terça-feira, 9 de outubro de 2012

Fim-de-semana de aldrabices… premeditadas

Este último fim-de-semana do 5 de Outubro foi rico em aldrabices proferidas pelos políticos da área do Poder: PS, PSD e CDS. São aldrabices cujo grau de absurdo é tão elevado que faz pensar que para esses políticos «a lógica é uma batata».
Será simples falta de raciocínio lógico? Não, as aldrabices têm um fim: aldrabar o povo, é claro. São proferidas premeditadamente com vista a atingir esse fim.
Comecemos pelos políticos da área do PS que arrebataram o prémio da aldrabice este fim-de-semana:

PS
1- António José Seguro
Anunciou no jantar comemorativo do 5/10 que o PS vai apresentar até ao final do ano uma proposta de alteração da lei eleitoral para a Assembleia da República (AR) com o intuito de reduzir o número de deputados. Justificação dada: «maior proximidade entre eleitos e eleitores».
Isto é, para o PS, a proximidade entre eleitos e eleitores depende inversamente do número de deputados. Com um único deputado obter-se-ia o máximo de proximidade. Se todos eleitores fossem deputados, obter-se-ia o mínimo de proximidade entre eleitos e eleitores. Lógico, não é? Tudo em nome da democracia, estão a ver? Tudo em nome da «maior proximidade entre eleitos e eleitores».
O que está por trás desta aldrabice? Simplesmente isto: O PS pretende desde já assegurar papel dominante nas próximas eleições e arredar do hemiciclo a incómoda oposição de esquerda, para poder com todo o à-vontade seguir a mesma política de direita que, com o concurso do PSD-CDS, levou ao estado em que estamos. Para o PS, tal como para o grande capital, o cenário paradisíaco seria uma AR só com PS e PSD. Um casamento PS-PSD então seria de ir às nuvens! Assim, sim, tudo estável, como tem dito o Cavaco e outras vozes do «governo de salvação nacional [de direita]»; tudo ao serviço do grande capital. Aliás, se bem se lembram, estabilidade e posição construtiva têm sido palavras repetidas por Seguro nestes últimos tempos (ver outros artigos neste blog).

2- Jorge Sampaio
«Já temos muito ruído, precisamos de estabilidade para enfrentar as dificuldades que temos para a frente.» Oh povo! Não vos manifesteis! C'os diabos, com o vosso ruído ainda incomodais os nossos governantes! Então não ouvistes dizer mais do que uma vez «deixai-nos governar»? Prestai, então, atenção às doutas palavras de Jorge Sampaio (ainda por cima, de alguém que já foi do Movimento de Esquerda Socialista; isto é, socialista dos quatro costados) e mantende-vos quietinhos. Tende em conta que foi o vosso anterior ruído e consumo com'ó diabo que deu cabo do país. Agora, por vossa culpa, estão os nossos sábios governantes, que vos são tão dedicados, a tentar endireitar as coisas e vocês a fazer ruído.

PSD
1 - Jorge Silva, vice-presidente do PSD: «[António Costa] veio basicamente dizer que a culpa é da Europa e não de um país que viveu 10% acima das suas possibilidades» Este é dos tais que, relativamente a um imaginário país em que metade da população comesse 1 galinha e a outra metade 0 galinhas, diria que todos comem muito bem porque em média comem meia galinha. Lógico, não é? É mais que sabido que as desigualdades sociais são elevadas em Portugal e só têm aumentado. É mais que sabido que os salários de milhões de trabalhadores não tiveram aumentos reais ou, quando tiveram, foram modestíssimos; isto para não falar nos cerca de 400 mil de portugueses que recebiam em 2009 o Rendimento de Inserção Social; isto é, recebiam uma média de 89 euros por mês. Ao invés, os rendimentos dos mais ricos, dos 1% do topo, não têm parado de crescer atingindo níveis absolutamente imorais. E fala este em «de um país que viveu 10% acima das suas possibilidades». Qual país? O dos ricos? Esse viveu uns 1000% acima das suas possibilidades.
Jorge Silva não saberá isto? Provavelmente sabe, só que usando números atirados ao ar limpa a classe política do PSD; limpa precisamente os que têm vivido à custa do povo trabalhador, dos que têm vivido uns 1000% acima das suas possibilidades.

