Chamámos já a atenção, no início deste trabalho, para o mito muito espalhado pelos media ao serviço do capitalismo: a crise era imprevisível, tendo apanhado «toda a gente» desprevenida. De facto, não é assim. A crise foi prevista por vários economistas, com especial destaque para os keynesianos e marxistas ([9, 11, 22]). Para dar um exemplo, o economista marxista Michael Roberts dizia assim em Junho de 2005 ([9]): «A economia mundial está a ser sustentada pelos gastos de consumo dos EUA e as manufacturas chinesas. Os gastos de consumo dos EUA baseiam-se na ilusão de valores imobiliários crescentes, mas estes não podem crescer sempre. A bolha imobiliária dos EUA rebentará e quando o fizer terá efeitos devastadores em toda a economia mundial […] O valor total das habitações na OCDE mais que duplicou, de 30 biliões para 70 bilões de dólares nos últimos cinco anos, e é agora equivalente a mais de 100% da produção anual destes países. Isto é uma bolha puramente especulativa. […] a associação imobiliária dos EUA revelou que uma em quatro propriedades compradas em 2004 era para investimento e não para ocupação […] E estão a financiar este regabofe com emprestadores hipotecários que oferecem hipotecas a 100% ou ainda maiores a juros reduzidos (60% das hipotecas da Califórnia eram assim em 2004). Agora o Banco de Reserva Federal dos EUA está a aumentar as taxas de juro. Isto acabará for influenciar as taxas hipotecárias. […] Isto anuncia falência!». No início de 2006 Michael Roberts previu que a crise ocorreria em 2009-2010; enganou-se num ano.
Entretanto, as mais importantes figuras do capitalismo mundial diziam que tudo ia bem. (As citações que se seguem provêm de [9], de onde retirámos também muitas das informações contidas nesta secção.) Em 2003 Robert Luca, presidente da American Economic Association dizia que «o problema central da depressão-prevenção foi resolvido». Em Março de 2005 Ben Bernanke, actual presidente do Banco de Reserva Federal, declarou: «subidas de valor de habitações, com crescimento do mercado bolsista, ajudaram a riqueza familiar, através de refinanciamento e de linhas de crédito. Preços de casa mais altos encorajaram por seu turno as famílias a dispender em consumo - tudo isto são boas notícias». Um ex-director da National Association of Realtors distribuiu em Agosto de 2005 Anti-Bubble Reports para «responder às acusações irresponsáveis sobre a [existência da] bolha feitas por meios de comunicação e académicos locais.». Em Fevereiro de 2006 dizia assim Ben Bernanke na sua primeira alocução como presidente da Reserva Federal: «[…] uma estabilização ou uma suavização modesta na actividade imobiliária parece ser mais provável do que uma contracção séria.». Por essa altura, o principal economista da Freddie Mac, uma empresa hipotecária semi-estatal que entrou em insolvência em consequência da crise, e o director do Joint Center for Housing Studies negavam a existência da bolha imobiliária.
Antes, durante e depois da crise, vários economistas marxistas, baseando-se na análise da evolução do sistema capitalista, revelaram as causas profundas subjacentes à crise, bem como as suas causas próximas. Entretanto, já depois da crise, dispondo de uma enorme riqueza de indicadores e dados económicos objectivos, continuou-se a assistir a «análises» de economistas ao serviço do capitalismo de uma espantosa pobreza e vistas curtas. Vejamos alguns exemplos. Alan Greenspan, o ex-director do Banco de Reserva Federal antes de Ben Bernanke (nomeado por Ronald Reagan) defendia que a revolução da Internet e a alta tecnologia trariam um período ininterrupto de crescimento. Quando a crise ocorreu Greenspan não teve nada melhor a dizer que a crise tinha a ver com a «natureza humana» porque os humanos são «gananciosos e egoístas». Quanto a Ben Bernanke dizia em Novembro de 2007 que as dívidas no sistema financeiro se situariam entre 10 e 150 biliões de dólares; elas atingiram 1,6 triliões! Greenspan e Bernanke eram autoridades máximas, cujas palavras eram artigo de fé, sobre as perspectivas do capitalismo e as razões porque este sistema opera de forma tão bem sucedida.
