domingo, 6 de janeiro de 2013

A Economia convencional: uma pseudociência (VIIb)


A hipótese dos mercados eficientes
 
Uma outra razão porque os economistas neoclássicos «não viram o que estava para acontecer» (ver n/ artigo anterior) é a sua aceitação cega da chamada «hipótese dos mercados eficientes». Esta «hipótese» é aplicada aos mercados bolsistas e, em termos gerais, advoga a crença de que estes mercados atribuem preços correctos às acções das empresas com base no seu (desconhecido) desempenho futuro.
Segundo Steve Keen a ideia dos mercados eficientes remonta ao economista Irving Fisher, que desenvolveu em 1907 uma teoria do dinheiro que explicava a valoração de activos financeiros. Na queda da Bolsa aquando da Grande Depressão americana, Fisher, que tinha aplicado a sua teoria na compra de acções, ficou na penúria.  Desenvolveu, então, uma nova teoria que explicava porque razão a especulação financeira tinha levado ao colapso da economia. Todavia, esta nova teoria foi rejeitada pelos economistas neoclássicos (não lhes convinha); em vez dela, continuaram a usar a teoria pré-Grande-Depressão de Fisher para sustentar como são determinados os preços de activos. Décadas mais tarde Hyman Minsky redescobriu a nova teoria de Fisher; pela mesma altura os economistas neoclássicos agarravam na teoria pré-Grande-Depressão de Fisher e transformavam-na na «hipótese dos mercados eficientes».
Mais tarde o economista William Sharpe (prémio Nobel em 1990) desenvolvia e formalizava a antiga teoria de Fisher no modelo matemático chamado «capital assets pricing model» (CAPM). Tal como a antiga teoria de Fisher o CAPM é de natureza microeconómica e assume que os mercados financeiros estão continuamente em equilíbrio. (Já vimos repetidamente as enormes limitações de considerar a macroeconomia uma simples extensão da microeconomia, bem como o irrealismo de considerar a economia como uma sucessão estados de equilíbrio.) No caso dos mercados bolsistas o modelo de eficiência assume as seguintes condições:

a) Todos os investidores têm expectativas idênticas e correctas sobre as perspectivas futuras de todas as empresas.
b) Todos os investidores têm o mesmo acesso a crédito ilimitado.
c) Os preços das acções reflectem toda a informação pertinente sobre as perspectivas futuras das empresas, informação essa que vai chegando de forma aleatória.

A teoria de Sharpe começa por assumir a figura do «investidor racional». Já vimos em artigos anteriores outros agentes «racionais», tão racionais quanto irrealistas: «consumidor racional», «trabalhador racional», etc.
Vejamos, então, o que é o «investidor racional». A ideia básica é que qualquer investidor tem em conta dois parâmetros: o rendimento e o risco. Acções que podem dar um grande rendimento (retorno) são de grande risco. Se um investidor não quer ter risco irá preferir, por exemplo, obrigações do Tesouro com uma taxa de juro baixa mas garantida. A forma como cada investidor lida com o equilíbrio entre rendimento e risco tem a ver com as suas preferências. Quanto ao rendimento, Sharpe (1964) usa a média do rendimento das acções de uma empresa para o caracterizar; média essa, calculada com a informação já recebida sobre rendimentos pretéritos das acções em causa. Quanto ao risco, Sharpe utiliza, para o caracterizar, o respectivo desvio padrão ([1]).
A figura 1 mostra as curvas de indiferença (de novo!) de um investidor relativamente a rendimento e risco. No caso do consumo de bens (ver Parte IIb) a «utilidade» crescia à medida que caminhávamos no gráfico para cima e para a direita. Agora, a situação é diferente visto que o risco não é uma coisa boa, mas sim má. Interessa-nos, portanto, caminhar no sentido de maior rendimento mas menor risco: para a direita e para baixo. No caso de consumo de bens traçávamos linhas de orçamento com vista a determinar pontos óptimos. Aqui a situação é diferente. Cada empresa, num dado instante, corresponde a um ponto no gráfico: o ponto que corresponde à media e desvio padrão dos rendimentos pretéritos das acções. Considerando um conjunto vasto de empresas (por exemplo, todas as que são cotadas na Bolsa), obtemos uma «nuvem» de pontos representada pela área a cinzento na figura 1. A orla desta nuvem é a linha designada por IOC: investment opportunity curve (curva de oportunidade de investimento). Sharpe mostrou que o investidor racional teria de escolher um ponto na IOC. Para as curvas de indiferença da figura 1 esse ponto é o ponto A.

