revolução Francesa se sabia isso. Quanto aos esfomeados procurarem mudar a situação, nunca vimos em Portugal uma única manifestação de esfomeados (ou de pedintes ou de sem-abrigo). Será que existem manifestações de esfomeados nos EUA? E a procurar seriamente mudar a situação? Parece-nos que se trata aqui de um romantismo proveniente de «A Internacional» -- o célebre «De pé, ó vítimas da fome» -- mais do que um dado factual. Concretamente, nas sociedades ocidentais, os esfomeados, pedintes e sem-abrigo resignaram-se a aceitar os esquemas de caridade social, largamente inexistentes quando foi composta a «A Internacional» em 1871. (Durante a Revolução Francesa e posteriores até 1871 os esfomeados puseram-se efectivamente «De pé».) Se, no momento actual, nos pomos à espera que os esfomeados e os explorados se comecem a organizar, podemos ter de esperar muitas décadas; ou até para sempre se eclodir uma guerra mundial.
   
Parece-nos que é necessário fazer um grande esforço de estudo e de esclarecimento. De combate à propaganda imperialista. Para dar um exemplo, um canal de televisão internacional patrocinado pelos partidos comunistas e operários a nível mundial seria de uma enorme utilidade. A luta contra o imperialismo necessita cada vez mais de ser articulada à escala mundial. Necessárias também acções de esclarecimento entre os militares e paramilitares e, onde não existirem, constituição entre eles de associações sindicais e progressistas (em Portugal já existem). E, claro, continuar com as acções práticas (manifestações, lutas sindicais, etc.) planeando-as com inovação e vigor, rompendo com rotineirismos.
   
Terminamos com uma excelente acção prática que deveria suscitar o apoio internacional: as brigadas internacionais do Donbass que combatem as bestas fascistas de Kiev, as bestas dos massacres, do ódio, da violência contra os fracos, da desumanidade. Oiçam como gritam «No pasaran!» os voluntários espanhóis em https://www.youtube.com/watch?v=IbogUWoWYpE

Notas
[1]           Venceremos, venceremos
Venceremos, algum dia
Oh! Do fundo do meu coração acredito
Que venceremos, algum dia
[2] A crença era tão avassaladora que em conversas com vários amigos, quando procurávamos deitar água na fervura fazendo ver que o Partido Democrático dos EUA era um partido ao serviço do grande capital, e que não era a cor da pele do Presidente que iria alterar essa realidade, éramos vivamente desmentidos e vistos como fora da realidade.
[3] Sobre as ilusões da esquerda americana, traduzimos aqui parte do artigo de Zoltan Zigedy, «Socialism or “Castles in the Air”?», 8/5/2013, http://zzs-blg.blogspot.pt/2013/05/socialism-or-castles-in-air.html: «A candidatura de Barack Obama tornou-se um desastre para a esquerda dos EUA. [...]  Foram suscitadas expectativas grandiosas sem fundamento; um candidato associado no passado com os Democratas conservadores e admirador confesso de Ronald Reagan era retratado como um novo Franklin Delano Roosevelt [...] Depois da eleição a maior parte da esquerda dos EUA manteve a sua fé em Obama, uma fé que produziu muito pouco da mudança esperada mas teve êxito no desarmar da esquerda. O maior perdedor foi o elemento historicamento mais progressista da política dos EUA: a comunidade afro-americana. [...] a administração [Obama] não representou os afro-americanos nem levantou um dedo para melhorar as condições de vida em degradação dessa comunidade. De facto, muitas vezes foi feito mais pelos afro-americanos sob presidentes Republicanos sob a pressão de uma esquerda activa e vocal com os Democratas na oposição! Por exemplo, nenhum presidente Republcano se safaria com tão poucos afro-americanos cooptados e nomeados numa administração como a do actual Presidente! A classe no poder nos EUA avaliou bem e oportunisticamente o nível de tolerância racial, duramente conquistada, dos votantes americanos. [...] Um subproduto desta táctica foi o desarme da esquerda e o silenciamento dos líderes afro-americanos.»
[4] Todos os slogans das campanhas eleitorais de Obama eram, como é típico nos partidos sociais-democratas, «encorajadores» mas sabiamente ambíguos: «Voto na Mudança» («Vote for Change»), «Um líder capaz de trazer mudança» («A leader who can deliver change»), «Já é tempo. É sobre mudança» («It's about Time. It's about Change»), ancorando a «mudança» em meia dúzia de medidas avulsas. E o «Sim, podemos» («Yes We Can») diz só que «pode», não se sabe muito bem nem o quê, nem como, nem para quem. Enfim, slogans no estilo do nosso PS, que nas campanhas também fala muito em quiméricas «mudanças».
[5] As promessas emblemáticas do Sistema de Saúde e do controlo de armas, por exemplo, ficaram muitíssimo aquém do prometido.