Vejamos a sucessão de eventos que conduziu à crise:
1 – A partir de 1997 a taxa de lucro marxista começa a baixar. A crise dot-com era um reflexo da transferência de capitais do sector produtivo (electrónica e computadores, tinham entrado em baixa devido à queda dos preços, i.e. uma consequência da LQTTL) para o sector financeiro e com fins especulativos.
2 – Activos ligados ao sector imobiliário são dos preferidos para especulação financeira, então como sempre. Começa em 2002 essa especulação estimulada por juros baixos (a Reserva Federal tinha-os baixado para 1%). Alan Greenspan declara publicamente que para fazer crescer a economia americana era uma boa ideia pedir empréstimos e gastar em consumo.
3 – Os bancos e instituições de financiamento hipotecário começam a emprestar a baixo juro, concedendo também facilidades de empréstimo para carros, consumo, férias, etc. Muitos empréstimos são especulativos: compram-se propriedade para depois as vender aproveitando a subida do preço. O método de sobre-hipotecar, emprestando mais dinheiro para aumentar o rendimento familiar, era corrente. O mercado imobiliário disparou: preços crescentes alimentando maiores hipotecas e estas maiores preços, numa aparência de grande prosperidade.
4 – Muitas hipotecas eram subprime: o contraente do empréstimo oferecia um elevado risco de incumprimento (um título subprime é literalmente um título de «sub-qualidade»). Elas eram concedidas; o juro era mais elevado (dado o maior risco) rendendo assim mais ao banco. A própria ideia subjacente do aumento do preço das casas - 15% ao ano - fazia diminuir a importância do risco. No caso de execução de hipoteca o activo tinha-se valorizado.
5 – Os bancos começaram a criar derivativos futuros de títulos hipotecários. Para os tornar atraentes «ensanduichavam» títulos subprime com títulos prime (baixo risco) dando-lhes uma cotação 'AAA'; à sanduíche chamavam Collateralised Debt Obligation (CDO). Gestores de fundos de cobertura começaram a vendê-los no mercado de derivativos, contaminando instituições pelo mundo fora. De repente a venda de valores mobiliários de hipotecas (derivativos e CDOs) cresceu espantosamente a nível mundial: as vendas de subprime passaram a corresponder a um montante de 3 triliões de dólares; as prime alcançaram 25 triliões.
6 – Os bancos criaram companhias independentes para retirar riscos das suas contabilidades. De repente muitos bancos com activos assegurando 10% dos empréstimos tinham agora activos assegurando apenas 5%, ou mesmo 2% no caso de grandes bancos e instituições hipotecárias. A alavancagem era agora de 50 para 1. Insitutições financeiras como por exemplo a Lehman Brothers, estavam fortemente alavancadas com um nível oficial de 30,7 para 1, mas que veio a ser reconhecido como mais alto pelos auditores após a declaração de insolvência. No final de 2007 a Lehman tinha 738 biliões de dólares em derivativos e outros títulos de alto risco.
7 – Em 2007 o sector financeiro contabilizava nas contas públicas 41% de todos os lucros dos EUA! O dinheiro estava a ser usado para «fazer» dinheiro. Claro que isto não se poderia aguentar porque chega uma altura em que o dinheiro tem de corresponder à produção de valores concretos, reais. Estava-se perante um gigantesco esquema tipo Dona Branca (os americanos chamam-lhe esquema Ponzi, nome de um italiano que actuava do mesmo modo) com o desenvolvimento de uma pirâmide de acumulação de títulos de dívida e derivativos (vendidos e revendidos vezes sem conta) com a promessa de pagamento de altos juros, não suportada por nenhuma produção real. Este crescimento desmesurado de capital fictício é patente na Figura 11 ([9]). Enquanto a taxa de lucro cai a partir de 2002 (com uma recuperação episódica em 2003) o crédito global não parou praticamente de crescer, atingindo quase 220% do PIB em 2007. A maior parte deste crédito circulou em sectores improdutivos, alimentando salários e lucros chorudos, mas sem criar valor.