Fig. 1

A teoria de Sharpe prossegue depois para a situação de uma carteira de investimentos, em que se combina um investimento de risco nulo (com baixo rendimento; p. ex., obrigações do Tesouro) com investimento em acções. A figura 2 ilustra esta situação. O investidor, se seguir as suas preferências, escolhe o ponto A como na figura 1; suponhamos que investe 1000€ com taxa de retorno de 5% e recolhe 50€. Se quiser o mais baixo risco possível escolhe o ponto P; suponhamos que investe 1000€ com taxa de retorno de 2% e recolhe 20€. Sharpe introduz aqui a condição (b) acima: «todos os investidores têm o mesmo acesso a crédito ilimitado». Então, o investidor que escolheu o ponto A, pode, por exemplo, pedir de empréstimo 1000€ à taxa mais baixa de 2% e investir nas acções de A; obtém um retorno total de 2´50€ a que tem de subtrair 20€. Tudo se passa como se a taxa de retorno fosse de (100 - 20)/2000 = 4% com um risco intermédio entre o de P e A. Isto é, este novo investidor estará a operar num outro ponto da recta que une P a A; digamos, o ponto B. Sharpe designou esta recta por «linha de mercado de capital».

 Fig. 2

Sharpe foi depois confrontado com a passagem de um investidor para muitos investidores: a passagem da microeconomia para a macroeconomia. Deparou, então, com enormes dificuldades, dado que para além de cada investidor ter curvas de indiferença diferentes, verá uma nuvem de empresas diferentes no plano risco-rendimento; logo, uma diferente IOC. As dificuldades só puderam ser ultrapassadas com a introdução da condição (a) acima: «todos os investidores têm expectativas idênticas e correctas sobre as perspectivas futuras de todas as empresas».
Portanto, para além do irrealismo do crédito ilimitado, condição imposta por Sharpe para ser possível a qualquer investidor operar em qualquer ponto da curva de mercado de capital, juntavam-se agora mais duas assunções irreais: todos os investidores têm as mesmas expectativas sobre as empresas; as expectativas de todos os investidores são correctas. Sharpe deu-se conta do irrealismo das assunções mas descartou a questão da mesma forma que já referimos em artigo anterior para Friedman: «É claro que estas assunções são altamente restritivas e sem dúvida alguma irrealistas. Porém, já que o teste adequado da teoria não é o irrealismo das assunções mas a aceitabilidade das suas implicações, e já que as assunções implicam condições de equilíbrio que constituem a maior parte da doutrina financeira clássica, não está claro que esta formulação deva ser rejeitada […]». Reparem na «científica» afirmação «não está claro que esta formulação deva ser rejeitada»: como construir uma ciência baseada em formulações que não sabemos se devem ou não ser rejeitadas?
Efectivamente, com as assunções irrealistas, Sharpe conseguia chegar onde queria: as variações das preferências dos investidores, juntamente com o crédito ilimitado e o mecanismo de mercado, levam a que uma dada carteira de investimentos aumente em preço, levando a baixar o preço de outras acções. O processo de alteração de preços altera os rendimentos e achata a IOC que se torna praticamente uma recta: atingiu-se o equilíbrio, a Meca dos neoclássicos.
Steve Keen aponta no seu livro que esta questão das assunções é apenas a ponta do icebergue. De facto há muitíssimos outros aspectos errados nesta teoria. Um exemplo flagrante: a questão do risco ser representado pelo desvio padrão. Um risco, para o investidor, corresponde a uma perda, o que não é o caso quando se usa o desvio padrão. Sejam dois investimentos: o primeiro, com média de retorno de 1% e desvio padrão 2%; o segundo, com média 9% e desvio padrão 4%. De acordo com a teoria de Sharpe o segundo investimento, com maior desvio padrão, é o de maior risco. Todavia, para distribuições idênticas dos rendimentos, o primeiro investimento tem obviamente uma maior probabilidade de ter um rendimento negativo do que o segundo (ver figura 3).
Sharpe estava consciente das limitações da teoria e expô-las claramente. Contudo, a teoria dos mercados eficientes continua a ser usada pelos neoclássicos apesar de se saber que está redondamente errada não só na teoria mas também na prática: os dados empíricos desmentem a teoria, e o desmentido mais recente e espectacular foi precisamente fornecido pelo crash bolsista em 2007-2008.

