segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Direita e Esquerda

As designações políticas «direita» e «esquerda» há muito tempo (desde o século XIX) que se popularizaram por todo o mundo. Como acontece frequentemente com expressões popularizadas, o significado preciso esbateu-se com a popularização. Acresce que, neste caso, as forças políticas subservientes do capitalismo e seus porta-vozes intelectuais e mediáticos tudo têm feito para tornar impreciso o significado.
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A história das designações «direita» e «esquerda» remonta a 1789, quando no início da Revolução Francesa os deputados da Assembleia Nacional constituinte se dividiram em dois grupos: os que apoiavam o sistema feudal (aristocratas e clero ligado à aristocracia) sentaram-se à direita do presidente da Assembleia; os que apoiavam a revolução (e implicitamente o papel da burguesia e do capitalismo nascente) sentaram-se à esquerda. A imprensa contemporânea (que rapidamente desabrochou numa enorme quantidade de jornais) passou a designar os dois grupos por «direita» e «esquerda» ([1]).
Estas designações, todavia, só vieram a consolidar-se no jargão político a partir da 3.ª República em França (a partir de 1971) e no início do século XX. Por esta altura, os partidos socialistas sentavam-se à esquerda da Assembleia e os não socialistas à direita. Conforme é bem observado na referência [1] (tradução nossa):
«A direita negava que o espectro esquerda-direita tivesse sentido porque viam-no como artificial e prejudicando a unidade. A esquerda, contudo, procurando mudar a sociedade, promoveu a distinção. Como observou Alain ([2]) em 1931, "Quando as pessoas me perguntam sobre se a divisão entre partidos da direita e partidos da esquerda, homens da direita e homens da esquerda, ainda faz sentido, a primeira coisa que me vem à mente é que a pessoa que levanta a questão não é certamente um homem da esquerda "».
Note-se como já nessa época era a direita que estava interessada em promover a confusão em nome de uma suposta «unidade» nacional, passando por cima e mascarando os interesses antagónicos entre capitalistas e trabalhadores.
A referência [1] inclui também o seguinte texto do sociólogo Robert MacIver, incluído em The Web of Government, 1947 (tradução e esclarecimentos nossos):
«A direita é sempre o sector de partidos associados aos interesses das classes superiores ou dominantes, a esquerda o sector que exprime as classes de condições económicas ou sociais mais baixas, e o centro o [sector] das classes médias. Historicamente o critério parece aceitável. A direita conservadora tem defendido prerrogativas, privilégios e poderes entrincheirados; a esquerda tem-nos atacado. A direita tem sido mais favorável à posição aristocrática, à hierarquia de nascimento ou de riqueza; a esquerda tem lutado pela igualização de vantagens ou de oportunidades, pelas reivindicações dos mais desfavorecidos. Defesa e ataque [entre partidos] tiveram lugar, em condições democráticas, não em nome de classes mas em nome de princípios; mas os princípios opostos corresponderam em grande parte aos interesses das diferentes classes.»
O texto de MacIver parece, à primeira vista, fazer sentido. Por exemplo, é inteiramente verdade que a esquerda «tem lutado pela igualização de vantagens ou de oportunidades, pelas reivindicações dos mais desfavorecidos». Mas há outros aspectos do texto que levantam interrogações e objecções:
- A inserção da categoria «centro» a par das categorias «direita» e «esquerda»;
- O uso de critérios de rendimento («condições económicas […] mais baixas», «classes médias», «hierarquia […] de riqueza») para definir as classes;
- O uso de critérios sociais indefinidos («condições […] sociais mais baixas» ¾ será possível definir um estrato populacional de «condições económicas baixas» mas «sociais» não baixas? Por outras palavras, existe algum determinismo social que não passe pelo determinismo económico? Quanto à menção de «posição aristocrática, à hierarquia de nascimento» ela é descabida no sistema capitalista sem subsistências económicas e políticas de feudalismo);
- A vacilação entre o uso de «princípios» e «classes» («Defesa e ataque tiveram lugar, em condições democráticas, não em nome de classes [itálico nosso] mas em nome de princípios»; equivale a dizer que há princípios independentes das classes, isto é, fora do determinismo material, económico; trata-se, portanto, de uma posição idealista que pressupõe a existência de princípios ¾ etéreos? ¾fora das classes. Mas, logo a seguir ¾ e aqui está a vacilação ¾ diz que «mas os princípios opostos corresponderam em grande parte aos interesses das diferentes classes»; não diz «dependeram de» mas usa a expressão não causal «corresponderam», e isto só em «grande parte»…).