Fig. 11. Evolução do crédito total em percentagem do PIB e taxa de lucro dos EUA. Fonte: [9].
Em 2005 começam a perfilar-se algumas nuvens no horizonte. A crise vai iniciar-se e afecta todo o mundo capitalista:
1 – Em Junho de 2005 a inflação crescente força a Reserva Federal a mudar de política e, num período de 18 meses, o juro a 18 meses sobe de 1% para 5,25%. As taxas de hipotecas crescem.
2 – Em 2005 os preços das casas estavam muito acima do que a família média dos EUA podia dispender, até porque a diminuição da taxa de lucro tinha forçado os capitalistas dos sectores produtivos a exercer pressão para a diminuição dos salários, conforme se vê na Figura 12: em 2004 os salários baixaram, tiveram um aumento em 2005, em 2006 estabilizaram, vindo em 2007 (ainda antes da crise se declarar no final de 2007) a cair drasticamente. Um número impressionante de casas ficaram sem comprador apesar dos construtores concederem descontos e incentivos.
Fig. 12. Salário médio em dólares dos trabalhadores em sectores industriais (manufacturas) dos EUA. Figura construída com os dados do BEA (NIPA-Table 6.6) ajustados pela taxa de inflação.
3 – Os incumprimentos (e correspondente execução) de hipotecas subprime que até 2006 eram de 3% passaram em 2007 a crescer 15% ao ano. De repente os bancos viram-se confrontados com perdas sensíveis. A espiral de crédito (a pirâmide tipo Ponzi) entra em colapso e o capital fictício revela-se tal como é: uma fantasia que não assenta em valores concretos. Contudo, já perto do colapso da bolha em Junho de 2007, Bernanke desmentiu qualquer crise do capitalismo: «Não observamos nenhuns contágios sérios de outros sectores da Economia».
4 – Com a taxa de juro e incumprimentos de hipotecas a aumentarem (começando pelos subprime), e as vendas de casas a diminuir, os Bancos entrram em pânico. Inicia-se o colapso do crédito bancário (mesmo entre bancos). Em Abril de 2007 o New Century Financial, o maior negociante em subprimes, declara falência. Em Agosto e Setembro o colpaso alastra a todas as instituições bancárias mundiais com valores mobiliários baseados em subprimes: BNP Paribas, Banco da China, UK Northern Rock. Os bancos perderam tanto dinheiro na anulação de activos que já não podem conceder créditos. Terão de arranjar primeiro novos capitais e investidores.
5 - A Reserva Federal injecta biliões de dólares para empréstimo aos bancos a baixo juro. De pouco serve. Com os preços das casas a baixar a crise aprofunda-se. Em Agosto o American Home Mortgage declara falência. O Countrywide Financial Corporation, a maior instituição de gestão de hipotecas só evita a falência com um empréstimo de emergência de 11 biliões de dólares.
6 – Em 2008 continuam as insolvências, como a da Lehman Brothers, uma instituição com 158 anos. Dão-se também fusões compulsivas: por determinação governamental o Banco da América, mediante um pagamento de 50 biliões, absorve em Novembro a Merrill Lynch, o maior banco de investimento mundial. As maiores instituições semi-governamentais de empréstimos hipotecários, a Fannie Mae e a Freddie Mac com 40% das hipotecas dos EUA e um portfolio de 5 triliões de títulos de dívidas, tiveram de ser nacionalizadas… pela administração Bush (!) A Reserva Federal injecta em Dezembro 40 biliões no sistema bancário em coordenação com bancos do Canadá, Suíça e União Europeia. Entretanto, em Setembro de 2008 o presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke ainda dizia que a bolha não custaria mais que 50 biliões e algumas falências em pequenos bancos regionais. Ora, em 2008, as perdas bancárias já atingiam 10 vezes mais: 500 biliões de dólares.