2 – Eduardo Catroga deu uma longa entrevista ao JN neste fim-de-semana. Diz-se independente mas foi conselheiro de Passos Coelho. A entrevista merece uma longa desmontagem pelos mitos da direita que volta a repetir, como o da culpa da crise ser da despesa pública, o que não é verdade (ver nosso artigo «A Crise do Euro, III» neste blog onde este assunto é analisado em detalhe); é um mito caro à direita porque coloca a culpa do lado do povo, do lado do chamado «Estado Social», retirando a culpa do lado dos ricos, donos do grande capital. Essa longa desmontagem esperamos fazê-la noutra altura. Para já, comentamos apenas esta afirmação de Catroga: «Os ricos também são poucos. Mesmo que os ricos pagassem 100% de imposto, tínhamos de ir à chamada classe média».
Acha poucos? Que dizer então do facto de, em número de bilionários por habitante, estarmos em 2011, já em plena crise, no destacado lugar de 33.º em 53 países acima de países como a França, Japão e Brasil? (Estudo da revista Forbes de 2011; bilionários são pessoas com fortunas em dinheiro superior a mil milhões de dólares.) Que dizer ainda do facto de em 2008 as fortunas dos 100 mais ricos portugueses valerem 1/5 da riqueza produzida em Portugal? (Exame, Agosto de 2008.) E de em 2011 essa fortuna ter aumentado 17,8%?! (Exame, Agosto de 2011.)
Mas se calhar, dir-me-á que estou a falar de fortunas (que, sabe-se lá, poderão só ter vindo de pais e avozinhos) e não de rendimentos anuais sujeitos a fisco. Olhemos então para este aspecto: segundo a distribuição de rendimentos em Portugal (dados do Eurostat) em 2010 99% das famílias portuguesas tinham um rendimento anual correspondente a 92,4% do PIB. Isto é, os mais ricos, no 1% do topo de rendimentos, detinham em conjunto 7,6% do PIB. Se pagassem de impostos 50% dos rendimentos (vamos ser mais modestos que o Catroga), ainda assim corresponderia a 3,8% do PIB. Digamos que, mesmo assim, era uma excelente ajuda para diminuir a dívida pública; tanto mais que as medidas do Gaspar só a têm aumentado!
Será que Catroga não conhece estes números? Se sim, parece que a conclusão óbvia é de que Catroga é incompetente. Mas provavelmente Catroga até não é tão incompetente como isso; pela nossa parte acreditamos que a sua aldrabice sobre a debilidade dos ricos é premeditada: martelar a ideia de que a culpa da crise é do povo trabalhador.

CDS
Nuno Magalhães, deputado: «Esperaria [que António Costa] pudesse… explicar melhor a situação a que chegámos» Sabem, é que o Nuno Magalhães ainda não percebeu porque chegámos a esta triste situação. Está aí alguém para lhe explicar? Pois se o CDS está limpo e puro que nem uma flor, já que não participa neste governo nem participou em anteriores governos, não é? Hipócrita aldrabice!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Gaspar ao ataque; PS-UGT assistem.

Gaspar anunciou ontem um novo pacote de medidas contra o povo trabalhador:
-       O maior aumento de IRS de sempre: somados os efeitos da redução de escalões com a aplicação de uma sobretaxa de 4%, a taxa média efectiva de imposto que incide sobre o rendimento dos portugueses vai subir de 9,8% para 13,2%. Um agravamento de 34,6%!
-       Quem vai sofrer com isso é a «classe média», eufemismo que designa quem ganha mais de cerca de 1500 €/mês; contudo, os novos escalões ainda não foram revelados, pelo que as medidas podem vir a afectar quem ganha menos de 1500€/mês. São também particularmente afectados os funcionários públicos.
-       Nas contas do bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas, o efeito médio será de perda de um mês de salário! Isto é, a acumular ao corte de subsídio de férias e de Natal (13/10/2011) muitas famílias vão passar de 14 salários mensais para 11 no curto espaço de cerca de um ano. E mais: vai funcionar por retenção na fonte!
-       O IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) vai aumentar, já a partir de Janeiro, para cima de 30% mais (ou valores superiores).

Com estas medidas Gaspar espera um encaixe de 3 biliões de euros, bem maior (cerca do triplo segundo algumas contas) do que aquele que conseguiria com a alteração da TSU. Isto é, a resposta de Passos-Gaspar às demonstrações de descontentamento popular, foi como prevíamos (ver n/ anterior artigo «Por enquanto, Passos-Gaspar 1, Povo 0») não ligar nada a esses factos sem importância – até disse chocarreiramente, que as manifestações tinham decorrido com muita dignidade, ou como diria outro, «o povo é sereno» (Pinheiro de Azevedo em 1975) – e passar ao ataque.
Estas medidas surgem cumulativamente a outras: cortes salariais, menos isenções na saúde, corte de subsídios de Natal e férias, scuts a pagar, degradação dos serviços sociais, aumentos da água, gás e luz, etc., etc.
Entretanto, Gaspar também se lembrou dos capitalistas. Anunciou taxas sobre transacções financeiras (Oh gentes da CGTP! Estais a ver que não havia necessidade de pôr tal nas vossas propostas, porque o Gaspar também se lembrou disso?) e diminuição de escalões no IRC. Quanto à segunda, vai diminuir o número de escalões; ainda se sabe mal o que isso vai significar. Quanto à primeira, menos se sabe. Sobre especulação bancária e grandes fortunas, nicles.