Fig. 3. Duas distribuições de rendimento. A de média 1% e desvio padrão 2% (barras azuis) tem muito mais alta probabilidade de ter valores negativos (somas das áreas das barras azuis na zona cinzenta) do que a distribuição de média 9% e desvio padrão 6% (com muito menor área total das barras vermelhas na zona cinzenta).

[1] O desvio padrão é uma medida de variabilidade. No caso presente do rendimento, o desvio padrão é calculado tendo em conta os quadrados das diferenças de cada valor do rendimento face à média. Quanto maior o desvio padrão, maior é a variabilidade, logo, na interpretação de Sharpe (não isenta de controvérsia), o risco.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Esquerda parlamentar que temos

Já num anterior artigo deste blog afirmámos que a esquerda portuguesa não mostra saber o que quer, ao contrário da direita que sabe muito bem o que quer.
Entendamo-nos:
a) Quando dissemos «esquerda portuguesa» referimo-nos aos partidos da esquerda com representação parlamentar, conforme fica claro no título acima: PCP e BE. São os maiores partidos da esquerda, não só em termos de votação mas também em termos de capacidade de mobilização popular. Para além disso, no caso do PCP, existe uma grande capacidade de mobilização sindical.
b) Quando dizemos que não mostram saber o que querem, limitamo-nos a constatar que, pelos argumentos que avançam e pelas soluções que propõem, PCP e BE não apontam para nada que rompa com a lógica do sistema capitalista; no caso português um capitalismo decadente, dependente, e neo-colonizado pelo núcleo pró-imperialista alemão-francês.
São partidos acomodados ao status quo, logo sem postura revolucionária. Dir-me-ão que não é verdade. Que o PCP e o BE se fartam de denunciar no parlamento as políticas da direita e de propor medidas alternativas de esquerda. Bom, isso é o mínimo exigível a partidos de esquerda, mas largamente insuficiente quanto à orientação actual das lutas populares, quando todos os ingredientes estão reunidos para um despoletamento revolucionário.
A questão hoje não é (só) a proposição parlamentar de medidas de «esquerda». A questão está em que quer PCP quer BE não apontam para a superação do capitalismo, não esclarecem as massas sobre a impossibilidade de resolver os seus problemas dentro do capitalismo, e não conduzem as lutas de massas, nem as lutas dos trabalhadores, com esse objectivo em vista. Não dizem que é necessário nacionalizar a banca; dizem que é necessário reformá-la ou fixar impostos sobre transacções financeiras o que qualquer Hollande também sabe dizer. Não mobilizam os trabalhadores para o controlo e ocupação de instalações fabris quando os patrões estão para as abandonar; quando isso acontece é espontaneamente, pelos próprios trabalhadores. Não dizem que é necessário nacionalizar as grandes empresas; dizem que não se deve privatizar a EDP, quando ela está para ser privatizada, depois que não se deve privatizar a TAP, quando ela está para ser privatizada, etc. Sempre atrás dos acontecimentos, sempre numa posição reformista, sempre no simples papel de críticos parlamentares do regime. Um papel de esquerda facilmente digerido pela direita.
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Já repararam que a palavra «socialismo» deixou há muito de constar dos dicionários do PCP e do BE?
E que dizer do marxismo e do leninismo de que se arrogam depositários o PCP e o BE? A postura reformista e a superficialidade de ambos nas análises políticas que fazem não são abonatórias nesse capítulo. Uma coisa é certa: depois de anos e anos como meros críticos de esquerda do sistema, ambos sofrem de doses elevadas daquilo que Lenine designava por «cretinismo parlamentar».
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Na fase actual o mais longe que vão o BE e PCP é exigir a rejeição do memorando com a troika; mas é uma rejeição que tem simplesmente em vista a obtenção de prazos mais longos de pagamento da dívida, a distinção entre dívida legítima e ilegítima (esta última, presume-se, embora não o digam com clareza, provocada pela especulação bancária) e a capacidade de desenvolvimento do sector produtivo. Mais uma vez, nada que um Seguro ou um Papademos não pudesse subscrever.
Quanto à necessidade de desenvolvimento também Cavaco Silva o diz. Mas como qualquer marxista (e não só) sabe, não basta dizer. Não se trata de um qualquer governo «querer» desenvolvimento. Trata-se da questão fundamental que no sistema capitalista o desenvolvimento económico não está submetido a nenhum imperativo social; apenas ao imperativo do lucro. Logo, o desenvolvimento só terá lugar se a classe capitalista achar que o investimento no sector produtivo irá dar lucro. Ora isso não terá lugar tão cedo dada a descapitalização bancária (imensa massa de capital fictício) e a deslocalização da produção para países de mão-de-obra barata, poucos direitos e baixa capacidade reivindicativa (China, Índia, Malásia, México, etc.). Já nos referimos a tudo isto no nosso anterior artigo «A Crise do Euro».
A taxa de crescimento do PIB dos EUA manteve-se baixa e praticamente estacionária em 2012. A recuperação do crescimento do PIB dos EUA depois da Grande Recessão é a mais longa que a História regista. Na União Europeia (UE), os países nórdicos registaram uma taxa média de crescimento também baixa (da ordem de 2%); os do Sul estão em recessão. Os peritos de Berlim já disseram que a crise se vai manter por mais 30 ou 40 anos. Só o Gaspar (e Passos Coelho) está optimista de que já iremos crescer em 2014. Também a comissão económica da UE fez muitos prognósticos optimistas quanto à Grécia, mas a realidade foi diferente, conforme mostra a figura abaixo.