7 – Em Março de 2008 a Bear Stearns, um grande banco de investimentos estava insolvente. O governo permitiu então que o JP Morgan-Chase, um banco ainda maior, ficasse com o Bear Stearns numa compra ao desbarato com as dívidas da Bear Stearns garantidas por fundos da Reserva Federal; isto é, dos contribuintes. Em Setembro de 2008 a maior companhia de seguros, a AIG, declara falência: entre outras dívidas devia 13 triliões de dólares à Goldman Sachs. O governo americano resgatou a Goldman Sachs em 120 biliões, para que esta pudesse pagar aos credores. Entretanto, os directores da Goldman Sachs recebiam bónus de dezenas de milhões!
8 - O número de execução de hipotecas continua a aumentar. Em 2006 são mais 42% de incumprimentos que em 2005; mais 75% em 2007 que em 2006, mais 81% em 2008 que em 2007 e mais 21% em 2009 que em 2008 (ver Figura 13).
Fig. 13. Execução de hipotecas nos EUA durante a crise da bolha imobiliária. T1 a T4 designam os trimestres de cada ano. A figura é adaptada da wikipedia/en que refere como fonte a RealtyTrac Press Releases (U.S. Foreclosure Market Report).
9 – Entretanto o mercado bolsista reflecte o colapso do capital fictício. As acções da Fannie Mae e Freddie Mac ruíram em 2008. Em Junho de 2010 deixaram de constar do New York Stock Exchange (NYSE).
A crise provocou resgates governamentais pelo Banco de Reserva Federal, à custa dos contribuintes, como já dissemos atrás. Como em qualquer crise as soluções dos capitalistas e seus serventuários são sempre as mesmas: abates de capital (em 2008 120 biliões de dólares de capital fictício tinham sido liquidados), despedimentos em larga escala e corte de «ramos inúteis», esbanjadores de capital: saúde, educação, etc.
A Crise das Dívidas Soberanas
A crise do euro tem como causa subjacente a mesma da bolha imobiliária americana: hipervalorização dos interesses do capital financeiro, motivada pela queda da taxa de lucro dos sectores produtivos e justificada pela pseudo-ciência neoliberal. O sector imobiliário foi um responsável importante pelo excesso de dívidas; mas existem outros factores responsáveis, cujo grau de importância varia de país para país. Começaremos por apresentar alguns indicadores económicos da zona euro, que fornecem o enquadramento necessário à compreensão de parâmetros influenciadores da crise.
A União Europeia e a Zona Euro
O projecto europeu nasceu a seguir à 2.ª Guerra Mundial, quando os capitalistas alemães e franceses decidiram criar um forte poder competitivo face ao capitalismo americano e japonês. A Alemanha, potência dominante na União Europeia (UE) e na zona euro (ZE), é quem dá as cartas (leia-se: a sua classe capitalista); tem inclusive força para impor governos (de banqueiros) noutros países (casos da Grécia, com a saída compulsiva de Papandreu e entrada do banqueiro Papademos, e da Itália em que Berlusconi, político que nem os escândalos tinham conseguido remover, teve de ceder à força dos banqueiros da Europa e foi substituído por Monti). A França (leia-se: a sua classe capitalista) tem sempre acompanhado a Alemanha.