Mas, afinal, porquê estas novas medidas? Justificou-se Gaspar dizendo que era por causa do deficit orçamental estar em 6% em vez dos 4,5% que esperava ter no final de 2012 ter com as medidas anteriores. Isto é, Gaspar enganou-se e, como se enganou, paga o povo trabalhador. Ora, como o génio de Gaspar não se tem mostrado muito bom a fazer contas, podemos ter a certeza que irá reconhecer mais tarde (digamos Setembro de 2013, se chegar até lá) duas coisas: 1 - que afinal não eram 6%, era algo mais; 2 – que as novas medidas não deram os resultados que queria, pelo que são necessárias novas medidas sobre os trabalhadores.

E isto tudo num clima em que a nojeira continua impune. Por exemplo, ficou agora a saber-se que afinal o rombo do BPN (por outras palavras, o dinheiro que oficialmente ainda não se sabe muito bem onde está, mas oficiosamente já se sabe a avaliar pelos dirigentes que foram constituídos arguidos) é de 3,5 biliões de euros e não de 1,8 biliões como inicialmente se pensava; o dobro! O BPN para quem já se esqueceu era o banco de Oliveira e Costa, Duarte Lima, Khadafi, Dias Loureiro, etc. Dizia o Jornal de Notícias (3/10) que o rombo do BPN dava para pagar 5 meses de salários à função pública ou, em alternativa, para pagar o dobro da sobretaxa cobrada aos trabalhadores sobrando ainda dinheiro para a redução da TSU e a aquisição de 2 submarinos! Entretanto, as participações de corrupção ao PGR aumentam; em 2011 foram mais 2555 participações. (Os media deviam divulgar os resultados destes processos. O PCP e o BE deviam, a nosso ver, contribuir e insistir para que o povo conheça esses resultados; para que o povo saiba a que nível de ladroeira chegou o capitalismo em Portugal.)

O sector produtivo continua a ser destruído. Agora foi a vez da fábrica Valadares (fundada em 1921 e bem conhecida a nível nacional e internacional) declarar insolvência.
Cavaco Silva (o homem das acções da Sociedade Lusa de Negócios, proprietária do BPN) apela a mais crescimento económico. Como é que espera que tal seja conseguido com a actual política Passos-Gaspar? Ou trata-se apenas de um apelo platónico?

E que dizem PS e UGT de tudo isto?
Bom, a UGT tem dito pouco; a única afirmação positiva é de que não alinhará na greve geral de 14 de Novembro anunciada pela CGTP. Também já não tinha alinhado na manifestação de Sábado, 29 de Outubro. Safa! Era o que faltava estar agora ao lado de maltrapilhos que se insurgem contra um governo legítimo!
O PS também afina por um diapasão semelhante. Rejeita as moções de censura do PCP e do BE. Diz Seguro que isso é resistir ao «populismo fácil» e que «As moções de censura não são para brincar e há quem brinque às moções de censura e seja mesmo viciado nelas.» Ainda se ao menos houvesse motivos para moções de censura, como por exemplo o governo estar a destruir a economia do país e a vida dos trabalhadores; então aí, sim, não seria «populismo fácil» e não se estaria a «brincar» às moções de censura. Ora, pelos vistos no entender do PS não é nada disso que se passa. Ainda p'ra mais PCP e BE são «viciados» em moções de censura. Então não é que neste governo do Passos Coelho já apresentaram p'ra aí umas dez? Não, o PS irá apresentar «propostas alternativas» durante o debate do Orçamento de Estado; irá prosseguir na sua linha de «abstenção violenta e construtiva». Disse também o impagável Francisco Assis que os «socialistas» estão equidistantes da «direita neoliberal» e da «extrema-esquerda neomarxista». Que estão distantes do marxismo e da defesa dos interesses dos trabalhadores, sem qualquer dúvida. Já quanto à direita neoliberal, como se tem verificado desde há largos anos e, em particular, com o anterior governo Sócrates, a distância é curta. E mais outra coisa: não existe neomarxismo; existe apenas marxismo. O Francisco Assis devia estar a pensar em neomodernismo e coisas semelhantes; lá para as bandas ideológicas dele é que há uma profusão de «neo» e «pós».