Os prognósticos do crescimento do PIB da Grécia feitos pela UE, a tracejado. O crescimento (de facto, decrescimento) real, a cheio.

Em suma, já ninguém duvida ¾ nem mesmo muitos dos economistas convencionais! ¾ que a crise do capitalismo está para durar (com ilhas de optimismo nos BRICs). Será que vai «morrer» por si mesmo? Claro que não. A passagem para o sector produtivo de novas conquistas tecnológicas (fala-se, por exemplo, nas nanotecnologias) pode emprestar um impulso à formação de novas empresas, logo a um crescimento do PIB; mas de novo se irá manifestar a lei da queda tendencial da taxa de lucro. A figura abaixo ilustra isso mesmo. Podem surgir períodos de alívio, como a última bossa ascendente na figura abaixo. Serão logo seguidos por períodos de penúria. É a lei inelutável do capitalismo. Bom, no passado, novos e longos períodos ascendentes ocorreram a seguir a guerras mundiais. Tal cenário, hoje, destruiria provavelmente por completo a taxa de lucro e a humanidade como a conhecemos.



Evolução da taxa de lucro dos EUA representada pela curva a vermelho (figura adaptada de Michael Roberts blog: http://thenextrecession.wordpress.com/page/2/). O valor para 2012 é exacto. A partir daí trata-se de estimativas. A traço preto, sobrepusemos uma curva de tendência (especulativa a partir de 2013).
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Grande parte do povo português pensa ainda que a crise actual é conjuntural. Muitos trabalhadores e muitos da chamada «classe média» (trabalhadores de colarinhos brancos e pequena burguesia) ainda julgam que, sim senhor, estamos e iremos passar um mau bocado mas pelo simples facto de estarmos na UE e na Zona Euro (ZE) iremos ultrapassar isso e, quem sabe, no futuro, sermos como a França. Uma ilusão importada pelos emigrantes portugueses em França que valeu bons votos ao PS nas primeiras eleições pós 25 de Abril e foi bem aproveitada por Mário Soares nos anos oitenta para passar à adesão à UE sem dar cavaco às tropas. Era o tempo da «Europa connosco». Trata-se de um ludíbrio monumental. Primeiro, porque como se disse, a crise do capitalismo está para durar. Segundo, porque a UE e a ZE não são uniões de povos livres; são arenas de negócios dos capitalistas europeus e nas horas dos apertos os capitalistas esquecem as belas palavras da «solidariedade europeia» e os mais fortes tratam de descarregar nos mais fracos o ónus dos apertos.
Tudo isto deveria fazer parte das preocupações da esquerda. Esclarecer e alertar para o sem-saída do capitalismo na UE e na ZE, e mobilizar para uma saída revolucionária rumo ao socialismo. Em vez disso, que fazem o BE e o PCP?
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Recentemente os representantes máximos dos dois partidos deram entrevistas à televisão. Ambos confirmaram a postura reformista, defensiva, inadequada à situação presente, que referimos acima.
João Semedo, pelo BE, para além de coisas óbvias que qualquer esquerda minimalista diria, falou em ser necessária uma «ruptura profunda» com a política presente, nomeadamente «rasgar» o presente memorando com a troika. Mas deixou ficar a ideia de que um novo memorando que não nos submetesse aos ditames de quem empresta, estaria bem. No fundo é a velha ideia de que deveremos ser nós a indicar prazos e modalidades de pagamento. (Semedo usou até a imagem de que num empréstimo para uma casa, «nós», os contraentes de empréstimo, é que devemos dizer como mobilar a casa, etc.) Num hipotético governo de esquerda o «nós» corresponderia, portanto, à esquerda a decidir como indemnizar os pobres banqueiros que andaram metidos em especulações. A esquerda no papel de apoiantes e indemnizadores de capitalistas especuladores. Tudo isto para que o capitalismo se mantenha intocável. Que tal?
Referiu também que «os portugueses não foram ouvidos sobre a integração na União Europeia», mas quando interrogado sobre a perspectiva de saída do euro disse que isso seria um «desastre, catástrofe, de consequências imprevisíveis» como qualquer «economista encartado» diria. Bom, pelos vistos Semedo só conhece a opinião dos «economistas encartados», isto é, dos economistas convencionais, neoclássicos; os que beberam das mesmas águas onde Gaspar bebeu. Se tivesse perguntado a economistas marxistas ou mesmo keynesianos radicais iria obter respostas diferentes. Assim, Semedo continua preso à lógica capitalista. Afirmou também que seria contraditório lutar contra a troika no âmbito do euro e ao mesmo tempo querer sair do euro. Portanto, para evitar contradições, com as quais a troika se pode sentir ofendida, o melhor é mantermo-nos no euro; Semedo dixit. E, para além do mais, Semedo afirmou que os do BE são «europeístas de esquerda». Isto ou quer dizer que se sentem bem na UE tal como está ou, de facto, não quer dizer nada, porque não serão o BE e partidos irmãos da UE que irão transformar «por dentro» a UE «roubando» o poder aos capitalistas. (Já os estou a ver a tremer com a esquerdização promovida pelo BE e irmãos.) Enfim, o cúmulo do pensamento reformista. Já não limitado a um único país mas extravasando a toda a Europa.
Quando a entrevistadora referiu que nestes 40 anos de democracia uma maioria de esquerda com o PS nunca funcionou como tal (como maioria que envolvesse o PS e outros à esquerda do PS), disse Semedo: «a questão é saber se um governo de esquerda se pode constituir com uma posição tímida em relação ao memorando». Logo, se o PS tiver uma posição não tímida (ou talvez menos tímida), tudo fica bem. É logo promovido a partido autorizado a entrar num governo de esquerda. No fundo, Semedo não descarta a aliança com o PS e, na entrevista, aceitou implicitamente que o PS é de esquerda. Para nós esta é a aldrabice fundamental que levou o país e os trabalhadores portugueses à linda situação actual (ver nossos artigos anteriores).