A UE é essencialmente um conjunto de instituições serventuárias do capitalismo pan-europeu, como a Comissão Europeia, o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu, instituições sem controlo democrático, principalmente a primeira, e largamente controladas pela Alemanha com colaboração da França. O Parlamento Europeu é em grande medida uma figura de retórica, com um papel mais ou menos patético de empréstimo de um verniz «legal» e «democrático» ao que os representantes dos capitalismos hegemónicos decidem nos bastidores. A Grã-Bretanha tem interesses no mercado europeu para onde exporta, mas por outro lado os seus interesses financeiros estão intimamente ligados aos dos EUA (a City é um hub bancário ligado aos EUA e a remanescentes do império britânico); tem tido, por isso, um pé fora e outro dentro da UE, mantendo, em particular, o seu sector financeiro fora da zona euro. Resumindo: a UE não nasceu como nem é uma união democrática dos povos da Europa, ao serviço de vontades populares. É pura e simplesmente a expressão dos interesses capitalistas-imperialistas da Alemanha acolitada pela França, e, em menor medida, pela Grã-Bretanha. Aos interesses capitalistas dos «três grandes» ligam-se interesses capitalistas doutros países, com as mais diversas agendas. Relativamente aos países de economias mais fracas a obtenção de favores na luta contra os trabalhadores (em prol da «estabilidade») é sempre um ponto da agenda dos capitalistas. Dois exemplos: na Grécia, com uma das classes capitalistas mais corruptas e exploradoras da Europa, a única culpada da crise, são esses mesmos capitalistas que defendem com unhas e dentes a austeridade, desde os ricaços «socialistas» do PASOK ao banqueiro Papademos, figura grada do FMI; em Portugal, o primeiro-ministro «socialista» nos anos de 1983 a 1985, Mário Soares, quis consolidar em 1985 o rumo da contra-revolução ao serviço da recuperação capitalista, vendo no acordo de adesão à UE a âncora para tal ([23]). Noutra vertente, na óptica das economias hegemónicas, o alargamento da UE a pequenos países de fraca economia, alarga o mercado, melhora o acesso à utilização de mão-de-obra barata e aumenta as possibilidades de investimento dos «três grandes».
A ZE é uma união monetária constituída por países de economias muito heterogéneas. Existem no mundo outras uniões monetárias onde participam economias bem mais homogéneas.
Na ZE o PIB per capita tinha em 2010 uma variação de 7,5 vezes, entre o mais elevado, do Luxemburgo, face ao mais baixo, da Estónia. Comparando o PIB per capita de 2010 dos países designados pejorativamente por PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, países que estão no centro da crise) e a que chamaremos GPIIS, face ao PIB per capita da Alemanha, obtemos os seguintes valores (Eurostat): 0,53, 1,14, 0,84, 0,66, 0,75. Portugal está em último lugar.
Os dados do PIB per capita revelam também uma descida do PIB de todos os países de 2008 para 2009 (para alguns o PIB já descia antes de 2008). A descida percentual de 2008 para 2009 é um sintoma da vulnerabilidade face à crise da bolha imobiliária dos EUA, crise essa que determinou perdas massivas nos bancos europeus, além de quebras nas exportações para os EUA. Os valores para a Alemanha e os ditos GPIIS são mostrados ordenadamente na Tabela 1. O país da ZE com menor descida foi Malta (0,007%) e com maior descida foi a Estónia (15,6%). Portugal foi dos menos afectados.
O peso relativo dos sectores de produção de bens e de serviços varia consideravelmente na ZE. A Figura 14 mostra a evolução das componentes de bens e serviços do valor acrescentado bruto (VAB (*)) da Alemanha e da Eslováquia, em euros por habitante. Para além da supremacia do sector de serviços, que se verifica em todos os países, e da disparidade de valores absolutos entre os dois países, outro aspecto é de realçar: na comparação produção de bens versus produção de serviços a Alemanha é muito mais um país de produção de serviços do que a Eslováquia. Mas, se pensamos que a Alemanha tem um sector de serviços com muito peso no VAB, comparemos agora com a Figura 15. Claramente a França e a Grécia são muito mais produtores de serviços que a Alemanha. De facto, a Alemanha é um destacado produtor e exportador de bens entre todos os países da Europa.
Tabela 1. Valor da descida percentual do PIB per capita entre 2008 e 2009, por ordem crescente.