O texto de MacIver é exemplar quanto ao confusionismo que várias correntes intelectuais «modernaças» têm cultivado no tratamento de temas históricos, sociológicos e políticos. Nada de definições assentes em bases materiais, como é apanágio da ciência. Nada de rigor. Em vez disso, uma grande mistela pseudo-douta, onde se misturam conceitos mal definidos e de várias origens, sempre numa grande oscilação entre posições materialistas e idealistas.
Robert MacIver é aquilo que se chama um positivista ([3]). Segue uma (ou várias!) das versões modernas ([4]) da corrente filosófica do positivismo, criada por Auguste Comte (1798-1857). No final da Revolução Francesa a burguesia triunfante tinha necessidade, na consolidação do capitalismo, de criar uma justificação doutrinária do seu domínio. Para tal, havia que lançar o «racionalismo» às ortigas e tratar de criar uma concepção filosófica que casasse «materialismo» e «idealismo» (mesmo que incasáveis!) e, à luz dessa concepção justificasse a colaboração de classes (leia-se, submissão dos trabalhadores aos interesses do capitalismo) em prol da «unidade nacional» («unidade» de interesses dos trabalhadores e dos capitalistas).
Auguste Comte respondeu a essa necessidade: criou o «positivismo». Comte não nega que possa haver matéria, mas defende que todo o conhecimento é relativo, querendo com isso significar que a «essência» dos objectos («as coisas em si») está(ão) fora do conhecimento humano. A matéria só existe na medida em que actua nas sensações humanas (pode ser medida com réguas, vista com telescópios ou microscópios, etc.) Para dar um exemplo simples: para o positivista, se não existisse a humanidade com conhecimentos parciais e experimentais e sobre a Terra, esta poderia nem sequer existir. Cai assim numa posição idealista, contrária ao método científico, que advoga o primado do espírito sobre a matéria. Comte faz também uma interpretação idealista do processo histórico, considerando que é o desenvolvimento do espírito humano a causa da evolução material da sociedade e não o contrário; segundo esta abordagem idealista o capitalismo nasceu porque num belo dia, quando ainda só havia senhores feudais e servos da gleba, certas figuras de relevo começaram a pensar à capitalista e em como seria bom criar o capitalismo; não porque se tivessem desenvolvido na sociedade feudal as condições materiais (oficinas de artesãos, trocas comerciais, crescimento do comércio urbano, comércio e rapina com o exterior devido às navegações que contribuiu para a acumulação primitiva de capital, etc.) que tornaram possível transitar para esse novo estádio sócio-económico. Lenine expressa bem o significado do positivismo na filosofia quando diz que o mesmo é «[…] um agnosticismo que nega a necessidade objectiva da natureza que existe antes e à margem de todo o «conhecimento» e de todo o homem […] uma astúcia lamentável, um desprezável partido centrista na filosofia, que confunde em cada problema isolado a tendência materialista e a idealista». O idealismo do positivismo leva, em política, à rejeição de interesses materialmente antagónicos entre as classes e a pregar a «solidariedade social», isto é, a colaboração de classes. Não é por isso de admirar que ainda nos tempos actuais os grandes defensores teóricos do capitalismo sejam positivistas.