Quanto à entrevista com Jerónimo de Sousa, pelo PCP, a impressão que se colhe é a de que é lamentável. É inclusive penoso estar a ouvi-lo constantemente numa atitude defensiva, como aluno frente ao quadro com medo de ser apanhado com a cábula na mão, fugindo sistematicamente a respostas concretas e esclarecedoras, embrulhando o cerne das questões em circunlóquios (do tipo «sim… mas… por outro lado… contudo… é preciso ver… se o povo… então nós achamos que…») e em chavões.
Uma pérola desta postura foi a resposta sobre se deveríamos ou não sair da UE e do euro. Disse Jerónimo: «Precisamos de um desenvolvimento soberano. No quadro da União Europeia, se esta for impedimento a esse desenvolvimento soberano, então entendemos que o povo se deve pronunciar sobre isso. Sim ou não temos direito a esse desenvolvimento soberano? Se a União Europeia disser que não podemos, então […] o povo português não pode estar condicionado [a pertencer à UE]». O chavão aqui é «desenvolvimento soberano». É óbvio que a UE não vai dizer que não podemos ter «desenvolvimento soberano». Para a UE qualquer desenvolvimento capitalista, inclusive neo-colonial, é soberano. Para quê, então, matraquear com o chavão digno de um discurso burguês de «desenvolvimento soberano»? Mas o mais espantoso é que o PCP, que se arroga de ser marxista-leninista, acha que primeiro se deve perguntar ao povo e depois logo se vê. Por conseguinte, se o povo em hipotético referendo se pronunciar pelo «não» à saída da UE, o PCP, uma vez conhecidos os resultados do referendo, cala-se sobre a questão. A entrevistadora bem repetiu a pergunta sobre «qual a posição do PCP». Jerónimo não se moveu um milímetro. Repetiu a citação acima mais ou menos pelas mesmas palavras. Segundo o que disse Jerónimo, o PCP não tem posição própria, fundamentada, sobre a saída da UE (embora tenha acertadamente dito na entrevista que a UE «não é reformável»). Onde está então o papel de esclarecimento do povo, dos trabalhadores? Onde está o resultado do estudo científico das questões? Onde está o papel de vanguarda na condução dos trabalhadores? Não, isto decididamente não tem nada de marxismo nem tem nada de leninismo.
Quanto à posição face ao PS, disse Jerónimo de Sousa «não peçam ao PCP para convergir com o PS para aquilo que é mau para o povo». Não peçam ao PCP? Quem está a pedir ou vai pedir tal coisa ao PCP? No fundo trata-se de uma resposta ambígua porque cabe nela a ideia de que se o PS não quiser o que é «mau» (outra ambiguidade) para o povo, então recebe um certificado atestando que é de «esquerda» e o governo de esquerda torna-se viável. Aliás, Jerónimo de Sousa na entrevista não desfez a ilusão de um «governo de esquerda» com o PS, com um primeiro-ministro do PS. Pensamos que tal cenário a acontecer, para além de ser de curta duração, não resolveria nada de essencial quanto às mais prementes necessidades dos trabalhadores e do povo português: nacionalização da banca colocando-a ao serviço do povo, em particular ao serviço do desenvolvimento do sector produtivo; acabar gradualmente com o desemprego; melhorar as condições de vida dos trabalhadores, acabando com as maiores desigualdades sociais; acabar com as situações de miséria e de vida degradante. Isso só será possível numa via socialista, como tinha sido prometido no 25 de Abril de 1974 (na altura até o PSD, então PPD, dizia que sim e não descartava o marxismo! Pasme-se!).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A Economia convencional: uma pseudociência (VIIa)