Até quando vai o povo trabalhador português aguentar isto? Até quando vai permitir ser enganado?

«Acordai!»

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Economia convencional: uma pseudociência (IIb)

IIb. A curva da procura de mercado
No último artigo vimos que tipo de curva da procura de mercado os economistas gostam de considerar (estamos a seguir o livro de Steve Keen Debunking Economics; ver parte I neste blog): preço descendente com o aumento da quantidade. Vamos agora ver as razões que fundamentam tal tipo de curvas.
A ideia chave é a ideia de utilidade (benefício ou preferência) de um bem. Consideremos um único consumidor e dois tipos de bens: maçãs e laranjas. Suponhamos que o consumidor atribui valores de utilidade a esses bens segundo a regra: a utilidade é crescente com a quantidade (mais quantidade de qualquer um dos bens é sempre mais útil). Olhemos para a figura 1. Qualquer que seja a quantidade de laranjas (5, 10, etc.) a utilidade das maçãs cresce com a quantidade. Por exemplo, com zero laranjas 5 maçãs têm 0,2 de utilidade. Utilidade essa medida numa escala perfeitamente arbitrária; na figura a escala vai de 0 a 1, mas podia ser qualquer escala crescente. Para zero maçãs, 5 laranjas têm 0,22 de utilidade. Como a utilidade deve ser sempre crescente com a quantidade de qualquer dos bens, 5 maçãs e 5 laranjas com 0,8 de utilidade (seguir as curvas da figura 1) obedecem de facto à regra (0,8 é maior que 0,2 e 0,22).

Fig. 1

Em suma, a superfície crescente da figura 1 obedece à regra da utilidade. Temos assim satisfeito um dos axiomas a que deve obedecer o «consumidor racional», segundo os economistas neoclássicos. Outro axioma é o da continuidade: as superfícies de utilidade têm de ser contínuas. Portanto, quando o leitor for ao supermercado como «consumidor racional» terá de começar por construir uma superfície de utilidade contínua; por exemplo, entre 2 e 3 maçãs, terá de ver qual a utilidade que atribui a 2,5 maçãs, 2,5101 maçãs, etc.; é melhor ir preparado com um canivete ([1]).
Suponhamos que se fixa uma utilidade constante; por exemplo, de 0,8. Obtém-se então uma «curva de indiferença» (ou de igual utilidade), figurada a cheio na figura 1. As curvas de indiferença obviamente não se cruzam ([2]).
Outro axioma do «consumidor racional» imposto pelos economistas é o de que cabazes equilibrados de bens devem ser preferidos a cabazes extremos. Vejamos o que isto quer dizer com a ajuda da figura 2, onde se figuram duas curvas de indiferença de dois bens: x e y. O que os economistas pretendem (mais outro requisito do «consumidor racional») é que quando se toma qualquer combinação de duas quantidades dos dois bens – no caso da figura as médias das quantidades de x1 e x2 e de y1 e y2 –, deve-se obter um maior valor de utilidade que nos extremos. Exemplo concreto para 2 e 6 maçãs ou laranjas (x1=y1=2; x2=y2=6): a utilidade de 4 laranjas e 4 maçãs é maior do que a utilidade de 2 laranjas e 6 maçãs ou de 2 maçãs e 6 laranjas. Com este requisito (satisfeito pelas curvas de indiferença das figuras 1 e 2) obtêm-se curvas convexas («abrindo» para cima) que permitem obter o efeito que os economistas pretendem.

Fig. 2
Estamos agora em condições de passar àquilo que Steve Keen designa por «cálculo do hedonismo»: a maximização da utilidade. Suponha o leitor que dispõe de 10 euros e o preço das laranjas é de 1 €/kg e o das maçãs 2 €/kg. Se não comprar laranjas, então pode comprar 10/2 = 5 kg de maçãs; se não comprar maçãs, pode comprar 10/1 = 10 kg de laranjas. Um pouco de reflexão mostra que, de facto, pode comparar qualquer combinação de laranjas e maçãs sobre a recta da figura 3 que une os pontos (0,5) a (10,0).
Fig. 3
Qual a melhor combinação, no sentido de maximizar a utilidade? É fácil constatar que tal corresponde ao ponto de tangencia da recta com a curva de indiferença mais afastada, correspondendo a maior utilidade. Na figura 3, essa combinação óptima é de 3,5 kg de maçãs e 3 kg de laranjas (corresponde efectivamente a 3,5´2 + 3´1 = 10 euros; [3]).
Suponhamos, então, que mantemos fixo o preço das maçãs e desejamos encontrar qual é a minha (isto é, de um consumidor) curva (óptima) de procura de mercado. A construção a efectuar está ilustrada na figura 4. (Na figura as indicações numéricas das quantidades de laranjas não estão à escala, mas tal não prejudica a compreensão do que se diz abaixo.)