Também não é de admirar que MacIver diga que haja um «centro» entre a direita e a esquerda (pois se como positivista ele é centrista!) e use uma linguagem vacilante entre idealismo e materialismo, escondendo debaixo de uma roupagem de rendimento económico a definição de classes. Sob essa roupagem um trabalhador e um capitalista com o mesmo rendimento teriam os mesmos interesses.
Na realidade, desde tempos imemoriais, quando surgiram as sociedades de classes, que elas se distinguem não por critérios de rendimento mas por critérios de propriedade de meios de produção. Sociedades de escravos e senhores de escravos, de nobres e servos da gleba, de capitalistas (também denominados, historicamente, burgueses) e trabalhadores têm uma divisão social em comum: há os que possuem meios de produção (escravos, terra, artefactos, alfaias agrícolas, máquinas, etc.) e os que não os possuem e têm de «alugar» aos que possuem as suas faculdades manuais e mentais.
No capitalismo, portanto, a divisão principal entre direita e esquerda é a divisão entre Capital e Trabalho. É de direita quem defende os interesses do Capital. É de esquerda quem defende os interesses do Trabalho. Assim, no exemplo acima do trabalhador e do capitalista com o mesmo rendimento, a identidade de interesses que decorreria da exposição de MacIver não terá lugar: que o diga o trabalhador quando perde o emprego porque o capitalista não obtém o lucro desejado!
Incluímos acima a palavra «principal» porque esta é de facto a grande divisão. Contudo, a questão da determinação económica das classes a partir dessa divisão principal é mais complexa, tencionando nós abordá-la em futuro artigo. Para dar um exemplo: onde cabem nessa divisão os cidadãos que são ao mesmo tempo trabalhadores e capitalistas? Eles cabem, de facto, num centro. Mas não no «centro» de MacIver e dos positivistas: um centro estável, de interesses próprios e bem definidos, por um critério de rendimento (a «classe média» de rendimentos médios). É sempre um centro instável, porque na situação de crise do capitalismo (e tais crises são recorrentes) a divisão concreta, objectiva e material entre Capital e Trabalho impõe-se; que o digam os pequenos empresários insolventes, incapazes de fazer valer a sua propriedade de meios de produção, restando-lhes unicamente a capacidade de «alugar» as suas forças físicas e mentais.
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O conflito de interesses entre Capital e Trabalho é insanável. Em épocas de prosperidade do capitalismo, como durante a chamada época áurea nos países desenvolvidos do mundo ocidental (1946-1974), esse conflito de interesses pôde ser larvar: a classe capitalista, num quadro de elevadas taxas de lucro, conseguia satisfazer as principais reivindicações dos trabalhadores (o «Estado Social»). A aparência de «solidariedade social» era então manifesta. Mas nos países de capitalismo mais débil (como Portugal) e/ou em tempo de crise profunda como a actual, que além do mais é reveladora da decadência do capitalismo como sistema (ver nossos artigos anteriores, nomeadamente «A Esquerda parlamentar que temos») é a insanabilidade de interesses que se revela na sua plenitude: a insanabilidade de um sistema que não tem as necessidades sociais como bússola, mas sim a necessidade do lucro, lucro esse que provém da mais-valia extraída do trabalho; logo, do trabalho que não é pago. Insanabilidade que só se resolverá transcendendo o sistema capitalista; enveredando, portanto, por uma via socialista podendo, contudo, numa fase mais ou menos longa de transição, manter, em sectores não vitais da economia, formas de exploração capitalista.
Embora o conflito de interesses entre Capital e Trabalho seja objectivo, na expressão política desses interesses têm lugar imensos factores subjectivos.
Os capitalistas certamente não se enganam na escolha dos partidos que defendem os seus interesses.