VII. Eles não viram o que estava para acontecer
Antes de acontecer a Grande Recessão americana (iniciada em finais de 2007) o tópico predominante dos economistas neoclássicos era o da explicação da «Grande Moderação», o aparente declínio de súbitas subidas de desemprego e de taxa de inflação desde 1990. Robert Lucas, economista laureado com o prémio Nobel, um dos principais arquitectos da moderna macroeconomia neoclássica, exprimiu mesmo a convicção de que a teoria macroeconómica tinha conseguido um capitalismo paradisíaco:
«A macroeconomia nasceu como área distinta nos anos quarenta, integrando a resposta intelectual à Grande Depressão [iniciada em 1929]. O termo referia-se, então, a um corpo de conhecimentos e especialização que esperávamos ser capaz de evitar a recorrência desse desastre económico. A minha tese, nesta apresentação, é a de que a macroeconomia, no seu sentido original, foi bem sucedida: o problema central de evitar depressões foi, em todos os sentidos práticos, resolvido, e foi de facto resolvido por muitas décadas.» (Lucas, 2003).
Já vimos também, nos nossos anteriores artigos sobre a crise do euro, como eram optimistas e seguras as afirmações de destacados economistas, em postos elevados da administração americana, sobre o bom desempenho da economia de que eram gestores. Depois de ocorrer a Grande Recessão, ficou famosa a frase de Ben Bernanke de que «não viram o que estava para acontecer»; isto, quando vários economistas marxistas e keynesianos já tinham visto o que estava para acontecer.
Apesar disso, eles aí continuam, os economistas convencionais, inteiramente convictos das suas teorias e das suas capacidades de previsão, ao serviço dos governos capitalistas. Como o nosso Vítor Gaspar, que recentemente reconheceu timidamente que não previu bem o impacto da austeridade na diminuição de receita pública.
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Continuando a seguir o livro de Steve Keen vamos agora apresentar alguns aspectos relevantes que explicam porque razão as grandes luminárias da Economia convencional (alguns premiados com o Nobel e outros prémios) não viram o que estava para acontecer quer relativamente à Grande Depressão dos anos trinta, quer relativamente a outras crises como a da Grande Recessão de 2007 a 2009 e a crise do euro. Os textos de Steve Keen relativamente a estas questões são longos e nem sempre de leitura fácil. No que se segue limitar-nos-emos a apresentar os aspectos essenciais e, esperamos nós, de uma forma que não levante dificuldades especiais de entendimento.
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Um dos principais defeitos da economia convencional é acreditar que a macroeconomia é (e deverá ser) uma simples extensão da microeconomia; é a de que não há problemas macroeconómicos que não possam ser tratados como equilíbrios estáveis. Já vimos isso em anteriores artigos: a ideia de que basta somar curvas de firmas individuais para obter a curva do agregado. Sem prestar atenção às interacções e retroacções de firmas e consumidores que invalidam tal abordagem. A ideia «reducionista» de que a macroeconomia é uma simples emanação da microeconomia é patente na forma como os economistas neoclássicos encaram a chamada Lei de Say ([1]).
A lei de Say (Jean-Baptiste Say, 1767-1832) diz o seguinte: «a oferta cria o seu próprio consumo». O capitalismo é, assim, o melhor dos mundos porque havendo oferta haverá também consumo que absorverá toda a oferta disponível. A lei ganhou mais tarde uma roupagem moderna, conhecida por Lei de Walras (Léon Walras, 1834-1910): «a soma de todos os excessos da procura em todos os mercados, deve ser zero». A ideia é a de que se num mercado existe um excedente da procura, noutro mercado existirá um deficit e a soma de excedentes e deficits é zero. É sob esta forma que a lei é adoptada pelos actuais neoclássicos, como p. ex. Steve Kates (1998): «a venda de bens e serviços para o mercado é a fonte de rendimento que irá financiar as aquisições».