[6] Aquando da implosão dos regimes socialistas europeus, alguns ingénuos também acreditaram que a NATO iria desaparecer. A razão, veiculada pelos meios de comunicação que iludiram os ingénuos, era de que a NATO tinha nascido depois do Pacto de Varsóvia e só existia como contramedida a ele. Mentira. Que continua a ser propalada! De facto, foi o Pacto de Varsóvia que nasceu (Maio de 1955) seis anos depois da NATO (Abril de 1949); nasceu depois de goradas todas as tentativas dos países socialistas para chegar a um entendimento com os países capitalistas. Curiosamente, isto vem bastante bem descrito na wikipedia (versão inglesa; a portuguesa é para esquecer) de que traduzimos aqui excertos iniciais: «Em Março de 1954, a URSS pediu a admissão na NATO, temendo “a restauração do militarismo alemão” na Alemanha Ocidental. Por essa altura tinham já sido aprovadas leis na Alemanha Ocidental a terminar a desnazificação, e a Organização Gehlen, antecessora dos Serviços Secretos da Alemanha Ocidental, estava totalmente operativa e empregava centenas de ex-nazis [...] O ministro soviético dos negócios estrangeiros Molotov apresentou diferentes propostas de reunificar a Alemanha e de eleições para um governo de toda a Alemanha, sob condição de retirada dos exércitos das quatro potências e da neutralidade alemã, mas todas elas foram recusadas pelos outros ministros dos negócios estrangeiros, Dulles (EUA), Eden (UK) e Bidault (França).» Vale a pena ler todo este texto («Warsaw Pact. History. Beginnings”) que descreve os esforços continuados da URSS para manter uma situação de paz. A propósito: entre os papéis miseráveis desempenhados por EUA, Grã-Bretanha e França, cabe destacar o papel super-miserável da França, cujos dirigentes «esqueceram» que os EUA e Grã-Bretanha, já com a França libertada, ainda mantinham planos de a dividir entre eles; aliás, os EUA tiveram mesmo intenções de ocupar toda a França, acabando com a sua independência.
[7] Recentemente foi desmascarada uma iniciativa subversiva da CIA, que consistiu em enviar um grupo de jovens da de Venezuela, Peru e Costa Rica, alegadamente para participar num evento contra a SIDA, mas de facto para promover a oposição de jovens cubanos contra o governo.
[8] Roger Annis, «The Russia as "Imperialist" Thesis Is Wrong and a Barrier to Solidarity With the Ukrainian and Russian People», Truthout, 18/6/2014, http://truth-out.org/opinion/item/24428-the-russia-as-imperialist-thesis-is-wrong-and-a-barrier-to-solidarity-with-the-ukrainian-and-russian-people
[9] Rob Ferguson, «Ukraine: a carnival of reaction looms?», Maio de 2014, Socialist Review, socialistreview.org.uk/tags/russian-imperialism
[10] Brian McDonald «UK media approaching ‘mea culpa’ moment on Russia», 11/8/2014, http://rt.com/op-edge/179452-uk-media-confession-russia/
[11] Nas «Theses on Ukraine» aprovado pelo IMT World Congress em 12/8/2014, http://www.marxist.com/these-on-ukraine-2014-draft.htm , lê-se: «A ideia de que a principal razão do conflito é a agressão do imperialismo russo contra uma Ucrânia semi-colonial inverte a realidade e leva directamente a apoiar Kiev, a sua «operação anti-terrorista» assassina e os gangues fascistas lutando nela, o seu assalto aos direitos democráticos e o seu nacionalismo reaccionário».
[12] Publicado em «Obras Escolhidas em seis tomos», de V. I. Lénine, Editorial «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, 1984. Lénine usa profusamente na sua obra dados económicos recolhidos em várias bibliotecas, bem como contribuições de outros autores que cita com clareza, nomeadamente do livro «Imperialismo» do economista inglês J. A. Hobson, publicado em 1902, que defendia o ponto de vista do reformismo e do pacifismo burgueses.
[13] Na edição da “Avante!” estava «o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes». Modificámos a frase por forma a torná-la mais compreensível. Condiz com a tradução inglesa da obra.
[14] Portugal também tinha colónias e não era de forma nenhuma uma potência. De facto, era uma espécie de semi-colónia da Inglaterra e só muito tarde a burguesia nacional se interessou pela exploração colonial em termos modernos.
[15] Com excepção de Israel cujos colonatos na Palestina correspondem em muitos aspectos a uma ocupação colonial.
[16] Fonte: CIA – The World Factbook, https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/
[17] Fala-se muito, em documentos quer da direita quer da esquerda, dos «oligarcas» da Rússia, da sua «oligarquia parasítica e rapace buscando o controlo de recursos naturais e esferas de influência», dos «objectivos cínicos da oligarquia sem um átomo de conteúdo progressista» ([11]). É evidente que os oligarcas estão presentes em todos os países capitalistas e com exactamente as mesmas características.