Já quanto aos que vivem apenas do seu trabalho a questão é bem diferente. Na sociedade capitalista o condicionamento mental, fomentado por instituições e meios de comunicação, tem uma grande importância. Abundam os intelectuais à MacIver e os fazedores de opinião dedicados ao capitalismo. Os defensores, sorridentes e de barriga cheia, do status quo. Os que fazem da confusão de ideias profissão permanente. Os que usam e abusam de más experiências ditas de socialistas e que denominam erradamente, mas propositadamente, de comunistas. (Sim, houve más experiências de Estados de economia planificada, mas com sistema político ditatorial e totalitário. Experiências que rejeitamos e servem de aviso. Mas não houve só essas. Além disso, os que usam e abusam das referências a essas más experiências parecem ter a memória mais apagada no que se refere ao enormíssimo número de péssimas experiências do capitalismo.) Fazem-se sentir também factores como tradição, acomodação, falta de conhecimento, alienação e preconceitos. Em muitos casos o interesse em defender o Trabalho existe, mas falta a coragem intelectual: a coragem em reconhecer e admitir o que está correcto simplesmente porque isso choca com uma anterior e interior construção mental ([5]).

[1] A wikipédia (versão inglesa) tem uma boa explicação deste tema, embora com uma ou outra imprecisão de linguagem.
[2] Alain era o nome pelo qual era conhecido o filósofo, jornalista e pacifista francês Émile-Auguste Chartier.
[3] A wikipédia esclarece que Robert MacIver foi um continuador dos trabalhos de Durkheim e Max Weber, ambos influenciados por Auguste Comte (com algum colorido emprestado de Karl Marx).
[4] Hoje em dia: Estruturalismo, pós-modernismo, etc., etc.
[5] Como se sabe o homem/mulher não é só dotado de razão mas também de emoções, construídas à custa de experiências passadas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A Economia convencional: uma pseudociência (VIIc)


Steve Keen (economista keynesiano como já referimos em artigos anteriores; ver nomeadamente a Parte I) faz uma breve apresentação no seu livro de abordagens mais recentes ao comportamento dos mercados bolsistas; abordagens que modelam de forma mais realista o comportamento dinâmico dos mercados, fornecendo resultados de acordo com os dados empíricos. É particularmente importante, neste aspecto, a nova área da Econofísica que se inspira em métodos da Física no tratamento de problemas económicos.
Diz Steve Keen que: «[...] durante muito tempo os neoclássicos se gabavam de que só eles usavam matemática na Economia. Na realidade, as coisas não são actualmente assim; as novas abordagens da economia necessitam de mais matemática, não de menos. O mal da economia neoclássica não é matemática; é, sim, o mau uso de matemática.»
Dizemos nós: Sim, a matemática é uma boa coisa e a corrente marxista da Economia também usa cada vez mais matemática. Mas, atenção! A matemática não é tudo. Não há matemática que salve uma teoria que assenta em premissas erradas (aquilo que os físicos designam por «condições do problema»).
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Na explicação das causas de crises económicas graves, como a Grande Depressão americana dos anos trinta e a Grande Recessão de 2007-2008, os economistas neoliberais (os mais «liberais» dos neoclássicos) recorrem constantemente à ideia de insuficiência da massa monetária em circulação. Esta explicação provém da teoria monetarista de Milton Friedman e foi totalmente adoptada por Ben Bernanke, presidente do Banco Federal de Reserva americano (o banco central dos EUA). A ideia, expressa por Ben Bernanke relativamente à Grande Depressão, é a seguinte: «A Grande Depressão foi despoletada pela Reserva Federal, por esta reduzir a oferta de base monetária dos EUA entre Junho de 1928 e Junho de 1931».
Bernanke referia-se àquilo que os economistas designam como o agregado monetário M0: todo o numerário em circulação num país (emitido pelo banco central) mais as reservas que os bancos depositam no banco central. Efectivamente, o agregado M0 decresceu nominalmente entre Março de 1928 e Maio de 1929 a uma taxa anual média de 1%. Tendo em conta a inflação o decréscimo médio foi de apenas 0,5%. Ora, o M0 também decresceu e ainda mais noutras épocas sem causar recessões graves!