Com base nestas «leis» os economistas neoclássicos consideram que nunca poderá haver uma queda na economia causada por um deficit geral na procura. Tiram, assim, conclusões como esta: se há uma procura de trabalho muito baixa num dado mercado face à oferta (logo, desemprego) é porque a procura de trabalho excede a oferta noutros mercados; a solução é os trabalhadores do mercado em que a oferta (de trabalho) supera a procura aceitarem um salário mais baixo.
Steve Keen descreve em pormenor os argumentos do primeiro economista clássico a desmontar a Lei de Say: Karl Marx. Marx começou por criticar a ideia de Say de que «todo o produtor pede dinheiro em troca dos seus produtos só com o objectivo de usar de novo imediatamente esse dinheiro na compra de um novo produto» (Say, 1821). Marx apontou que esta afirmação correspondia a dizer que ninguém numa economia de mercado se propunha acumular riqueza. Ora, um aspecto essencial do capitalismo, conforme esclareceu Marx, é precisamente a necessidade de acumulação de capital por parte da classe capitalista. Marx ridicularizou a convicção de Say de que todos os agentes de uma economia de mercado tinham como único objectivo o consumo, uma ficção que ainda perdura nos actuais economistas (para além dos do tempo de Marx). Ficção que mascara a real dinâmica do capitalismo. Diz Marx (em «Teorias de Mais-Valia», 1861, não traduzido em português; o que se segue é tradução nossa do inglês):
«Nunca se deve esquecer que, na produção capitalista, o que interessa não é o valor de uso imediato, mas sim o valor de troca e, em particular, a expansão da mais-valia. Este é o motivo que comanda a produção capitalista, e é uma concepção só engraçada aquela que ¾ com vista a pôr de lado a contradição da produção capitalista ¾ abstrai da sua base própria e descreve-a como uma produção que tem como objectivo a satisfação directa do consumo dos produtores.»
Steve Keen cita ainda outra passagem de Marx (O Capital, vol. II):
«O capitalista injecta menos valor sob a forma de dinheiro na circulação [de capital] do que aquele que retira dela […] Dado que funciona […] como um capitalista industrial, a sua oferta de valor em bens produzidos é sempre maior que a sua procura de valor. Se a sua oferta e procura neste aspecto se igualassem isso significaria que o seu capital não tinha produzido qualquer mais-valia […] O seu objectivo não é igualar oferta e procura, mas sim fazer a desigualdade entre eles […] tão grande quanto possível.»
A dificuldade para Marx era mostrar que a referida desigualdade podia ser explicada sem recorrer à ideia de que havia capitalistas a «roubar» outros capitalistas no mercado e sem violar o princípio de que os bens eram comprados e vendidos a preços justos. A solução de Marx clarifica a falácia subjacente aos argumentos superficialmente apelativos de Say e Walras. A solução marxiana passa por considerar que num processo de mercado há que ter em conta uma fase produtiva em que o valor da saída (produção) supera o valor da entrada: o valor produzido supera aquilo que o capitalista despende em meios de produção e em salários. Obtém, assim, um lucro que lhe permite acumular riqueza. Marx formalizou a análise em termos de dois circuitos, o «circuito dos bens» e o «circuito do capital». O circuito dos bens pode ser representado por:
B – D – B        (bem – dinheiro – bem)