[18] Descritos em «China in Africa: The Real Story», http://www.chinaafricarealstory.com/, portal com quase 1 milhão de acessos, onde os assuntos são tratados com seriedade. Tem denunciado exageros e mentiras do The Economist, e de outras fontes do imperialismo ianque, basendo-se na evidência factual.
[19] Irene Sun, «Chinese Businesses and Corruption in Nigeria», 2/1/2014, http://www.chinaafricarealstory.com/2014/01/irene-sun-chinese-businesses-and.html
[21] A «entente cordiale» britânico-francesa que precedeu a Primeira Guerra Mundial, era uma aliança de dois imperialismos agressivos. Não é o caso dos actuais imperialismos russo e chinês. Mas há algo de semelhante. Por debaixo da «cordialidade» de conveniência contra o imperialismo alemão, os ingleses e franceses não deixavam de arreganhar os dentes uns aos outros; tal como sempre o fizeram e ainda fazem os nacionalistas russos e chineses, embora procurem unir-se contra o imperialismo ianque&C.ª.
[22] O valor para os EUA provém de http://blogs.wsj.com/economics/2011/12/10/number-of-the-week-finances-share-of-economy-continues-to-grow/. O valor para a Rússia provém de http://www.s-ge.com/de/filefield-private/files/720/field_blog_public_files/1432. Não encontrámos o valor para a China. Contudo, o trabalho http://afd.pku.edu.cn/files/01.pdf leva-nos a estimar a contribuição para o PIB do sector bancário em 2,4% em 2011. O sector bancário na China é estatal. A contribuição do sector financeiro privado não parece exceder esse valor.
[23] Guerras e envolvimentos militares em teatro de guerra: Kuwait e Golfo Pérsico (1990-91), Somália (1992-94), Bósnia (1994-95), Haiti (1994), Kosovo (1998), Sérvia (1999), Afeganistão (2001-14), Iraque (2004-11), Líbia (2011), Síria (2012), Ucrânia (2014), Iraque (2014).
[24] O «Herrenvolk» dos hitlerianos tem sido traduzido por «raça superior». Esta expressão corresponde literalmente ao «Herrenrasse», também usada pelos hitlerianos. O «Herrenvolk» remete para uma designação mais tradicional do nacionalismo extremo alemão, em particular prussiano, usada para justificar o direito de conquista dos territórios eslavos a oriente e a opressão dos respectivos povos; o povo alemão seria o povo dos senhores, escolhido (por Deus? Pelo Destino?) para dominar os servos eslavos. Com sentido semelhante e também para justificar a opressão de outros povos os alemães designavam-se a si próprios como o «Kulturvolk». Assim, como portadores da cultura aos outros povos, os alemães tinham o direito natural e até moral de os oprimir, nomeadamente através da imposição forçada da língua e cultura alemãs. Esta ideia do «Herrenvolk» e do «Kulturvolk» estava largamente disseminada entre as massas, quase como uma verdade banal, podendo-se dizer que envenenou o pensamento de praticamente todos os alemães, incluindo o de Friedrich Engels! No «excepcionalismo» apregoado majestaticamnte por Obama há recorrências do «Herrenvolk» e do «Kulturvolk» que contamina o cérebro de muitos norte-americanos.
[25] Os serviços secretos americsnos estão envolvidos directa ou indirectamente no assassinato ou tentativa de assassinato  de dezenas de chefes de Estado e de figuras progressistas. Exemplos de assassinatos envolvendo directamente a CIA: Patrice Lumumba (Congo, 1965), Che Guevara (Bolívia, 1967), Omar Torrijos (Panamá, 1970). Quanto a tentativas de assassinato, Fidel Castro bate o recorde: 638!
[27] Encontrámos o artigo em http://mltoday.com/, portal de interesse, onde se encontram artigos de vários partidos comunistas e operários, incluindo o PCP.
[28] Daniel Ellsberg foi um analista militar dos EUA, empregado pela RAND Corporation e depois pelo Pentágono, que em 1971 denunciou aos jornais documentos secretos do Pentágono sobre a guerra do Vietname, onde se dizia que esta não poderia ser ganha pelos EUA, bem como outros documentos que provavam que a administração Johnson tinha mentido não só ao público mas também ao Congresso em assuntos de transcendente interesse. Daniel Ellsberg sofreu perseguições mas continua activo na defesa da paz e direitos democráticos, nomeadamente no jornalismo.
[29] Uma boa dose deste dogmatismo, por vezes insuportável, recheia as páginas do livro de Bahman Azad, «Heroic Struggle, Bitter Defeat» (Int. Publishers, 2000). O autor não distingue a ciência social da prática política. É como se a medicina, pelo facto de se basear na biologia como ciência, implicasse que os médicos versados em biologia estivessem sempre certos.
[30] Lenny Brody, «An Organization of Revolutionaries is Needed», http://mltoday.com/.