Além disso, se a descida de M0 fosse a causa da Grande Depressão (e causa principal, segundo Bernanke), então, no período de 1928 a 1940, ter-se-ia verificado uma correlação negativa entre M0 e a taxa de desemprego (em termos médios, quando M0 descesse o desemprego devia aumentar e vice-versa); ora, pelo contrário, a correlação é positiva. Mais: uma análise detalhada mostra que ao invés de ser a descida de M0 que leva ao desemprego é, pelo contrário, o desemprego que leva à descida de M0. Steve Keen descreve em pormenor estes e outros factos que desmentem cabalmente a «teoria» de Ben Bernanke. Mas o desmentido mais cabal estava para vir: é que Ben Bernanke esqueceu a sua «receita» aquando da Grande Recessão de 2007-2008.
Em 2002 Bernanke homenageava assim o seu mestre Milton Friedman: «Permitam-me acabar o meu discurso abusando algo do meu estatuto de representante oficial da Reserva Federal. Gostaria de dizer a Milton e Ana: Quanto à Grande Depressão. Vocês tinham razão, conseguimos. Nós estávamos pesarosos [pelo que a Reserva Federal fez: a diminuição de M0]. Mas, graças a vós, não faremos isso de novo.».
Na realidade, Ben Bernanke pouco aumentou o agregado M0 antes de eclodir a Grande Recessão, conforme se vê na figura abaixo. Esteve sempre longe de imaginar que ela iria ocorrer (ver n/ artigo «A Crise do Euro. Parte II»).


Contudo, mal ela ocorreu e fiel à sua teoria, desatou a imprimir dólares a um ritmo desmedido (ver figura): duplicou a base monetária em apenas 5 meses! Quando tirou o pé do acelerador de M0 em 2010 a base monetária tinha subido de 850 biliões de dólares para 2,15 triliões! Na realidade, a base monetária tem continuado a subir no âmbito do programa «quantitative easing». (Ben Bernanke é conhecido por muitos economistas por «o helicóptero Ben», por seguir Milton Friedman que advogava lançar dinheiro de helicóptero para combater a deflação de Grande Depressão; a subida espantosa da base monetária americana pode, de facto, ser comparada ao lançamento de helicóptero de montões de dinheiro.) Obama, aconselhado por economistas como Bernanke, disse o seguinte aquando da investidura como presidente dos EUA: «E embora haja muitos americanos que compreensivelmente pensam que o dinheiro do governo seria melhor gasto indo directamente para as famílias e empresas em vez dos bancos ¾ 'onde está o resgate?' perguntam eles ¾ a verdade é que um dólar de capital num banco pode de facto resultar em oito ou dez dólares de empréstimos às famílias e empresas, um efeito multiplicador que por fim pode conduzir a um mais rápido crescimento da economia.» [itálico nosso].
Na realidade nada disso aconteceu. Os 8 ou 10 dólares para as famílias e empresas por cada dólar de resgate aos bancos não ocorreram.
Abordaremos este efeito «multiplicador de dinheiro» no próximo e último artigo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A Primavera Árabe. Parte II (Egipto)

II – Da Dominação Colonial à Independência
Egipto
Escravização financeira
Em 1801 os ingleses entraram no Egipto depois da expulsão da invasão napoleónica. Aliaram-se aos senhores mamelucos ([1]) locais. A Turquia enviou um grande exército encabeçado por um triunvirato de que fazia parte Moahamed Ali. Este depressa se tornou senhor absoluto do Egipto tendo expulsado os ingleses e vencido, mais tarde, os mamelucos ([2]). Mohamed Ali introduziu várias reformas no Egipto (nomeadamente na agricultura) mas manteve o regime feudal intacto. Era ambicioso: invadiu a Palestina e a Síria bem como a Grécia e ilhas Jónicas. Acabou por perder todas essas conquistas; em 1840 terminava a Guerra Oriental, com o porto de Alexandria bombardeado pela armada inglesa. Teve de assinar um acordo com os ingleses: em troca de conservar o Egipto (formalmente dependente da Turquia) teve de evacuar a Síria e a Palestina e reduzir o exército. O exército inglês, entretanto, tinha desembarcado no Egipto. Tão cedo a Inglaterra não abandonaria o Egipto.