Fig. 4

Em cima temos um gráfico semelhante ao da figura 3. O orçamento disponível é fixo: 10 €. O preço das maçãs é fixo: 2€/kg. Só pode variar o preço de um dos bens, neste caso, o das laranjas. Vemos a mesma recta para o preço das laranjas=1€/kg que mostrava a figura 3 com a quantidade óptima de laranjas do «consumidor racional»: 3kg. O gráfico em baixo relaciona quantidade de laranjas com o seu preço por kilo: marcamos, então, o ponto 1€/kg em correspondência com 3 kg de laranjas. Fazemos, em seguida variar o preço das laranjas; seja 2€/kg, o que corresponde à recta a vermelho (10/2=5 kg de laranjas se quantidade de maçãs=0). Determinamos a nova quantidade óptima (temos de ter «todas» as curvas de indiferença): 2 kg (por exemplo; depende das curvas de indiferença). Temos mais um ponto para o gráfico abaixo: para 2€/kg, 2 kg de laranjas. Etc. A construção repete-se e no fim, juntando todos os pontos, temos a curva da procura das laranjas no mercado para um consumidor.
Para curvas de indiferença que satisfaçam os requisitos acima a curva da procura encontrada é descendente e convexa; exactamente como os economistas neoclássicos gostam.
A construção efectuada para dois bens pode generalizar-se para mais de dois bens.
Podemos desde já assinalar um gravíssimo problema associado a esta laboriosa construção: Nenhum consumidor é «racional» segundo a teoria exposta. É simplesmente impossível a qualquer consumidor aplicar a construção acima.
No mundo real qualquer consumidor aplica uma variedade de regras simples e práticas quando vai ao mercado. Mas, na hipótese sumamente improvável de um consumidor se dar ao trabalho de aplicar a teoria exposta, depararia com duas inultrapassáveis dificuldades: 1 – É simplesmente impossível determinar pontos óptimos porque todas as quantidades de bens são representadas por valores inteiros. Já assinalámos isso acima: as laranjas podem vender-se à peça ou em sacos de determinado peso; nunca se vendem meias laranjas, etc., assim como não se vendem meios sacos de arroz, etc. 2 – Num cabaz de compras não muito pequeno, contendo por exemplo 12 bens, mesmo que um consumidor dispusesse de toda a paciência do mundo para fazer a construção acima, normalmente não o conseguiria. De facto, suponhamos que cada um dos bens tem 4 possíveis quantidades de aquisição; então os cálculos teriam que ter em conta 412 = 16,7 milhões de cabazes de compras diferentes! Se o carrinho de compras contiver 20 bens e cada bem tiver 3 quantidades diferentes de escolha, o total de diferentes carrinhos de compras possíveis é simplesmente astronómico: 320=3.486.784.401! Nem com a ajuda de um computador o consumidor conseguiria ser «racional». Diz Steve Keen, no seu livro, que os neoclássicos assobiam p'ro lado; ficam impávidos e serenos perante estas constatações.
No próximo artigo veremos o que acontece quando, em vez de um, temos mais de um consumidor. Migramos, portanto, da micro para a macroeconomia. Veremos que, mesmo seguindo à risca toda a teoria anterior, o resultado é uma machadada final na curva da procura de mercado descendente.

 [1] Esta observação pode ser respondida dizendo que se trata apenas de um modelo matemático. Contudo, esta resposta não colhe, porque o tratamento matemático prosseguido pelos economistas leva ao cálculo de derivadas parciais para calcular pontos de tangencia. Quer as derivadas parciais quer os pontos de tangencia não estão definidos num espaço discretizado de bens. Mesmo aplicando métodos interpolativos de aproximação, resta a questão dos bens com muito poucos valores discretos. Por exemplo, a aproximação discreta de derivadas parciais e de pontos de tangencia é arbitrariamente má quando só existem dois valores para um bem (p. ex. 0 sacos e 1 saco).
[2] Os economistas chamam a isto o resultado da transitividade: se A é mais útil que B e B mais útil que C, então A é mais útil que C. Um «palavrão» para designar algo que decorre obviamente da superfície ser monótona crescente.
[3] Para os que gostam do rigor da matemática o ponto óptimo é dado por px/py = -dy/dx, onde os p's designam preços e x e y as quantidades.