País
|
Descida do PIB per capita de 2008 para 2009
|
Grécia
|
1,0 %
|
Portugal
|
2,5 %
|
Alemanha
|
3,7 %
|
Itália
|
4,2 %
|
Espanha
|
4,6 %
|
Irlanda
|
11,4 %
|
Fig. 14. Evolução do VAB dos sectores de bens e serviços da Alemanha e da Eslováquia. Fonte: Eurostat.
Fig. 15. Evolução do VAB dos sectores de bens e serviços da França e da Grécia. Fonte: Eurostat.
Se somarmos as diferenças percentuais, face ao VAB total, das respectivas componentes de bens e serviços entre 2000 e 2011, e determinarmos o valor mediano dessas somas, encontramos que Grécia, Portugal e Itália têm claramente um perfil de fornecedores de serviços (com forte contributo do Turismo), enquanto a Espanha e Irlanda têm um perfil de produtores de bens.
A Figura 16 mostra a evolução da fracção percentual do VAB correspondente ao sector de serviços financeiros, da Alemanha e dos GPIIS. Para a Grécia e Portugal é claramente observável o aumento do peso do sector financeiro, nomeadamente até 2008, ano em que se declarou a crise imobiliária. O mesmo não se verifica na Alemanha, onde inclusive se observa entre 2000 e 2008 algum declínio do peso do sector financeiro (face ao VAB total). A Irlanda é um país que apostou forte na especulação financeira.
Fig. 16. Evolução da fracção percentual do VAB correspondente ao sector de serviços financeiros da Alemanha e dos GPIIS. Fonte: Eurostat.
A Tabela 2 mostra a balança comercial (BC, exportações menos importações) em percentagem do PIB, referente a bens e serviços da Alemanha e GPIIS em 2004 (antes da crise), 2010 (início da crise das dívidas soberanas), 2012 (em plena crise). Notar os excedentes da Alemanha e da Irlanda e os deficits ou baixos excedentes dos GPIIS. Notar ainda as melhorias na evolução média anual da BC ao longo dos anos (logo, aumento das exportações face às importações) dos GPIIS e o declínio da BC da Alemanha de 2010 para 2012. A comparação detalhada da evolução das exportações e importações nos períodos antes (valores de 2010 menos valores de 2004) e após (valores de 2012 menos valores de 2010) mostra que, entre os dois períodos, se verificou um aumento anual médio das exportações de todos os países excepto da Alemanha e uma diminuição das importações da Irlanda (0,88%/ano) e Portugal (0,05%/ano).
A balança de pagamentos (BP = BC mais transacções de capitais) reflecte de algum modo a BC. Em 2011 a BP era positiva para a Alemanha e Irlanda; respectivamente, 5,7 % e 0,7 % do PIB. Entre os GPIIS Portugal e Grécia tinham os maiores deficits; respectivamente, -6,4 % e -9,8 %.
Tabela 2. Balança comercial de bens e serviços em %PIB. Fonte: Eurostat.
País
|
2004
|
2010
|
2012*
|
Diferença média de
2010 - 2004
|
Diferença média de
2012 - 2010
|
Alemanha
|
5,0%
|
5,6%
|
4,5%
|
0.1
|
-0.6
|
Irlanda
|
14,8%
|
19,1%
|
23,6%
|
0.7
|
2.3
|
Espanha
|
-4,0%
|
-2,2%
|
1,4%
|
0.3
|
1.8
|
Itália
|
0,7%
|
-1,9%
|
-0,4%
|
-0.4
|
0.8
|
Portugal
|
-8,3%
|
-7,2%
|
-0,5%
|
0.2
|
3.4
|
Grécia
|
-10,1%
|
-8,9%
|
-5,4%
|
0.2
|
1.8
|
* Estimativa
Nos anos que antecederam a crise assistiu-se a uma convergências das taxas de juro a longo prazo para os valores praticados pela Alemanha (Figura 17) o que levou à formação de bolhas de crédito (principalmente de crédito imobiliário) nos GPIIS, países com mais fraco sector produtivo. As bolhas foram mais proeminentes na Irlanda, Espanha e Grécia ([24]).