Com base num acordo com a Turquia o capital inglês penetrou no Egipto. Tornou-se a breve trecho responsável por ¼ das importações para o Egipto e de 1/3 das exportações do Egipto.
Em 1854 Said Paxá, filho de Mohamed Ali tornou-se vice-rei do Egipto. Pró-ocidental e amigo de Ferdinand de Lesseps ([3]) concordou com o plano deste último de construção do canal de Suez. Lesseps conseguiu um contrato que obrigava os egípcios a construir um canal de fornecimento de água e a fornecer 4/5 dos trabalhadores. Foi aberta uma subscrição para a companhia que iria construir o canal. Renegociações do contrato, corrupção e má gestão custaram ao Egipto um prejuízo de 300 milhões de francos.
Os ingleses, por seu turno, tornavam o Egipto num país de monocultura de algodão, cultivado por processos semi-feudais. A exportação de algodão para a Inglaterra desenvolveu uma frota mercantil e o porto de Alexandria. Mas os benefícios iam quase todos para a Inglaterra. O tráfico pelo Suez também aproveitava apenas à França e à Inglaterra.
Sucessivos empréstimos ingleses e franceses (com intrigas criminosas de Lesseps e de banqueiros) para construir infra-estruturas rapidamente amarraram o Egipto a dívidas incomportáveis. Em 1876 a dívida era já de 100 milhões de libras esterlinas (M£), repartida como se segue ([2]): 16 M£ gastos no canal do Suez; 22 M£ em comissões aos banqueiros, taxas de câmbio, etc.; 6 M£ gastos em trabalhos públicos; 56 M£ em juros acumulados. A roubalheira continuou com a Inglaterra a apoderar-se, como colateral da dívida, das acções do canal do Suez. Note-se que 100 M£ correspondiam aproximadamente a 124% do PIB da época ([4]).
Em Outubro de 1876 o Egipto estava insolvente. Foi nomeada uma comissão Anglo-Francesa para controlar as finanças do Egipto; isto é, tratava de sugar o povo egípcio o mais possível. Em 1878 a Inglaterra formou uma Comissão de Inquérito às finanças do Egipto que imediatamente assumiu um tom arrogante perante o Quediva ([5]), impôs o banqueiro Rothschild como controlador dos domínios estatais e um gabinete ministerial formado por europeus (o Gabinete Europeu).
O movimento de libertação nacional
Os agricultores, artesãos e pequenos comerciantes eram esmagados e humilhados pelo Gabinete Europeu. Um sentimento de rebelião alastrou no Egipto dando origem a um movimento de revolta encabeçado pelo tenente-coronel Ahmed Arabi: o wataneum (Nacionalistas). Em 1879 o Quediva Ismail, apoiado pelo wataneum enfrentou o Gabinete Europeu, formando um Governo Nacional e uma Câmara de Notáveis (senhores feudais). A Inglaterra conseguiu, porém, a deposição de Ismail à custa do apoio do sultão turco. Foi substituído pelo filho, joguete dos europeus e por um primeiro-ministro reaccionário, Riaz, ligado aos senhores feudais. Uma Lei de Liquidação do representante inglês fixou a dívida em 98 M£. Os impostos aumentaram.