Quem vai ao mercado com bens troca-os por dinheiro para comprar outros bens. Este circuito obedece genericamente à Lei de Walras, embora Marx tenha apontado situações em que mesmo neste mercado pode haver violações da lei. Mas é no circuito do capital que as coisas funcionam diferentemente. Marx representou-o assim:
D – C – D+      (dinheiro – capital – mais dinheiro)
No circuito do capital o capitalista vai ao mercado com dinheiro para adquirir meios de produção e trabalho; no processo produtivo com lucro vai obter mais valor, logo mais dinheiro, do que inicialmente. O circuito completo, formalizado por Marx, é assim:
D   C(T, MP)… P … C+c   D+d
Dinheiro ® Trabalho e meios de produção … produção … diferentes bens de maior valor que trabalho e meios de produção  ® venda de bens para gerar mais dinheiro.
Este circuito viola por completo a Lei de Say e a Lei de Walras. Steve Keen refere que Keynes também escreveu um trabalho (em 1936) em que desmontava a Lei de Say e de Walras. Contudo, fê-lo de uma forma muito confusa por temer (por razões académicas) ser conotado com Karl Marx. Num rascunho de 1933, que não publicou (apareceu postumamente), Keynes usa basicamente os mesmos argumentos de Marx.
Steve Keen descreve em pormenor a influência do crédito nos circuitos económicos acima apresentados. Refere, nomeadamente, a contribuição de economistas como Schumpeter e Minsky ([2]) para a perspectiva económica que designa de Marx-Schumpeter-Minsky, perspectiva essa que trata a produção, a troca, e o crédito, como um todo da economia capitalista. A economia neoclássica, pelo contrário, apenas analisa a troca e a produção considerando o dinheiro como um simples meio de facilitação das trocas. Além disso, a perspectiva Marx-Schumpeter-Minsky incorpora uma visão dinâmica da economia, logo da possibilidade de ocorrência de instabilidade macroeconómica, enquanto a economia neoclássica permanece amarrada à visão da Lei de Walras que diz basicamente que, apesar de aparência de instabilidade, a macroeconomia é realmente estável.
Para os neoclássicos, amarrados como estão à lei de Walras e à visão estática de sequências de estados de equilíbrio, quaisquer problemas da economia global são apenas sinais de mau funcionamento dos mercados, nomeadamente do mercado de trabalho; se os mercados funcionassem bem nenhum problema aconteceria. Steve Keen apresenta no seu livro um longo trecho de um economista neoclássico de nomeada (Edward Prescott, prémio Nobel da Economia, num artigo de 1999) que diz fundamentalmente isto relativamente à Grande Depressão americana: "aconteceu algo que levou os trabalhadores a decidir trabalhar menos e este aumento de ócio foi reportado pelas agências estatísticas como aumento de desemprego; esse algo foi uma mudança de política governamental, que tornou racional os trabalhadores voluntariamente reduzirem o tempo de trabalho com vista a maximizar a utilidade das suas vidas". Depois destes disparates de um Nobel neoclássico será de admirar que eles não tenham visto o que estava para acontecer?

[1] Steve Keen inclui no livro uma interessante discussão do reducionismo em Ciência. Refere, por exemplo, como a biologia, a química e a física se libertaram há muito das grilhetas do reducionismo: supor, p. ex., que a biologia não é mais do que ter em conta processos químicos, que a química não é mais do que ter em conta interacções de iões obedecendo às leis da física, etc. Já de há muito tempo que estas ciências chegaram à conclusão de que «o todo é maior que a soma das partes». Incidentalmente, esta é também uma ideia presente na dialéctica marxista.
[2] Hyman Misnky (1919-1996) foi um economista americano, keynesiano, de tendência radical. Steve Keen refere que Minsky omitiu a referência a Marx no seu próprio trabalho por o ter publicado no tempo do macartismo dos EUA, logo para evitar perseguições políticas.