Em 1881 oficiais do exército do wataneum encabeçados por Arabi revoltaram-se no Cairo e apresentaram reivindicações ao Quediva que incluíam a demissão do gabinete Riaz e a promulgação de uma constituição. A Inglaterra conseguiu que a Câmara de Notáveis nomeasse um aristocrata, Sherif Paxá, que supostamente iria responder às reivindicações de Arabi. Este aceitou, convencido que Sherif não trairia a vontade popular. Iria mais tarde dar-se conta do seu erro. A pressão do wataneum levou Sherif a ter de aceitar Arabi no seu gabinete, mais tarde encabeçado por um primeiro-ministro liberal. Em Maio de 1882 a Inglaterra e a França pediram oficialmente ao Quediva o afastamento de Arabi e a resignação do primeiro-ministro. O Quediva aceitou. Barcos de guerra ingleses chegaram a Alexandria que se tornou o centro da reacção anglo-quedival. O Cairo caiu nas mãos do wataneum e Arabi ordenou o confisco dos «notáveis» egípcios fugidos para Alexandria.
No Verão de 1882 realizou-se uma conferência em Constantinopla para solucionar a situação do Egipto. Tomaram parte a Inglaterra, França, Itália, Rússia, Áustria e Alemanha. A Turquia recusou participar. Sob proposta da França chegou-se a um acordo que estipulava a «não procura de aquisições territoriais no Egipto» por qualquer das potências e a «restrição de intromissão unilateral» no Egipto. Sob proposta da Inglaterra juntou-se à última disposição a frase «a não ser em caso de force majeure». Os ingleses rapidamente fabricaram a «force majeure»: apresentaram um ultimato à guarnição de Alexandria para não restaurar as fortificações do porto. Os egípcios responderam que em caso de agressão externa tinham todo o direito de defender-se. Um novo ultimato foi da mesma forma recusado. Então os ingleses bombardearam o porto ([6])e deram início à guerra anglo-egípcia de 1882. Em 14 de Setembro de 1882 a cavalaria anglo-indiana aproximou-se do Cairo e Arabi foi forçado a render-se. Os ingleses desarmaram o exército egípcio e enviaram unidades punitivas contra os resistentes. Muitos membros do wataneum foram tratados como criminosos, torturados e enforcados. Temendo que a morte de Arabi trouxesse complicações os ingleses deportaram-no. O Egipto tinha-se tornado uma colónia («protectorado») inglesa.
O Protectorado Inglês (1882-1922)
Sob pressão da França e da Turquia, a Inglaterra prometeu, em 1884, que retiraria o seu exército do Egipto. Foi sempre atrasando essa decisão chegando por fim a um entendimento com a França. O governo era nominalmente do Quediva, súbdito do sultão, mas de facto tudo no Egipto era governado por um Alto-Comissário inglês. Entretanto, os ingleses baixaram a dívida pública do Egipto cortando nas despesas de administração e na educação. Assim, em 1888 a França deixou de ter o pretexto do estado das finanças no Egipto para se intrometer na administração inglesa.
A Inglaterra estimulou a monocultura do algodão, controlando por completo todas as fases da produção e transporte. Manteve o Egipto como país agrário, um apêndice de fornecedor de matérias-primas da Inglaterra, asfixiando o desenvolvimento industrial do Egipto.
No final do século XIX nasceram partidos políticos ligados à nascente burguesia egípcia. O mais nacionalista considerava o domínio inglês como uma bênção, embora advogasse reformas. Era contra o feudalismo e o atraso do Egipto. Apelava a um ressurgimento do Islão adaptado aos interesses da burguesia. Um Islão ocidentalizado. O Mufti Abdu, líder desta corrente, proclamou em 1899 uma fatwa ([7]) que autorizava os muçulmanos a praticar empréstimos com juros. O partido nacionalista al-Watan, liderado por Mustafá Kamil, defendia a amizade com o sultão turco e o pan-islamismo. Todas estas correntes políticas burguesas temiam a insurreição popular e procuravam controlar o povo pela religião.
Em 1906, um incidente numa aldeia (Denshavai), que levou as autoridades inglesas a enforcar quatro egípcios, despoletou manifestações populares e foi denunciado na imprensa estrangeira. A Inglaterra demitiu o gabinete. Consultado Mustafa Kamil sobre a indicação de um primeiro-ministro, este indicou Saad Zaghlul antigo membro do movimento de Arabi. Mais tarde, porém, o novo governador inglês nomeou um reaccionário (o copta Butrus Ghali) como primeiro-ministro (1907). Os nacionalistas foram perseguidos e muitos tiveram de emigrar. Em 1911 tinham surgido alguns sindicatos ligados ao al-Watan.
Depois da 1.ª guerra mundial, em 1918, formou-se um novo partido nacionalista, o partido Wafd («delegação») liderado por Saad Zaghlul que chefiou uma delegação egípcia à Conferência de Paz em Paris. Recusando-se a cumprir a ordem da Inglaterra de parar com a agitação política, Saad foi deportado em Março de 1919. Imediatamente se levantou uma revolta popular: durante várias semanas, de Março a Abril, realizaram-se manifestações acompanhadas de greves. Foi um movimento maciço com participação de homens e mulheres, muçulmanos e coptas. A repressão inglesa foi dura: no período de 15 a 31 de Março os ingleses mataram 3.000 egípcios e queimaram várias aldeias. Depois, novamente em Julho, mataram 800 egípcios. Uma Comissão de Inquérito do governo inglês concluiu que o estatuto de protectorado devia ser abandonado. A 22 de Fevereiro de 1922 a Inglaterra emitiu unilateralmente uma declaração de independência do Egipto, que passou a chamar-se Reino do Egipto, sob o rei Fuad, um joguete nas mãos dos ingleses. Estes continuaram a controlar o Egipto, em especial durante a 2.ª guerra mundial em que o Egipto foi usado como base de operações dos Aliados. O rei Faruk sucedeu a Fuad em 1936 e a monarquia continuou como corpo corrupto ao serviço dos ingleses e atacada pelos três partidos da época: o Wafd, representante da burguesia liberal, o partido comunista e a Irmandade Muçulmana, representante da burguesia nacionalista reaccionária e congregando as camadas mais atrasadas da população ([8]).

[1] Casta militar que dominou o Egipto medieval, parecida com a dos janízaros.
[2] V. Lutsky (1969) Modern History of the Arab Countries. Progress Pub., Moscovo. Este é um livro fundamental no tema.
[3] Vice-cônsul francês em Alexandria, dedicado servidor do imperialismo francês, famoso por ter dirigido a obra da construção do Canal do Suez.
[4] Os dados históricos de Angus Maddison (ver nota 4 do artigo anterior) indicam 4.573 milhões de GK$ para o PIB do Egipto em 1873. Tendo em conta o valor em ouro da libra e do dólar em 1873, então 1£1873 vale cerca de 5$1873. Por outro lado, a depreciação do dólar entre 1873 e 1990 é de 11,3 (1 $1873 = 11,3$1990; ver MeasuringWorth.com). Logo, o PIB do Egipto em 1873 medido em libras esterlinas, de acordo com estas estimativas, valeria 4.573/5,5 = 80,9 M£1873.
[5] Título hereditário do governador do Egipto (em nome do Império Otomano), a partir de 1867.
[6] Na op. cit. de V. Lutsky refere-se que um membro do parlamento inglês comentou assim as acções do almirante Seymour que bombardeou Alexandria: «um homem vagueando em torno da minha casa, com óbvias más intenções. Apresso-me a correr aos fechos e trancas e a barricar as janelas. Ele diz que isso é um insulto e uma ameaça contra ele, e trata de deitar abaixo as minhas portas declarando que só o faz por ser um acto de estrita auto-defesa».
[7] Decreto de autoridade religiosa sobre a interpretação a adoptar de uma disposição corânica.
[8] Nascida no Egipto em 1936, a Irmandade veio a espalhar-se por outros países muçulmanos.